Como usar a tecnologia com alunos ‘nativos digitais’ em sala de aula?

Escolas visam a ensinar crianças a fazerem uso mais consciente e aprofundado dos meios digitais, tornando-os protagonistas em vez de meros espectadores

Por Isabela Moya – Estadão – 28/04/2024 

Crianças em tablets, computadores, jogos e celulares – os pequenos no mundo digital já são uma realidade, e isso não é um movimento a ser combatido, mas ensinado, segundo especialistas em educação. A chave da questão parece ser mostrá-los como lidar com o uso de tecnologias e da internet de forma que eles aprendam a se “autorregular”, ao mesmo tempo em que são estabelecidas ferramentas de segurança e privacidade para protegê-los.

“O debate sobre tecnologia educacional deve sair do ‘se’ e evoluir para o ‘como’. Não podemos mais discutir se a tecnologia deve estar na escola, mas como isso deve acontecer”, diz a organização não-governamental (ONG) Todos Pela Educação, em documento sobre letramento digital.

Impedir crianças e adolescentes de usar as tecnologias digitais pode fazer com que eles não saibam como usá-la de forma saudável quando enfim tiverem acesso, além de deixar de prepará-los para o mercado de trabalho e para a vida social, cada vez mais conectados com o mundo digital.

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É preciso encontrar o equilíbrio – nem uso excessivo, e nem restrição – , segundo Paulo Blikstein, professor e diretor do Laboratório de Tecnologias de Aprendizagem Transformadora da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos. “Isolar a criança dos dispositivos digitais não tem sentido hoje em dia, porque quando acabar o isolamento, ela vai estar em um mundo que é dominado por essas tecnologias, vai enfrentar o mundo sem saber como lidar com isso”, ele afirma.

“Por outro lado, achar que tecnologia é totalmente maravilhosa e deixar elas livres também não é bom nem para as crianças, nem para os adultos”, pondera.

“As crianças observam a família usando laptop, celular, tablets. E elas utilizam esses aparelhos”, constata Ana Paula Gaspar, professora especialista em tecnologia e inovação educacional e assessora de Tecnologia e Educação do Instituto Vera Cruz.

“É preciso apresentar a tecnologia como um fenômeno social. Assim como fazemos esforço em criar esforço em criar ambientes de leitura, músicas, museus, também defendemos que as questões digitais sejam apresentadas às crianças”.

A ideia de que a Geração Alpha é a de “nativos digitais” esconde o fato de que nascer em um meio não significa fazer bom uso dele, segundo a especialista. “Erroneamente, reproduzimos uma noção dos nativos digitais, em referência às crianças, como se elas tivessem nascido prontas. São nativas digitais, mas não alfabetizadas digitalmente. Não é porque estão imersas nessa cultura que estão prontas para lidar com ela”, ressalta.

Pensando nisso, escolas já têm inserido em seus currículos projetos para letramento digital. A Base Nacional Curricular Comum, que regula os currículos do ensino básico no Brasil, desde o ensino infantil até o ensino médio, prevê uma competência geral de “cultura digital”, que diz que o estudante deve ser educado para usos mais democráticos das tecnologias e para uma participação mais consciente na cultura.

“As escolas têm liberdade para decidir como fazer, se é numa disciplina isolada ou em projetos que atravessam os conteúdos. Mas [ter o letramento digital] é um direito, tem que ter, não é opcional”, afirma Gaspar.

No Colégio Magno/Magico de Oz, crianças do Ensino Infantil criaram um jogo para aprender as vogais em Braille

No Colégio Magno/Magico de Oz, crianças do Ensino Infantil criaram um jogo para aprender as vogais em Braille Foto: Colégio Magno/Divulgação

O Colégio Magno/Mágico de Oz, na zona sul de São Paulo, trabalha, na Educação Infantil, os conteúdos curriculares contextualizados nos temas dos projetos, que aplicam o letramento digital conforme surgem as necessidades dos estudantes.

Uma aula sobre alfabetização e direitos das crianças suscitou curiosidade em um aluno de 5 anos, da Educação Infantil, que perguntou como lêem e escrevem as crianças que não enxergam. Foi então que a professora decidiu realizar uma atividade com a sala para ensiná-los sobre o Braille, sistema de escrita e leitura tátil para as pessoas cegas ou com baixa visão feito por meio de pontos em relevo. “Eles aprenderam as vogais em Braille e criaram um jogo para ajudar crianças com problemas de visão a aprender a ler e escrever”, conta a professora de Tecnologia, Pensamento Computacional e Robótica da escola, Silvana Scavone.

Os alunos criaram o Jogo das Vogais em Braille, como foi chamado, a partir de um tabuleiro onde as crianças tocavam nas letras em Braille e ouviam o som da letra correspondente e uma palavra que começasse com a letra. Depois, programaram o jogo no Scratch, uma linguagem de programação de rápida aprendizagem. Então, gravaram os sons das letras e palavras e usaram um circuito eletrônico que, ligado ao computador, é capaz de transformar qualquer objeto em um botão touchpad.

“Nossa intenção com o letramento digital e pensamento computacional nem de longe é formar programadores. No caso dessa atividade das Vogais em Braille, o fato de alunos tão pequenos terem entendido de alguma forma que a tecnologia existe para facilitar e melhorar a vida das pessoas nos fez acreditar que estamos no caminho certo. Mais do que o produto final, tudo que acontece no processo é o que faz valer todo o aprendizado”, explica Scavone.

Crianças de 5 anos criaram o Jogo das Vogais em Braille, que foi selecionado para ser apresentado em uma conferência na Universidade de Columbia, em Nova York.

Crianças de 5 anos criaram o Jogo das Vogais em Braille, que foi selecionado para ser apresentado em uma conferência na Universidade de Columbia, em Nova York. Foto: Colégio Magno/Divulgação

Os conceitos de pensamento computacional são introduzidos de uma maneira divertida, explica a professora. Algumas vezes, até mesmo sem o uso do computador, através das atividades “desplugadas”.

Já o Colégio Rio Branco, na região central da capital paulista, investiu na conscientização dos estudantes do 5° ano do Ensino Fundamental em relação à fake news, ensinando-os a identificar notícias falsas. Os alunos usaram uma planilha com critérios de verificação das informações para classificar as notícias e, assim, criaram um gráfico indicando os critérios que mais trazem possibilidade de uma informação ser mentira. Por fim, as crianças fizeram cartazes digitais com dicas de combate a fake news.

O aluno de 10 anos, Fernando Kusabara, conta que, depois da aula, aprendeu a fazer o exercício sozinho, mesmo sem a planilha. “A gente aprendeu a fazer na nossa mente”, ele diz.

Sua colega, Lorena Basso, de 10 anos, relata que chegou a usar os conhecimentos aprendidos fora da escola, com a sua família. “Uma vez eu recebi uma notícia da minha avó e vi que não tinha estudos de apoio, link, autor ou data. Percebi que era uma notícia falsa e falei para ela. Ela ficou surpresa e disse que ia passar a conferir”, lembra a estudante.

O professor de Tecnologia Educacional da escola, Jorge Farias, que aplicou a atividade para os alunos, ressalta a importância para o desenvolvimento das habilidades de cognição e raciocínio lógico das crianças, além da formação social. “Treinamos não só o ferramental, que enriquece muito o portfólio deles, eles têm ferramentas para trabalhos, mas também a cidadania digital, aprendendo a entender o mundo virtual e o papel deles nesse mundo”, diz.

Além das fake news, a turma trabalhou o combate ao cyberbullying, a proteção de identidade virtual e o comportamento em jogos online.

Na visão do professor, o letramento digital aparelha os alunos com posturas que os protegem no meio digital. “Ensino a eles a criarem contas vinculadas a de seus pais, não falarem com estranhem, controlarem o tempo de tela, nunca usarem fotos do rosto”, exemplifica.

Tecnologia não é sinônimo de rede social

A tecnologia serve para ampliar o repertório de crianças e adolescentes, em uma época em que estão criando sua subjetividade a partir da relação com o outro, explica Gaspar. Mas isso não significa que as crianças devam frequentar redes sociais. Segundo a especialista, há um consenso global em diferentes disciplinas de que crianças não devem usar as redes, mas outros formatos digitais.

“Isso não impede de trazer para a discussão quais os pressupostos de uma rede social: diálogo, respeito, empatia, debate saudável. É possível trabalhar essas questões que preparam crianças para entrada na rede social na idade recomendada”, diz.

E com os adolescentes, é preciso continuar esse trabalho para que sejam capazes de se autorregular. “Os adolescentes são os primeiros que veem as agressões em redes sociais. Não há controle parental ou tecnologia que dê conta de descobrir essas questões [antes deles]”, afirma a em tecnologia educacional.

Não há, porém, um consenso que quantifique a quantidade de horas para um uso saudável seja das redes sociais ou de telas num geral. Os fatores decisivos são o tipo de conteúdo, o contexto em que está inserido e o objetivo de uso.

“Se está há duas horas em um jogo educativo ou programando, tudo bem, mas no TikTok, eu diria que já é demais”, afirma Blikstein.

Desafios no letramento digital

Desigualdade social e falta de infraestrutura, controle do uso excessivo de telas e formação de senso crítico. Essas são algumas das dificuldades enfrentadas pelos professores na hora de ensinarem seus alunos a se portarem no meio digital e a usarem as tecnologias a seu favor, de forma que se tornem criadores ativos.

Blikstein explica que existe um novo conceito de letramento digital, em que aprender a ser um “bom usuário” das ferramentas digitais já não é suficiente, é preciso entender o funcionamento por trás das tecnologias e ser um “produtor”.

“Mas em um País tão desigual quanto o Brasil, o problema é que para fazer isso precisa de equipamentos, professores capacitados, e o que vemos nas escolas é que, quando há o letramento digital, é só o básico, só ensinam a ser um usuário. Nas escolas de elite, aí sim ensinam a como serem produtores, tem espaço maker, aula de programação. Tem um grande investimento nisso, os pais cobram porque sabem que é importante”, diz o especialista.

“Isso é preocupante porque estamos indo numa direção em que há uma pequena elite de crianças letradas digitalmente e a maioria que vive no mundo digital como meros usuários”, completa.

Mas a infraestrutura não é um impeditivo, afirmam Gaspar e Blikstein. Isso porque alguns conceitos que se aplicam ao mundo digital – como resolução de conflito, leitura crítica de mundo, respeito à diversidade e combate ao discurso de ódio, por exemplo – podem ser ensinados mesmo sem equipamentos. Para a prática, já existem ferramentas tecnológicas de baixo custo que podem ser adquiridas pelas escolas. E mesmo que não tenham acesso aos dispositivos em aula, crianças e adolescentes usam a internet e as ferramentas digitais fora dela.

Na sala de aula, chegar a um equilíbrio na exposição das crianças ao mundo virtual é uma dificuldade enfrentada por Farias. “Às vezes é muito difícil trazer os alunos de volta quando estão jogando. É preciso colocar limite e ensinar que há hora para jogar, hora para aprender e hora para fazer os dois juntos, aprender jogando”, relata o professor, que procura promover uma reflexão sobre os impactos nocivos que as tecnologias podem causar nas turmas em que leciona.

“Tentamos ensiná-los a ter autocontrole: ‘Quanto tempo estou usando [o dispositivo]? por que estou usando? Eu fiquei com a minha família? Fiz a lição de casa? Está me tornando uma pessoa melhor? Estou prejudicando alguém virtualmente’”, ensina o professor

Já para a coordenadora do Colégio Magno, Cláudia Tricate, “pensar em atividades inusitadas” para acompanhar a rapidez da geração atual tem sido um desafio. E para contornar isso, “a grande sacada”, ela diz, está nos adultos ouvirem as crianças.

“Temos que estar sempre acompanhando eles, as possibilidades das crianças são maiores que as nossas. Perceber o que elas se interessam, o que querem saber. Quando fazemos isso, surgem projetos muito legais”, diz.

A formação dos docentes também precisa ser uma prioridade, segundo os especialistas, pois são eles que induzem e mediam as atividades em sala de aula. Blikstein não nega a necessidade de formar os professores para um uso da tecnologia, mas afirma que, na realidade brasileira atual, essa abordagem tem se mostrado insuficiente.

“Com o tempo que os professores têm [para formação continuada] é impossível formá-los em tecnologia. Muitas mudam rápido, em dois anos já viram obsoletas. O modelo de inserir na formação do professor não tem funcionado, precisa mudar a abordagem”, argumenta.

Para isso, ele defende que a “solução viável” para o Brasil atualmente é a inserção de um professor para aulas de tecnologia, mas também responsável por ajudar os outros professores a implementarem tecnologias em suas disciplinas tradicionais.

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https://www.estadao.com.br/educacao/como-usar-a-tecnologia-com-alunos-nativos-digitais-em-sala-de-aula

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Arábia Saudita investe para ir além do petróleo e se tornar potência da IA

País aposta em grandes eventos, supercomputadores e pesquisa, colocando-se no meio da disputa entre EUA e China

Adam Satariano Paul Mozur – Folha/ The New York Times – 26.abr.2024 

Em uma manhã de segunda-feira no mês passado, executivos de tecnologia, engenheiros e representantes de vendas da Amazon, Google, TikTok e outras empresas enfrentaram um engarrafamento de três horas enquanto seus carros se arrastavam em direção a uma conferência gigantesca em um espaço de eventos no deserto, a 80 quilômetros de Riad, na Arábia Saudita. O atrativo: bilhões de dólares sauditas, com os quais o país busca construir uma indústria de tecnologia para complementar sua dominação no petróleo. “Para o Futuro”, dizia uma placa na chegada do evento, chamado Leap. 

Mais de 200 mil pessoas se reuniram na conferência, incluindo Adam Selipsky, CEO da divisão de computação em nuvem da Amazon, que anunciou um investimento de US$ 5,3 bilhões na Arábia Saudita para data centers e IA. Arvind Krishna, CEO da IBM, falou sobre o que um ministro do governo chamou de “amizade vitalícia” com o reino. Executivos da Huawei e dezenas de outras empresas fizeram discursos. Mais de US$ 10 bilhões em acordos foram fechados lá, de acordo com a agência de imprensa estatal da Arábia Saudita. “Este é um grande país”, disse Shou Chew, CEO do TikTok, durante a conferência, elogiando o crescimento do aplicativo no reino. “Esperamos investir ainda mais.” 

Todos no setor de tecnologia parecem querer fazer amizade com a Arábia Saudita, já que o reino mirou em se tornar um agente dominante em IA —e está investindo somas impressionantes para isso. 

A Arábia Saudita criou um fundo de US$ 100 bilhões este ano para investir em IA e outras tecnologias. Está em negociações com a Andreessen Horowitz, empresa de capital de risco do Vale do Silício, e outros investidores para injetar mais US$ 40 bilhões em empresas de IA. Em março, o governo disse que investiria US$ 1 bilhão em um acelerador de startups inspirado no Vale do Silício para atrair empreendedores de IA para o reino. As iniciativas facilmente superam a maioria dos investimentos de países grandes. A ofensiva de gastos decorre de um esforço geracional delineado em 2016 pelo príncipe herdeiro Mohammed bin Salman e conhecido como “Visão 2030”. A Arábia Saudita está correndo para diversificar sua economia rica em petróleo em áreas como tecnologia, turismo, cultura e esportes —investindo cerca de US$ 200 milhões por ano para o astro do futebol Cristiano Ronaldo e planejando um arranha-céu espelhado de 160 quilômetros no deserto. 

Para a indústria de tecnologia, a Arábia Saudita há muito tempo tem sido uma fonte de financiamento. Mas o reino agora está redirecionando sua riqueza petrolífera para construir uma indústria de tecnologia doméstica, exigindo que empresas internacionais estabeleçam raízes lá se quiserem seu dinheiro. Se o príncipe herdeiro Mohammed tiver sucesso, ele colocará a Arábia Saudita no meio de uma competição global crescente entre China, Estados Unidos e outros países, como França, que fizeram avanços em IA generativa. 

Combinados com os esforços de IA de seu vizinho, os Emirados Árabes Unidos, o plano da Arábia Saudita tem o potencial de criar um novo centro de poder na indústria global de tecnologia. 

 Em Washington, muitos se preocupam que os objetivos do reino e suas inclinações autoritárias possam ir contra os interesses dos EUA —por exemplo, se a Arábia Saudita acabar fornecendo poder computacional a pesquisadores e empresas chinesas. Neste mês, a Casa Branca intermediou um acordo para a Microsoft investir na G42, uma empresa de IA dos Emirados Árabes Unidos, que tinha como objetivo diminuir a influência da China. 

Para a China, a região do Golfo Pérsico oferece um grande mercado, acesso a investidores endinheirados e a chance de exercer influência em países tradicionalmente aliados aos Estados Unidos. Alguns líderes do setor já começaram a chegar. Jürgen Schmidhuber, um pioneiro em IA que agora lidera um programa de IA na principal universidade de pesquisa da Arábia Saudita, a King Abdullah University of Science and Technology, lembrou as raízes do reino séculos atrás como um centro de ciência e matemática. “Seria ótimo contribuir para um novo mundo e ressuscitar essa era de ouro”, disse ele. “Sim, custará dinheiro, mas há muito dinheiro neste país.” 

A universidade, conhecida como Kaust, tornou-se um local do confronto tecnológico EUA-China. Inspirada em universidades como Cal-Tech, a Kaust atraiu líderes estrangeiros em IA e forneceu recursos computacionais para construir um epicentro de pesquisa em IA. 

Para alcançar esse objetivo, a Kaust muitas vezes recorreu à China para recrutar estudantes e professores e estabelecer parcerias de pesquisa, alarmando autoridades dos EUA. De particular preocupação é a construção pela universidade de um dos supercomputadores mais rápidos da região, que necessita de milhares de microchips fabricados pela Nvidia, líder do setor. 

O pedido de chips da universidade, com um valor estimado de mais de US$ 100 milhões, está sendo retido para análise pelo governo dos EUA, que deve fornecer uma licença de exportação para a venda ser concluída. Schmidhuber está aguardando a conclusão do supercomputador, Shaheen 3, que é uma oportunidade para atrair mais talentos de ponta para o Golfo Pérsico e dar aos pesquisadores acesso a poder de computação frequentemente reservado para grandes empresas. “Nenhuma outra universidade terá algo semelhante”, disse ele. 

Alguns em Washington temem que o supercomputador possa fornecer aos pesquisadores de universidades chinesas acesso a recursos de computação de ponta que eles não teriam na China. Schmidhuber disse que o governo saudita está em última instância alinhado com os Estados Unidos. Assim como a tecnologia dos EUA ajudou a criar a indústria de petróleo da Arábia Saudita, ela desempenhará um papel crítico no desenvolvimento de IA. “Ninguém quer colocar isso em risco”, disse ele. 

A Arábia Saudita já foi vista como uma fonte de dinheiro sem muitas contrapartidas. Agora, ela adicionou condições aos seus acordos, exigindo que muitas empresas estabeleçam raízes no reino para participar do ganho financeiro. Isso foi evidente na Gaia, um acelerador de startups de IA, para o qual autoridades sauditas anunciaram US$ 1 bilhão em financiamento no mês passado. 

Cada startup no programa recebe uma bolsa no valor de cerca de US$ 40 mil em troca de passar pelo menos três meses em Riad, juntamente com um investimento potencial de US$ 100 mil. Os empreendedores são obrigados a registrar sua empresa no reino e gastar 50% do seu investimento na Arábia Saudita. Eles também recebem acesso a poder de computação da Amazon e do Google gratuitamente. Aproximadamente 50 startups —incluindo de Taiwan, Coreia do Sul, Suécia, Polônia e Estados Unidos— passaram pelo programa da Gaia desde o seu início, no ano passado. “Queremos atrair talentos e queremos que eles permaneçam”, disse Mohammed Almazyad, gerente de programa da Gaia. 

“Costumávamos depender muito do petróleo, e agora queremos diversificar.” Um dos maiores atrativos para as startups de IA é a chance de tornar o governo saudita, com fundos robustos, um cliente. Em uma reunião recente, Abdullah Alswaha, um ministro sênior de comunicações e tecnologia da informação, pediu às startups da Gaia que sugerissem o que poderiam fornecer para o governo saudita. Depois, muitas das empresas receberam mensagens apresentando-as a empresas estatais, disse Almazyad. 

Decidir estabelecer-se em Riad traz desafios. Há o calor, que ultrapassa os 40 graus no verão, bem como os ajustes de mudar para um país muçulmano profundamente religioso. Embora a Arábia Saudita tenha flexibilizado algumas restrições nos últimos anos, a liberdade de expressão permanece limitada e pessoas LGBTQ+ podem enfrentar acusações criminais. Almazyad disse que as diferenças culturais podem dificultar a contratação de talentos internacionais de IA. Mas ele alertou contra subestimar a determinação da Arábia Saudita. “Isso é apenas o começo”, disse. 

https://www1.folha.uol.com.br/tec/2024/04/arabia-saudita-investe-para-ir-alem-do-petroleo-e-se-tornar-potencia-da-ia.shtml

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O CEO da Nvidia está errado: IA vai aumentar a demanda por programadores

Jensen Huang disse que aprender programação não será uma habilidade necessária para as próximas gerações

Por Alexandre Chiavegatto Filho – Estadão – 24/04/2024 

Há cerca de dois meses, o CEO da Nvidia Jensen Huang afirmou em uma palestra que aprender a programar não será mais uma habilidade necessária para as novas gerações, já que essa função poderá ser automatizada por algoritmos de inteligência artificial (IA). A declaração deixou o mundo da tecnologia em polvorosa, principalmente em relação às perspectivas futuras da empregabilidade dos programadores.

Uma previsão semelhante foi feita em 2016 por Geoffrey Hinton, um dos pais da IA moderna, sobre o futuro dos médicos radiologistas. Nas suas declarações em diversos eventos da época, Hinton frequentemente mencionava que os avanços em IA tornariam os radiologistas obsoletos, já que os algoritmos conseguiriam analisar imagens médicas com maior precisão e velocidade.

A área, entretanto, tem seguido um caminho muito diferente das previsões de Hinton. A radiologia, que foi a primeira especialidade médica a começar a ser transformada por algoritmos de IA, tem visto a sua demanda e os seus salários aumentarem todos os anos nos EUA. Segundo uma pesquisa recente do site Medscape, a radiologia já está na sexta posição entre as especialidades médicas mais bem remuneradas nos EUA, atingindo em 2023 um salário equivalente a R$ 200 mil ao mês.

Uma realidade econômica histórica é que os profissionais que se tornam mais eficientes e mais produtivos têm a sua demanda aumentada no mercado de trabalho. Segundo o conceito econômico de teoria da firma, empresas contratam um novo funcionário quando o rendimento gerado pelo produto marginal desse trabalhador for pelo menos igual ao seu custo marginal. Em outras palavras, se o valor adicional que um trabalhador traz à empresa excede ou é igual ao seu custo, então faz sentido econômico para a empresa realizar a contratação.

Ao aumentar o produto marginal gerado pelos trabalhadores, os algoritmos de IA tornarão muitos desses funcionários viáveis para serem contratados pelas empresas, principalmente por startups e empresas de médio porte, mesmo se forem mantidos os altos salários da área.

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Além disso, a cada avanço no reconhecimento da importância de IA por parte das empresas, novas especializações têm sido criadas na área de programação e estatística, como engenheiros de dados, cientistas de dados e especialistas em machine learning operations (MLOps). Aos poucos, vai começar a ficar evidente que o papel do programador está em evolução, e não diminuindo.

Ao mesmo tempo, IA irá também induzir novas demandas em algumas profissões. Por exemplo, à medida que a radiologia tem se tornado mais eficiente graças ao uso da IA, outras especialidades médicas têm solicitado mais exames de imagem. Isso não apenas tem melhorado o diagnóstico e o tratamento dos pacientes, mas também aumentado o número total de exames realizados, o que tem impulsionado a demanda por radiologistas.

A realidade é que o crescimento do uso da IA irá transformar todas as profissões. Porém não se trata de uma ferramenta criada apenas para resolver problemas técnicos, mas sim de uma tecnologia profundamente liberadora e, acima de tudo, humana.

Foto do autor

Opinião por Alexandre Chiavegatto Filho

Professor Livre Docente de inteligência artificial na Faculdade de Saúde Pública da USP

https://www.estadao.com.br/link/alexandre-chiavegatto-filho/o-ceo-da-nvidia-esta-errado-ia-vai-aumentar-a-demanda-por-programadores

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Inteligência artificial e até raios cósmicos viram apostas de startups na mineração ‘verde’

Grandes empresas buscam ajuda de companhias de tecnologia para resolver desafios da área

Por Guilherme Guerra – Estadão – 25/04/2024 

Na busca por uma mineração mais “verde”, as startups e as gigantes multinacionais formam um par perfeito. As primeiras são ágeis para colocar projetos no ar e olham para metodologias e técnicas com foco na sustentabilidade e na redução de custos. Já as empresas pesos-pesados do setor têm a capacidade financeira de bancar novas maneiras de exploração e mantê-las em vigência por décadas, com visão de longo prazo e escala. No Brasil, é assim que o setor trabalha para renovar a maneira como a exploração do subsolo acontece, mirando a redução da pegada de carbono em toda a cadeia produtiva.

O cupido desse par perfeito é o Mining Hub, com fundação em janeiro de 2019 em Belo Horizonte (MG) e considerado o maior hub de inovação focado em mineração no Brasil. O objetivo da organização é unir pequenas startups a grandes empresas por meio de editais de inovação aberta, formato bastante conhecido em outros campos do mercado de startups, como finanças (fintechs) e saúde (healthtechs). Com a intermediação do Mining Hub, uma multinacional pode colocar a público um desafio a ser resolvido, e as startups saem à procura de soluções que possam resolver o problema com tecnologia. Quem tiver a melhor proposta firma a parceria e fecha negócio.

Mining Hub, comandado por Leandro Rossi, promove conexão entre startups e grandes empresas para resolver desafios da mineração Mining Hub, comandado por Leandro Rossi, promove conexão entre startups e grandes empresas para resolver desafios da mineração • Washington Alves/Estadão

“Esse é um setor onde grandes empresas costumam fazer negócio com outras grandes empresas. Nós, então, começamos a trabalhar a inovação aberta de uma maneira que as startups desenvolvem possíveis soluções para as grandes mineradoras”, explica Leandro Rossi, diretor executivo do Mining Hub desde janeiro de 2022.

Os ciclos de aceleração incluem desafios em algumas áreas-chave da mineração, como circularidade na cadeia (com reaproveitamento de resíduos), descarbonização e utilização de fontes alternativas de energia, por exemplo. Ao todo, foram 15 ciclos de desafios, com mais de mil startups de 14 países e 22 mineradoras participando do programa, como Anglo American, Samarco e Vale.

“A mineração não é um jogo para pequenas empresas. Então, as startups buscam parcerias com as grandes companhias”

Leandro Rossi,

diretor executivo do Mining Hub

“A mineração não é um jogo para pequenas empresas. Então, as startups buscam parcerias com as grandes companhias”, aponta Rossi. “Elas têm a oportunidade de trabalhar na melhoria de produtos e processos na indústria da mineração.”

A startup Beyond Mining é uma das empresas que passaram pelo Mining Hub. Nascida em 2019 em Belo Horizonte, a empresa fundada por Bianca Nakandakari e Paulo Lopes passou por quatro ciclos de desafios de inovação aberta, tornando-se a companhia mais frequente nos desafios do hub. Além disso, vem crescendo a um ritmo impressionante, de mais de 300% ao ano. O segredo vem da sua aposta tecnológica, que hoje é a queridinha do mercado: a inteligência artificial (IA).

Paulo Lopes é chefe de operações da startup Beyond Mining, que usa inteligência artificial na mineração Paulo Lopes é chefe de operações da startup Beyond Mining, que usa inteligência artificial na mineração • Washington Alves/Estadão

A Beyond Mining usa aprendizado de máquina (machine learning) para otimizar processos e tarefas cotidianas das mineradoras. Não se trata de uma IA generativa, que cria texto, imagens ou vídeos, como o ChatGPT, da OpenAI. Trata-se de uma ferramenta para entender rotinas e que, por meio de bilhões de cálculos, pode prever cenários que um humano levaria horas ou dias para antever.

Na prática, a tecnologia da Beyond Mining consegue realizar muitas tarefas para diferentes setores. Por exemplo, a solução pode reduzir de 5% a 10% o uso de água em uma indústria ou diminuir em 10% a emissão de gases de efeito estufa, diz a empresa. De maneira mais extrema, a IA pode antecipar acidentes e mitigar riscos da operação de uma mineradora em uma barragem.

Paulo Lopes, chefe de operações e cofundador da Beyond Mining, defende a disseminação da IA na cadeia de mineração. Mas a tecnologia, alçada a toda-poderosa no mundo corporativo após a popularização do ChatGPT, nem sempre pode resolver tudo. Às vezes, segundo ele, instalar sensores ou enviar drones podem ser saídas mais eficientes em algum cenário. Em outros, leitura de dados e aprendizado de máquina se saem melhor. “A IA é só uma ferramenta e não é uma bala de prata para tudo. Mas, onde ela puder ser aplicada, ela vai ser a melhor solução”, diz o executivo.

“A IA é só uma ferramenta e não é uma bala de prata para tudo”

Paulo Lopes,

chefe de operações da Beyond Mining

Para dar certo, todo modelo de IA precisa de bilhões de dados para ser treinado. No caso da Beyond Mining, a startup mineira utilizou pacotes de dados de pesquisadores mundo afora, bem como de outras empresas, para desenvolver um algoritmo próprio que consiga ser uma solução faz-tudo para diversas áreas do setor. A depender do projeto escolhido, alguns ajustes são feitos no algoritmo (o tal do “fine-tuning”, no jargão do setor da ciência de dados), diz Lopes.

Em meio ao boom da IA, a Beyond Mining vê uma oportunidade de crescer não só no Brasil, onde há pequenas, médias e grandes empresas que podem receber a solução, mas também no mundo. A startup prospecta clientes na África do Sul e Austrália, bem como estuda abrir uma filial em Londres, na Inglaterra, onde já possui alguns funcionários freelancers da área de ciência de dados (essencial para o desenvolvimento de IA). “De lá, queremos ter um posto internacional para conseguir comercializar de forma global a nossa solução”, prevê o executivo.


Solução que vem do espaço

Para a startup de Campinas (SP) Konker, fundada em 2021, o Mining Hub representou uma virada na história da companhia, segundo o presidente executivo da empresa, o alemão Richard Freund. A companhia entrou no programa de desafios do hub de inovação fundado por Leandro Rossi, onde foi aprovada no desafio, conseguiu fechar negócio com a Anglo American e, depois, firmou uma parceria com a Tetra Tech.

A Konker trabalha com uma tecnologia pouco explorada no Brasil e um tanto quanto “futurista”: raios cósmicos. A startup usa a radiação vinda do espaço em direção à Terra para calcular a massa, volume, densidade e até a qualidade do minério de ferro sob um terreno, com menor impacto ambiental do que as tecnologias de prospecção atuais e com mais precisão.

Richard Konker comanda a startup Konker, que usa raios cósmicos para mapear pilhas de minérios Richard Konker comanda a startup Konker, que usa raios cósmicos para mapear pilhas de minérios • Ricardo Lima/Estadão

O feito acontece por meio da muografia. A chegada dos raios cósmicos à Terra produz os múons, partícula subatômica semelhante a um elétron e de fonte inesgotável no planeta. Esses múons acabam colidindo com toda e qualquer matéria física, de humanos, animais e plantas a construções, vulcões e subsolos. Com telescópios próprios, é possível ver quantos múons atravessaram algo sólido ou vazio, calcular a densidade dos objetos, mapeá-los tridimensionalmente e transmitir as informações em tempo real. O processo é semelhante a uma tomografia com raio-x computadorizado, mas é inofensivo para humanos e a natureza e consegue ser mais preciso no cálculo de grandes volumes de matéria, como pilhas de minérios de ferro.

O caso mais conhecido de muografia aconteceu nas Pirâmides de Gizé, no Egito, em 2016. Cientistas têm usado essa tecnologia para descobrir túneis, câmaras e túmulos subterrâneos no edifício erguido pelos egípcios há mais de 4,5 mil anos. Os cientistas instalaram detectores de múons em diversos pontos da construção e, ao final do processo, conseguiram mapear locais até então inéditos, com localização e tamanho exatos.

A Konker faz a mesma coisa, mas com telescópios próprios criados no Brasil para a mineração. O resultado é que a análise da startup consegue ser precisa para uma mineradora, discernindo o que é minério de ferro ou rejeitos, por exemplo.

Segundo o Freund, a vantagem dessa técnica é a precisão de 97%. Outro ponto está no fato de que a metereologia não altera a exatidão dos cálculos feitos pelos telescópios, o que significa que a tecnologia funciona todos os dias da semana e em todos horários. “Nós podemos escalar a nossa solução de maneira fácil para toda a indústria, porque oferecemos segurança e eficiência operacional”, aponta o CEO.

Telescópios utilizados para detectar múons foram desenvolvidos pela Konker no Brasil Telescópios utilizados para detectar múons foram desenvolvidos pela Konker no Brasil • Ricardo Lima/Estadão

Atualmente, a Konker testa se sua medição de múons consegue ir além de minérios de ferro, como a área de óleo e gás. Em provas recentes, a startup não conseguiu obter precisão ao medir pilhas de açúcar, mas a ideia é continuar procurando outras áreas em que a muografia pode ser útil. Atualmente, a startup conta com dez funcionários, que são físicos, eletricistas e analistas de dados envolvidos com pesquisa na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

“Estamos no início da empresa e queremos escalar para outras áreas que têm desafios parecidos”, afirma Konker, que mora no Brasil há 20 anos e fez carreira na área de tecnologia no País.


Certimine quer melhorar reputação do Brasil

A startup paulistana Certimine tem uma grande missão: melhorar a reputação do Brasil no mercado de minérios. Fundada em 2018, a empresa faz a certificação anual de ouro, ferro, cobre e lítio para atestar a origem desses minerais para joalherias e mineradoras interessadas em saber a procedência das commodities que compram. Se o item está propriamente certificado, sem origem ilegal, a Certimine coloca um selo “verde” no produto.

“Os compradores internacionais não têm confiança em comprar minérios do Brasil”, aponta Eduardo Gama, presidente executivo da Certimine. Nos últimos anos, episódios colocaram o País no meio de uma crise internacional, com a Suíça barrando a importação de ouro ilegal brasileiro ou a crise dos Yanomâmi, cujas terras são invadidas por garimpeiros ilegais. “Aqui, não existem mecanismos de checagem no País nem algum tipo de controle. Foi daí que criamos a startup.”

“Existem mais clientes dispostos a pagar por rastreabilidade”

Eduardo Gama,

CEO da startup Certimine

Para fazer a rastreabilidade, a Certimine coloca na mina e no garimpo um funcionário equipado com capacete com câmera e um tablet para fazer registros do local. O processo presencial permite detectar se há trabalho análogo à escravidão ou infantil, segurança, impacto ambiental e outros parâmetros. As informações coletadas são transformadas em relatório e exibidas em uma plataforma blockchain, cuja tecnologia permite atestar transações e registrar patentes de forma segura, sem permitir que haja alterações na base de dados — é como um “cartório da internet”.

Para Gama, o impulso no negócio da startup veio em 2022, quando o tema da rastreabilidade e origem das commodities ganhou força no mundo, principalmente na União Europeia. “O mercado mudou muito, de forma drástica”, afirma. “Existem mais clientes dispostos a pagar por rastreabilidade, porque a mentalidade já melhorou muito, e vai melhorar bastante.”

No próximo mês, a Certimine deve lançar mais selos que indiquem a procedência de uma commodity. Gama adianta que selos como “carbon free” (com compensação de carbono na cadeia), “Amazon free” (não foi produzido na Amazônia) ou “mercury free” (sem mercúrio) devem estar disponíveis. “É que o minerador receba um prêmio por esse produto com menor impacto ambiental”, defende o CEO.

“Estamos com uma fração do mercado e temos tudo para surfar em uma eventual escalada”

Eduardo Gama,

CEO da startup Certimine

A startup, hoje com 30 funcionários e 400 clientes, procura investidores que possam aportar dinheiro na empresa e ajudar a catapultar o negócio. Com negócios internacionais (a Certimine tem escritórios no Canadá e na China), Gama acredita que há muito o que crescer na certificação de minérios no Brasil e no mundo.

“Estamos com uma fração do mercado e temos tudo para surfar em uma eventual escalada”, prevê. “O Brasil é um mercado enorme.”


Gigantes da mineração buscam startups para crescer

Na outra ponta, as principais mineradoras do setor também estão em busca do “par perfeito”. É o caso da brasileira Vale, que lançou um fundo de venture capital corporativo (CVC, na sigla em inglês) para selecionar startups que possam contribuir com o negócio da gigante brasileira.

Batizado de Vale Ventures, o fundo nasceu em junho de 2022 e tem valor de US$ 100 milhões para serem gastos em até seis anos. O alvo são startups de estágio inicial a nível maduro (ou semente a série B, no jargão do mercado), com algum tipo de sinergia com a proposta de sustentabilidade da Vale. A Vale busca por startups das áreas de descarbonização (como siderurgia verde e hidrogênio verde), resíduos e processamento de minerais (com aposta em circularidade das operações), mineração sustentável (como minas inteligentes, aprendizado de máquina e sensores) e metais de transição energética.

A Vale Ventures surgiu com investimentos em duas startups: Boston Metal, de produção de aço verde, e Allonia, de biotecnologia. Ambas não são brasileiras, mas sim dos Estados Unidos. A companhia afirma que, no seu plano de investimento, não faz distinção entre negócios nacionais ou internacionais — basta que haja um “match” com o negócio da mineradora brasileira. Mais investimentos devem surgir, mas, até agora, mais nenhum detalhe é dado pelo fundo.

“Estamos no início da nossa jornada de conseguir ser uma alavanca para contribuir para a estratégia de sustentabilidade da Vale”, diz Bruno Arcadier, diretor da Vale Ventures.

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O streaming está virando TV? As mudanças do mercado de entretenimento

Com o aumento da concorrência, as plataformas diversificam conteúdo e procuram inspiração em métodos de geração de receitas que serviram ao negócio tradicional da televisão durante décadas

Juliana Pio e Luiza Vilela – Exame –  25 de abril de 2024 

Um streaming para o Campeonato Brasileiro, outro para os jogos da Libertadores e ainda um terceiro para as ligas estrangeiras, como a Uefa Champions League. Se você for fã de modalidades como basquete, tênis e MMA, prepare o bolso, porque a lista de assinaturas pode aumentar. A vida do atleta de sofá não tem sido fácil com a crescente fragmentação das transmissões esportivas. Na verdade, isso é apenas parte de um cenário mais amplo que envolve boa parte da cadeia de consumidores do audiovisual e traz lembranças de um passado não muito distante, quando o mercado era dominado pelas emissoras de TV a cabo.

Os streamings surgiram com a promessa de revolucionar a TV, oferecendo inicialmente uma alternativa mais barata, simples, conveniente, com curadoria e sem publicidade. Um alívio, por exemplo, para os cinéfilos que em um passado nem tão distante precisavam torcer para encontrar uma fita cassete ou um DVD na locadora — e podiam ficar com ele só por alguns dias — ou para os espectadores em geral que se sentiam obrigados a respeitar os horários dos canais.

Mas, à medida que o número de serviços aumenta, a oferta se torna demasiado grande, cara e por vezes complicada de navegar. Na tentativa de se diferenciar da concorrência, em um mercado global que deve atingir 173,7 bilhões de dólares até 2028, segundo a consultoria Mordor Intelligence, as empresas têm procurado inspiração em métodos de geração de receitas que serviram bem ao negócio tradicional da televisão durante décadas. Produção e diversificação de conteúdo, direitos de transmissão exclusivos, publicidade, fusões e aquisições, e até mesmo os clássicos pacotes com níveis de assinaturas estão de volta, agora com mais força, levando a chamada guerra dos streamings a um novo patamar.

Reajustes no valor das assinaturas

Levantamento recente da Proteste, entidade de defesa do consumidor, mostra que os reajustes feitos por oito plataformas, a exemplo de Prime Video, Apple TV+ e YouTube, subiram, em média, 14% acima da inflação entre 2021 e 2023 no Brasil. Enquanto o preço de alguns streamings aumentou 25% ou até 80%, outros baratea­ram. Há ainda aqueles, como a Netflix e a Disney+, que anunciaram cobranças extras para o compartilhamento de senhas. Caso o cliente queira ter acesso a todos os serviços avaliados no estudo, precisará desembolsar mensalmente mais de 200 reais (considerando apenas os valores dos planos básicos até 2023).

Atualmente, o brasileiro mantém, em média, a assinatura de pouco mais de oito serviços de streaming, sendo 4,7 pagos e 3,5 de plataformas gratuitas com publicidade, segundo análise da Comscore, consultoria especializada em medição de audiência digital, em parceria com a empresa americana Siprocal. Mas o custo-benefício segue ditando o comportamento. De acordo com pesquisa realizada pela Opinion Box, entre março e abril de 2024, 70% dos entrevistados disseram que já cancelaram uma assinatura em razão do aumento do preço.

“Em um campo lotado de concorrentes, fica difícil para as empresas se diferenciarem”, diz Thiago Costa, professor de comunicação da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap). “O primeiro caminho escolhido foi pela programação, com a ampliação da oferta de conteú­do e investimento em produções originais. Cada streaming tem as suas propriedades intelectuais que funcionam como chamariz para atrair e reter assinantes, caso da Netflix com Stranger Things. Alguns apostam, ainda, em lançamentos episódicos semanais, com dia e hora marcada.”

Recentemente, a Max, antiga HBO Max, mudou até o nome para anunciar novidades em seu catálogo. Se em 2020, quando foi lançada, o destaque era para a credencial do estúdio, hoje o intuito é explorar o fato de que a plataforma tem mais opções por trás das séries premiadas e ampliar a oferta para além de seus quase 100 milhões de assinantes. Agora o canal oferece, entre outras atrações, produções infantis, nacionais, animes e reality shows. “Estamos falando não só da consolidação do mercado de entretenimento, mas de uma nova forma cultural de consumo e mudança de como a sociedade pensa o lazer”, afirma Monica Pimentel, vice-presidente de conteúdo Brasil da Warner Bros. Discovery, dona da Max.

Para Wagner Moura, o cinema traz sensações, mas o streaming dissemina a cultura

Diversificação de conteúdo

Após a mudança de interface, a Max segue em busca do público noveleiro, uma das principais audiências da TV tradicional aqui no Brasil. Para isso, lançará em breve Beleza Fatal, produção nacional exclusiva estrelada pela atriz global Camila Pitanga, e Dona Bêja, remake de um sucesso dos anos 1980 originalmente com Maitê Proença, agora com Grazi Massafera no papel principal. A marca acompanha o ritmo da concorrência. Netflix e Prime Video já têm feito sucesso com a narrativa, em especial com tramas turcas e mexicanas, as quais estão entre os títulos mais vistos. Produções coreanas, os doramas, também figuram entre as apostas de Netflix, Prime Video, Max e Paramount+.

“Vimos nas novelas uma maneira de nos conectarmos diretamente com o consumidor brasileiro”, afirma Pimentel. A estratégia também atende a uma demanda do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que recentemente sancionou leis para regulamentação da categoria. Uma delas, para fomentar a indústria nacional, foi aprovada no Senado em abril e estabelece novas cotas para produções brasileiras: 100 para catálogos com até 1.000 títulos e 300 para quem oferece mais de 7.000 obras. Metade dos conteúdos terá de ser feita por produtoras independentes. O texto está agora na Câmara dos Deputados. “Seguir a lei não será uma tarefa difícil, está dentro do que pensamos para o negócio. Temos no momento 50 novos conteúdos nacionais em diferentes fases de produção”, complementa Pimentel.

O esforço das demais plataformas para aumentar a produção brasileira é perceptível. A Netflix teve séries nacionais no topo de audiência, como Cidade Invisível e Sintonia. A ­Prime Video viu o mesmo ocorrer com Dom e Cangaço Novo, que chegou a entrar para a lista de top 10 mais vistas em países da África e do Oriente Médio. Justiça se destacou na Globoplay, assim como Spider, que conta a história do lutador Anderson Silva, na Paramount+. Na mesma onda, o Disney+ reforçou o catálogo com A Magia de Aruna e Mila no Multiverso.

“Trazer uma diversidade de conteúdo ao streaming, que sempre foi um ponto forte da TV por assinatura, é um jeito de inovar e manter o assinante”, justifica a executiva da ­Warner Bros. Discovery. O mesmo observou a Globoplay, que foi além da programação linear da TV Globo e de seu acervo para se tornar um hub de conteúdo digital, com jornalismo, shows, séries, documentários e licenciados. Em 2023, a plataforma foi a segunda com mais audiência em streaming no Brasil, atrás da Netflix, segundo levantamento da Kantar Ibope. Prime Video, HBO Max, Disney+ e Star+ aparecem na sequência.

“Com tanto conteúdo disponível, chegamos ao ponto em que as pessoas já estão, de certa forma, saturadas. Do lado do negócio, as produções originais são caras e não se pagam somente com assinaturas, o que tem levado as plataformas a buscar novas fontes de receita, mirando especialmente o insubstituível: direitos esportivos e transmissões ao vivo”, explica Thiago Costa, da Faap.

A disputa pelos esportes ao vivo

Embora 2024 seja ano de disputas olímpicas, com os Jogos de Paris previstos para acontecer entre julho e agosto, há tempos os streamings travam uma disputa no segmento esportivo com os grupos tradicionais de mídia. Star+, Prime Video, Paramount+ e Max foram pioneiras em transmitir partidas de futebol ao vivo.

Outras modalidades, como tênis e basquete, também já chegaram aos streamings. Recentemente, a NBA informou recorde de audiência em plataformas do segmento no Brasil e no México com os jogos ao vivo da temporada regular de 2023/2024, que foram transmitidos na Amazon Prime, Star+, NBA League Pass e YouTube. A Federação Paulista de Futebol também viu resultado semelhante com o Paulistão Sicredi 2024, depois de implementar o modelo de transmissão multiplataforma, que incluiu TV aberta (Record), fechada (TNT) e streaming (YouTube/CazéTV e Max).

Disney, Fox e Warner são processadas por novo streaming de esportes

“Há uma percepção geral de que os esportes são um diferencial significativo de negócio para a retenção de espectadores. Eles carregam um público cativo e, consequentemente, trazem mais audiência e anúncios. Com a capacidade de interatividade do streaming, podem emergir ainda novas possibilidades comerciais”, destaca Costa. Ele lembra que a ­Netflix fechou, no início deste ano, um acordo de 5 bilhões de dólares com a WWE, liga americana de luta livre, após o sucesso de Drive to Survive, série sobre os bastidores da Fórmula 1. Já ­Disney+, Fox e Warner Bros. Discovery anunciaram uma superplataforma voltada para esportes, que combinará as transmissões da ESPN, TNT e Fox Sports.

Crescimento acelerado

Apesar do aumento dos preços dos streamings, pesquisa da Deloitte divulgada em março deste ano mostrou que os usuários nos Estados Unidos não estão cancelando as assinaturas tanto quanto no passado. A própria Netflix informou que adicionou 9,3 milhões de assinantes no primeiro trimestre de 2024, quase o dobro do volume previsto (entre 4,8 milhões e 5 milhões). A empresa chegou a uma base total de 269,6 milhões de assinantes globais, um aumento de 16% na comparação com o período anterior. A receita também teve alta de 14,8%, alcançando 9,37 bilhões de dólares.

“O mercado está em processo de maturação”, diz Iván Marchant, vice-presidente da Comscore para a América Latina. Segundo ele, a lógica dessa nova fase do streaming é que os custos provavelmente serão suportados por um misto de publicidade, pacotes e níveis de assinaturas. “Estamos vendo que diferentes modelos podem coexistir ao mesmo tempo.” No estudo da Deloitte, 46% dos consumidores afirmaram que assinam pelo menos um serviço de streaming pago com anúncios e 57% usam um serviço gratuito com anúncios.

“Não acho, contudo, que estamos voltando para a era da TV a cabo”, acredita JC Rodrigues, doutorando em comunicação e práticas de consumo da ESPM, que atuou por sete anos como diretor da Disney Brasil. Em sua visão, para continuar em crescimento, os streamings podem atrair clientes de outras plataformas ou aumentar a receita por usuá­rio, por meio de modelos de monetização complementares, como vendas pontuais, oferta de canais temáticos adicionais ou mesmo de outros serviços de streaming, como assinar Paramount+ via Apple TV+ ou Netflix pela Vivo Fibra. A Amazon, por exemplo, uniu o Prime Video a um conjunto de outros serviços e vantagens de seu ecossistema de marketplace.

“A grande diferença, ou novidade, trazida pelo streaming é a capacidade de monitorar o consumo nas plataformas de forma apurada. Isso permite ser mais assertivo nas sugestões de conteúdo, e o pulo do gato será quando a publicidade conseguir customizar anúncios com o mesmo nível de segmentação personalizada (ou próximo disso) de sites e aplicativos, algo muito distante de como funcionava a TV tradicional”, finaliza Rodrigues. 

https://exame.com/revista-exame/o-streaming-esta-virando-tv

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Exploração de minerais ‘do futuro’ é oportunidade para Brasil em mundo que busca reduzir emissões

Apesar de também causar danos ambientais, mineração terá de aumentar para aquecimento global ser detido; tecnologias de energia limpa demandam mais minerais do que as baseadas em combustíveis fósseis

Por Beatriz Bulla e Luciana Dyniewicz – Estadão – 22/04/2024


ENVIADA ESPECIAL A CANAÃ DOS CARAJÁS (PA)


ENVIADA ESPECIAL A NAZARENO (MG)

O painel do pequeno saguão do aeroporto de Parauapebas, no sudeste do Pará, mostra quatro voos vindos de Belo Horizonte para cada aeronave que chega de outra cidade. O vai e vem é de trabalhadores que construíram a carreira na extração de ferro e ouro em Minas Gerais e migraram para o que promete ser um dos polos da mineração brasileira na era da transição energética.

A existência de minério em Carajás não é novidade. Mas, na última década, a região deu um salto em torno de uma nova riqueza: o cobre, um dos minerais do futuro. Encravada em área de floresta amazônica está a mina do Salobo, da Vale, uma das apostas do Brasil para se colocar entre os principais fornecedores de minério para energias limpas e se posicionar como um protagonista global na agenda de economia verde.

Um mundo que busca reduzir suas emissões de carbono precisará de um aumento significativo na mineração, dado que as tecnologias de energia limpa demandam mais minerais do que as baseadas em combustíveis fósseis. Plantas de energia eólica e solar vão precisar de recursos minerais, assim como baterias e linhas de transmissão, que terão de ser reforçadas com o aumento da demanda por energia elétrica.

Maior mina do Brasil para a extração de cobre, o Projeto Salobo, fica no meio de área da Floresta Amazônica no sudeste do Pará

O escoamento do cobre é feito de caminhão até Parauapebas e, de lá, de trem pela Estrada de Ferro Carajás até o Maranhão, onde parte para a Europa

Parte da área da terceira usina do Projeto Salobo, recém inaugurada, que expande a capacidade de beneficiamento de cobre no local

Área da floresta nacional de Carajás, onde está a mina do Salobo. Avanço da mineração na floresta expõe desafio de conciliar preservação e exploração

Primeira mina de cobre do País foi a do Sossego, também explorada pela Vale no sudeste do Pará desde 2004

Para substituir as frotas de carros e mudar a cara do transporte, os minerais também serão críticos. Enquanto um veículo movido à gasolina leva de 15 kg a 20 kg de cobre em sua composição, um elétrico precisa de algo entre 60 kg e 83 kg.

Parece um contrassenso ter de aumentar uma atividade com impactos ambientais significativos para reduzir as emissões, mas, segundo o professor da Universidade de São Paulo (USP) Luis Enrique Sánchez, que trabalha com mineração e meio ambiente, isso será necessário. “A comparação é difícil, porque os componentes do ambiente afetados são diferentes, mas diminuir o uso de combustíveis fósseis é urgente porque o impacto dele no clima é irreversível.” Pesquisas e ações para reduzir o impacto da mineração, no entanto, terão de ser reforçadas, além da reciclagem de metais como o cobre.

Diante dessa necessidade, o crescimento na aplicação de minerais na economia será elevado. Apenas as tecnologias de energia deverão usar anualmente, em 2050, 488% do que o mundo todo produzia de lítio em 2018. Isso se quisermos ter uma chance de 50% de limitar o aumento global da temperatura do planeta em 2°C até 2100. No mesmo cenário, a demanda anual média de minerais passará das atuais 40 milhões de toneladas para 160 milhões em 2050.

“O Brasil é muito favorecido sob esse olhar, porque temos uma diversidade geológica muito grande, somos beneficiados tanto em termos de quantidade como de qualidade de substâncias”, afirma Vitor Saback, secretário de Geologia, Mineração e Transformação Mineral do Ministério de Minas e Energia.

Além do cobre – que é um ótimo metal para transmitir energia e, portanto, será usado intensivamente em carros elétricos e na distribuição de energia -, o lítio é outro mineral que o Brasil tem e que será essencial na economia verde. E a 70 quilômetros da histórica São João del Rei (MG), Nazareno – uma cidade com pouco mais de 8 mil habitantes – abriga a primeira mina do País a exportar lítio para a fabricação de baterias de carros elétricos.

Minerais-chaveMateriais que estão entre os mais importantes para a transição energética e cuja oferta precisa ser elevada de forma significativa

Em 2018, a AMG Brasil, uma subsidiária da companhia holandesa AMG, passou a produzir e vender no mercado internacional concentrado de lítio, uma das principais matérias-primas da transição energética. Agora, novas companhias – como a brasileira Sigma Lithium, a americana Atlas, a australiana Latin Resources e a canadense Lithium Ionic – se instalam em uma região mais ao norte de Minas Gerais, no Vale do Jequitinhonha, no que já ficou conhecido como “vale do lítio”.

Os anúncios de exploração indicam que a produção brasileira de lítio vai passar de 10 mil toneladas em 2022 para cem mil até 2030. Hoje, a produção de lítio brasileira está em linha com as reservas conhecidas do material. O País fornece atualmente 1% da oferta global do produto e tem o equivalente a 1% das reservas.

A mina em Nazareno está em expansão. Com um investimento de US$ 50 milhões (cerca de R$ 250 milhões), uma nova linha de processamento de lítio está sendo instalada no local, o que ampliará a capacidade em 45% e reduzirá o tempo em que será possível explorar a mina de 23 para 18 anos.

Até 2017, a AMG trabalhava apenas na mineração de estanho e tântalo, materiais usados em equipamentos eletrônicos e em semicondutores, respectivamente. O lítio que hoje é explorado ali costumava ficar nas montanhas de rejeitos. A demanda crescente pelo produto, sobretudo das montadoras de carros elétricos chineses, fez com que a empresa não só se voltasse ao material que antes era desprezado, como também ampliasse a operação de Nazareno.

A mina está recebendo US$ 50 milhões em investimentos para ter nova linha de processamento de lítio

Com ampliação da capacidade de processamento, a mina deve se esgotar em 18 anos; sem as obras, tempo de exploração seria de 23 anos

Área de controle de qualidade, ensacamento e expedição de concentrado de espodumênio (matéria-prima do lítio)

Concentrado de espodumênio, material do qual se obtém o lítio

Ao lado da mina, máquinas também trabalham na terraplanagem do terreno onde vai ser instalada uma unidade de refino do concentrado de lítio, o que hoje é feito pela empresa na China. Deverão ser investidos no projeto mais US$ 250 milhões (R$ 1,2 bilhão) e, após a obras (previstas para acabarem no fim de 2025), a AMG deve reduzir as emissões de carbono do processo de fabricação do lítio. Isso porque não precisará enviar mais material para ser refinado na China – a fase final do processo, no entanto, ainda ocorrerá na Alemanha, como acontece hoje.

“Gostaríamos de fazer o refino final também aqui no Brasil. Mas, quando você termina os processos e tem o hidróxido de lítio, você não pode transportá-lo, porque ele perde as características, e as montadoras estão quase todas na Alemanha”

Fabiano Costa

Presidente da AMG no Brasil

Ainda assim, a empresa também terá no Brasil um produto de maior valor agregado. Hoje, ela vende, por exemplo, 700 kg de concentrado de lítio a US$ 1.750. Com esse mesmo volume de material, poderá produzir 100 kg de carbonato de lítio, que valem US$ 2.500, uma diferença de ganho de 43%.

Brasil x mundo

Em 2021, o US Geological Survey’s Mineral Commodity Summary, um relatório do governo dos Estados Unidos estimava que o mundo tinha 86 milhões de toneladas de lítio. Em 2023, o número foi revisado para 98 milhões de toneladas. O mesmo relatório diz que “a segurança do fornecimento de lítio tornou-se uma prioridade máxima para empresas de tecnologia na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia”.

A Austrália, sozinha, produziu 40,8% do lítio mundial em 2022, segundo o MineSpans, da consultoria McKinsey. Atrás vieram Chile, China e Argentina. Já o Brasil, segundo o mesmo ranking, vinha em quinto lugar, com 1,6% da produção mundial.

A preocupação com lítio simboliza o problema enfrentado hoje mundialmente: reservas de minerais críticos para a transição energética estão concentradas em alguns países. Os europeus, por exemplo, tentam reduzir sua dependência da China. No ano passado, a Alemanha anunciou que planeja criar um fundo estatal de € 500 milhões (podendo chegar a € 1,1 bilhão) para apoiar iniciativas de mineração. A União Europeia olha com atenção países da América Latina, como o Brasil, que podem ajudar a diversificar o fornecimento dos minerais.

O mundo ainda corre o risco de não conseguir acelerar a oferta de materiais críticos para a transição energética de forma a responder às ambiciosas metas climáticas acordadas pelos países em fóruns multilaterais. Isso porque as minas demoram a sair do papel. Na mina da Vale do Sossego, no Pará, por exemplo, foram oito anos entre a pesquisa de viabilidade e o início da operação.

A China, além de buscar desenvolver suas próprias minas, colocou dinheiro em projetos ao redor do mundo. No Brasil, a chinesa BYD diz que estuda uma joint venture com a Sigma Lithium. O gigante asiático também concentra quase 60% da capacidade de processamento de lítio no mundo. Os Estados Unidos injetaram US$ 1,6 bilhão (o equivalente a R$ 8 bilhões) em 12 projetos ligados ao lítio que receberam recursos da Casa Branca.

Além da expansão da produção de lítio e cobre, já explorados na América Latina, estrangeiros veem na região oportunidade para produzir outros materiais como níquel.

O Brasil não costuma aparecer nos relatórios globais de consultorias e governos quando o tema são os maiores produtores da América Latina de cobre e lítio. O Chile aparece na frente, mas a qualidade do minério chileno tem caído, conforme a idade das minas avança. A Colômbia é apontada como um país da região onde o potencial não é totalmente explorado. Já outros países da região não possuem, segundo analistas e investidores, a estabilidade política, institucional e a infraestrutura já existentes no Brasil para ocupar essa posição rapidamente.

Crescimento

No Pará, o escoamento do cobre é feito de caminhão até Parauapebas e depois, de lá, de trem pela Estrada de Ferro Carajás até Ponta da Madeira, em São Luís do Maranhão, onde parte através do porto para o mercado europeu. O rejeito, que é também a sobra do material mas já após o processo de beneficiamento, é colocado em uma barragem.

A mina do Salobo é um buraco a céu aberto de 300 metros de profundidade e 4 quilômetros de diâmetro, completamente cinza, em meio ao verde da floresta. A previsão é de que chegue até 800 metros de profundidade. No entorno dos andares de pedra e areia por onde passam os caminhões que carregam o material até a usina de beneficiamento estão também as pilhas de estéril – o que sobra no primeiro processo de extração do metal.

A Vale também trabalha na ampliação de suas minas no sudeste paraense – em um processo ainda maior que o da AMG. Foi há pouco mais de um ano, em dezembro de 2022, que a terceira usina do Projeto Salobo entrou em operação, para fazer o beneficiamento do cobre no local – após uma injeção de US$ 1,1 bilhão. Em fase de aumento de produção, ela deve fazer a empresa ampliar a capacidade de produção de cobre de 24 milhões de toneladas para 36 milhões por ano.

“A intenção é colocar a empresa entre as maiores produtoras de cobre do mundo”, afirma Antonio Padovezi, chefe de operações da Vale Metais Básicos. Com esse objetivo e diante do aumento da demanda pelo produto, a multinacional separou, no ano passado, sua operação de cobre e níquel na subsidiária Vale Base Metals (VBM), avaliada em US$ 26 bilhões e considerada, agora, a joia da coroa pela empresa.

A mineradora começou a operar no sudeste do Pará em 1985, focada na exploração do minério de ferro, quase vinte anos depois da descoberta do material na região. Em 2004, com a inauguração da Mina do Sossego, a multinacional estreou suas operações de cobre e atualmente conta com a maior mina do Brasil para a extração do minério, o Projeto Salobo.

“O desafio de operar na floresta é garantir capacitação da mão de obra local. Estamos desenvolvendo mão de obra. Quando você opera fora dos grandes centros, têm dificuldade de contratar. É preciso fazer a porta de entrada, contratar pessoas que não têm experiência com mineração e formar esses profissionais aqui dentro”

Vinicius Moreira Assis

Diretor de operações da Mina Sossego

“Provavelmente, em todo o futuro, continuará como a maior mina de cobre do Brasil”, afirma Antonio Schettino, diretor de operações da mina de Salobo. Hoje, o País é o segundo com maior potencial no segmento para a Vale, atrás da Indonésia.

“No Chile, cada vez as minas ficam mais velhas. Vejo no Brasil uma oportunidade gigantesca. Chamamos aqui, a região do Salobo, de Novo Carajás”, afirma Schettino, mineiro que mora no Pará.

No Censo de 2022, a cidade de Canaã dos Carajás, onde residem funcionários da Vale, foi a que registrou maior aumento populacional no Brasil em comparação com 2010. São 77 mil habitantes, 188% de crescimento. Parauapebas, outra cidade que reúne trabalhadores da mineradora, registrou aumento de 73% na população local, que chegou a 266 mil pessoas. É difícil encontrar quem não tenha alguma ligação com a atividade da Vale na região.

“Se compararmos o Brasil com o Chile, vemos que ainda estamos iniciando esse processo de produção do cobre. É um processo bem embrionário, mas com grande potencial de crescimento, por todo o potencial que temos nessa região do sudeste do Pará”, afirma Padovezi, chefe de operações da Vale Metais Básicos.

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Qual é o cargo mais badalado do mundo corporativo atual? Diretor de inteligência artificial; entenda

Boom da tecnologia estimulou escritórios de advocacia, hospitais, seguradoras, agências governamentais e universidades a criar posto de comando para IA

Por Yiwen Lu – Estadão/THE NEW YORK TIMES ´30/01/2024 

Em setembro, a Clínica Mayo, no Arizona, criou um cargo inédito no sistema hospitalar: diretor de inteligência artificial (IA).

Os médicos da unidade do Arizona fizeram experimentos com IA durante anos. Mas após o lançamento do ChatGPT em 2022 e o frenesi que se seguiu em relação à tecnologia, o hospital decidiu que precisava trabalhar mais com IA e encontrar alguém para coordenar os esforços.

Assim, os executivos nomearam Bhavik Patel, um radiologista especializado em IA, para o novo cargo. Desde então, ele já testou um novo modelo de IA que poderia ajudar a acelerar o diagnóstico de uma doença cardíaca rara, procurando dados ocultos em ultrassons.

“Estamos realmente tentando promover alguns desses dados e recursos de IA em todos os departamentos, todas as divisões e todos os grupos de trabalho”, diz Richard Gray, executivo-chefe da Mayo Clinic no Arizona. A função de executivo-chefe de I.A. foi criada porque “ajuda ter uma função de coordenação com a profundidade da experiência”.

Há muito tempo, especialistas temem que a IA acabe com os empregos. Em vez disso, o boom da tecnologia estimulou escritórios de advocacia, hospitais, seguradoras, agências governamentais e universidades a criar o que se tornou a nova função mais visada do mundo corporativo: o executivo sênior responsável por IA.

A agência de crédito Equifax, a fabricante Ashley Furniture e escritórios de advocacia como o Eversheds Sutherland nomearam executivos de IA no ano passado. Em dezembro, o New York Times nomeou um diretor editorial de iniciativas de IA. E mais de 400 departamentos e agências federais procuraram diretores de IA no ano passado para cumprir uma ordem executiva do Presidente Biden que criou salvaguardas para a tecnologia.

No total, 122 pessoas com o título de chefe ou vice-presidente de IA participaram de um fórum no ano passado no Glassdoor, site de avaliações de empresas, em comparação com 19 em 2022, segundo a empresa.

Os cargos de executivo de I.A. estão surgindo porque as organizações querem aproveitar a tecnologia transformadora, diz Randy Bean, fundador da empresa de consultoria NewVantage Partners, que assessora empresas em dados e liderança de IA. Ao mesmo tempo, acrescentou ele, “as organizações querem dizer: ‘Sim, temos um diretor de IA’, porque isso lhes dá uma boa aparência”.

Outros cargos executivos foram criados em resposta a grandes mudanças tecnológicas e financeiras. Na década de 1980, os avanços no poder da computação levaram a um boom de diretores de informação e diretores de tecnologia, que normalmente supervisionam como a tecnologia é usada em uma empresa ou a desenvolvem. Após a crise financeira de 2008, os diretores de dados foram nomeados para cumprir as novas regulamentações e gerenciar como as empresas usavam os dados.

Com as funções executivas de I.A., as empresas e organizações estão procurando alguém que as ajude a lidar com os riscos e o potencial da tecnologia e como ela pode mudar a maneira como as pessoas trabalham.

Em maio, a seguradora de saúde Florida Blue promoveu Svetlana Bender ao novo cargo de vice-presidente de IA e ciência comportamental exatamente com esse objetivo. Um de seus primeiros projetos de IA foi testar um chatbot interno que pode ajudar a escrever códigos de computador e analisar dados de clientes.

Bender, que anteriormente era diretora de soluções de tecnologia da Florida Blue, disse que sua equipe treinaria o chatbot com dados de clientes e o abriria para uso de todos os funcionários. Este mês, ela contratou um diretor de IA para ajudar no trabalho

“Queremos avançar o mais rápido possível” no uso da tecnologia, ao mesmo tempo em que garantimos a segurança dos dados de seguro dos clientes, disse ela.

A consultoria Accenture contratou um diretor de IA em setembro, à medida que os clientes se interessavam cada vez mais pela tecnologia. A empresa promoveu Lan Guan, que trabalhava com dados globais e IA, para a função de assessorar os clientes sobre como incorporar a tecnologia em seus negócios. A Accenture também está desenvolvendo ferramentas de IA, inclusive para o setor de seguros.

O novo cargo “ressalta nossa ambição no mercado e o quanto estamos otimistas em relação ao que estamos vendo como o enorme potencial da IA para nossos clientes”, diz Guan.

Na Western University, em Ontário, Mark Daley, professor de ciência da computação e diretor de informações, assumiu o novo cargo de diretor de IA em outubro. Embora ainda lecione, ele deixou o cargo de diretor de informações.

Desde então, Daley tem se concentrado no estabelecimento de mais de 30 projetos-piloto de IA, incluindo o trabalho com a equipe de pesquisa e finanças para automatizar os processos de auditoria e a colaboração com o corpo docente da área de humanas para desenvolver novos cursos.

“Estamos em um momento em que a melhor abordagem para a IA generativa é, na verdade, a exploração e a experimentação”, diz ele.

Um artigo da Harvard Business Review no ano passado, coescrito por Bean, da NewVantage, postulou que os diretores de IA e de dados estavam preparados para fracassar porque os cargos eram “um ato de equilíbrio de alta pressão com uma tecnologia que oferece enormes riscos e oportunidades”.

Karin Kimbrough, economista-chefe do LinkedIn, disse que a IA também evoluiria de uma tecnologia nova para algo incorporado ao trabalho de todos. “A IA estará presente em muitas funções e estará tão arraigada que o cargo específico de IA começará a desaparecer”, disse ela.

Alguns diretores de IA disseram que seu trabalho tem poder de permanência. Patel, da Mayo Clinic, no Arizona, disse que uma grande parte de seu novo trabalho era se comunicar com outros médicos e órgãos reguladores, como a Food and Drug Administration, e identificar como a IA pode tornar o trabalho médico mais eficiente.

“O sistema de saúde moderno ainda tem muitas lacunas”, disse ele. “É nesse ponto que acho que podemos usar a inteligência artificial de forma inteligente para preencher essa lacuna ou, pelo menos, reduzi-la.”

Este conteúdo foi traduzido com o auxílio de ferramentas de Inteligência Artificial e revisado por nossa equipe editorial. Saiba mais em nossa Política de IA.

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A Internet morreu e esquecemos de enterrar?

A rede que conectava pessoas e armazenava o conhecimento humano não existe mais; está dominada pela inteligência artificial

Ronaldo Lemos – Folha – 21.abr.2024

Nos últimos anos está ganhando força a hipótese de que a internet morreu e só esquecemos de enterrar. A rede que conectava pessoas e armazenava o conhecimento humano não existe mais de acordo com essa teoria. Ou, ao menos, está sendo substituída por uma rede composta por máquinas que falam entre si e conteúdos gerados automaticamente por inteligência artificial

Por muito tempo essa ideia foi tratada como teoria da conspiração: um alarmismo longe da realidade. No entanto, os sinais de que há algo de podre no reino da internet estão se tornando mais frequentes. Vejamos alguns. 

Hoje, 47,4% de todo o tráfego na rede é gerado por robôs. Sabe aquelas preciosas visualizações que o seu post alcançou na sua rede social favorita? Pois é, metade delas são provavelmente visualizações fake, feitas por robôs. 

E o pior, 30% são robôs maliciosos, atuando com a intenção de copiar informações ou fazer ataques. Vários são capazes de imitar o humano, se tornando indetectáveis. Enquanto isso, o acesso realmente humano cai a cada ano. De 2021 a 2022, a queda foi de 5,1%. Se a tendência continuar, em breve a internet será terra de ninguém, ou melhor, terra de robôs. 

Outro elemento indicativo da morte em curso da rede é a invasão de conteúdo criado por inteligência artificial. Um estudo do Instituto de Estudos do Futuro de Copenhague prevê que 99% do conteúdo que será postado na internet em 5 anos será gerado por inteligência artificial. Ou seja, só 1% será feito por humanos. 

Não precisa nem esperar tanto tempo. Em postagem oficial, o Google mencionou no mês passado que está tomando providências contra conteúdos que “parecem criados para [enganar] os mecanismos de buscas, em vez de para pessoas”. Por conta disso, muita gente vem adotando uma prática inusitada. Colocar o comando “Before: 2023” nas buscas. 

A alegação é que buscar por conteúdos “antes de 2023” gera resultados melhores. Justamente por causa da quantidade de lixo criado por inteligência artificial que vem sendo postado nos últimos 18 meses, já interferindo no ranking das buscas. 

Até para encontrar um par romântico a internet está morrendo. Pesquisa da McAfee feita na Índia mostrou que 77% dos usuários de aplicativos de relacionamento já se depararam com perfis feitos por inteligência artificial, inclusive nas fotos. Além disso, 26% dos usuários alegam ter descoberto que estavam conversando com uma inteligência artificial, em vez de uma pessoa real, em sites de paquera. 

Outro problema familiar é o uso de robôs em campanhas eleitorais. As eleições deste ano são as primeiras em que a inteligência artificial generativa estará em pleno curso. Dá para esperar novidades nesse campo. 

Se tudo continuar assim, é possível que nossa geração terá sido a única a viver o tempo em que a internet era feita por pessoas. Para as gerações futuras, mais acostumadas com robôs do que a gente, essa ideia poderá parecer antiquada ou até grotesca: uma internet humana como um cobertor feito de retalhos, esquecido em algum canto mofado do passado. 

Já era – Não pensar na regulação da inteligência artificial 

Já é – Pensar em regular IA por meio de modelos de risco 

Já vem – Pensar em regular IA por meio de modelos antitruste 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ronaldolemos/2024/04/a-internet-morreu-e-esquecemos-de-enterrar.shtml

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Queda de matrículas nas Engenharias: como isso afeta a economia brasileira

 RedaçãoBy Redação – desafiosdaeducacao.com.br – 5 de dezembro de 2023

Formar engenheiros qualificados e em quantidade adequada é essencial para qualquer plano de retomada da atividade econômica. No entanto, o que se observa atualmente no Brasil é justamente o contrário – a procura pelos cursos de Engenharia despencou nos últimos anos.

Em consequência disso, faltam engenheiros no mercado. De acordo com a CNI (Confederação Nacional da Indústria), o déficit já é de 75 mil profissionais.

Mais candidatos que vagas

Uma pesquisa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) mostrou que o número de calouros nos cursos de Engenharia vem diminuindo gradualmente no Brasil. Em 2019, por exemplo, a queda foi de 17% em comparação com o ano anterior. Só que, se a comparação for feita com 2014, a redução é bem maior – 39%.

Um fato a destacar é que a rede privada sofre mais os efeitos da falta de interesse dos jovens pela área. De 2014 a 2019, a queda na quantidade de ingressantes nas instituições de ensino superior (IES) particulares chegou a 48%. Ou seja, a procura caiu praticamente pela metade. Na rede pública, a diminuição foi de 3,6%.

O quadro é ainda mais grave se levarmos em conta os indicadores de evasão, que estão na ordem de 50% a 70%, de acordo Anderson Correia, reitor do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica). O resultado não poderia ser diferente: várias faculdades de Engenharia estão fechando as suas portas e decretando falência.

No cômputo geral, o número de alunos matriculados em IES particulares nessa graduação, na modalidade presencial, caiu 44,5% entre 2014 e 2020, como revelou o Valor Econômico. A diminuição é bastante superior à queda de 19,3% registrada no período, considerando a totalidade de cursos presenciais da rede privada.

Correia lembra que nem sempre foi assim. Na década de 1990, os cursos de Engenharia figuravam entre os mais disputados, tanto em universidades públicas quanto privadas. Atualmente, no ranking dos mais concorridos, estão abaixo de Psicologia, Design ou Cinema, só para citar alguns exemplos. “Como um país vai entrar na nova onda de industrialização mundial, com digitalização da indústria, inteligência artificial, robótica, nanotecnologia, se não tiver engenheiros na quantidade necessária?”, questiona o reitor do ITA.

Para se ter ideia da gravidade do quadro, há menos candidatos do que vagas nas IES brasileiras. Segundo o diretor da Faculdade de Engenharia da Universidade Federal de Juiz de Fora, Hélio Antônio da Silva Hélio, são ofertadas 302 mil vagas, mas somente 120 mil estão ocupadas.


Leia mais:


Questões culturais

A pouca atratividade dos cursos de Engenharia é um fenômeno de alcance mundial. Mas, no Brasil, a situação parece ser mais grave: o problema não se restringe propriamente às Engenharias, estendendo-se a boa parte das áreas tecnológicas. É fato que cada vez menos estudantes demonstram interesse também em Agronomia e Geociências.

Além disso, essa é uma profissão dependente da política econômica. A lógica é simples: se o país cresce, precisa de mais profissionais da área. Isso significa que existe uma forte relação entre os cursos de Engenharia e o ritmo de crescimento da economia.

Sendo assim, a queda nas matrículas tem a ver com a falta de fôlego da expansão econômica brasileira nos últimos anos, o que inclui um decréscimo da atividade industrial. Com isso, o mercado de trabalho não evolui. A remuneração dos profissionais deixa de ser atraente e muitas ofertas de emprego não oferecem a realização profissional almejada pelos jovens.

Há também uma questão cultural. Em declaração à Revista do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Paraná (CREA-PR), o presidente do Instituto Lobo de Pesquisa e Gestão Educacional, Roberto Lobo, lembrou que o Brasil tem uma larga tradição de formar mais advogados do que engenheiros: “Ou seja, as empresas gastam mais dinheiro se defendendo dos tributos e processos do que em inovação”.

Outro detalhe a considerar é a baixa qualidade da educação básica no Brasil, o que se reflete no ensino superior. Há poucas experiências de educação digital, como atividades de computação, programação e robótica nos currículos tanto do ensino fundamental quanto do médio. Desse modo, os alunos não são estimulados a procurar cursos da área tecnológica na hora de decidir o seu futuro profissional.

Empresas têm dificuldades para achar profissionais qualificados

Além da baixa procura, a qualidade dos cursos é questionada, já que existe uma grande carência por bons profissionais na área. Pelo menos é o que mostrou o relatório O futuro das Engenharias no Brasil 2023, divulgado pela Mútua – Caixa de Assistência dos Profissionais do CREA. Conforme o levantamento, nada menos do que 70% das empresas consultadas afirmaram ter dificuldades para contratar engenheiros com a qualificação adequada.

De acordo com a pesquisa, mais de 50% dos profissionais são egressos de cursos com conceitos 1 e 2 (baixo desempenho) no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade). Milhares de profissionais não conseguem inserção no mercado ou atuam na informalidade. O trabalho da Mútua aponta ainda que, dos quase 1,3 milhão formados entre os anos 2000 e 2020, 477 mil não se registraram no Sistema Confea-CREA.

“A má formação não afeta somente os próprios profissionais, mas também o país, que não consegue se posicionar de forma competitiva em um ambiente global onde conhecimento e inovação definem quem terá relevância econômica e influência”, afirmou o engenheiro agrônomo Francisco Almeida, diretor presidente licenciado da Mútua.

Leia mais:

https://desafiosdaeducacao.com.br/queda-cursos-de-engenharias

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Como está a Guiana depois do boom do petróleo?

Por

João Lara Mesquita – Estadão – 8 de novembro de 2023

Como está a Guiana depois do boom do petróleo?

Em 2008 a ExxonMobil iniciou a exploração em águas da Guiana na busca de petróleo,  um dos países mais pobres da América Latina com menos de 800 mil habitantes. Entretanto, a busca provou ser bem-sucedida. Em 2015 um consórcio liderado pela Exxon, que incluía Hess e a empresa chinesa Cnooc, fez uma grande descoberta no Campo Liza. Para o Financial Times, a produção deverá sustentar o negócio de petróleo bruto da Exxon por décadas. Desse modo, a economia cresceu a uma taxa recorde de 62,3% em 2022, a mais alta do mundo. Você já imaginou que um dia a Guiana conseguiria tal feito?

Na contramão do mundo, ou um desejo correto por maior riqueza?

No entanto, à medida que o mundo busca se distanciar dos combustíveis fósseis e os ativistas climáticos lutam pela transição energética, analistas estão preocupados com o histórico conturbado das operações das empresas de petróleo em países mais pobres. Estudiosos se perguntam qual será o impacto da entrada massiva de dólares na Guiana.

Extração de petróleo na Guiana Foto usada pelo http://www.thehindubusinessline.com, com a legenda: Em apenas cinco anos, a Guiana ingressará no cobiçado clube dos 20 países que produzem mais de um milhão de barris de petróleo bruto por dia | Crédito: Matias Delacroix

O caso da riqueza repentina da Guiana

A súbita transformação da Guiana, que até então estava esquecida, tem sido objeto de discussões em todo o mundo. O Financial Times relata que os investimentos das principais empresas petrolíferas dos Estados Unidos parecem destinados a fazer da Guiana um dos últimos petroestados a emergir na era do petróleo.

Para as empresas do setor, o que está acontecendo no país é considerado como a “joia da coroa” da ExxonMobil, como afirmou Alistair Routledge, presidente da Exxon na Guiana, ao Financial Times.

Imagem aérea da capital Georgetown. Foto, http://www.newsroom.gy.

Enquanto isso, destacou o www.thehindubusinessline.com , o Campo Liza é considerado a maior adição às reservas globais de petróleo em várias décadas. Antes dessa descoberta, o maior campo já encontrado era o de Mangala, na Índia, com reservas estimadas em 1 bilhão de barris. Em comparação, a descoberta na Guiana é dez vezes maior do que a de Mangala, de acordo com a mesma fonte.

Embora analistas de Wall Street tenham classificado o investimento liderado pela Exxon como “o melhor negócio petrolífero da história moderna”, outros advertem que o país corre o risco de cair na “maldição dos recursos”. Essa maldição ocorre quando a súbita riqueza proveniente dos recursos naturais esvazia outras indústrias nacionais, gera divisões políticas e promove a corrupção.”

US$ 100 bilhões de dólares ao longo do contrato

No caso da Guiana, o país não tem ‘outras indústrias’. Contudo, o risco de divisão política e corrupção é fato. Para efeito de comparação, o orçamento nacional era de apenas cerca de 3,5  a 4 bilhões de dólares. Porém, os retornos para a Guiana poderão ultrapassar os 100 bilhões de dólares ao longo das décadas de vida das suas operações com a Exxon.

Ao que parece, o contrato entre as partes é por demais favorável à petrolífera. Não poderia ser diferente. Estas empresas já demonstraram não ter escrúpulos e, além disso, têm centenas de advogados especializados, enquanto os países mais pobres, carecem de experiência e ‘abrem as pernas’ ao sentirem a possibilidade de ganhar divisas.

Imagem, http://www.ieefa.org.

O Financial Times ouviu Tom Mitro, investigador sênior do centro de investimento sustentável da Universidade de Columbia e antigo gestor da Chevron que ajudou a negociar os seus contratos em países como Angola, Nigéria e Papua Nova Guiné. Não por acaso, todos países pobres.

O jornal diz que ‘ele e outros especialistas argumentam que o contrato de partilha de produção assinado com a Guiana em 2016 é excessivamente generoso para com a Exxon, e alguns dizem que deveria ser renegociado’.

“Acordo extremamente agradável”

“Foi um acordo extraordinariamente agradável”, disse Mitro. O governo da Guiana dispõe agora de dinheiro para hospitais, habitação, transportes, infraestruturas de gestão de cheias, além de um fundo soberano que deverá reforçar as finanças públicas. Entretanto, os lucros recorde gerados pela Exxon no ano passado e a compra pela Chevron da participação de 30 por cento da Hess no Bloco Stabroek trouxeram um novo escrutínio dos termos do contrato.

Nesse acordo, explica o Financial Times, a Guiana concordou em dividir os lucros na proporção de 50:50 com os desenvolvedores que desejava atrair. Mas até três quartos das receitas vão primeiro para cobrir os custos do consórcio. Entre outras vantagens, a Guiana também concordou em pagar o rendimento das empresas e o imposto sobre as sociedades a partir da sua parte nos lucros.

Contrato  antecipado, unilateral e repleto de impostos

A Associated Press também repercutiu as consequências do acordo. A agência diz que para um relatório do Instituto de Economia Energética e Análise Financeira,  “o contrato é antecipado, unilateral e repleto de impostos, e outras lacunas que favorecem as empresas petrolíferas.”

Tom Sanzillo, diretor do Instituto de Economia Energética e Análise Financeira, aponta para potenciais problemas para a Guiana daqui a alguns anos, quando a produção estiver esgotada e alguém tiver de pagar para desativar a infraestrutura petrolífera.

A prática da indústria normalmente envolve a criação de um fundo para custos de desmantelamento, que são retirados das receitas do petróleo ao longo da duração do contrato, de acordo com Kellas. Isto não faz parte do contrato da Guiana.

O boom do petróleo provoca disputa por despojos

Para a Associated Press o boom do petróleo irá gerar bilhões de dólares para a nação em grande parte empobrecida. Contudo, também é certo que desencadeará lutas acirradas sobre como a riqueza deve ser gasta num lugar onde a política está fortemente dividida em linhas étnicas: 29% da população é de ascendência africana e 40% de ascendência indiana oriental, de trabalhadores contratados trazidos para a Guiana depois que a escravidão foi abolida.

A AP disse ainda que ‘os especialistas preocupam-se com o fato de a Guiana não ter a experiência e o quadro jurídico e regulamentar necessários para lidar com o influxo de riqueza. Eles alertam que isso poderia enfraquecer as instituições democráticas e conduzir o país num caminho semelhante ao da vizinha Venezuela, um petroestado que mergulhou no caos político e econômico.

A agência cita um relatório da USAID que alerta para “A instabilidade política da Guiana suscita preocupações de que o país não esteja preparado para a sua riqueza recém-adquirida sem um plano para gerir as novas receitas e desembolsar equitativamente os benefícios financeiros.”

A AP alertou, igualmente, para o fato de que mais de 40% da população vivia com menos de 5,50 dólares por dia quando a produção começou em Dezembro de 2019, prevendo-se que cerca de 380.000 barris por dia aumentem para 1,2 milhões até 2027.

Os riscos de vazamentos e os problemas do clima

Antes de mais nada, como em todos os casos de exploração de petróleo o da Guiana também tem riscos. Segundo informações do Guardian, em agosto de 2021, ‘O enorme projeto da ExxonMobil enfrenta acusações de desrespeito pela segurança por parte de especialistas que afirmam que a empresa não se preparou adequadamente para um possível desastre’.

‘Os especialistas afirmam que a Exxon parece tirar partido de um governo despreparado num dos países de mais baixo rendimento da América do Sul, permitindo à empresa contornar a supervisão necessária’.

Mais de 2 bilhões de toneladas métricas de CO2

O Guardian lembra que o projeto da Exxon enviará para a atmosfera mais de 2 bilhões de toneladas métricas de CO2, que destroem o clima. Contudo, diz o jornal, a Exxon afirma que os seus objetivos climáticos são “alguns dos mais agressivos.”

Vincent Adams, engenheiro petrolífero e ambiental que trabalhou durante 30 anos no Departamento de Energia dos EUA antes de regressar à sua terra natal, a Guiana, para se tornar diretor executivo da Agência de Proteção Ambiental,  sugere que a Exxon está economizando para aumentar os lucros. A Exxon “não respeita a saúde, a segurança e o meio ambiente das pessoas.”

Por outro lado, matéria do Mongabay diz que o governo da Guiana afirma que o país  já alcançou emissões líquidas zero de carbono e acrescenta que reduzirá ainda mais as emissões em 70% até 2030.

“Já estamos onde o mundo tenta chegar até 2050”, disse o vice-presidente Bharrat Jagdeo a um jornal local em Outubro de 2021. Ele atribuiu isto às vastas florestas da Guiana, que funcionam como sumidouros de carbono.

A mesma fonte destacou uma declaração do presidente Irfaan Ali a outros líderes mundiais na COP26: “Embora nos tenhamos tornado recentemente produtores de petróleo, apoiamos a remoção dos subsídios à produção de combustíveis fósseis e defendemos um forte preço global do carbono.”

A produção mundial de petróleo e o Acordo de Paris

Antes de culpar a Guiana, é oportuno lembrar a conclusão do relatório do  Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), publicado em 9/11: ‘Os governos planejam produzir cerca de 110% mais combustíveis fósseis em 2030 do que seria consistente com a limitação do aquecimento a 1,5°C; e 69% mais do que seria consistente com 2°C’.

Assim, a esta altura muitos cientistas acreditam num aquecimento, sobre os níveis pré-industriais, de no mínimo 2ºC, e isto se começarmos a agir já. E, apesar dos pesares, este combate ainda não está fixado como um programa como deveria nos radares das elites mundiais.

Por último, se alguém tem ‘culpa’, somos todos nós: a mídia tradicional que dá pouco espaço, políticos e legisladores, empresários, jornalistas, estudantes, flibusteiros da internet, e assim por diante.

Buraco grande demais

Antes a questão da produção de petróleo fosse tudo. O relatório da ONU revela que ‘embora 17 dos 20 países apresentados tenham se comprometido a atingir emissões líquidas zero nenhum se comprometeu a reduzir a produção de carvão, petróleo e gás, em linha com a limitação do aquecimento a 1,5°C’. 

Não por acaso, ‘abrimos as portas do inferno’ tornou-se bordão do secretário-geral da ONU.  Infelizmente, este personagem singular está só em seu pleito; e é o único a demonstrar saber o que vem pela frente.

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