Presidente do IPT | Professor Titular e ex-Reitor do ITA | Top 1 em Educação no Linkedin
Nos Estados Unidos, essa proporção gira em torno de 20%.
No Brasil, apenas 17%.
Esses dados ajudam a explicar por que algumas economias avançam mais rapidamente do que outras. O progresso tecnológico não nasce por decreto: é consequência direta de investimento em educação científica e formação de capital humano.
Em números absolutos, a diferença é ainda mais expressiva.
A China formou cerca de 3,57 milhões de profissionais em STEM no ano de 2020.
Os Estados Unidos, 820 mil.
O Brasil, 238 mil.
Ou seja: a China forma quase 4 vezes mais profissionais dessas áreas do que os EUA — e aproximadamente 15 vezes mais que o Brasil.
📌 E não é apenas sobre orçamento. É sobre prioridade.
Um exemplo claro é o Irã: mesmo sob sanções econômicas severas, o país forma 33% de seus graduados em STEM — quase o dobro da taxa brasileira.
Nos Estados Unidos, há ainda outro fator agravante: uma parte relevante dos formandos em STEM são estudantes internacionais. Com as restrições migratórias recentes, esse número tende a diminuir — o que pode comprometer a base de talentos técnicos do país.
🇧🇷 Já no Brasil, o desafio é duplo:
Primeiro, formar mais profissionais nessas áreas.
Depois, garantir que eles encontrem oportunidades reais de desenvolvimento e permaneçam no país.
Quem passou por um curso de engenharia ou áreas correlatas sabe: a evasão é alta. Muitos desistem no meio do caminho — em boa parte por conta de deficiências na educação básica, que dificultam o aprendizado em disciplinas mais exigentes. Mas também porque os alunos fogem de cursos que possuem pouca demanda de mercado.
📉 E como se já não bastassem os obstáculos internos, o cenário se agravou com o tarifaço anunciado pelos EUA, que impacta diretamente empresas brasileiras como Embraer, WEG, Braskem, Marcopolo, Suzano — justamente aquelas que mais contratam engenheiros e investem em inovação tecnológica.
Essas tarifas não prejudicam só a exportação. Elas afetam a inovação, a pesquisa aplicada e a formação técnica nacional.
Formar talentos é essencial. Mas proteger e valorizar esses talentos é uma escolha. Uma decisão estratégica.
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Tecnologia turbina habilidades de trabalhadores, mas é preciso cautela com sinais alarmantes
Álvaro Machado Dias – Folha – 13.jul.2025
Neurocientista, professor livre-docente da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e sócio do Instituto Locomotiva e da WeMind
O Brasil teve em 2024 a menor taxa anual de desemprego já registrada (6,6%), índice que neste ano caiu um pouco mais. Nos Estados Unidos (4,1%), no Reino Unido (4,6%) e na China (5,2%), as taxas atuais também são benignas. É a calmaria antes da tempestade, sugerem as manchetes internacionais sobre o início da grande crise do emprego causada pela IA.
A minha leitura é diferente: os sinais alarmantes detectados têm outra fonte; impactos estatisticamente relevantes ainda demoram vários anos. Ademais, prognósticos sobre os efeitos da IA tendem a subestimar as otimizações produtivas existentes e é preciso cautela na transposição para o Brasil.
A sirene soou pelas demissões nas multinacionais de tecnologia, onde a IA está gerando seus efeitos mais notáveis. Porém, é preciso considerar que houve excesso de contratações nos anos anteriores e que a percepção de que a IA limpará a TI permite que a empresa demita seus programadores e contrate os exonerados pelo vizinho por bem menos.
A questão mais profunda é que a IA atual otimiza a produtividade em detrimento da acurácia. Quando a precisão importa menos, pode ter autonomia; quando o rigor define o jogo, torna-se acessória. Isso explica por que o jornalismo investigativo, jurado de morte, segue incólume, enquanto o copy para redes sociais foi parar na UTI. Programar está no meio do caminho.
A grande aposta para a eliminação em massa dos empregos corporativos é que a IA faça o trabalho dos executivos de entrada. Porém, se a cada dez compras de suprimentos uma dá errado, surge um problema que tende a custar mais do que a diferença entre tokens e um mau salário, que justamente é a otimização principal do capitalismo, refinada ao longo de séculos.
Subestimar as otimizações existentes é o erro do momento. Em geral, isso ocorre porque a conformidade é exagerada; mas há também casos em que excessos de conformidade são sumariamente ignorados.
Considere a tese da eliminação dos motoristas por frotas de veículos autônomos, que para operarem precisam demonstrar segurança quase absoluta. Mas, afinal, por que as pessoas não atravessam a Rebouças sem olhar? Porque temem ser atropeladas por algum míope como eu.
Imagine como seria o trânsito se todos soubessem que podem se jogar na frente dos carros, já que eles sempre pararão. Agora, acrescente a vantagem competitiva dos taxistas e motoboys, cientes de que podem cortar essas máquinas ao seu bel-prazer, e eis um antídoto à ilusão substitutiva. Motoristas, profissionais ou não, são otimizadores do caos e a sua extinção por essas bandas só virá quando a lei a determinar, o que levará décadas.
Dia sim, dia não, sai um artigo mostrando que IAs generativas são melhores do que médicos, engenheiros civis ou advogados e que essas áreas vão micar. Porém, no Brasil, as profissões tradicionais têm reservas de mercado asseguradas pelos conselhos de classe, que agem como máfias, não importando quem pode servir a sociedade, mas quem tem o carimbo certo.
IAs turbinam habilidades, mas mesmo que triplicássemos a produtividade dos nossos doutores, seguiríamos atrás de países com desemprego a 4%. O pior que pode acontecer é os serviços ficarem bem mais baratos para a população —efeito que a indústria dos diplomas vem produzindo por meio da falta de escrúpulos e ausência de inovação.
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Estamos entrando em uma nova era dos contadores de histórias: quando o meio fala por si
ASHLEIGH VOGSTAD – Fast Company Brasil – 12-07-2025
No início dos anos 2000, meu primeiro emprego foi no Cactus Club Café, um restaurante nascido em Vancouver, no Canadá, onde a cultura pop encontrava a arte pop. As paredes exibiam reproduções de Andy Warhol – latas de sopa Campbell’s em serigrafia vibrante, retratos neon de Marilyn Monroe e críticas sociais camufladas em imagens icônicas.
Hoje, olhando para trás, fica claro: Warhol não estava apenas fazendo arte. Estava antecipando a era da mídia sintética.
Com sua técnica de serigrafia industrial, ele produzia imagens em escala e desafiava a própria noção de originalidade. Diluía as fronteiras entre criador e máquina, arte e publicidade. E, mesmo com um processo mecanizado, sua obra ainda tocava o emocional – prova de que, na repetição, algo humano sobrevive.
De certa forma, Warhol antecipou o momento atual: uma era na qual a narrativa está sendo redefinida não mais pela tinta ou pela impressão, mas por linhas de código.
A NOVA VOZ É ARTIFICIAL
As ferramentas que usamos para contar histórias mudaram. E, com elas, a definição de quem é um contador de histórias. Se, em 1964, Marshall McLuhan dizia que “o meio é a mensagem”, em 2025, o meio é a inteligência artificial.
Para Jensen Huang, CEO da Nvidia, IA é “a automação da automação – um software que cria software”. Já o historiador Yuval Harari vai além: ele alerta que a IA está escrevendo narrativas, moldando crenças – e não apenas analisando dados.
ROSTOS GERADOS POR IA FORAM AVALIADOS COMO MAIS CONFIÁVEIS DO QUE ROSTOS REAIS.
Motores de recomendação se tornaram sacerdotes digitais, decidindo quais histórias escutamos. Quer isso inspire ou assuste, uma coisa é certa: a IA não é só uma ferramenta. É narradora. E narradores sempre foram seguidos.
Ferramentas como o ChatGPT ou o Sora começaram como substitutos limitados da criatividade humana. Mas isso ficou no passado. A IA narrativa de hoje emociona, surpreende – e convence.
ENTRE A MÍDIA SINTÉTICA E O CONTEÚDO “REAL”
Quando nos deparamos com alguma mídia sintética – como vídeos deepfake ou imagens geradas por IA –, o cérebro usa um mecanismo chamado codificação preditiva para identificar inconsistências sutis. É esse circuito que nos ajuda a distinguir o real do artificial. Mas… até quando?
Um estudo recente revelou que rostos gerados por IA foram avaliados como mais confiáveis do que rostos reais. E mesmo assim, algo parece “estranho”. Nossa intuição ainda nos alerta quando algo não é genuinamente humano.
A publicidade já testa esses limites. O comercial de fim de ano da Coca-Cola, feito por IA, buscava homenagear a campanha clássica de 1995, mas foi criticado por parecer “sem alma”.
Já a Land Rover combinou IA e filmagem real em uma peça para o modelo Defender, mostrando o potencial da mídia sintética – e também os dilemas da criatividade híbrida.
Ao mesmo tempo, projetos como o Woebot e o LovingAI mostram que conseguimos nos conectar emocionalmente com máquinas, desde que elas acertem no tom. Em muitos testes, respostas geradas por IA em contextos de terapia foram classificadas como mais eficazes do que as de humanos.
A INTERNET ESTÁ VIVA… COM BOTS
Você já ouviu falar da teoria de que a internet está morta? A ideia é simples: a maior parte do que consumimos online não é mais feita por humanos. E isso já não é mais apenas uma teoria.
Bots geram mais de 50% do tráfego relacionado a conteúdo
Um terço do tráfego global vem de bots maliciosos
Alguns especialistas preveem que 99,9% de todo conteúdo será gerado por IA até 2030
A inteligência artificial não está apenas mudando o consumo – ela está mudando o ato de criar.
CRIATIVIDADE HÍBRIDA: O FUTURO É COLABORATIVO
Millennials e GenZs, que hoje representam 71% dos compradores B2B, não querem um pitch. Eles querem uma história que descubram sozinhos, algo com toque humano, imperfeito, autêntico. Quase 40% deles estão dispostos a gastar mais de US$ 500 mil sem sequer falar com um vendedor.
A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL ESTÁ MUDANDO O ATO DE CRIAR.
Entramos na era da criatividade híbrida. As máquinas não vão substituir os humanos, mas quem souber usá-las estrategicamente substituirá quem não souber.
Assim como Warhol nos forçou a repensar o que é autenticidade, precisaremos rever nossos conceitos de autoria. O mercado de mídia sintética deve atingir US$ 16,6 bilhões até 2033, crescendo 14% ao ano. A transformação não está por vir, ela já chegou.
A pergunta real é: como você vai liderar, se conectar e criar em um mundo onde o meio agora responde à mensagem?
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O importante é o que fazemos com a inteligência que nos resta
Becky S. Korich– Folha – 6.jul.2025
Advogada, escritora e dramaturga, é autora de ‘Caos e Amor’
A inteligência artificial nos torna estúpidos? Uma pesquisa recente do MIT diz que sim. Intitulado “Seu Cérebro no ChatGPT“, o estudo concluiu que, embora a IA torne as tarefas mais fáceis, os efeitos colaterais podem ser devastadores para nossa autonomia cognitiva.
Durante quatro meses, 54 adultos foram divididos em três grupos para escrever uma série de ensaios. O primeiro usou o ChatGPT. O segundo, o Google. O terceiro, o bom e velho cérebro analógico. Para monitorar a atividade cerebral, os pesquisadores acompanharam, por eletroencefalograma, o funcionamento de 32 regiões do cérebro enquanto cada participante escrevia.
O resultado foi desconfortavelmente previsível. Os usuários do ChatGPT apresentaram o menor engajamento neural e o pior desempenho nos níveis linguístico, comportamental e cognitivo. Resumo: foram os que menos usaram o cérebro. Para piorar, o declínio intensificou-se com o tempo. Tornaram-se mais passivos, mais dependentes e mentalmente letárgicos.
Os usuários do ChatGPT apresentaram o menor engajamento neural e o pior desempenho nos níveis linguístico, comportamental e cognitivo na pesquisa do MIT
O estudo foi recebido de forma apocalíptica. Reacendeu o velho temor de que a tecnologia esteja roubando aquilo que restava da consciência crítica. Mais relevante do que perguntar se a IA nos emburrece é pensar no que temos feito com a inteligência que ainda nos resta.
Se depender desse estudo, a era da estupidez talvez ainda não tenha chegado. Ao menos não se comparada ao grau de estupidez que somos capazes de alcançar naturalmente.
Lembremos quando as calculadoras surgiram. Elas nos deixaram mais burros? Depende. Quem usa para calcular 7 x 8, provavelmente. Se for para dedicar os esforços cognitivos para tarefas mais complexas, eu diria que não. Fazer divisões longas não é exatamente uma demonstração de produtividade mental.
O cálculo mais importante a ser feito não é técnico, mas existencial: o quanto a conveniência pode nos alienar. Esse cálculo nenhuma máquina pode fazer por nós —a IA não é pensamento artificial.
Pensar exige energia. Se existe uma tecnologia que nos poupa de tarefas mecânicas e libera espaço mental para elaborar melhor o pensamento, deveríamos agradecer, não demonizar. O problema é que nem sempre usamos esse espaço para colocar o cérebro para trabalhar. O essencial, no fim das contas, é o que fazemos com o tempo e a energia que a IA nos devolve.
O estudo do MIT ignora essa nuance. Foca no que foi economizado, sem considerar o que poderia ser feito com essa economia. Se uma tarefa exige menos esforço, é evidente que a carga cognitiva diminui. Foi isso que os autores registraram. Ponto.
Reduzir o uso da IA a uma erosão do esforço é ignorar sua potência, que pode ser criativa ou destrutiva. Um bom escritor com IA não vai deixar de ser brilhante. Um mau escritor com IA apenas se torna mais prolífico em sua mediocridade. Se a IA nos poupar algumas horas de trabalho mental árduo em nossas rotinas diárias, será uma bênção, não uma maldição.
Estamos diante de um divisor de águas. Talvez a maior revolução que nossa geração já viveu. A IA mudou a nossa forma de pensar, de nos relacionar e, em alguns casos, até como sentimos. O que ela nos oferece (pelo menos até aqui), não é necessariamente um rebaixamento intelectual, mas uma escolha.
O ChatGPT tem o que nós não temos. E nós, o que ele não tem. Inteligente que é, sabe nos usar com eficiência. A diferença está em como vamos usá-lo. A depender da resposta, os inteligentes ficam mais inteligentes. E os tolos, apenas mais eficientes em sua tolice.
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O Brasil detém um dos maiores estoques de capital natural do planeta, condição necessária para a competitividade de países e empresas na nova economia global
Por Jorge Arbache – Valor – 10/07/2025
É professor de economia da Universidade de Brasília e foi vice-presidente de Setor Privado do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF)
O capital natural se tornou o novo ouro. Em um cenário marcado por crise climática, insegurança alimentar e disputas geopolíticas por recursos estratégicos, água, florestas, terras férteis, minerais críticos, biodiversidade e energia renovável passam a ocupar o centro das decisões econômicas, industriais e diplomáticas. O valor desses ativos vai além da sua importância ecológica: eles são, agora, condição necessária para a competitividade de países e empresas na nova economia global.
Nesse contexto, o Brasil desponta como um dos territórios mais promissores do planeta. Com abundância de água doce, vastos biomas e florestas tropicais, terras aráveis, matriz elétrica limpa, ricas províncias minerais e uma biodiversidade única, o país detém um dos maiores estoques de capital natural do planeta. Trata-se de uma vantagem comparativa que pode ser convertida em vantagem competitiva, desde que o país desenvolva os instrumentos adequados para transformar esse capital em um ativo estratégico.
O potencial brasileiro é imenso e o país pode contribuir de forma decisiva para enfrentar três das maiores urgências globais: a segurança alimentar, a segurança energética e a crise ambiental.
Na segurança alimentar, o Brasil já é um dos maiores produtores e exportadores globais de alimentos. Mas pode ir além. Há espaço para expandir a produção de forma sustentável por meio de ganhos de produtividade, uso de áreas degradadas e sistemas de produção intensiva com até três safras anuais. A combinação entre agricultura regenerativa, inovação tecnológica e gestão eficiente do solo e da água torna o Brasil capaz de aumentar a oferta global de alimentos de forma compatível com os limites ambientais.
Na segurança energética, o país é igualmente estratégico. Com mais de 90% de sua matriz elétrica composta por fontes renováveis, o Brasil é uma das exceções no cenário internacional. E esse diferencial pode ser monetizado por meio do powershoring: a atração de indústrias eletrointensivas que buscam reduzir emissões e garantir acesso estável e barato à energia limpa. O Brasil tem todas as condições para se tornar um polo global de produção de aço verde, hidrogênio de baixo carbono, fertilizantes, produtos químicos sustentáveis, celulose e outros bens intensivos em energia renovável. O país também pode ter papel central na transição para um transporte internacional mais limpo por meio da exportação de biocombustíveis de baixo carbono.
No eixo ambiental, a contribuição brasileira pode ser ainda mais singular. Os biomas nacionais prestam serviços ecossistêmicos cruciais à estabilidade do planeta: regulação do ciclo hidrológico, sequestro de carbono, conservação da biodiversidade, proteção de polinizadores e controle de doenças, entre outros. A floresta amazônica, por exemplo, tem um papel-chave na manutenção do equilíbrio climático global. O Brasil também tem potencial para liderar a bioeconomia tropical baseada em ativos biológicos e conhecimento tradicional.
Apesar desse cenário promissor, o Brasil ainda está longe de converter o seu capital natural em ativo estratégico. A ausência de políticas públicas robustas, marcos regulatórios adequados, mecanismos de financiamento verde e integração plena aos mercados internacionais limita o aproveitamento desse potencial.
Para que o país possa transformar o seu capital natural no novo ouro da economia do século XXI, são necessárias ações concretas em seis frentes estratégicas. Primeiro, é preciso remover barreiras tarifárias e não tarifárias que dificultam a exportação de produtos sustentáveis. Subsídios distorcivos e exigências técnicas excessivas e oportunísticas aplicadas por países desenvolvidos comprometem a competitividade do país. É fundamental negociar acordos comerciais que reconheçam e valorizem práticas sustentáveis, permitindo que o comércio verde funcione com equidade e previsibilidade.
Segundo, é preciso estruturar corredores de comércio verde que conectem áreas produtoras de bens e serviços sustentáveis a mercados consumidores. Esses corredores devem incluir acordos, infraestrutura eficiente, interoperabilidade regulatória, certificações ambientais, padrões, taxonomia, rastreabilidade e mecanismos de remuneração por serviços ambientais e climáticos.
Terceiro, a transição verde exige tecnologias de ponta para monitoramento ambiental, agricultura de precisão, bioeconomia, gestão de carbono, entre outros. Muitas dessas tecnologias ainda são desenvolvidas sob regimes de propriedade intelectual restritiva. O Brasil precisa ampliar o acesso a essas inovações por meio de cooperação internacional, alianças tecnológicas e investimentos robustos em pesquisa e desenvolvimento nacional.
Quarto, um dos principais obstáculos à alocação de capital privado em projetos verdes no Brasil é o risco percebido, seja regulatório, jurídico, cambial ou climático. É essencial implementar mecanismos de derisking, como garantias, fundos de infraestrutura verde, instrumentos de blended finance e seguros climáticos, para atrair e escalar o investimento privado.
Quinto, o capital natural precisa ser reconhecido como uma classe de ativos com valor econômico mensurável. Isso requer métricas consistentes, precificação de serviços ecossistêmicos, regulamentação clara dos mercados de carbono e mecanismos que permitam utilizar ativos ambientais como colaterais em operações financeiras e contratos de longo prazo.
Sexto, a consolidação do Brasil como destino de cadeias industriais limpas exige apoio internacional. Organismos multilaterais, bancos de desenvolvimento, fundos soberanos e países parceiros devem ajudar a reduzir barreiras e estimular investimentos produtivos de baixo carbono no país.
Se bem implementado, esse conjunto de medidas permitirá ao Brasil se posicionar como um dos protagonistas da nova economia verde. Importante notar que o Brasil não parte do zero. O país já conta com um parque de ciência e tecnologia agrícola avançado, empresas líderes em diversos setores, Estados e municípios engajados com agendas ambientais e políticas públicas, como o Plano de Transformação Ecológica, o Fundo Clima e a regulamentação do mercado de carbono, ora em discussão no Congresso. Ainda assim, é preciso ir além. Transformar o capital natural brasileiro em um motor de desenvolvimento sustentável, inclusão e geração de valor requer visão estratégica, coordenação interinstitucional e um pacto nacional de longo prazo.
O Brasil pode ser mais do que o celeiro do mundo ou o pulmão do planeta. Com a valorização crescente do capital natural, o país pode liderar uma nova lógica de desenvolvimento baseada em baixo carbono, tecnologia, circularidade, agregação de valor e soberania ambiental. O novo ouro está nas mãos do país. Cabe, agora, decidir se vai usá-lo com inteligência ou deixá-lo enterrado no solo fértil das oportunidades perdidas.
Jorge Arbache é professor de economia da Universidade de Brasília e escreve mensalmente às quintas feiras neste espaço
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O jogo da IA não acontece apenas na camada visível. Ele acontece, principalmente, em tudo o que permite que essa camada exista
GUIDO SARTI – Fast Company Brasil – 05-06-2025
No AI Ascent, evento fechado promovido pela Sequoia Capital no início de maio em São Francisco, nos EUA, consolidou-se uma tese clara: a nova fronteira tecnológica está na camada de aplicação. Executivos, investidores e especialistas reuniram-se para discutir o que muitos consideram inevitável: a era dos agentes de IA começou.
O evento – que contou com nomes como Sam Altman, da OpenAI, Jensen Huang e Jim Fan, da Nvidia, e Jeff Dean, do Google – destacou o avanço dos assistentes digitais capazes de executar tarefas complexas como a próxima grande onda de inovação.
Demonstrações de agentes que reservam viagens, gerenciam calendários e até negociam contratos empolgaram investidores ávidos pela próxima grande aposta.
E faz todo sentido. Agentes são, sim, uma disrupção relevante. A promessa de delegar tarefas a assistentes ultra competentes ressoa com o sonho de produtividade que a humanidade persegue desde a Revolução Industrial. Multiplicar nossa capacidade sem multiplicar nosso tempo é uma ideia poderosa.
Mas a história da tecnologia é implacável. O valor mais duradouro quase sempre fica com quem controla a infraestrutura de IA subjacente.
Foi assim na era da Lei de Moore, que impulsionou décadas de avanço exponencial em software, enquanto fabricantes de chips acumulavam fortunas fornecendo o hardware que tornava tudo possível. E é assim agora, na corrida por chips especializados, data centers e energia que sustentam essa revolução.
TUDO DEPENDE DA INFRAESTRUTURA DE IA
É razoável supor que, além dos palcos do AI Ascent, discussões mais pragmáticas tenham ocorrido. Conversas sobre os verdadeiros gargalos: capacidade computacional, eficiência energética e acesso a recursos escassos.
Enquanto startups de agentes disputam a atenção do mercado, os gigantes da infraestrutura seguem ampliando silenciosamente sua capacidade, cientes de que cada nova aplicação depende fundamentalmente deles.
Seu valor de mercado superou, ainda que de forma pontual, a marca de US$ 3 trilhões. Não porque vende produtos finais aos consumidores, mas porque fornece as pás e picaretas da corrida do ouro da inteligência artificial.
Ou para a Oracle, que discretamente se posicionou como protagonista na infraestrutura que sustenta essa nova era. Sob a liderança de Larry Ellison, a empresa se tornou parceira estratégica para armazenamento e processamento de dados em larga escala.
Enquanto o mercado se deslumbra com os grandes modelos de linguagem, a Oracle expande sua rede de data centers otimizados para IA, sabendo que cada token processado precisa, antes de tudo, de espaço físico, energia e capacidade computacional.
COMPONENTES, ENERGIA, REDES: A AMEAÇA DA ESCASSEZ
Uma verdade que pairou nas entrelinhas do AI Ascent é que a escassez de infraestrutura já limita a inovação. Startups enfrentam filas para acessar GPUs. Modelos cada vez mais complexos demandam investimentos crescentes em hardware. E o consumo energético dos data centers cresce rapidamente, criando novas pressões e desafios.
O VALOR MAIS DURADOURO QUASE SEMPRE FICA COM QUEM CONTROLA A INFRAESTRUTURA SUBJACENTE.
Enquanto o mercado se deslumbra com os agentes, fascinado pela camada de aplicação, quem olha para infraestrutura está, na prática, focando no alicerce que sustenta tudo isso. E a história sugere que, quando a poeira baixar, serão esses players que ocuparão as posições mais defensáveis.
O jogo da IA não acontece apenas na camada visível. Ele acontece, sobretudo, em tudo que permite essa camada existir: nos chips, nos data centers, nas redes e na energia. Quem controla esses recursos fundamentais está, silenciosamente, construindo os impérios que definirão a próxima década.
Enquanto o AI Ascent celebrava os avanços na camada de aplicação e o potencial dos agentes autônomos, vale refletir. Os verdadeiros arquitetos do futuro podem ser aqueles que mantêm os pés firmemente no chão, construindo as fundações sem as quais nenhum sonho tecnológico pode se sustentar.
SOBRE O AUTOR
Guido Sarti é sócio da Galeria Ag e atua como professor coordenador na Miami AdSchool. Foi Head de Novos Negócios e Convergência na Globo, onde desempenhou um papel significativo em mais de 10 squads durante a fusão da empresa. Pode liderar equipes de dados em mais de 20 países e foi membro do conselho superior do CENP.
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Apesar de sua habilidade, país não consegue solucionar fragilidades em dezenas de pontos tidos como pilares imprescindíveis da manufatura moderna
Por Edward White e Harry Dempsey — Valor/Financial Times – 08/07/2025
No início dos anos 50, quando o Partido Comunista se propôs a reconstruir uma China devastada por anos de guerra, Mao Tsé-tung, o herói revolucionário e presidente do partido, fez uma avaliação muito franca sobre o estado desalentador da indústria nacional: “Podemos fazer mesas e cadeiras, xícaras e bules… Mas não podemos produzir um único automóvel, avião, tanque ou trator.”
Em pouco tempo, a Fábrica de Tratores Nº 1 e uma fábrica de rolamentos adjacente foram estabelecidas em Luoyang, uma cidade muito antiga da Província de Henan, na região central do país. Esse era um dos 156 projetos industriais previstos no Primeiro Plano Quinquenal do partido, de acordo com Karina Khasnulina, da Universidade de Leipzig. Apenas uns poucos anos depois, em 1958, o primeiro trator de manufatura chinesa, batizado de Dongfang Hong – “O Oriente é Vermelho” – saía da linha de montagem.
Passados 70 anos, a China hoje é uma potência mundial, a segunda maior economia do mundo e uma das duas verdadeiras superpotências militares. E ainda assim, como seus líderes em Pequim têm plena consciência, o país não conseguiu superar dezenas de “gargalos” industriais.
De um ponto de vista ocidental, a boa notícia é que, em última análise, esses gargalos têm dificultado o esforço da China para alcançar a independência e a deixam vulnerável à pressão dos EUA em uma época de guerras comerciais e controles de exportação.
Esses obstáculos incluem não só os chips de computador de ponta, como também uma série de componentes e materiais obscuros que são pilares imprescindíveis da manufatura moderna.
A má notícia, ao menos para o Ocidente e suas empresas, é que a China está resolvendo esses problemas de maneira metódica e sistemática e tem usado ferramentas como a inteligência artificial para avançar de maneira mais rápida.
As principais empresas europeias, japonesas e americanas, que costumavam estar protegidas da concorrência da China por causa dos problemas de qualidade e de produção inconsistente das fábricas chinesas, hoje estão em alerta máximo.
“O que nos deveria fazer parar para pensar é que a dinâmica da dependência tecnológica da China em relação ao Ocidente está mudando muito rápido”, diz Elisa Hörhager, representante-chefe na China da Bundesverband der Deutschen Industrie (BDI), a federação representativa dos interesses das indústrias alemãs na China.
“Muitas empresas estrangeiras ainda têm uma clara vantagem quando se trata de produtos industriais de grande qualidade, graças à sua reputação em termos de precisão e excelência em engenharia. Mas as concorrentes chinesas caminham rápido para alcançá-las.”
Vários gargalos, como a manufatura de semicondutores avançados, ainda estão a anos, se não a décadas, de serem superados, mas outros parecem estar perto de uma solução. Entre eles, produtos como fibra de carbono usada na aviação e rolamentos.
No mês passado, o presidente da China, Xi Jinping, escolheu as instalações da encarnação atual da fábrica da era Mao em Luoyang, hoje operada pelo estatal Luoyang Bearing Group, para lançar um chamamento à China para resolver todos os eventuais gargalos que ainda restam.
A visita do líder mais poderoso da China desde Mao a Luoyang foi tanto simbólica como oportuna.
Sucessivos presidentes americanos têm expandido de forma contínua os controles de exportação para restringir o acesso a tecnologias de ponta, temerosos de que o poderio tecnológico da China beneficie as forças armadas do país e ameace a segurança nacional dos EUA.
Para Kyle Chan, pesquisador especializado em política industrial chinesa da Universidade de Princeton, esses controles – ou a ameaça de impô-los – levaram Pequim a investir mais recursos na mitigação de suas vulnerabilidades do que faria se a situação fosse diferente.
A motivação para Xi buscar a autossuficiência industrial da China só se intensificou desde que o presidente Donald Trump voltou à Casa Branca e deu início a uma guerra comercial mundial que ameaça acelerar o desacoplamento das duas maiores economias do mundo.
“Desde a nossa velha dependência de fósforos, sabão e ferro importados para nos tornarmos hoje o maior país manufatureiro do mundo, com o leque mais completo de categorias industriais, temos seguido o caminho certo”, disse Xi a engenheiros e técnicos de rolamentos em Luoyang.
“A China precisa continuar a aprimorar nosso setor manufatureiro, insistir na autossuficiência e no autoaperfeiçoamento [e] dominar as tecnologias de base fundamentais.”
A China deve aprimorar seu setor manufatureiro e dominar as tecnologias de base”
— Xi Jinping
Em um parque empresarial sem nada de particular nos arredores de Hangzhou, no leste da China, há sinais de que uma revolução industrial silenciosa está em andamento.
Uma equipe de engenheiros chineses da DeepVision Technology está reaproveitando uma tecnologia de processamento de imagem desenvolvida originalmente para cirurgias gástricas para resolver um problema que tem frustrado teimosamente os engenheiros chineses há décadas: como fabricar rolamentos de alta qualidade e em grande escala.
Rolamentos de alta qualidade são cruciais para reduzir o atrito em todo tipo de equipamentos, desde trens de alta velocidade e máquinas de perfuração de túneis até veículos elétricos, robôs humanoides e drones.
Cosimo Ries, analista de energia da consultoria Trivium China, chama atenção para o fato de que, no caso de máquinas como as turbinas eólicas de alto mar – que hoje são construídas com quase 200 metros de altura e precisam durar em torno de 25 anos -, os fabricantes de rolamentos lidam com “exigências de confiabilidade inacreditáveis”, pois seus produtos precisam aguentar pesos e pressões “enormes”.
A China é de longe o maior mercado individual de rolamentos do planeta. Mas em termos mundiais as empresas que dominam o setor, avaliado em US$ 53 bilhões, são a sueca SKF, a alemã Schaeffler, o grupo americano Timken e as japonesas NSK, NTN e JTEKT.
As seis maiores fabricantes respondem por cerca de 55% do mercado mundial de rolamentos, de acordo com o relatório anual da SKF, que tem sede em Gotemburgo. A fatia dos grupos chineses é de cerca de 25%.
Um estudo de 2020 realizado por pesquisadores da Universidade de Ciência e Tecnologia de Wuhan observou uma “disparidade significativa” entre as empresas chinesas e suas rivais suecas e japonesas em termos de controle do grau de defeitos microestruturais e da precisão dimensional. De acordo com um ensaio investigativo do grupo chinês de investimento Kai Yuan Securities, publicado quatro anos depois, produtos de média e alta qualidade ainda respondiam por apenas cerca de 20% da produção total dos fabricantes chineses de rolamentos.
Em um escritório no alto de sua fábrica, Wang Shuailin, o animado fundador da DeepVision, de 38 anos, conta de maneira resumida como sua equipe combina um chip de inteligência artificial com sensores de imagem para identificar defeitos de formato, tamanho e estrutura em um rolamento que pode medir tão pouco como 2 micrômetros – 0,002 milímetros.
O sistema de inspeção da DeepVision, segundo ele, tem melhorado radicalmente o controle de qualidade para seus clientes, entre os quais a fábrica de Luoyang.
Wang diz que um cliente chinês viu sua “taxa de qualificação”, ou seja, a porcentagem de rolamentos que fabrica e são bons o suficiente para serem vendidos a clientes, saltar de menos de 90% para 97%.
Outro cliente, que antes recebia até 400 reclamações de clientes por ano a respeito da qualidade de seus produtos, hoje recebe apenas duas ou três, ao mesmo tempo em que os requisitos de pessoal para fazer a inspeção caíram de 150 para apenas algumas pessoas.
“Existe um estereótipo injustificado de que a China não tem competência para produzir esses tipos de máquinas de alta precisão”, afirma Wang.
Ele admite que as rivais estrangeiras acumularam vantagens tecnológicas por um longo período de tempo, mas acredita que, quando se trata da introdução da inteligência artificial na manufatura, iniciada por volta de 2017, 2018, todas estão “começando do mesmo patamar”.
“E hoje a China tem adotado essas tecnologias mais rápido, portanto nossos produtos serão melhores”, acrescenta.
Uma pesquisa da consultoria China Policy, encomendada pela BDI e publicada em maio, mostrou que as 4 milhões de fábricas chinesas estão apenas começando a perceber o impacto causado pelo tipo de aplicação industrial da inteligência artificial apresentada pela DeepVision.
Mas isso pode mudar logo, já que Pequim estabeleceu a meta de alcançar um nível avançado de manufatura inteligente na maioria das grandes fábricas nos próximos 10 anos.
Mesmo assim, no cenário atual os maiores fornecedores estrangeiros de rolamentos mantêm uma vantagem técnica expressiva sobre a China.
Isso é verdade em especial no caso da produção de componentes vitais para máquinas que precisam funcionar por longos períodos e em ambientes ou temperaturas extremos, como no espaço ou em instalações químicas. Mas mesmo as empresas mais dominantes do setor estão preocupadas com o avanço chinês.
Vivian Wang, chefe de marketing da SKF na China, cita como exemplo a história das vendas de rolamentos na China por seu grupo, que começou em torno de 1912, logo depois do fim da Dinastia Qing, que durou 268 anos. Ela salienta a forte presença do grupo no país, com nove instalações fabris, 6 mil funcionários e um alto índice de uso de cadeias de fornecimento locais em todas as suas operações.
“Reconhecemos as capacidades crescentes de nossas concorrentes, inclusive as da China, mas agimos a partir de uma posição de vantagem”, afirma.
Sadatsune Kazama, vice-gerente geral de design de produtos para rolamentos da NTN, que tem sede em Osaka e é a quarta maior fabricante de rolamentos do mundo, diz que hoje os grupos chineses estão no mesmo nível dos líderes do setor em termos de tecnologia de manufatura, mas ainda ficam atrás deles quando se trata de capacidades de design.
“As pessoas costumavam ter a impressão de que os produtos chineses, e não só os rolamentos, eram baratos, mas de menor qualidade… Acho que hoje em dia já não há muita diferença.”
De qualquer forma, ele argumenta que as empresas japonesas ainda são superiores em critérios de qualidade, confiabilidade e suporte pós-venda de longo prazo. “Fabricamos rolamentos há 100 anos e temos feito isso com base na vasta experiência que acumulamos.”
Uma autoridade da área de política industrial do governo japonês, que pediu para não ter seu nome revelado, sugere que a qualidade chinesa ainda precisa passar pela prova do tempo.
“É incrível o quanto a China evoluiu. Mas não faz nem 20 anos que os chineses começaram a fabricar tecnologia de precisão. Os produtos precisam durar mais de 30 anos, portanto ainda não sabemos qual a durabilidade de seus produtos”, explica. (Tradução de Lilian Carmona)
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O que começou há décadas como uma tática de contrainsurgência logística evoluiu para uma ameaça sofisticada e eficiente
Roberto Uchôa de Oliveira Santos – Folha – 6.jul.2025
Pesquisador e doutorando, Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra
The Conversation
A guerra global contra as drogas entrou numa nova e inquietante fase. Em julho de 2025, a apreensão do primeiro narcossubmarino não tripulado e guiado remotamente, feita pela Marinha da Colômbia, assinalou mais do que uma operação bem-sucedida contra o narcotráfico. Representou também a materialização de uma mudança de paradigma tecnológico e estratégico. O que começou há décadas como uma tática de contrainsurgência logística dos cartéis colombianos evoluiu para uma ameaça sofisticada que agora visa diretamente o tráfico transoceânico, com uma eficiência sem precedentes.
Submarino capturado pela Marinha do México no estado de Guerrero, na costa do Pacífico, com 3,5 toneladas de cocaína – 27.jun.25 – AFP/Mexican Navy
A operação Maré Negra, em novembro de 2019, que culminou na primeira apreensão de um narcossubmarino na Europa, ofereceu um vislumbre das condições desumanas a bordo. Uma tripulação de três homens navegou quase 6.500 quilômetros do Brasil à Espanha numa embarcação artesanal de 22 metros, o Che. Durante quase um mês, enfrentaram tempestades, saneamento inexistente e um ambiente claustrofóbico, motivados por uma carga de três toneladas de cocaína avaliada em centenas de milhões de euros. Este caso ilustra o modelo de negócio de alto risco das organizações criminosas, onde as tripulações são tratadas como ativos descartáveis.
O pivô Transatlântico: a Europa como destino primário
Nesta nova geografia, o Brasil tornou-se um “pivô” logístico fundamental. A sua vasta costa atlântica e a presença do PCC (Primeiro Comando da Capital) criaram a plataforma de lançamento perfeita. O narcotráfico moderno opera agora num ecossistema descentralizado, semelhante a uma franquia global. Cartéis colombianos atuam como “produtores”, enquanto o PCC se estabeleceu como o principal “franqueado” de logística para o Atlântico, com presença estabelecida na África e na Europa para facilitar a distribuição.
A Península Ibérica é o principal portal de entrada. A costa acidentada da Galícia, em Espanha, tornou-se um destino ideal. Após a interceptação do Che em 2019, um segundo submarino, o Poseidon, foi descoberto em março de 2023. Embora vazio, a descoberta de lanchas rápidas (“narcolanchas”) nas proximidades sugere que a sua carga foi transferida com sucesso em alto-mar antes de a embarcação ser afundada, demonstrando um método operacional refinado.
Portugal consolidou-se como outro ponto de entrada crucial. Em março de 2025, a operação Nautilus interceptou um semissubmersível a 900 quilômetros dos Açores com uma carga massiva de 6,6 toneladas de cocaína. A interdição, realizada em pleno oceano, foi um sucesso notável, impedindo que a tripulação multinacional, composta por brasileiros, um colombiano e um espanhol, afundasse a embarcação. A rota, partindo da foz do rio Amazonas no Brasil com destino a Portugal, sublinha a natureza e a escala destas operações transnacionais.
A mudança de paradigma: a era do ‘submarino fantasma’ não tripulado
A apreensão do primeiro “drone submersível” do narcotráfico em julho de 2025, no Caribe colombiano, representa uma ruptura tecnológica. A embarcação, atribuída ao Clã do Golfo, foi encontrada vazia, provavelmente numa “fase de teste”. Esta descoberta confirmou os receios dos serviços de inteligência, que há anos monitorizavam os esforços das organizações criminosas transnacionais para desenvolver submarinos não tripulados.
A sofisticação do protótipo reside na sua tecnologia. Equipado com uma antena de internet via satélite da Starlink, podia ser pilotado remotamente a partir de qualquer lugar do mundo, um salto quântico em relação aos sistemas de comunicação anteriores. O seu design hidrodinâmico e de baixo perfil torna-o extremamente furtivo e quase imune à detecção por radar.
A transição para sistemas não tripulados altera drasticamente a análise de risco-recompensa para as organizações criminosas. A principal vantagem é a eliminação do risco humano. Em caso de captura, a perda é puramente material; não há tripulação para ser presa e interrogada.
O elo mais fraco da cadeia operacional é removido, criando enormes obstáculos processuais e tornando a atribuição de responsabilidade penal quase impossível. Livres das restrições biológicas, estes UUVs (Veículos submarinos não tripulados) podem realizar missões mais longas e arriscadas, tornando o modelo de negócio global mais eficiente e resiliente.
O campo de batalha assimétrico e o futuro da narcoguerra
A luta contra os narcossubmarinos é um exemplo clássico de guerra assimétrica. A sua construção em fibra de vidro e o design de baixo perfil tornam-nos “quase invisíveis” aos sistemas de radar e sonar. A Guarda Costeira dos EUA estima que apenas um em cada quatro é interceptado, uma taxa que permite que um volume massivo de drogas chegue ao seu destino.
Dada a dificuldade de detecção, a estratégia mais viável é uma abordagem focada em inteligência para desmantelar as redes em terra, através da cooperação internacional, do controle de materiais precursores e do rastreio financeiro. No entanto, a ameaça continua a evoluir. As trajetórias futuras apontam para o uso de enxames de UUVs para saturar as defesas, navegação autônoma alimentada por IA para evitar patrulhas, e embarcações totalmente elétricas e submersíveis, que seriam virtualmente indetectáveis.
O narcossubmarino evoluiu de uma ferramenta tática improvisada para uma arma estratégica de primeira ordem no arsenal do crime organizado transnacional. A chegada dos sistemas não tripulados marca o início de uma nova era de narcoguerra, onde a tecnologia, a furtividade e a negação plausível conferem uma vantagem assimétrica avassaladora às organizações criminosas transnacionais.
A resposta dos Estados não pode ser reativa. É necessária uma transição urgente de uma estratégia de interdição física para uma de disrupção de redes, baseada em inteligência, domínio tecnológico e inovação jurídica. O fracasso em adaptar-se a esta nova realidade submersa garantirá que as organizações criminosas continuem a navegar, invisíveis e impunes, sob as ondas da segurança global.
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Graduações a distância viram opção mais acessível, mas especialistas se preocupam com a garantia de experiências práticas e qualidade da oferta; governo prepara novas regras para a modalidade
Por Isabela Moya – Estadão – 20/01/2025
Em dez anos, o Brasil viu diminuir em 23% o total de calouros nas Engenharias, que prepara profissionais para áreas cruciais no desenvolvimento do País, como transição energética e uso da inteligência artificial. Em 2014, eram 469,4 mil ingressantes em graduações da área, número que caiu para 358,4 mil em 2023, último ano com dados disponíveis.
Entre os motivos para o baixo interesse está a dificuldade em Matemática e a dificuldade de tornar as aulas mais conectadas com a vida real. Especialistas veem o risco de apagão de profissionais em alguns setores.
Além de menor quantidade, o perfil mudou – são cada vez mais cursos a distância (EAD). Em 2014, era de 5,9% a fração de ingressantes na modalidade – e saltou para 54% após uma década. Em 2023, pela primeira vez, o EAD superou o presencial – o Ministério da Educação (MEC) prepara novas regras para as graduações remotas.
Nesta semana, os estudantes que fizeram do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) estão escolhendo seus cursos no Sistema de Seleção Unificada (Sisu), plataforma que reúne as vagas em universidades públicas.
Em 2023, número de calouros em cursos de Engenharia a distância superou o total de ingressantes em graduações presenciais pela primeira vez
Diferentemente de cursos como Direito ou Medicina, um engenheiro pode se formar quase totalmente a distância. A exigência é de 10% da carga horária em atividades de extensão (nos polos ou em campo) e avaliações presenciais, além do estágio.
O EAD, que abrange cursos com grade curricular de 41% a 100% a distância, ganhou força após a flexibilização de regras para abrir graduações em 2017, e a pandemia, que fez os alunos experimentarem aulas remotas.
É opção mais barata e acessível, principalmente para quem mora em áreas distantes, mas sofre questionamentos sobre sua qualidade. O Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) defende uma cota mínima de classes presenciais (leia mais abaixo).
Os motivos para escolher Engenharia a distância não diferem do que é visto em outras áreas: flexibilidade de horários, comodidade, preço mais baixo e chance de conciliar com o trabalho.
É o caso de Millena Silva, do 9º semestre de Engenharia Ambiental. Ela saiu de Pindamonhangaba (SP) para estudar na Universidade Federal do Pampa (Unipampa), no Rio Grande do Sul, em 2019. No 2º ano da graduação, o coronavírus impôs aulas remotas.
Em 2022, na volta do presencial, Milena não retornou por questões financeiras – viver em outro Estado era caro e ela conseguiu trabalho na cidade natal -, além de ter se adaptado ao ensino remoto. Pediu transferência para uma faculdade particular a distância.
“O que sinto falta é que no presencial tinha bastante contato com laboratórios”, diz ela, de 26 anos. “Para mim, que já tive experiência no laboratório e nas visitas em campo, foi mais tranquilo o EAD. Mas para quem tem o primeiro contato a distância é mais complicado.”
A jovem afirma também que o estágio ajuda a ter contato com a prática. Mesmo assim, não recomenda entrar direto no remoto. “Tem de ser focado no que quer para estudar a distância, gerenciar a rotina”, continua.
Acima dos 30 anos, casados, que já trabalham e com renda familiar de até 3 salários mínimos – este é o perfil dos alunos da Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp), instituição pública EAD. Nas faculdades presenciais, a maioria é mais jovem, entra sem emprego, e tem renda maior.
A Univesp tem Engenharias de Computação e de Produção. As aulas são assíncronas (gravadas, para assistir quando puder), mas as avaliações são presenciais. Há seis disciplinas de extensão acadêmica, que devem ser presenciais em campo por meio de projetos com a comunidade, para ter experiência prática.
Para o engenheiro Marcos Borges, presidente da Univesp, a inclusão é uma vantagem: alunos de diferentes regiões do Estado, incluindo cidades com poucos habitantes, onde não há outras faculdades. “A gente consegue com EAD criar riqueza na cidade. Vai formar engenheiro lá (em cidades pequenas)”, diz.
Estamos em 370 municípios (paulistas) – desses, 220 não têm faculdade presencial. Ou eles estudam EAD ou não estudam em nível superior. Isso em São Paulo, um Estado super-rico.
Marcos Borges, presidente da Univesp
O MEC estima que em 2024 o total de matriculados no EAD em todas graduações supere o de alunos do presencial. Para as engenharias, essa transformação leva mais tempo, por ser um curso mais longo.
O governo, porém, diz que vai propor em breve um novo marco regulatório: “referenciais de qualidade, decreto, portarias e instrumentos de avaliação que, certamente, provocarão alterações das regras de oferta de todos os cursos de graduação a distância, não só para os de Engenharia”, segundo a pasta.
O Conselho de Engenharia e Agronomia é contrário à formação 100% online. “O ensino remoto permite a democratização do ensino, mas dentro disso há a preocupação com a qualidade e a capacidade do profissional”, diz Vinicius Marchese, presidente da entidade. “São profissões que incorrem em risco à vida.” Para o Confea, o ensino híbrido – combinação do remoto com o presencial – é boa alternativa.
Já na visão do presidente da Univesp, uma cota obrigatória de aulas presenciais é inviável para parte da população”, como a “mãe solo que não tem com quem deixar a criança, o aluno surdo que precisa do Libras, o aluno cego que precisa da legenda, o aluno que tem autismo e se sente desconfortável no meio de muita gente”. Para ele, a mudança nessa direção “tira o sonho de milhares”.
“Tem EAD bom e ruim, assim como presencial bom e ruim”, afirma Borges. “O MEC tem de atuar para evitar abusos de cursos que não têm a menor qualidade, que não ensinam nada. Mas isso não é específico do EAD nem mesmo do EAD privado. É de faculdades não sérias”.
E por que há menos jovens interessados na área?
Segundo a professora da Escola Politécnica da USP Roseli Lopes, a queda de interesse pelas Engenharias é fenômeno global, que ocorre pelo fato de ser um curso considerado difícil, com duração de ao menos cinco anos. E hoje há oferta grande de outras possibilidades com inserção mais rápida no mercado de trabalho.
“A certificação de Engenharia tem o objetivo de formar profissionais com maior grau de responsabilidade que vão, inclusive, coordenar equipes de pessoas com formação técnica”, diz ela, diretora da Associação Brasileira de Ensino de Engenharia (Abenge).
Para reverter esse desinteresse, o Confea quer atualizar a grade curricular para tornar os cursos mais atrativos. A ideia é incluir mais disciplinas práticas e promover interdisciplinaridade por meio da interação não só entre Engenharias, como também outras profissões, como as da Saúde.
“Os cursos não podem ser chatos, onde o jovem de hoje, a geração Z, fica três ou quatros anos estudando teoria, para enxergar onde vai aplicar na prática”, diz o presidente do conselho.
“É preciso trazer problemas da vida real, com impacto nas comunidades; aproximação maior com a indústria, em projetos de inovação nas empresas; ensinar habilidades sociais e incentivar o trabalho em equipe”, acrescenta Roseli.
TechLab do Insper é um espaço usado pelo curso de Engenharia voltado para a indústria 4.0, conceito de produção que engloba novas tecnologias .Atividades práticas são vistas, por alguns especialistas, como essenciais para a formação Foto: Daniel Teixeira/Estadão
Coordenador das engenharias Química e de Materiais da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Renato Meneghetti defende também mais projetos de extensão universitária. Ressalta ainda que a “aprendizagem passiva”, sem “mão na massa”, contribui para a evasão.
Muitas faculdades fazem reforço das matérias básicas para recuperar a aprendizagem e nivelar os calouros. “Se não toma medida nesse aspecto, o estudante com déficit reprova, reprova, e se transforma em evasão”, afirma Meneghetti, que diz ver lacunas até de alunos vindos de “bons colégios”.
Na Univesp, a disciplina de Cálculo não é dada no 1º semestre. No lugar, há revisão dos conteúdos de Matemática de nível de ensino médio.
Somada à baixa de recém-formados, há migração de engenheiros para outras áreas, como o mercado financeiro, onde há maior remuneração.
“Corre o risco de ter apagão profissional. Temos uma agenda de sustentabilidade, de energias renováveis, eletrificação, que passa pelas áreas de engenharia. E colocamos cada vez menos profissionais novos no mercado”, completa Meneghetti.
Desde 2014, houve queda no interesse pelas Engenharias, que teve leve recuperação só em 2022. Especialistas afirmam que disciplinas mais práticas podem elevar interesse dos jovens na área e reduzir evasão Foto: Gastão Guedes/Fatec
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O assunto está no radar de todos os setores de atividades, e o desafio da escassez de talentos digitais está presente em todas as áreas do conhecimento
Por Marisa Eboli – Estadão – 25/06/2025
Em praticamente todas as áreas do conhecimento, houve um crescimento significativo da preocupação com a Inteligência Artificial (IA). Esse aumento não se limita ao campo da tecnologia, mas se estende a disciplinas como Direito, Medicina, Educação, Filosofia, Ciências Sociais, Artes e até mesmo Teologia. A IA provocou uma transformação transversal, exigindo reflexões éticas, políticas, sociais e filosóficas em todos os domínios do saber.
Embora a IA exista como campo de estudo formal desde 1956, quando o termo foi cunhado, suas ideias fundamentais são ainda mais antigas. Sem retornar à Antiguidade, basta voltarmos ao século XVII, quando filósofos como Descartes e Leibniz já especulavam sobre o pensamento como um processo mecânico. No século XIX, Ada Lovelace escreveu o primeiro algoritmo publicado destinado a ser processado por uma máquina — a máquina analítica de Charles Babbage — antecipando a lógica dos programas modernos.
Já os fundamentos da Inteligência Artificial moderna remetem a Alan Turing, que foi o primeiro a indagar se máquinas poderiam pensar. O Teste de Turing foi um experimento teórico por ele proposto, para avaliar se uma máquina podia exibir comportamento inteligente indistinguível do de um ser humano. “As máquinas podem pensar?” — é a pergunta que abre seu famoso artigo Computing Machinery and Intelligence (1950). Suas ideias são as raízes mais profundas da IA contemporânea.
Foi a partir de 2010, contudo, que ocorreu uma verdadeira explosão do deep learning, big data, assistentes de voz (como Siri e Alexa), diagnósticos médicos automatizados, carros autônomos, sistemas generativos como o ChatGPT, entre outros.
Desde 1999, ou seja, há mais de duas décadas, dedico-me a atividades de ensino, pesquisa, publicação de artigos e aplicação de projetos em organizações relativos à Educação Corporativa (EC) no Brasil. Atualmente, essas atividades são desenvolvidas no âmbito do Programa de Gestão da Educação Corporativa da FIA (PROGEC-FIA).
Em todas as minhas áreas de atuação relacionadas à EC, a importância da Inteligência Artificial e a correspondente preocupação associada ao tema vem crescendo de forma notável.
O artigo “The Transformer CLO”, publicado pela Harvard Business Review (2020), discute uma profunda transformação no papel do Chief Learning Officer (CLO), ou Gestor de Educação Corporativa. Seus autores, Abbie Lundberg e George Westerman, identificam e definem o perfil do Transformer CLO, que vai muito além da responsabilidade por capacitações. Entre outros aspectos, os autores enfatizam que os CLOs devem liderar o desenvolvimento de competências digitais essenciais para preparar as organizações para um ambiente de transformação contínua. Essas competências não se limitam ao domínio técnico, mas envolvem mentalidade, comportamentos e fluência digital.
O artigo ilustra as argumentações com casos reais de várias empresas. Destaca, por exemplo, o caso do DBS Bank, que formulou uma estratégia para desenvolver, em todos os seus funcionários, sete habilidades vitais para um mundo digital: comunicação digital, metodologias ágeis, modelos de negócios digitais, compliance e riscos, pensamento de jornada, tecnologias digitais e pensamento orientado a dados.
As sete competências do DBS Bank revelam exatamente o que Lundberg & Westerman chamam de ‘competências digitais essenciais.
Nos projetos de consultoria que tenho realizado pelo PROGEC-FIA, para conceber e modelar Universidades Corporativas (UCs) ou Sistemas de Educação Corporativa (SECs), invariavelmente aparece, como uma competência estratégica a ser desenvolvida pela empresa, a Transformação Digital, o que dá origem à criação de uma academia ou escola dentro da UC.
Sempre atenta ao assunto, li recentemente o livro The Year in Tech, 2025: The Insights You Need, da Harvard Business Review (2024). Trata-se de um compêndio dos melhores artigos publicados pela HBR ao longo de 2024, sobre as tecnologias de maior impacto. O livro mostra que devemos esperar uma aceleração na tendência de fusão entre humanos e máquinas, impulsionada pelo papel cada vez mais abrangente da IA, em sinergia com outras tecnologias — da IA generativa ao futuro do trabalho, da biometria à computação espacial, de veículos elétricos à inovação industrial e sustentabilidade.
A obra traça um caminho claro em direção ao que os autores chamam de uma realidade empresarial “humanizada”, onde a fusão de humanos e máquinas inteligentes ocorre de forma integrada e em larga escala. À medida que essa convergência se acelera, novas oportunidades surgirão, juntamente com riscos crescentes.
Embora seja difícil prever o ritmo da mudança organizacional, os autores destacam que uma coisa é certa:
“Este ano, você verá uma fusão crescente e contínua da tecnologia de IA e do trabalho humano em sua organização.”
Todos os artigos da coletânea são instigantes, e recomendo a leitura, mas o capítulo que mais me interessou foi justamente o intitulado “Usando Academias Digitais para Preencher a Lacuna de Habilidades”, escrito por Rubén Mancha e Salvatore Parise.
Segundo os autores:
“Hoje, o problema que a maioria das empresas enfrenta ao executar sua transformação digital não é o acesso à tecnologia, mas a escassez de profissionais com habilidades em ciência digital e de dados. A demanda está crescendo mais rápido do que a oferta. Em outras palavras, o recrutamento só leva sua empresa até certo ponto. Para chegar ao fim do caminho, as empresas precisam se comprometer com treinamento e qualificação, dando aos funcionários oportunidades de aprender sobre tecnologias e espaço para experimentá-las (e fracassar).”
Eles acrescentam que, embora existam benefícios comprovados nos esforços internos de qualificação — como inovação, produtividade, transformação digital, engajamento e retenção de talentos — há também limitações. A aprendizagem autodirigida, por exemplo, pode aumentar a carga de trabalho dos indivíduos, sendo um esforço raramente reconhecido ou recompensado pelas organizações.
Em uma pesquisa conduzida sobre iniciativas de requalificação, os autores descobriram que as academias digitais estão entre as abordagens mais eficazes para eliminar a lacuna de competências digitais. De acordo com eles:
“Uma academia digital visa catalisar a forma como os funcionários interagem com a ciência digital e de dados, e liderar a transformação de processos, produtos e serviços.”
Eles destacam que, em geral, essas academias compartilham algumas características fundamentais:
São específicas para a cultura e a narrativa da empresa;
Ofertam programas educacionais altamente experienciais, levando em conta a dinâmica das equipes, apesar da diversidade de duração e conteúdo;
Abrangem toda a organização, atendendo desde novos funcionários até líderes e altos executivos;
Ajudam a criar e reforçar uma cultura de tecnologia e inovação, de forma que treinamentos genéricos dificilmente conseguem alcançar.
Os autores relatam cases de academias digitais desenvolvidas por empresas como DuPont, Gestamp e Deloitte, o que ajuda a compreender como essas iniciativas funcionam e o que é necessário considerar ao projetá-las.
As Academias de Transformação Digital destacadas no livro representam uma abordagem proativa e sistêmica para capacitação, alinhando o aprendizado às reais necessidades organizacionais atuais e futuras.
Em minha prática profissional vejo algo semelhante quando da estruturação de UCs que possuem Academias de Transformação Digital. Só acrescentaria que muitas delas também incluem criatividade, metodologias e aspectos comportamentais ligados à inovação. Com frequência objetivam promover de maneira integrada a inovação, a transformação digital e a inteligência de dados para a gerar valor para a empresa.
Como mencionado no início deste ensaio, o assunto está no radar de todos os setores de atividades, e o desafio da escassez de talentos digitais está presente em todas as áreas do conhecimento. Há um déficit que o recrutamento externo, por si só, não resolve. Por isso, as academias internas têm se mostrado uma solução eficaz.
E na organização em que você trabalha? Já existe uma Academia de Transformação Digital?Se existisse, você acredita que ela alavancaria seu sucesso profissional e sua carreira?
Opinião por Marisa Eboli
Doutora em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e Especialista em Educação Corporativa. É Professora de Graduação e do Mestrado Profissional na FIA Business School.
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