A guerra dos chips e o reshoring

A guerra dos chips redefine a geopolítica global, conectando Taiwan, EUA e China em uma disputa pela supremacia tecnológica

Evandro Milet – Portal ES 360 – 24/11/2024

A 2ª Guerra Mundial foi decidida por aço e alumínio, e em seguida veio a Guerra Fria, que foi definida pelas armas atômicas. A rivalidade entre EUA e China pode muito bem ser determinada pela capacidade de computação. Estrategistas em Pequim e Washington já perceberam que toda tecnologia avançada – da IA a sistemas de mísseis, de veículos autônomos a drones armados – exige chips com tecnologia de ponta, conhecidos mais formalmente como semicondutores ou circuitos integrados. Uma pequena quantidade de empresas controla a produção dos chips, mas foram eles que criaram o mundo moderno.

A primazia militar dos EUA decorre em grande parte de sua capacidade de aplicar chips para utilizações militares. No período entre 1965 e 1968 as campanhas de bombardeio no Vietnam lançaram mais de 800 mil toneladas de bombas, mais do que foi lançado no Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial. Entretanto, esse poder de fogo teve impacto marginal, porque a maioria das bombas errou o alvo. A chegada das bombas Paveway, teleguiadas a laser da Texas Instruments coincidiu com a derrota dos EUA, mas quase ninguém percebeu que o Vietnã havia sido um campo de testes para armas que combinavam microeletrônica e explosivos, de maneiras que revolucionariam a guerra e transformariam o poder militar dos EUA a partir dali.

A tremenda ascensão da Ásia no último meio século também foi construída sobre uma base de silício à medida que suas crescentes economias se especializaram na fabricação de chips e na montagem de computadores e smartphones que esses circuitos integrados possibilitam. Cerca de 25% da receita da indústria de chips são originários dos telefones.

A Apple, por exemplo, não fabrica absolutamente nenhum desses chips. Ela compra a maioria no mercado: chips de memória da japonesa Kioxia, chips de radiofrequência da californiana Skyworks e chips de áudio da Cirrus Logic, sediada em Austin, no Texas. A Apple projeta internamente os ultracomplexos processadores que fazem funcionar o sistema operacional de um iPhone, mas não pode fabricar esses chips, que só podem ser produzidos por uma única empresa em um único prédio, a fábrica mais cara da história da humanidade, a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company, a TSMC em Taiwan.

Os chips de Taiwan fornecem 37% da nova capacidade computacional do mundo a cada ano. Duas empresas coreanas produzem 44% dos chips de memória do mundo. A empresa holandesa ASML fabrica 100% das máquinas de litografia ultravioleta extrema sem as quais chips de tecnologia de ponta são impossíveis de fabricar. Esses países são suscetíveis de pressões geopolíticas pelos EUA, como já vem acontecendo. Como a China lida com isso? Tentando replicar em casa, mas o processo é caro, demorado e altamente complexo tecnologicamente.

A cadeia de suprimentos de semicondutores dos dias de hoje exige componentes originários de muitas cidades e países, porém quase todos os chips fabricados ainda têm uma conexão com o Vale do Silício ou são produzidos com ferramentas projetadas e fabricadas na Califórnia.

Enquanto a China e os EUA lutam pela supremacia, esse futuro depende de uma pequena ilha que Pequim considera uma província rebelde e os EUA se comprometeram a defender à força.

Um único ataque de míssil na instalação de fabricação de chips mais avançada da TSMC poderia sem a menor dificuldade provocar centenas de bilhões de dólares em danos, pois acumularia atrasos na produção de telefones, data centers, automóveis, redes de telecomunicações e outras tecnologias.

O livro “ A Guerra dos chips” de Chris Miller, de onde foram tiradas essas informações, conta a história da microeletrônica e como os semicondutores definiram o mundo em que vivemos, determinando a forma de política internacional, a estrutura da economia global e o equilíbrio do poder militar. 

Uma invasão de Taiwan pela China, a imposição de barreiras tarifárias pelo governo Trump ou as ações contra as big techs no mundo não podem ser analisadas sem perceber como funciona de fato a cadeia de produção de chips e o impacto de qualquer alteração nessa dinâmica, como uma tentativa de reshoring, que não seria rápida e certamente muito perigosa para a economia global e até para a paz mundial.

A guerra dos chips e o reshoring – ES360

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FT: China retalia EUA após novas restrições sobre importação de tecnologias para chips

Ministério do Comércio da China anunciou nesta terça-feira que vai proibir a exportação aos EUA dos chamados itens de uso duplo

Por Valor/Financial Times — 03/12/2024

A China proibiu as remessas aos EUA de vários minerais e metais usados na produção de semicondutores e em aplicações militares, em uma rápida retaliação de Pequim contra novos controles sobre as exportações americanas anunciados por Washington.

O Ministério do Comércio da China anunciou nesta terça-feira que vai proibir a exportação aos EUA dos chamados itens de uso duplo (civil e militar), como gálio, germânio, antimônio e materiais superduros, e impor restrições mais rigorosas relacionadas ao grafite.

O ministério acusou Washington de usar “o comércio exterior e a tecnologia como armas” sob o pretexto de segurança nacional. A retaliação se dá após os EUA terem imposto, na segunda-feira,  outra rodada de amplos controles sobre as exportações, concebidos com a ideia de dificultar o desenvolvimento da inteligência artificial militar pela China.

“Para proteger a segurança nacional […] a China decidiu fortalecer os controles de exportação sobre itens de uso duplo destinados aos EUA”, comunicou o ministério, acrescentando que as medidas seriam aplicadas de imediato.

Por sua vez, quatro grandes associações setoriais chinesas que representam empresas das áreas de internet, automóveis, semicondutores e comunicações também reagiram às medidas americanas, orientando as integrantes a reduzir a compra de chips dos EUA.

“Os produtos de chips dos EUA não são mais seguros ou confiáveis, e os setores chineses pertinentes devem ter cautela ao adquiri-los”, declarou a Associação da Indústria de Semicondutores da China.

Os minerais e metais embargados são usados na produção de semicondutores, baterias, componentes de equipamentos de comunicação e produtos militares, como munições perfurantes.

A China já vinha reforçando os controles de exportação em resposta às crescentes sanções americanas e de seus aliados sobre os chips. Restrições anteriores às remessas de germânio e gálio resultaram em altas de quase 100% nos preços desses minerais na Europa.

A nova proibição chinesa às exportações deixa claro que o governo do presidente Xi Jinping está disposto a atacar interesses econômicos ocidentais em retaliação às restrições aos chips impostas por Washington.

“Antes, a China havia concluído que conter os ataques desaceleraria o ritmo de dissociação [entre as duas economias], mas agora eles concluíram que conter os ataques é um convite a mais sanções dos EUA, e que é necessário reagir para impor custos”, disse Scott Kennedy, especialista em China do CSIS, um centro de estudos de Washington.

O Conselho de Segurança Nacional (NSC, na sigla em inglês) dos EUA comunicou “ainda [estar] avaliando” os controles, mas que tomará medidas para mitigar seus impactos e dissuadir “ações coercitivas” de Pequim.

“Esses novos controles apenas reforçam a importância de intensificar nossos esforços com outros países para reduzir a exposição a riscos e diversificar as cadeias de suprimentos cruciais, afastando-as da República Popular da China”, ressaltou o NSC.

Especialistas em China nos EUA estavam na expectativa para saber se Pequim intensificaria a retaliação contra os controles sobre as exportações americanas.

“Esta é uma sinalização para o novo governo Trump de que a China está preparada para responder com medidas retaliatórias”, disse Wendy Cutler, especialista em comércio exterior do Asia Society Policy Institute.

O impacto imediato das medidas é incerto, segundo Cutler, tendo em vista que os EUA já vinham diversificando suas cadeias de suprimentos. “Mas a China pode adicionar outros produtos à lista de controle das exportações, o que teria um impacto muito maior” sobre os EUA.

No início do ano, a China ameaçou, de forma reservada, restringir a exportação de minerais críticos para o Japão, caso Tóquio aderisse aos controles de exportação dos EUA.

A China produz 98% do suprimento mundial de gálio e 60% do de germânio, segundo a Agência de Inspeção Geológica dos EUA (USGS).

Os controles americanos anunciados na segunda-feira incluíram restrições mais rigorosas à exportação de ferramentas cruciais para a produção de semicondutores e uma proibição à exportação para a China de chips de “memória de alta largura de banda” (HBM), um componente fundamental para produtos de inteligência artificial.

Ainda assim, analistas da Bernstein disseram que as restrições americanas foram menos severas do que se imaginava. Empresas japonesas de equipamentos para chips foram vistas como tendo sido beneficiadas pelas novas restrições, com as ações do setor levando o índice Nikkei a seu maior patamar em três semanas na terça-feira. A Tokyo Electron teve alta de 4,3%, enquanto a Disco Corp e a Lasertec avançaram 6,1% e 4,3%, respectivamente.

Washington também adicionou 136 empresas chinesas a uma lista especial de restrições comerciais dos EUA, entre as quais a Wingtech, uma importante fornecedora da Apple e da Samsung que vinha se empenhando em adquirir tecnologia estrangeira de semicondutores.

Desde 2018, a Wingtech gastou mais de US$ 4 bilhões, na aquisição da fabricante holandesa de semicondutores Nexperia. Também tentou comprar a Newport Wafer Fab, maior fabricante de chips do Reino Unido, em transação que acabou sendo vetada pelo governo britânico.

A inclusão da Wingtech na lista especial de restrições dos EUA fez suas ações negociadas em Shenzhen caírem mais de 10% em duas sessões, o que coloca em evidência o delicado equilíbrio para as empresas chinesas entre expandir seus negócios internacionais e apoiar as prioridades políticas de Pequim em casa.

Antes, a Wingtech havia comprado uma empresa com negócios relacionados aos módulos de câmeras da Apple de outro grupo chinês,depois de ele ter sido alvo de sanções em 2020.

“As empresas ocidentais não compram mais de nós”, disse um gerente de uma firma na lista de restrições. “Por dois anos, basicamente deixamos de crescer, enquanto substituíamos os componentes estrangeiros”.

De acordo com Charlie Chai, da firma de análises 86Research, a Wingtech poderia ser desmembrada caso isso seja necessário para manter negócios internacionais. Ele destacou que os novos controles dos EUA fecharam brechas, tornando mais difícil para as empresas de chips chinesas comprarem equipamentos estrangeiros.

“Isso se transformou num clássico jogo de gato e rato, mas o espaço para manobrar está encolhendo rapidamente para as empresas chinesas”, disse.

A Wingtech não respondeu de imediato a um pedido para se pronunciar. A Nexperia informou que os controles dos EUA não se aplicam a ela nem a suas subsidiárias.

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China precisa do biocombustível brasileiro para diversificar suas fontes de energia

O mercado de biocombustíveis cresce rapidamente na China, e empresários brasileiros enxergam a expansão como oportunidade

Por Mario Camera, Para o Valor — 29/11/2024

A China, maior emissora mundial de gases de efeito estufa, enfrenta o desafio de reduzir sua dependência de combustíveis fósseis e diversificar suas fontes de energia. A potência asiática é a quarta maior produtora de biocombustíveis do mundo – atrás de Estados Unidos, Brasil e União Europeia – e investiu bilhões de dólares nos últimos anos para ampliar a produção.

O biodiesel é predominantemente usado no país para a geração de energia elétrica, em embarcações de pesca e no maquinário agrícola, com o transporte rodoviário respondendo por cerca de um terço da demanda total, segundo dados da Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês). Informações sobre a produção de outros tipos de biocombustível, como biobutanol e diesel renovável, são limitadas, o que para a IEA reflete uma “lacuna no desenvolvimento desse setor”. Embora exporte biodiesel (feito principalmente de óleo de cozinha reciclado), o mercado interno chinês é pequeno em relação à economia. 

Nos últimos anos, o país deu mais importância à eletrificação. Mas o governo lançou em março deste ano um plano para incentivar o uso interno de combustíveis renováveis – haverá um plano-piloto, com participação de 22 cidades (incluindo metrópoles como Pequim e Cantão). A mudança deverá ocorrer principalmente em veículos comerciais, frotas de ônibus e pequenas embarcações. A China também vem importando etanol. Tudo isso é visto por muitos empresários brasileiros como uma oportunidade.

“Existe um enorme potencial. A China está empenhada em reduzir suas emissões de carbono e é um mercado promissor para o biocombustível brasileiro”, afirma Henrique Berbert de Amorim Neto, presidente da Fermentec e do Arranjo Produtivo Local do Álcool (Apla).

No Brasil, o setor está aquecido. Vem batendo recordes de produção ano após ano. A Lei do Combustível do Futuro, que entrou em vigor em outubro, incentiva os dois produtos mais tradicionais, biodiesel e etanol, e outros três – SAF (Combustível Sustentável de Aviação), Diesel Verde (totalmente intercambiável com diesel fóssil) e biometano (que pode ser totalmente intercambiável com gás natural fóssil).

Com a base de recursos naturais e a maturidade do mercado interno, o país pode se tornar um forte competidor no mercado internacional de SAF. Três fábricas devem começar a operar em breve. A BBF lidera um projeto de biorrefinaria na Zona Franca de Manaus (AM), com previsão de produzir 250 milhões de litros anuais de SAF a partir de palma, soja e milho e o início da operação previsto para 2026. A Acelen, por sua vez, anunciou mais de US$ 2,5 bilhões em uma unidade anexa à refinaria de Mataripe, na Bahia, que deverá produzir 500 milhões de litros por ano, a partir de 2027. Já a Petrobras planeja implantar uma unidade similar em Cubatão, São Paulo, com capacidade de 350 milhões de litros anuais – a entrada em operação deve ser em 2029.

Atualmente, o querosene de aviação pode receber no máximo 50% de SAF, mas há expectativas de que até 2030 as aeronaves possam usar 100% do combustível renovável, informa o Fórum Econômico Mundial. Além disso, a China tem a previsão de dobrar sua frota de aviões. O país deve construir fábricas de SAF até o fim de 2025 e há planos de investimento da ordem de US$ 1 bilhão, segundo a agência Reuters. Mesmo com o projeto de produção interna, a China se tornaria candidata natural a importar SAF do Brasil. “O SAF tem potencial superinteressante. As companhias têm metas de redução [de emissões de gás carbônico] e não existe alternativa: vai ter que ser com combustíveis avançados”, diz Camila Ramos, CEO e fundadora da butique de investimentos Clean Energy Latin America (Cela), especializada em energias limpas.

Ramos também acredita no potencial da nova geração de biocombustíveis. “Nosso potencial é o crescimento na produção de biocombustível de segunda geração. O de primeira geração, que usa a cana-de-açúcar como matéria-prima, já era sustentável, bem competitivo. Agora, com combustível de segunda geração, é muito mais”, diz. Biocombustíveis de segunda geração são produzidos a partir de qualquer biomassa, como bagaço de cana, o que eleva muito a produtividade do processo.

Para Suzana Kahn, presidente da Coppe/UFRJ e uma das coordenadoras do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o setor de transporte marítimo chinês é pouco explorado pela indústria de biocombustíveis brasileira. A demande existe, tanto que uma das maiores transportadoras de cargas do mundo, a chinesa Cosco, pretende construir, ela mesmo, uma planta para produzir biodiesel no Brasil. A cientista conta que o projeto, no Pará, se baseia em óleo de palma. “Querem passar a usar o biodiesel no transporte marítimo, que é um transporte que é difícil de abater as emissões”, explica Kahn.

A professora conhece bem a China. Há anos ela faz parte de um grupo de trabalho entre a Universidade de Tsinghua e a Coppe. Para Kahn, o empresário brasileiro precisará se arriscar mais se quiser entrar no mercado chinês de biocombustíveis. “É preciso ter um pouco de apetite pelo risco, porque a minha impressão é que a gente só quer ir no negócio certo. Tem que arriscar um pouco”, diz.

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The Economist: A toda poderosa Alemanha agora está desesperada

À medida que as eleições se aproximam, seu modelo de negócios está em colapso

Por Estadão/The Economist – 24/11/2024 

O Ministério das Finanças do Estado de Baden-Württemberg, no sul da Alemanha, lar de gigantes como Bosch, Mercedes e zf Friedrichshafen, não é um local ruim para sondar as ansiedades da Alemanha. O país está dominado por temores de desindustrialização, enquanto se encaminha para uma eleição que parece certa de que o chanceler, Olaf Scholz, perderá seu cargo se seu partido não o abandonar primeiro.

O ocupante desse ministério, Danyal Bayaz, teme que a Alemanha tenha desperdiçado os “dividendos da globalização” dos últimos 15 anos, subfinanciando a esfera pública em uma era de baixas taxas de juros. Agora, enfrentando um aperto energético, a crescente concorrência da China e a perspectiva de que os Estados Unidos de Donald Trump imponham tarifas de 10% a 20% sobre as importações, o modelo de negócios do país, teme o ministro, está “entrando em colapso”.

Bayaz lamenta a incapacidade da Alemanha de lidar com as novas tecnologias, apesar de seus pontos fortes em pesquisa básica e engenharia. Ele observa que a última grande startup bem-sucedida da Alemanha foi a Sap, uma empresa de software, fundada no momento em que Franz Beckenbauer levou o time de futebol da Alemanha Ocidental à vitória no campeonato europeu de 1972. A Alemanha tem 60 vezes mais pessoas do que a Estônia, mas apenas 15 vezes mais “unicórnios” (startups privadas que valem mais de US$ 1 bilhão).

Essa é uma ladainha conhecida. A indústria alemã, especialmente suas pequenas e médias empresas Mittelstand (termo usado na Alemanha para pequenas e médias empresas), concentrou-se na inovação incremental, deixando-a despreparada para choques tecnológicos como o advento dos veículos elétricos. Os vínculos confortáveis entre empresas, bancos e políticos geraram complacência e resistência à reforma. A adesão dogmática às regras fiscais levou a pontes enferrujadas, escolas decadentes e trens atrasados. O crescimento nos mercados estrangeiros engordou os lucros da Deutschland ag (e as receitas do Tesouro) por um tempo, mas esse modelo orientado para a exportação deixou a Alemanha exposta quando os ventos da globalização se tornaram frios.

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Agora, a Alemanha, que no ano passado substituiu o Japão como a terceira maior economia do mundo, está colhendo os frutos. É difícil discernir qualquer crescimento líquido no PIB real desde antes da pandemia. As previsões são pouco melhores e não levam em conta os riscos de uma guerra comercial trumpiana. A Volkswagen, a maior montadora de automóveis da Europa, está cogitando o primeiro fechamento de fábrica em seus 87 anos de história; até 30 mil empregos podem ser perdidos. O desemprego está aumentando, embora a partir de uma base baixa.

Os altos preços da energia, especialmente depois que a Alemanha teve de se desfazer do gás russo após a invasão da Ucrânia por Vladimir Putin em 2022, são uma reclamação comum entre as empresas de um país onde a manufatura ainda representa 20% do valor agregado bruto. Isso continua sendo quase o dobro do valor da França, embora a produção industrial tenha atingido o pico em 2018 e, desde então, tenha caído mais rapidamente do que em outras partes da UE, especialmente em setores de energia intensiva, como a siderurgia.

As carteiras de pedidos estão em baixa, e os investimentos planejados foram adiados ou transferidos para o exterior. O diretor-presidente da Thyssenkrupp, uma siderúrgica deficitária, disse que a Alemanha está “em plena desindustrialização”. Até mesmo os varejistas foram atingidos. Após a invasão da Rússia, Raoul Rossmann, que dirige uma cadeia de farmácias com sede perto de Hanover que leva o nome de sua família, percorreu suas filiais para descobrir como economizar nas contas de energia.

Outras lamentações incluem a falta de trabalhadores qualificados à medida que a Alemanha envelhece e as camadas de burocracia, muitas delas provenientes de Bruxelas, que o Instituto Ifo, em Munique, calcula que custam à economia € 146 bilhões (US$ 154 bilhões) por ano. Um desenvolvimento crucial, de acordo com Sander Tordoir, do Centre for European Reform (cer), um grupo de reflexão, é a mudança no relacionamento com a China.

Nas décadas de 2000 e 2010, a Alemanha estava perfeitamente posicionada para satisfazer o apetite chinês por seus carros, produtos químicos e widgets de engenharia de precisão: as exportações de mercadorias para a China aumentaram 34% entre 2015 e 2020, mesmo com a queda das exportações para outros países.

Ainda em 2020, a China era um importador líquido de carros, mas no ano passado se tornou o maior exportador do mundo. As empresas chinesas estão se transformando de clientes em concorrentes, passando a comer o almoço não apenas da indústria automobilística alemã, mas também do Mittelstand. “A história dos carros é emblemática, mas também se trata de máquinas e produtos químicos”, diz Tordoir.

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Conforme observado por Clemens Fuest, da Ifo, a China agora responde por apenas 6% do total das exportações alemãs, aproximadamente a mesma participação da vizinha Holanda. Mas a história da China não se resume à dependência da exportação. Tordoir e Brad Setser, economista do Council on Foreign Relations, um think-tank americano, descrevem em um artigo como o “segundo choque da China” pode piorar os problemas industriais da Alemanha.

O mercado interno da China não consegue absorver o excesso de produção de seus fabricantes subsidiados pelo Estado e, como eles buscam clientes no exterior, o superávit comercial do país explodiu. Isso apresenta dificuldades para as empresas alemãs no país e nos mercados estrangeiros. “Os mercados dirigidos pelo Estado na China poderiam fornecer níveis irracionais de financiamento para o investimento chinês em novas capacidades por mais tempo do que a capacidade de solvência de grande parte da indústria alemã”, escreve a dupla.

Como as exportações alemãs para a China diminuíram, os Estados Unidos entraram parcialmente na brecha. Algumas empresas conseguiram explorar as oportunidades abertas pela dissociação dos Estados Unidos da tecnologia chinesa; outras engordaram com a bonança de subsídios desencadeada pela Lei de Redução da Inflação. Mas Trump ameaça tudo isso. Não apenas as tarifas são iminentes – o Bundesbank acredita que elas poderiam cortar um ponto porcentual do PIB alemão -, mas novas restrições americanas poderiam atingir os fabricantes alemães que usam insumos chineses. Elas também acelerarão a busca dos exportadores chineses por mercados alternativos, inclusive a Europa.

A indústria alemã está dividida em relação à China, observa um diplomata: embora muitas empresas do Mittelstand, especialmente as de maquinário, apoiem a política de “redução de riscos”, as montadoras de automóveis e conglomerados como a Basf estão dobrando a aposta. A Volkswagen e a BMW estão planejando novos e grandes investimentos na produção chinesa, assim como empresas de autopeças como a Continental. O lobby do setor automotivo ajudou a garantir que a Alemanha fosse um dos cinco países a votar contra as tarifas da UE sobre as importações de automóveis chineses em outubro.

Dentro do governo alemão, há tensões entre diplomatas e espiões, que querem punir a China com restrições comerciais por apoiar o esforço militar da Rússia, e tipos voltados para o setor que temem que essa seja uma medida que a Alemanha de baixo crescimento não pode permitir.

Acabando com o fetiche

A história da desindustrialização pode ser mais complicada do que parece. A perda de empregos no setor de manufatura reduz a produtividade da Alemanha, que já está em baixa. Mas o valor agregado bruto na manufatura permaneceu estável, mesmo com a queda na produção. Em outras palavras, alguns fabricantes alemães podem estar produzindo coisas mais valiosas e vendendo menos. Essa “qualidade acima da quantidade”, como diz o Deutsche Bank, sugere um futuro para as empresas alemãs de tecnologia de ponta, incluindo carros sofisticados. A Alemanha mantém uma vantagem na tecnologia verde, incluindo turbinas eólicas e eletrolisadores.

Mas isso dificilmente poderá compensar as perdas em outros setores. A Alemanha precisa superar seu “fetiche pela indústria”, avalia Moritz Schularick, do Kiel Institute for the World Economy. As indústrias intensivas em energia não crescem há duas décadas. O setor automotivo tem perdido empregos há seis anos, e uma reversão parece improvável. “Por anos, eles acreditavam que ‘Nós somos os melhores’, e de repente acabou”, diz um oficial da UE.

Forças estruturais profundas estão impulsionando mudanças no modelo industrial da Alemanha. Convencer os alemães de que existe uma alternativa a ser um Exportweltmeister é um trabalho de anos, não meses. Mesmo compensando a diminuição do comércio em outras áreas é uma maratona: apesar dos melhores esforços da Alemanha, as negociações de livre comércio da UE com o Mercosul, um grande bloco comercial da América do Sul, se arrastam há 25 anos (a França, entre outros, continua se opondo).

Para alguns, uma ferramenta mais prática para impulsionar a economia seria reformar outra parte do modelo alemão que não parece mais adequada para os propósitos atuais: a regra de freio da dívida, uma peculiaridade da constituição que limita o déficit orçamentário estrutural anual do governo federal a 0,35% da produção. O freio da dívida é um artefato de uma era passada, diz Max Krahé do Dezernat Zukunft, uma organização de pesquisa baseada em Berlim, quando a Alemanha dependia de outros países que tinham déficits para estimular sua economia. Em um mundo onde a globalização estagnou, esse modelo não funciona mais.

Enquanto isso, as necessidades de investimento público da Alemanha – uma estimativa amplamente citada as coloca em € 600 bilhões (R$ 3,6 trilhões) ao longo de dez anos – tornaram-se grandes demais para serem ignoradas. Além disso, novos fundos terão de ser encontrados para a defesa. Este ano, a Alemanha finalmente atingiu a meta da Otan de 2% do PIB, mas apenas graças a um fundo especial que em breve expirará. É provável que seja ainda mais necessário para apaziguar a nova administração Trump.

Por essas razões, há um crescente senso de que a próxima coalizão, provavelmente liderada por Friedrich Merz, líder dos Democratas Cristãos de centro-direita, estará aberta a uma modesta reforma do freio da dívida. (A Alemanha realizará uma eleição em fevereiro, após o colapso da coalizão de três partidos este mês.) Se isso acontecer, diz Tordoir, um boom de investimentos poderia ajudar a compensar perdas de exportação no curto prazo; feito de forma adequada, investimentos em educação, onde a Alemanha está atrasada em relação aos seus pares, e a infraestrutura poderia elevar a taxa de crescimento de longo prazo da Alemanha. Há muitas ideias para reforma, incluindo aumentar o déficit permitido (ou substituí-lo por diretrizes mais amplas), isentar investimentos públicos dos limites de empréstimo, ou estabelecer fundos fora do livro para infraestrutura ou defesa.

No entanto, como mudanças na constituição, todas essas requereriam uma maioria de dois terços em ambas as câmaras do parlamento. E há todas as chances de que partidos extremistas possam obter uma minoria de bloqueio de um terço no Bundestag (parlamento alemão) após a próxima eleição. Os Sociais-Democratas, portanto, pediram a Merz para considerar dar seu apoio à reforma agora, pois isso daria aos partidos pró-reforma os números de que precisam. Até agora, ele se recusou.

Thorsten Benner, que dirige o Instituto de Política Pública Global de Berlim, diz que a Alemanha passou do “otimismo fácil” dos anos de Angela Merkel para uma “armadilha de melancolia” na qual a política disfuncional, as limitações do freio da dívida, a sobreburocratização e a desconfiança pública se reforçam mutuamente. Ele espera que o próximo governo possa agir como um “disjuntor”.

Isso não parece implausível. Tão desanimador se tornou o clima que, em contraste até mesmo com seis meses atrás, há um crescente senso de que uma mudança profunda é inevitável. Isso formará o pano de fundo para o próximo acordo de coalizão, que pode ver um “grande acordo” no qual Merz aceita ajustes na dívida se seus parceiros concordarem com cortes de impostos ou reforma de bem-estar social. Mas haveria uma ironia trágica se a aritmética parlamentar frustrasse a mudança justamente quando as estrelas se alinham para isso.

The Economist: A toda poderosa Alemanha agora está desesperada – Estadão

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Na transição verde, Brasil pode apostar no biometano

País deveria investir mais neste gás, pois tem um potencial incrível para produzi-lo

Ronaldo Lemos – Folha – 1º.dez.2024 

Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.

O Brasil já é o líder mundial em energia renovável. Poderia dobrar a aposta com o biometano. Trata-se do gás produzido a partir de resíduos como a cana após a produção de álcool, resíduos do milho ou da soja, de animais e até do saneamento. Com a enormidade do agro no país, o potencial brasileiro é imbatível.

Diferente de painéis solares e turbinas eólicas, que são importados, a cadeia do biometano é totalmente dominada pelo Brasil, especialmente por conta da produção de álcool. Vale dizer que a molécula do biometano é igual à do gás natural. Com isso é possível aproveitar toda a infraestrutura já instalada, incluindo o uso em veículos hoje movidos por GNV.

Goiás é um exemplo. Para gerar demanda, o estado está implementando uma frota de 500 ônibus movidos a biometano, o que garante uma demanda de 4 milhões de m³ por mês. Essa iniciativa não só reduz emissões, como diminui custos da frota e gera empregos locais. O estado tem, sozinho, o potencial de geração de 2,2 bilhões de m³ anuais de biometano.

Onde existe produção de açúcar ou álcool no Brasil hoje é possível partir para o biometano. A vinhaça da cana hoje acaba subaproveitada. Ela pode ser colocada em biodigestores e ao ser purificada produzir o gás. O resultado de tudo é o chamado digestato, um fertilizante natural que substitui insumos químicos importados, ajudando na independência do país.

O que Goiás está fazendo lembra o que a China fez com carros elétricos. Para garantir a demanda, cidades como Shenzhen promoveram como política pública a eletrificação da sua frota de táxis e ônibus. Isso impulsionou empresas como a BYD, que hoje atuam globalmente. O resultado foi não só a redução das emissões urbanas, mas também consolidar a liderança chinesa em veículos elétricos.

A título de comparação, o líder mundial em biometano hoje é a Alemanha. O país injeta mais de 10 TWh de biometano nos seus gasodutos de gás natural por ano. Só que o potencial total de produção da Alemanha é limitado a 2 bilhões de m³ por ano (menor do que Goiás). O do Brasil é de 50 bilhões de m³ anuais. Desses, só 2% são explorados.

O biometano também pode ser usado como fonte de energia para data centers, inclusive para inteligência artificial. Com a crescente demanda por esses serviços, o biometano é uma fonte de energia que não é intermitente, isto é, pode garantir de forma constante energia elétrica para o centro de dados. Essa combinação de confiabilidade com sustentabilidade reforça o caminho para o Brasil enriquecer com energia para inteligência artificial, seja localmente ou fornecendo certificados de energia renovável (e créditos de carbono) fora do país.

Só que para tudo isso decolar é preciso que o biometano seja integrado à matriz energética do país. Isso requer investimento em infraestrutura, incluindo gasodutos, biodigestores e políticas claras para setores estratégicos, como transporte e data centers. O resultado é promissor: melhorar a gestão de resíduos, reduzir emissões, empregos e aumento da competitividade local.

Já era – Não se preocupar com impactos ambientais

Já é – Preocupar-se com o impacto ambiental da IA

Já vem – Preocupar-se com o impacto ambiental dos videogames (como no estudo de Eduardo Luersen e Bibiana de Paula)

Na transição verde, Brasil pode apostar no biometano – 01/12/2024 – Ronaldo Lemos – Folha

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O que há por trás dos boicotes

Reações acirradas de grupos franceses ao acordo UE-Mercosul demonstram o quão estratégico ele se tornou

Ana Paula Vescovi – Folha – 30.nov.2024

Economista-chefe do Santander Brasil

Uma carta aberta de uma das maiores redes varejistas francesas iniciou um boicote quase despretensioso sobre a compra de carnes do Brasil; a resposta brasileira, vinda do setor produtivo, traz à tona o potencial destrutivo da guerra comercial.

Os produtores sujeitos às restrições impostas pela França reagiram deixando de vender carnes para a rede europeia no Brasil. O movimento foi tão forte que levou a empresa francesa a uma retratação.

O principal prejudicado? O consumidor, sempre.

A proximidade da reunião de presidentes do Mercosul, no Uruguai, na primeira semana de dezembro atraiu o furor de produtores rurais franceses. A diplomacia dos dois blocos —União Europeia e Mercosul— trabalha para pautar e votar pela aprovação do acordo birregional.

O Brasil tem demonstrado com ênfase o seu interesse na aproximação. Do lado europeu, os mais enfáticos são os alemães, os espanhóis e os portugueses. Além da França, Polônia, Áustria e Itália apresentaram algum nível de resistência.

O que está em jogo é uma frente de redução de tarifas, com definição de quotas em alguns casos, para intensificar a corrente de comércio e serviços entre as duas regiões.

Os ganhos de comércio são há muito tempo conhecidos na literatura. São um verdadeiro ganha-ganha. Os países podem se especializar na produção de bens e serviços em que são mais eficientes, levando ao aumento da produtividade geral, do nível de renda e da produção e revelando vantagens comparativas.

Ademais, o comércio internacional promove a concorrência e a contestação de mercados, o que contribui para preços mais baixos, melhor qualidade e práticas de produção e maior inovação. O acesso a mercados maiores permite que as empresas produzam em maior escala, reduzindo potencialmente os custos por unidade e que os consumidores tenham acesso a uma gama maior de produtos e serviços de diferentes países.

Pode facilitar a troca de conhecimento e tecnologia entre países, promovendo inovação e maior crescimento potencial, além de fomentar os investimentos estrangeiros.

Embora alguns empregos possam ser deslocados entre setores e regiões, o comércio internacional cria oportunidades de trabalho em setores exportadores e nas indústrias de apoio. E não apenas empresas grandes exportam.

Os consumidores, por sua vez, podem obter preços mais baixos e maior poder de compra. E os países, por fim, podem se beneficiar com a promoção de laços diplomáticos e a paz entre as nações por meio de uma saudável interdependência econômica.

Além da teoria, a realidade demonstrou isso. Após a entrada da China na OMC (Organização Mundial do Comércio), em 2001, e economia mundial vivenciou anos de crescimento robusto com inflação controlada e juros baixos. O aumento de renda ampliou a classe média global, movimento que foi mais forte nos países em desenvolvimento. Estimativas apontam crescimento de 50% na América Latina. O que deu errado tem sido objeto de muitos estudos, mas a crise financeira global de 2008/2009 foi uma inflexão, entre outros fatores.

O concreto é que tudo mudou desde então e, nos últimos anos, as guerras comerciais têm prevalecido. As recentes eleições presidenciais nos Estados Unidos sancionaram mais aumentos de tarifas e mais disputas comerciais, o que tende a escalar no próximo ano. Esse é um fator importante por trás da reação dos franceses. A integração comercial entre Mercosul e União Europeia ficou ainda mais estratégica, para os dois lados, depois da eleição dos Estados Unidos.

De um lado, uma região que produz automação industrial de excelência, capaz de impulsionar a modernização do parque industrial na América do Sul. De outro lado, uma região capaz de alavancar os objetivos da transição (e da segurança) energética na Europa. O Brasil produz o crédito de carbono com o menor custo do planeta.

No meio, estão os produtores de alimentos na França e em algumas outras localidades. São acostumados a pesados subsídios e a uma regulação ambiental severa, com estrutura fundiária diferente da nossa (menos concentrada).

A acidez e o tom ofensivo das manifestações na França revelam nada mais do que o tamanho da briga para manter o status quo. Simplesmente negligenciam os anos de avanços tecnológicos e na vigilância sanitária que tivemos. No Brasil, iniciativas no próprio setor privado têm assegurado políticas rigorosas de desmatamento ilegal zero com 100% de rastreabilidade nos seus negócios de exportação. E não somente para a Europa. O uso de satélites de rastreamento e da inteligência artificial já é uma realidade no monitoramento de fazendas exportadoras.

Mas toda crise traz aprendizados. O primeiro deles seria assegurar um caminho consistente de “acreditação” para os nossos exportadores, com avanços consistentes no desmatamento ilegal zero e melhora na aplicação e fiscalização do Código Florestal. E muita disposição para explicar os progressos. O Brasil já se estabeleceu como uma potência pecuária, temos uma das agriculturas mais modernas do planeta, com muitos avanços por vir na área da agroenergia.

Com efeito, há muito o que avançar. E as vantagens do comércio podem trazer fortes incentivos para compromissos de preservação ambiental. Se a Europa está fidedignamente engajada no desmatamento ilegal zero, então não há melhor política do que aprofundar a (saudável) interdependência comercial com os países da região amazônica.

O que vimos com os boicotes foi uma demonstração pedagógica dos efeitos do protecionismo, caminho errado a seguir.

Acordo UE-Mercosul: o que há por trás dos boicotes – 30/11/2024 – Ana Paula Vescovi – Folha

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Semicondutores chineses se tornam peça-chave na indústria do Brasil

Componentes eletroeletrônicos lideram a pauta de importados e são vitais para competitividade das empresas

Por Carlos Vasconcelos, Para o Valor — 29/11/2024

A estratégia chinesa para ocupar terreno no comércio global foi extremamente bem executada, ao longo das últimas décadas. Os chineses se tornaram parte fundamental da cadeia de suprimentos de tecnologia no mundo – e no Brasil. Nos quatro primeiros meses deste ano, foram importados US$ 18,8 bilhões da China. No topo da lista de compras estão válvulas e tubos termiônicos – peças seladas a vácuo e com componentes eletrônicos variados em seu interior, usadas em diversos segmentos da indústria –, que somaram US$ 1,7 bilhão. Em segundo lugar, outro item de alta tecnologia: equipamentos de telecomunicações, que somaram US$ 1,04 bilhão de janeiro a abril. Os dois itens líderes corresponderam a 14% do total.

O exemplo mostra que os brasileiros não gostam de comprar apenas roupas baratinhas da China. O país supria 19,2% das importações de bens duráveis do Brasil no primeiro semestre de 2022. Essa parcela disparou para 51% no primeiro semestre deste ano, segundo análise do FGV/Ibre.

Negociar com a China tem algumas complexidades a mais, em comparação com compras no Ocidente. Por isso, as empresas importadoras tratam como tema estratégico a forte presença do país asiático na cadeia de suprimentos. Bruno Machado Teixeira, gerente de relações com investidores da Intelbras, mantém-se atento à presença crescente da China nas linhas de negócio da empresa. “Uma parcela relevante do nosso custo vem da importação de componentes eletrônicos de diversos países, e a China representa cerca de 60% desse total”, afirma.

Teixeira destaca a importância da integração na cadeia de suprimentos na China, para manter a competitividade da Intelbras. A empresa mantém um escritório em Shenzhen desde 2005, para estreitar o relacionamento com parceiros estratégicos chineses.

Segundo Teixeira, a companhia desenvolveu com o tempo um processo minucioso para selecionar fornecedores. “Para começar, fazemos auditorias e homologações de qualidade. Ao longo do processo de fornecimento, realizamos inspeções em cada lote preparado, além de auditorias adicionais para monitorar continuamente os processos dos fornecedores”, diz.

A presença chinesa no mercado brasileiro também é forte no segmento de infraestrutura para redes de telecomunicação. “As principais operadoras de telefonia usam equipamento da Huawei. Hoje, nossos equipamentos servem a 95% da população brasileira”, diz Atilio Rulli, vice-presidente de relações públicas da Huawei América Latina e Caribe.

Rulli observa que o 5G já alcança 538 municípios brasileiros, com 25 milhões de acessos – e enxerga o potencial para expansão. “Apesar de esse número ser muito positivo, cerca de cinco mil municípios precisam de infraestrutura 5G”, diz. Ou seja, mais negócios para a Huawei.

Marcos Ferrari, presidente-executivo da Conexis Brasil Digital, associação que reúne empresas de telecomunicações e conectividade no Brasil, mostra-se impressionado com a competência chinesa ao longo dos anos para conquistar espaço num mercado extremamente competitivo e sofisticado. “É um mercado muito consolidado, que dificulta a chegada de novos players ou a substituição das importações”, diz. Mas a concorrência agressiva dos players é positiva para os compradores. “O preço da conexão por Gigabyte caiu 80% em menos de dez anos e isso tem um forte impacto na competitividade da economia.”

Bruno Russo, sócio-fundador da plataforma de trading Timbro, vê grande potencial de crescimento das importações da China também no segmento de bens de capital. “Há um movimento de modernização do parque industrial brasileiro e a China já responde por 60% dessas vendas”, diz.

As importações da China também são decisivas para as empresas da Zona Franca de Manaus, explica Augusto Cesar Rocha, coordenador da Comissão de Logística do Centro da Indústria do Estado do Amazonas. A demanda gerada pelas indústrias instaladas no polo torna o Amazonas a terceira principal porta de entrada das importações chinesas no país, atrás apenas de São Paulo e Santa Catarina. Em 2023, o Estado recebeu US$ 3,5 bilhões em produtos chineses, especialmente eletroeletrônicos.

Como não há tensão geopolítica entre Brasil e China, as empresas brasileiras podem se concentrar em questões de gestão, como qualidade, preços, prazos e bom relacionamento com os fornecedores. Nos Estados Unidos e na Europa, grandes empresas de tecnologia da informação se empenharam, nos últimos anos, em depender menos da China, deslocando suas cadeias de suprimentos para países como Índia e Vietnã. Conseguiram esse feito, em parte, mas com custo. A empresa americana de análise financeira S&P Global alertou em setembro que haverá dificuldades crescentes, com perda de eficiência e de capital, para as companhias que insistirem em se afastar da China.

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Os modelos de negócios que podem recuperar a Amazônia e desenvolver a economia, segundo estudo

Pesquisa da The Nature Conservancy e a Aliança pela Restauração da Amazônia avaliou mais de 60 empreendimentos para encontrar as áreas com maior impacto da bioeconomia

Letícia Ozório – Repórter de ESG – Exame – 28 de novembro de 2024 

A Amazônia enfrenta um momento crítico, com mais de 120 mil focos de incêndio registrados em 2024 e mais de 70 milhões de hectares desmatados nas últimas cinco décadas. Diante desse cenário, integrar preservação ambiental, restauração da biodiversidade e desenvolvimento econômico é essencial para mitigar os danos ao bioma.

Por isso, a The Nature Conservancy e a Aliança pela Restauração da Amazônia se uniram para investigar os modelos de negócios sustentáveis, explorando casos de sucesso que alinham economia e conservação. O estudo “Bioeconomia da Restauração na Amazônia” analisou 61 empreendimentos e identificou quatro modelos de negócios que geram restauração efetiva de áreas degradadas, além de destacar os pontos positivos e negativos observados no trabalho de 13 organizações-destaque envolvidas na bioeconomia.

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Sistemas agroflorestais

O estudo avaliou que os empreendimentos agrícolas são ferramentas capazes de possibilitar tanto o desenvolvimento econômico do bioma quanto a melhoria da biodiversidade e a restauração produtiva da área plantada. Trata-se de áreas de cultivo de espécies nativas da região, como cacau, café e açaí.

De acordo com a pesquisa, esses empreendimentos também possibilitam desenvolver sistemas econômicos inovadores para o bioma, como o blended finance e a venda de créditos de carbono, que podem financiar ainda mais sistemas produtivos alimentares.

Entre os benefícios está o impacto dos empregos a partir da mão de obra utilizada no plantio, a colheita e comercialização dos produtos.

Algumas das organizações que se destacam são Belterra Agroflorestas, Café Apuí Agroflorestal, Courageous Land, Coopercau e Rioterra.

Coleta de sementes nativas

São negócios e organizações voltadas para a recuperação de ecossistemas degradados, como unidades de conservação, Terras Indígenas e áreas rurais. Esses grupos também contam com a colaboração e parceria com comunidades locais e povos indígenas para a bioeconomia e podem influenciar na criação de práticas sustentáveis de manejo da floresta.

Como ponto positivo, esses negócios propõem uma alternativa de renda para os povos que vivem no bioma, gerando também insumos para a recuperação das florestas. Os empreendimentos também enfrentam desafios técnicos e logísticos, como para criar e catalogar seus inventários de biodiversidade.

Segundo o levantamento, mais de mil pessoas são beneficiadas diretamente, enquanto até 5 mil estão envolvidas indiretamente a partir da coleta das sementes. No entanto, o setor tem dificuldade para garantir empregos formais.

Os negócios de destaque nesta categoria são: Associação Rede de Sementes do Xingu (ARSX) e Rede de Sementes da Bioeconomia Amazônica (RESEBA).

Produtos da sociobiodiversidade

A partir do trabalho de cooperativas e comunidades tradicionais, o agroextrativismo na Amazônia rompe com o modelo de exploração de outras partes de bioma. A pesquisa informa que os grupos estão em diferentes graus de maturidade econômica e escala, mas que possibilitam a diversificação e verticalização da produção agrícola sustentável.

Entre os benefícios estão o aumento da biodiversidade e a relação positiva com as comunidades locais.

As organizações que se destacaram nesta iniciativa são: Amazonbai, Cooperacre, Cofruta e Caepim.

Restauração ecológica para geração de créditos de carbono

São empresas novas, com menos de cinco anos, que se especializam na restauração ecológica de larga escala em diversos biomas. Entre as áreas avaliadas é a categoria com maior resultado financeiro, apontado em milhões de dólares captados a partir do trabalho em áreas restauradas ou em restauração. Além da venda dos créditos de carbono, o setor também busca outros potenciais econômicos, como créditos de biodiversidade e manejo de espécies nativa.

Ao longo dos últimos anos, mais de 10 mil hectares de pastagem antes degradada passaram por restauração a partir dessa indústria, o que representa captura de mais de 5,5 milhões de toneladas de CO2 nos próximos 30 anos.

O estudo avalia que são mais de 350 pessoas envolvidas no trabalho direto na Amazônia, além de outros 2 mil empregos indiretos previstos para os próximos quatro anos com a regulação do mercado regulado e o crescimento do mercado voluntário de carbono.

Os rendimentos das empresas avaliadas pela pesquisa são em cerca de R$ 800 milhões. São destaque na categoria: Mombak e re.green.

Os modelos de negócios que podem recuperar a Amazônia e desenvolver a economia, segundo estudo | Exame

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O futuro é coisa do passado

Além de anteciparem características do presente, clássicos da ficção científica desenharam cenários que influenciam até hoje como imaginamos o futuro


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GUI LOUREIRO – Fast company Brasil – 26-11-2024 

E se eu dissesse que o futuro não é algo que está por vir, mas algo que já foi escrito? Que aqueles bilionários obcecados por ficção científica são, na verdade, profetas tecnológicos disfarçados?

O que obras como “1984”, de George Orwell, e Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, têm em comum com os smartphones, as redes sociais e os algoritmos que moldam nossas vidas?

A resposta é simples: além de anteciparem características do nosso presente, esses clássicos da literatura desenharam cenários que influenciam até hoje a forma como imaginamos o futuro.

A ficção científica sempre transcendeu o entretenimento, funcionando como uma lente para identificar tendências e refletir sobre dilemas éticos, sociais e tecnológicos ainda por vir. Ao revisitarmos este passado, percebemos que o futuro, frequentemente, já está inscrito em suas páginas. Basta existir uma ideia boa que sempre teremos alguém tentando transformar aquilo em realidade.

Já dizia Einstein, “a distinção entre passado, presente e futuro é apenas uma ilusão teimosamente persistente”.

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Grandes histórias de ficção científica compartilham uma característica comum: servem como verdadeiros “experimentos mentais”. Elas propõem perguntas como “e se…?”.

E se a inteligência artificial assumisse o controle de nossas vidas (“Eu, Robô”, de Isaac Asimov)? E se vivêssemos em uma sociedade onde tudo fosse transmitido em tempo real (“O Show de Truman”, que remete a ideias exploradas em “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury)?

Esses cenários, inicialmente fictícios, frequentemente se convertem em inspirações para inovações tecnológicas reais. Um exemplo clássico é o livro “Neuromancer”, de William Gibson. Publicada em 1984, a obra introduziu o conceito de “ciberespaço” e explorou temas como realidade virtual e hacking.

O universo que Gibson nos apresenta tem como exemplo pessoas que conseguem conectar suas mentes ao computador e navegar com seu avatar em um universo composto por bits e bytes, além de conversar e interagir, instantaneamente, com pessoas que estavam fisicamente longe.

Embora à época essas ideias parecessem distantes da realidade, hoje vivemos exatamente nesse universo conectado que Gibson imaginou. E vou além: se quiserem entender realmente tudo que o tal do metaverso é capaz de proporcionar, leiam “Jogador Nº 1”, de Ernest Cline.

Além de inspirar conceitos visionários, a ficção científica também previu tecnologias que, inicialmente, pareciam “coisas do futuro”, mas que demoraram anos – ou até décadas – para se integrar ao nosso cotidiano. Alguns exemplos mais notáveis: QR Code, realidade aumentada (RA), realidade virtual (VR), Second Life e o metaverso, videoconferências, entre outros.

A ficção científica não apenas antecipa inovações tecnológicas, mas também examina seus impactos sociais e éticos. Autores como Philip K. Dick alertaram sobre os perigos do controle estatal e da manipulação de informações (como em “Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?”, que inspirou o filme “Blade Runner“). Júlio Verne, no século 19, imaginou submarinos e viagens espaciais que só se concretizariam muitas décadas depois.

Para profissionais de marketing, a ficção científica oferece mais do que inspiração criativa. Ela é um estudo valioso sobre a relação entre tecnologia, pessoas e narrativas. Hoje, em um mundo no qual o futuro chega cada vez mais rápido – com IA generativa, realidade aumentada e o metaverso se tornando parte do cotidiano –, a compreensão dessas dinâmicas é essencial.

Quer prever o comportamento do consumidor nos próximos cinco ou 10 anos? Estude como as pessoas reagem às mudanças tecnológicas descritas em histórias fictícias.

GRANDES HISTÓRIAS DE FICÇÃO CIENTÍFICA SERVEM COMO VERDADEIROS “EXPERIMENTOS MENTAIS”.

Quer criar campanhas mais ousadas? Explore obras como “Snow Crash” ou as reflexões éticas de “Black Mirror“, que claramente dialogam com a tradição da ficção científica clássica.

Se quisermos compreender (ou mesmo prever) o que nos aguarda, é necessário revisitar o que já foi imaginado. Ler ficção científica é como viajar no tempo: ela revela os sonhos e temores de gerações passadas e nos permite entender como essas visões moldaram nosso presente. Mais do que isso, ensina que o futuro não é uma inevitabilidade – ele depende das escolhas que fazemos no presente.

Por isso, da próxima vez que pensar em como será o mundo daqui a 10 anos, não busque respostas apenas em relatórios de tendências ou na inteligência artificial. Retorne às obras de Asimov, Bradbury, Gibson e Le Guin. Elas não contêm todas as respostas, mas certamente o ajudarão a formular as perguntas certas.


SOBRE O AUTOR

Gui Loureiro é diretor de estratégia da agência de publicidade e marketing 3mais

O futuro é coisa do passado | Fast Company Brasil

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Permacrise ou polioportunidade: Troyjo vê uma rota para o Brasil no mapa de neologismos econômicos

País pode escapar das pressões geopolíticas para se tornar fornecedor-chave de alimentos e energia, acredita o ex-presidente do Banco dos Brics

Por Guilherme Guerra — Valor – 27/11/2024 

Crises globais sucessivas, simultâneas e sem fim inspiraram pensadores a cunhar o termo “permacrise”, que chegou a ser a palavra do ano em 2022 segundo o dicionário americano Collins. Entram nesse contexto a pandemia de covid-19, a guerra na Ucrânia, depois o conflito entre Israel e Hamas, as eleições de líderes que querem reverter a ordem global das últimas décadas e, ainda, a desaceleração econômica geral — um cenário no qual o Brasil pode ficar espremido em meio aos desarranjos entre as grandes potências.

No entanto, para o economista e sociólogo brasileiro Marcos Troyjo, que foi presidente do Banco dos Brics entre 2020 e 2023, esse ambiente tumultuado pode abrir uma séria de avenidas para o Brasil nos próximos 25 anos, algo que ele chama de “polioportunidade” — isso, é claro, “se soubermos ler os sinais de maneira razoavelmente inteligente”, disse ele na conferência da HSM+, em São Paulo, na manhã desta quarta-feira.

O Brasil pode surfar em quatro grandes dinâmicas mundiais que já se consolidam, diz Troyjo. A primeira delas é o crescimento populacional em um punhado de países, a despeito do declínio geral das taxas de natalidade dos outros 90% do mundo. O crescimento deve ser puxado por Índia, Paquistão, Indonésia, Estados Unidos (com a balança de migração), Nigéria e países da África Subsaariana, como Etiópia, Congo, Tanzânia. Isso deve adicionar outras 2 bilhões de pessoas ao mundo até 2050. “Isso nos leva a questionar de onde vão vir a água, a comida, a energia e os insumos para a economia verde desses países”, afirma.

Além disso, as economias do que Troyjo chama de E7 (de países emergentes, como China, Índia, Brasil, Indonésia, México, Turquia e Arábia Saudita), e não do tradicional G7, devem se tornar cada vez mais importantes para a formação de demanda global, puxando todo o bolo de crescimento.

Por fim, a discussão do ESG deve começar a se virar para o “S” da sigla, saindo do foco ambiental (o “E”) e de governança (o “G”) para tornar-se cada vez mais social, com treinamento de talentos e aumento de produtividade populacional, questão-chave para o crescimento do Brasil nas próximas décadas. Isso vem na esteira da quarta grande tendência apontada por Troyjo, a inteligência artificial, que exige um aumento exponencial da demanda energética de fontes renováveis. Nessa área, o Brasil é tido como de grande vocação, graças ao mercado em ascensão de data centers, os armazéns de dados utilizados pelas empresas de tecnologia para treinar os modelos de IA e replicá-los pelo mundo.

“A polioportunidade para o Brasil e para as empresas está na utilização desses extraordinários excedentes que a nossa economia vai gerar a partir das suas vantagens comparativas tradicionais, como no universo de alimentos, de energia e de economia verde, para direcionar os recursos para a capacitação inédita da população”, conclui Troyjo.

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