Corrida deve reunir 12 mil participantes, incluindo protótipos de 20 empresas, mas há requisitos
Por La Nacion — O Globo – 17/03/2025
Robô Tiangong corre ao lado de humano em Pequim — Foto: Reprodução La Nacion
Nova York, Paris, Londres, Berlim, Tóquio. Estas são algumas das maiores maratonas do mundo que acontecem anualmente. Mas não são as mais inovadoras. Nesse sentido, a China sai em primeiro lugar ao anunciar a primeira meia maratona em que humanos e robôs disputarão lugares no pódio.
A corrida acontecerá em abril em Pequim, especificamente na Área de Desenvolvimento Econômico e Tecnológico do Distrito de Daxing, conhecida como Beijing E-Town. A competição atrai 12 mil participantes, incluindo humanos e robôs de mais de 20 empresas diferentes.
Não é qualquer robô que pode participar: há certos requisitos. Por um lado, é essencial que os robôs tenham uma aparência humanoide. Além disso, devem ter entre 0,45 e 2 metros de altura. Também é essencial que as tecnologias tenham uma estrutura mecânica capaz de andar e correr sobre duas pernas. Parece um esclarecimento óbvio, mas não é. Alguns robôs podem vir com rodas, o que deixaria os humanos em total desvantagem.
Embora esta seja a primeira vez que uma corrida é realizada na qual os corredores competem formalmente com robôs, no ano passado, na Meia Maratona de Pequim, “Tiangong” — um robô humanoide — juntou-se aos humanos na reta final da corrida e cruzou a linha de chegada como um pequeno teste do que será visto na próxima edição.
Rivalidade
A grande questão desta era é: quando a tecnologia superará os humanos? De acordo com um estudo conduzido por pesquisadores especializados em inteligência artificial, há uma grande probabilidade de que inteligência de nível humano esteja presente em máquinas nos próximos 40 anos. E a questão permanece: o que acontecerá com os humanos?
Já existem vários exemplos em que o “aluno” superou o “professor”. Um dos casos mais famosos ocorreu em 1997, quando o Deep Blue, uma máquina desenvolvida pela IBM que conseguia analisar 200 milhões de posições por segundo usando computação bruta, derrotou Garry Kasparov, um histórico jogador russo, em uma partida de xadrez. A partida, disputada na cidade de Nova York, foi uma revanche de uma disputa que já havia ocorrido em 1996, quando Kasparov derrotou a tecnologia.
Seguindo essa linha, a tecnologia AlphaGo, desenvolvida pelo Google DeepMind, enfrentou o campeão mundial sul-coreano Lee Sedol em uma competição de cinco jogos do Go. O resultado terminou em uma vitória de quatro jogos contra uma derrota a favor da máquina, demonstrando seu claro potencial intelectual.
Mais recentemente, em 2018, o robô Curly derrotou um time sul-coreano em uma competição de curling, esporte que envolve lançar uma pedra de 20 quilos o mais próximo possível de um alvo no chão. A tecnologia foi desenvolvida por um grupo de pesquisadores da Universidade da Coreia do Sul e do Instituto de Tecnologia de Berlim e foi um grande sucesso, vencendo três das quatro partidas disputadas.
Nesse contexto, Eduardo Levy Yeyati, autor do livro Automatizados, refletiu em entrevista à RED/ACCIÓN que estamos em um momento em que devemos redefinir a relação que temos com as tecnologias e entender o valor que agregamos à medida que elas se tornam mais sofisticadas e começam a ocupar lugares importantes em nosso ecossistema.
— Não é a máquina no lugar do homem, é o homem como uma interface com a máquina e o homem habilitado pela máquina. Não adianta competir com a máquina. Temos que ser amigos — disse ele.
Mas imaginar um contexto em que vemos competições de robôs em vez de competições humanas é difícil.
“Há algo essencialmente humano que se perde quando atletas robôs praticam esportes”, escreveu Michael Cheng, especialista em IA e filosofia, em um artigo. “Obtemos um valor de entretenimento substancial, ou até mesmo aprendemos mais, ao observar alguém ficar confuso. O fato de os humanos cometerem erros é uma característica, não um defeito”.
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Presidente do IPT – Professor Titular e ex-Reitor do ITA
Não existe uma reunião sequer onde discutimos novas metodologias, técnicas de ensino, pesquisas de impacto ou políticas de inovação. Nos encontramos para discutir orçamento, métricas pra enviar para a CAPES, eleição para os cargos e as reformas dos banheiros. Não há líderes, mas gestores com a planilha debaixo do braço.
Sinto falta de ir a uma reunião onde eu saia inspirado e veja meus colegas igualmente. Quero falar sobre como motivar os alunos, quais são as tendências mundiais de pesquisa, para onde o mundo está indo. Se eu, que já tenho 50 anos de idade, estou achando a academia Brasileira puro tédio, imagine alguém de 18 anos de idade.
Sejam honestos, quem tem paciência para ir a um congresso acadêmico hoje em dia? Ver gente ficar passando powerpoint e falar as mesmas coisas de sempre. No final nunca concluem nada e ainda deixam um slide para pesquisa futura. Quando é que vão encontrar alguma descoberta que impacte a indústria? Quero ver patentes se tornando negócios e startups unicórnios.
Já passou da hora de as universidades ganharem autonomia de fato. Que autonomia é essa que não tem orçamento, não podem se autoavaliar e ficam inundados de burocracia, onde o professor na verdade está virando auxiliar administrativo doutor?
O Campus Universitário precisa transbordar de motivação e de novas iniciativas. Quando Kennedy quis anunciar que iriam chegar à lua, foi no ginásio da Universidade que ele fez o discurso, pois ali é um local para se apregoar boas notícias.
Por mais inspiração e menos transpiração em nossas universidades.
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Por João Lara Mesquita – Estadão – 10 de março de 202511
Extração de petróleo na Margem Equatorial, afinal, por que não?
Faz mais de uma década que discute-se a extração de petróleo na Margem Equatorial, a questão não avança. Antes, saiba que Margem Equatorial significa cerca de 2,2 mil quilômetros, desde o Estado do Amapá, na Região Norte, até o Rio Grande do Norte, no Nordeste Em 2023, o governo estimou que seria possível extrair 10 bilhões de barris de petróleo só do bloco 59 na Foz do Amazonas, que fica a 160 km da costa, e a mais de 500 km da foz do rio. No entanto, mesmo pedindo apenas para ‘pesquisar’, sondar a área, e confirmar ou não o potencial de barris, o Ibama negou a licença.
Técnicos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) recomendaram que a chefia do órgão negue a licença à Petrobras para explorar a Margem Equatorial na região do Amapá. O Globorevelou a informação, posteriormente confirmada pela CNN.
De todo modo, a capacidade da Margem Equatorial se aproxima da do pré-sal. Este post certamente renderá discussões, mas era uma obrigação com nossos leitores. Também será mais uma oportunidade para o Mar Sem Fim expor seu pensamento e se distanciar ainda mais dos… “ambientalistas”.
23 plataformas na região do pré-sal e 126 bilhões para a sociedade
A propósito, hoje a Petrobras tem 23 plataformas nesta região. Segundo a empresa, ‘o pré-sal é um sucesso que gera resultados para a Petrobras e também para o país. Entre 2008 e 2023, a Petrobras pagou cerca de U$ 63 bilhões em participações governamentais, entre royalties e participações especiais, associados diretamente à produção do pré-sal. Além disso, outros U$ 63 bi foram pagos ao estado, para aquisição de blocos e direitos em ativos da atividade, em um total de 126 bilhões de dólares em retorno do pré-sal para a sociedade civil’. Em outras palavras, foi a sociedade que ganhou estes 126 bilhões de dólares. Será que somos tão ricos assim que não precisamos do dinheiro, possivelmente, ainda mais que nos rendeu o pré-sal?
“Inconsistências preocupantes para a operação segura”
Para o Ibama, há “inconsistências preocupantes para a operação segura” em uma área de “alta vulnerabilidade socioambiental”. Daí vem a negativa, apoiada pela grande maioria dos ‘ambientalistas’, entre outros. Contudo, para nós, esta é uma decisão ideológica, e não uma análise puramente técnica como deveria.
Veja o caso da Guiana, já abordado nestas páginas. Até então, o país figurava entre os mais pobres da América Latina. Em 2015, um consórcio liderado pela Exxon, que incluía a Hess e a chinesa Cnooc, fez uma grande descoberta no Campo Liza. Segundo o Financial Times, a produção deve garantir à Exxon um fluxo contínuo de petróleo bruto por décadas. Como resultado, a economia guianense cresceu a impressionantes 62,3% em 2022, a maior taxa do mundo. Na época, analistas de Wall Street classificaram o investimento como “o melhor negócio petrolífero da história moderna”.
Em 2023, a Guiana registrou o sexto maior PIB per capita das Américas, segundo o site especializado Trading Economics. Com um valor de 23.103 dólares, o país ficou atrás, nessa ordem, das Ilhas Caimã, Estados Unidos, Canadá, Bahamas e Porto Rico. No mesmo ano, o Brasil ocupou a 20ª posição, com 9.728 dólares.
Para nós, o maior problema segue sendo a polarização. Essa divisão extrema entre brasileiros apenas atrapalha, prejudica e paralisa o país. Enquanto isso, poucos veículos da imprensa ou perfis nas redes sociais mencionam a importância da Corrente Norte do Brasil.
A Corrente Norte do Brasil
A Corrente Norte do Brasil atravessa o Equador, transportando águas tropicais do hemisfério sul para o hemisfério norte. No entanto, essa dinâmica raramente aparece nas discussões sobre a possível exploração na Margem Equatorial. Em outras palavras, em caso de vazamento, há grande chance de o óleo nem sequer alcançar o litoral do país.
Especialistas falam com o Mar Sem Fim: Ilson da Silveira
O Mar Sem Fim conversou com o especialista Ilson da Silveira, Bacharel em Oceanografia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1984), Mestre em Oceanografia (Oceanografia Física) pela Universidade de São Paulo (1990) e Ph. D. em Ciências da Terra – Oceanografia Física pela University of New Hampshire (1996).
A única pergunta foi: Se houver vazamento, para onde iria o óleo? ‘Alguns estudos simples de dispersão precisariam ser conduzidos (ou foram e eu não sei dos resultados) para afirmar com mais propriedade. Mas, em função da distância da costa dos blocos de exploração ao largo do Amapá e a presença da muito intensa Corrente Norte do Brasil, acredito que a grande chance é que o derramamento seja transportado para o hemisfério norte junto à corrente. Talvez este até possa alcançar a costa mais à frente, mas fora de águas territoriais brasileiras (mas mesmo assim me parece improvável). Para responder além dos “achismos” e de forma quantitativa, só com estudos de modelagem numérica’.
Alexander Turra, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo
Também conversamos com Alexander Turra, professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo, e Chefe da Cátedra UNESCO de Sustentabilidade Oceânica.
Eis o que ele nos disse: ‘Participo de um grupo que vem buscando identificar contrapartidas que precisarão ser implementadas para que a eventual riqueza trazida pelo óleo trabalhe efetivamente na transformação da região para um futuro cada vez mais sustentável’.
Isso passa por, por exemplo pelo fortalecimento das Unidades de Conservação existentes (elaboração e implementação de planos de manejo, fundo de compensação ambiental…); ampliação das Unidades de Conservação para aumentar a proteção de ambientes pouco representados, fomentar à ciência (ex. aumentar a massa crítica nas universidades e institutos de pesquisa da região (previsão orçamentária), dar mais suporte aos cursos de graduação e pós-graduação sobre a temática na área; aumentar os recursos destinados à ciência; instalação e manutenção do Sistema de Vigilância da Amazônia Azul (SisGAAz/Marinha); fortalecimento do tecido social e dos processos participativos como uma estratégia de controle social para aplicação dos royalties; promoção da economia sustentável do oceano e zona costeira por meio da criação de uma agência de desenvolvimento da economia azul na região; e, finalmente, a aprovação da Lei do Mar (PL 6.969/2013)’.
Agora é conosco
Diante dessa realidade, da desigualdade e pobreza do Brasil e da vastidão da região Norte, não tenho dúvidas de que devemos seguir em frente.
Macapá enfrenta a pior infraestrutura de esgoto do país. Segundo o IBGE, apenas 15,5% da população tem acesso a saneamento por meio de rede geral, pluvial ou fossa ligada à rede. Os números são alarmantes: 174.996 pessoas dependem de fossas sépticas ou filtros sem conexão com a rede, 2.813 recorrem a outras soluções improvisadas e 389 sequer têm banheiro ou sanitário. A capital do Amapá ocupa a última posição no ranking de saneamento básico no Brasil. E, de acordo com o Instituto Trata Brasil, a cidade despeja diariamente no rio Amazonas o equivalente a 15 piscinas de esgoto in natura. Em toda a Amazônia, esse número salta para 831 piscinas por dia.
Agora imagine o impacto dos royalties da Petrobras caso as suspeitas se confirmem. Bilhões de reais poderiam transformar Macapá em um exemplo de saneamento universal no Brasil, além de viabilizar outras melhorias essenciais.
Marina Silva
Marina Silva, com seu messianismo e clara posição política, pode protestar, e daí? Sim, Marina é um ícone do ambientalismo nacional e internacional, tem uma trajetória de superação admirável, mas, como ministra do Meio Ambiente, é fraca. Seu foco se limita à Amazônia, ao Pantanal e à criação das famigeradas Reservas Extrativistas. Mesmo após mais de dois anos no cargo, nunca se pronunciou sobre o litoral e o mar territorial brasileiros, que seguem abandonados.
Em seu primeiro mandato, mais uma vez concentrou esforços na Amazônia e obteve sucesso. Foi nessa gestão que o desmatamento atingiu a maior queda já registrada. Em 2012, o governo anunciou uma redução de 83%, enquanto o INPE indicava 72%. Seja qual for o número exato, a queda foi impressionante.
No governo Lula 2, com o apoio decisivo do Itamaraty, Marina Silva consolidou o Brasil como um dos líderes nas discussões ambientais globais. Apesar das críticas à sua atuação interna, é preciso reconhecer esse e outros méritos.
Por outro lado, cometeu um grande erro ao desmembrar o Ibama para criar o ICMBio, numa homenagem a Chico Mendes. No entanto, deixou de estruturar os órgãos ambientais, que já eram precários e acabaram ainda mais sucateados, tornando-se quase inoperantes. E chega de Marina, o assunto é outro.
24 petrolíferas atuam na costa da Guiana e Suriname
É interessante notar que pesquisadores estimam um potencial de 20 a 30 bilhões de barris de óleo cru apenas na bacia Pará-Maranhão. Para comparação, as bacias de Campos e Santos têm reservas comprovadas e contingentes de 40 bilhões de barris.
O Estadão ainda lembrou que ‘desde 2015, 24 petrolíferas atuam na costa da Guiana e do Suriname em 60 pontos de exploração, sem nenhum incidente’.
“Intromissão ideológica”
O problema, diz o jornal em editorial, é que a zona cinzenta de discricionariedade política é também sujeita à intromissão ideológica. Boa parte da militância ambientalista considera a combinação Amazônia + petróleo – ainda que já haja extração na própria floresta e a perfuração solicitada seja a centenas de quilômetros da foz – inexoravelmente catastrófica, e há indícios de que o Ibama e a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, levaram em conta esses humores para transformar a controvérsia em uma espécie de cause célèbre.
Para encerrar, o Estadão lembrou que ‘o próprio Ibama participou do comitê que autorizou, há dez anos, a oferta de mais de 40 blocos na região que agora diz ser inviável.’
Segundo a Petrobras por enquanto o Brasil pretende explorar um poço de óleo e gás no Rio Grande do Norte. A Colômbia abriu onze poços exploratórios e oito descobertas de gás. Trinidad e Tobago tem 37 poços exploratórios e 21 descobertas de óleo e gás. a Guiana, 64 poços exploratórios e 42 descobertas de óleo e gás. O Suriname extrai em 40 poços e teve 19 descobertas de óleo e gás.Finalmente, a Guiana Francesa trabalha em sete poços exploratórios e teve duas descobertas de óleo. E, até o momento, ainda não houve qualquer acidente. Ou seja, o Brasil não pode ficar atrás, não temos como dispensar os bilhões que a Margem Equatorial pode render.
Potencial do petróleo e gás até 2050
Em outro editorial, o Estadão levantou questões que vale a pena destacar. Para começar, estima-se que, em 2050, o petróleo e o gás ainda representarão cerca de um terço da matriz energética global. Mesmo no cenário mais agressivo – e improvável – de descarbonização, os combustíveis fósseis ainda responderiam por 15% dessa matriz. A Empresa de Pesquisa Energética alerta que, se o Brasil deixar de explorar suas reservas potenciais, poderá perder R$ 5 trilhões entre 2031 e 2050.
Mais adiante, o editorial revela outros fatos importantes para esta discussão. Por exemplo, ‘o Brasil tem vantagens. Se boa parte do mundo precisa trocar o carvão por fontes limpas, o País já tem 48% de sua matriz energética ligada a fontes renováveis, enquanto a média mundial é de 15%’.
‘No mundo, o setor de energia responde por 70% das emissões de carbono. No Brasil, são 17%. O País tem áreas continentais fartamente servidas por água, vento, luz solar, biomassa e metais cruciais para a transição energética, e tem condições materiais de se tornar um exportador de hidrogênio verde e aproveitar a expertise com o etanol para desenvolver alternativas de biocombustíveis’.
E, então, vamos considerar os argumentos acima, ou persistirá a divisão? Queremos saber a sua opinião, participe, é importante para o País que todos se manifestem. Vamos lá?
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Como a Velocidade de Entrega Define o Sucesso no Varejo Digital
Junior Borneli – Entrelinhas/StartSe – 13/3/2025
Se você acha que preço é o fator decisivo na escolha de uma loja online, pense de novo. No mundo acelerado do e-commerce, a rapidez da entrega tornou-se um diferencial tão ou mais importante do que o valor pago pelo produto.
Pesquisas mostram que consumidores estão dispostos a pagar mais para receber seus pedidos rapidamente e, muitas vezes, preferem uma loja que entregue em um dia, mesmo que tenha um preço um pouco mais alto.
A Amazon e o Mercado Livre entenderam essa nova dinâmica do mercado e transformaram a logística em uma arma estratégica. A Amazon Prime, por exemplo, revolucionou o setor ao oferecer frete grátis em 24 horas para assinantes, o que não só fidelizou clientes como também elevou o padrão de exigência do consumidor.
Para cumprir essa promessa, a empresa investiu em sua própria frota de aviões, os Amazon Air, garantindo que os produtos cruzem países em poucas horas, sem depender de terceiros. São mais de 80 grandes jatos da Boeing.
No Brasil, o Mercado Livre seguiu um caminho similar. A empresa criou uma rede de logística própria, com centros de distribuição espalhados pelo país e, assim como a Amazon, investiu na sua própria frota de aviões, os Meli Air.
O resultado? Entregas ultra-rápidas que fazem com que milhares de consumidores escolham a plataforma apenas pela eficiência na entrega. Tempo é dinheiro, mas é também diferencial competitivo no mundo onde tudo é rápido.
Uma pesquisa da PwC revelou que 41% dos consumidores estão dispostos a pagar mais por entregas no mesmo dia. Outra pesquisa, da Retail TouchPoints, mostrou que 87% dos consumidores consideram a velocidade da entrega um fator decisivo na escolha de onde comprar. Isso significa que, em muitos casos, o cliente não escolhe pelo preço, mas pelo tempo de espera.
Outras gigantes também entraram na corrida contra o tempo. O Alibaba, na China, criou uma malha de centros logísticos hiperconectados para reduzir ao máximo os prazos de entrega, garantindo que pedidos feitos de manhã cheguem ao consumidor no fim do dia.
Até mesmo empresas mais tradicionais como o Walmart, nos EUA, investiu pesado em sua própria infraestrutura de entrega expressa, permitindo que milhares de produtos sejam entregues em poucas horas.
A velocidade não é apenas um diferencial, é um fator de sobrevivência. No e-commerce, cada minuto conta, e a capacidade de entregar rapidamente define quem cresce e quem fica para trás.
Como disse Jeff Bezos, fundador da Amazon: “A melhor propaganda é um cliente satisfeito”, e nada deixa um cliente mais satisfeito do que receber seu pedido quase instantaneamente.
No fim das contas, a mensagem é clara: quem entrega mais rápido, vende mais. O tempo é o novo dinheiro do e-commerce, e quem não se adaptar a essa realidade vai ver seus clientes escolhendo a concorrência. Afinal, esperar nunca foi tão caro.
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Para a política do reshoring se sustentar, serão necessárias medidas mais agressivas de subsídios, discriminação e proteção, o que poderá empurrar a economia americana para um círculo vicioso de baixa inovação e baixa competitividade
Por Jorge Arbache – Valor – 13/03/2025
É professor de economia da Universidade de Brasília e foi vice-presidente de Setor Privado do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF)
Parte da narrativa dos recentes governos dos Estados Unidos para justificar políticas protecionistas, discriminatórias e de subsídios que afrontam regras do comércio internacional é que o país estaria se desindustrializando em razão do modelo econômico implantado pelo governo chinês.
O presidente Donald Trump tem sido particularmente enfático: “Perdemos milhões de empregos no setor de manufatura por causa da China”; “Eles tomaram nossas fábricas, tomaram nosso dinheiro”; “Não podemos continuar a permitir que a China estupre nosso país, e é isso que eles estão fazendo. É o maior roubo da história do mundo”.
As estatísticas parecem dar suporte aos políticos. Em 1980, a participação da indústria no Produto Interno Bruto (PIB) americano foi de 21,2% e no emprego de 20,1%. Em 2023, os números tinham caído para 10,1% e 8,4%, respectivamente.
Mas um olhar mais cuidadoso revela uma história diferente. Nos anos 1980, coordenados com o governo, grandes conglomerados industriais americanos adotaram uma política de transferência de plantas industriais para a China, que então iniciava a sua jornada de transformação econômica e buscava investimentos e tecnologias. Houve uma combinação de interesses entre os dois lados, que levaria a uma das mais espetaculares mudanças econômicas contemporâneas. Os EUA entrariam com capital, máquinas, tecnologias, modelos de negócios e gestão, e a China entraria com mão de obra, então extremamente abundante e barata, e condições regulatórias, logísticas e de infraestrutura bastante vantajosas.
O modelo mais que atendeu aos interesses dos investidores. Estudos de caso mostraram reduções médias de custos operacionais entre 30% e 50% e, em alguns casos, reduções muito maiores. Estima-se que as margens operacionais médias e os retornos médios anuais das ações das empresas que adotaram a estratégia foram, respectivamente, 15% e 7% maiores do que os de empresas similares do mesmo setor que não seguiram aquela estratégia.
A redução de custos e o aumento da escala de produção permitiram que empresas como Apple, Nike, Dell, HP e tantas outras alcançassem o mercado global e se tornassem líderes quase imbatíveis de seus setores, algo impensável se a produção fosse nos EUA. Os produtos saíam das fábricas como “Made in China”, mas seria mais acurado saírem como “Made by the United States in China”. Diante do enorme sucesso empresarial, conglomerados europeus e japoneses também abraçaram a estratégia, que viria a ser conhecida como “offshoring”.
A política do offshoring, combinada com mudanças tecnológicas, como contêineres e internet, flexibilizações regulatórias e financeiras, entre outras, catapultaria para as alturas o modelo de cadeias globais de valor liderado pelos EUA.
Mais adiante, o país levaria esse modelo para uma segunda etapa, desta vez, focado em setores específicos para atender especialmente ao próprio mercado americano. Assim surgiriam as cadeias regionais de valor da América do Norte. O caso mais conhecido do modelo é o do setor automobilístico, que desenvolveu uma sofisticada cadeia de valor envolvendo os três países do norte no âmbito do então acordo comercial Nafta.
A política de cadeias internacionais de valor transformou profundamente a indústria americana. Em vez de plantas industriais, os EUA passaram a se concentrar em serviços e na gestão de cadeias de valor. Em vez de peças, partes e montagem, a ênfase passou para P&D, softwares, patentes, design, marcas, marketing, vendas, financiamento, seguros e tantos outros serviços que são parte crítica das modernas cadeias de valor e que são o filé-mignon do comando, controle e retorno do capital.
É improvável que o reshoring recupere a indústria manufatureira americana em um horizonte previsível. Pense no iPhone. Embora o telefone seja embalado e despachado para os mercados globais desde a China, estima-se que esse país fique com entre 5% e 10% do valor adicionado de cada telefone. No caso do México, que é um hub de exportação de automóveis com várias dezenas de grandes plantas, estimativas apontam que o país responderia por até 15% do valor final de cada carro que envia para os EUA. Tanto em um caso quanto no outro, a maior parte da agregação de valor vai para o maestro da cadeia de valor.
Portanto, a indústria americana encolheu, em boa parte, como resultado de políticas corporativas de otimização de custos e maximização de lucros e da busca por alcance global. Isso nada tem a ver com “roubo” de empregos.
Embora a típica família americana tenha se beneficiado da enxurrada de manufaturas baratas importadas, a política de offshoring prejudicou setores da classe média. A perda de empregos industriais foi especialmente marcante em estados críticos para as eleições majoritárias, o que teria implicações políticas importantes. O setor de serviços voltados para a indústria pouco absorveu os trabalhadores que perderam os seus empregos, pois não tinham a qualificação e o conhecimento específicos.
A crescente liderança da China em vários setores industriais e os problemas de suprimentos durante a pandemia somaram-se às dores da desindustrialização para dar origem, poucos anos atrás, à estratégia política populista do “reshoring”, qual seja, trazer de volta as plantas industriais que estavam na China. As promessas eram recuperar empregos “roubados” e conter a China.
Mas é improvável que o reshoring recupere a indústria manufatureira americana em um horizonte previsível. Empresas que fecham as portas na China para reabrirem nos EUA o fazem com uso intensivo de robôs e IA. Custos trabalhistas mais elevados e carência de infraestruturas, ecossistema industrial e fornecedores de peças e partes deverão tornar a tarefa mais árdua. As políticas antimigratórias e as tarifas comerciais adicionarão ainda mais amargor a esse caldo.
Para a política do reshoring se sustentar, serão necessárias medidas mais agressivas de subsídios, discriminação e proteção, o que poderá empurrar a economia americana para um círculo vicioso de baixa inovação e baixa competitividade. Não seria exagero prever que tudo isso levará a mais guerras comerciais e a frustrações populares.
Jorge Arbache é professor de economia da Universidade de Brasília (UnB) e escreve mensalmente às quintas feiras neste espaço.
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Presidente do IPT – Professor Titular e ex-Reitor do ITA
Abro uma reflexão hoje sobre uma questão essencial. Quem é o cliente final da Universidade?
Considero que alunos, professores, empregadores e governo são clientes intermediários, mas há objetivos que transcendem as necessidades desses stakeholders.
Muitas privadas focam demasiadamente nos alunos. Buscam reduzir as mensalidades, fazer vestibulares bem acessíveis e cursos rápidos sem estresse. Como Professor do ITA há 20 anos, considero que se a gente fosse focar apenas no desejo dos alunos, acredito que o modelo da escola já teria implodido há muito tempo.
Vejo que algumas públicas vivem para satisfazer seus professores. Conselhos gigantes, longas reuniões, várias instâncias consultivas, eventos pomposos com citações nominais a celebridades acadêmicas e prêmios infindáveis. Muitas universidades tem se perdido no corporativismo acadêmico e deixado de entregar de fato o que é necessário.
Há quem diga que a universidade deva atender ao mercado de trabalho, mas quem garante que os empregadores estão corretos nas suas especificações de profissionais? Vejo no caso da Engenharia, que se a gente fosse ouvir algumas empresas, principalmente aquelas multinacionais que deixam os Centros de Pesquisa na matriz, a gente só iria formar Engenheiro para trabalhar no chão de fábrica.
Finalmente, é inevitável que as universidades atendam o governo e suas regulações. Inclusive muitas instituições tem abdicado de suas missões próprias para atender regras, mesmo que isso signifique sacrificar seus propósitos principais. Lembro que certa vez um coordenador de pós-graduação do ITA queria descredenciar dois professores do programa porque não tinham o número de papers mínimo necessário, apesar de um deles estar construindo um satélite Brasileiro, em parceria com a NASA e outro estava apoiando no desenvolvimento do cargueiro KC-390. Claro que não autorizei tal atrocidade.
Portanto, atender os clientes intermediários não é suficiente. Temos que pensar na verdade é no cliente final, que é a sociedade Brasileira. É assim que eu pensava quando era Reitor do ITA. Já tive situação em que tive que dizer não concomitante a vários stakeholders, em prol de nossa missão institucional, pois a gente não assume uma função dessas para agradar a todos, muito pelo contrário.
Sempre que estivermos na dúvida sobre quem é o cliente final da universidade, lembremos dos Bilhões de reais que vem dos pagadores de impostos anualmente. Gente simples, que acorda de madrugada para sustentar as famílias e precisa ao mesmo tempo nos bancar na universidade pública com a parcela de impostos provenientes de seus baixos salários. Por isso, todos precisamos focar no bem estar da sociedade e gerar conhecimento e entregas que lhe sejam úteis em retorno.
Gostei da definição de cliente que ouvi quando visitei uma universidade asiática: “aqui só fazemos pesquisas que interessem ao país”. Que tenhamos isso em mente quando formos montar nossos projetos universitários.
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Pequenas empresas, com bom funcionamento, vão construindo modelos especializados
Pedro Doria – O Globo – 11/03/2025
Dois dos lançamentos mais recentes de inteligência artificial nada têm a ver com as grandes empresas. Não tem OpenAI ou Anthropic, Google ou Meta, não tem nem xAI. Um é um modelo americano para conversação por voz, o Sesame. O outro, chinês, se chama Manus e promete ser o primeiro agente realmente autônomo de que temos notícias. São, ambos, dois lançamentos, um com duas semanas, o outro com menos de uma.
Poderíamos jogar na lista ainda um terceiro, o Mistral Saba, modelo de linguagem de grande porte construído na França, não muito distinto do GPT ou do Gemini ou dos muitos que todos temos usado. Com uma distinção: o Mistral Saba foi treinado em árabe. É fluente na língua, falada por 300 milhões, idioma oficial de 26 países. Um modelo nativo sempre fala melhor do que aqueles que traduzem, produz textos menos artificiais, faz diferença no dia a dia. A IA está se fragmentando, se distribuindo e avançando mais rápido do que era esperado.
Talvez, desses lançamentos novos, o mais relevante seja o Manus. No vídeo em que o anunciam, os engenheiros chineses dão um exemplo de sua capacidade. Partem de uma ordem simples: pegue estes muitos currículos aqui, compare as carreiras e o potencial de cada um dos candidatos e sugira quem melhor se encaixa no perfil da empresa e por quê. Parece trivial para uma boa IA, só que o Manus faz o que nenhuma IA de hoje consegue. Analisa cada um dos textos, aí escreve um código para fazer uma comparação e roda o programa, chega a suas conclusões, abre o software de e-mail e envia para uma série de executivos suas avaliações.
O que Manus consegue é controlar o computador. E faz isso pensando. Não fica preso dentro de uma janela, como os modelos que usamos hoje. Faz buscas na web, abre planilhas, escreve programas e depois os roda, captura as conclusões, abre o software de e-mail, escreve uma mensagem e decide para quem tem de mandar. Poderia entrar no banco e fazer uma transferência todo dia 5 ou escolher em que data é melhor comprar passagem numa determinada companhia aérea. Agentes são isso. Recebem um pedido, assumem o comando de nosso computador e fazem aquilo que pedimos. Não estávamos longe deles. Tanto Google quanto OpenAI prometem, ainda para este ano, lançar algo que chamam de agentes. Só que veio de uma firma chinesa desconhecida quando ninguém esperava. Uma empresa que nem estava no mapa.
Aí vem o Sesame, com duas vozes, uma masculina chamada Miles, outra feminina, Maya. Ele bate papo, só isso. Conversa por voz. E é inglês, não domina outra língua. Mas conversa numa fluência que nenhuma outra IA havia conseguido, nem o excelente Advanced Speech do ChatGPT. É conversa de jogar fora mesmo, sobre o que o humano desse lado da tela quiser, com trejeitos, sorrisos, pequenas pausas e aqueles sons de apoio que usamos para preencher o vazio enquanto construímos o raciocínio.
Mesmo o Mistral, que aparentemente não tem nada demais, pois só fez em árabe o que outras companhias já haviam feito em inglês, mostra um avanço incrível. Afinal, demonstra aquilo que o DeepSeek chinês já insinuava. Está ficando muito mais barato, muito mais rápido e muito mais fácil treinar um grande modelo de linguagem (LLM). Os planos brasileiros de treinar IA em português precisam ser refeitos porque tudo o que parecia ser necessário no segundo semestre do ano passado não é mais. A coisa simplificou.
Há menos de um ano, parecia que as grandes inovações estavam nas mãos de grandes corporações com bolsos sem fundo. OpenAI (ChatGPT) e Google (Gemini) ainda são líderes incontestáveis. Os produtos com a marca GPT, no agregado, seguem mais à frente que os outros. Ainda representam a melhor suíte de produtos baseados em IA que existe no mercado. Mas a distância vai apertando e, ao que parece, pequenas empresas, com bom funcionamento, vão construindo modelos especializados superiores ao que as suítes oferecem.
Para quem precisa usar IA, principalmente empresas, isso muda o jogo. Aponta para um mundo em que, em vez de contratar um grande pacote de um único fornecedor, iremos para um mercado fragmentado. Mostra que produtos regionais podem ter mais relevância para usos específicos que os americanos ou chineses. E, sim, essa é uma boa notícia para o mercado brasileiro de IA, que, potencialmente, poderia contar com empresas locais, relevantes, oferecendo algo que as estrangeiras não conseguem.
Falta, para isso, claro, equipamento. Afinal, não temos parques de servidores e comprar computador é sobretaxado de forma excessiva.
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Na empresa fundada por Jeff Bezos, o objetivo era criar um chip capaz de diminuir as taxas de erros. Na computação quântica, a informação é processada por meio de qubits, que, ao contrário dos bits da computação clássica (como a dos smartphones), exibe diversos estados entre 0 e 1. É como se os bits fossem uma lâmpada se só é capaz de ficar acesa ou apagada, enquanto os qubits são uma lâmpada dimerizada, exibindo diferentes estados de iluminação entre a ausência e a presença total de luz. No entanto, os qubits são bastante instáveis e o Santo Graal da indústria é conseguir torná-los estáveis ao ponto em que as máquinas se tornem úteis fora dos laboratórios.
Desenvolvido durante cinco anos, o Ocelot usa um método de oscilação de qubits para diminuir a taxa de erro desses componentes, facilitando a construção de um chip com capacidade de processar fórmulas longas e complexas para os computadores comuns. É a missão perfeita para Brandão. Há nove anos, ele ocupa a cadeira máxima da Divisão de Teoria Física, Física, Matemática e Astronomia do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech). A escolha não é à toa: professor do Caltech e prêmio Nobel de Física de 1965, o americano Richard Feynman, foi quem deu os primeiros passos na computação quântica.
Filho do meio de um casal de professores universitários – o pai é professor de literatura e língua grega; a mãe, de filosofia – Brandão apresentou o Ocelot em um momento crucial para a área. É hora dessas máquinas mostrarem que são capazes de levar a descobertas que transformarão o mundo. Ele conversou com o Estadão sobre o tema em videochamada de sua casa na região de Los Angeles, EUA.
“As pessoas comentam que é uma competição entre os Big Techs e, claro, tem um pouco disso. Todo mundo quer progredir. Mas acho que, no caso da computação quântica, realmente não é uma maneira de pensar nisso. É muito gratificante ser parte desse time e ser parte da comunidade de computação quântica em geral, que pode contribuir para avançar a humanidade de alguma maneira, tentando construir esse novo tipo de computador”. Veja abaixo os melhores momentos da conversa.
A computação quântica já faz parte da sua rotina há muito tempo. Como é ver um chip desse tipo, como o Ocelot, em funcionamento?
É um momento muito bom. A gente começou esse projeto na Amazon há uns cinco anos e o objetivo de longo prazo é construir um computador quântico que traz benefício pra sociedade. E, claro, não somos os únicos tentando fazer isso e, como todo mundo trabalhando na área sabe muito bem, isso é um desafio tecnológico incrível.
Por que investir em computação quântica?
As leis da física quântica são muito diferentes da física que a gente observa no nosso dia a dia. E essa diferença pode ser usada para fazer uma computação de uma maneira muito mais eficiente para algumas aplicações importantes para sociedade, como criptografia ou ciências materiais, por exemplo. Algumas delas são muito, muito difíceis para os nossos melhores computadores. Algumas delas são, na verdade, impossíveis para os computadores que a gente tem hoje em dia, mas o computador quântico conseguiria resolvê-las. Então, todo esse esforço para construir um computador quântico, uma vez alcançado, vai se transformar em uma tecnologia transformadora para sociedade.
A Amazon anunciou que a tecnologia usada nesse chip quântico é a de correção de erros. O que isso significa?
Desde o começo desse projeto, a Amazon já entendia que sem correção de erro, computadores quânticos não vão trazer benefício para sociedade. Depois de muitas tentativas, muita ciência junto com engenharia, a gente conseguiu implementar uma correção de erros sem a necessidade de tantos qubits, e isso é o que o Ocelot demonstra. Correção de erro é uma ideia que já existe em tecnologia normal, mas a gente quer a versão quântica disso. E a gente sabe como fazer isso em princípio, mas tem um preço que você paga. E o preço que você paga é que para cada qubit que você quer ter no seu computador, você precisa construir vários qubits no laboratório para que ele “absorva” os ruídos. O Ocelot implementa um novo tipo de correção de erro que chama correção de erro quântica bosônica. A ideia é que, inventando uma nova maneira de fazer correção de erro quântica, a gente consiga reduzir em 10 vezes o excesso de qubits necessários para fazer correção de erro numa escala de utilidade prática. Então, no momento, é um protótipo, é um chip com correção de erro funcionando, mas pequeno ainda. E o que a gente tem que fazer agora é escalonar esse chip. Mas essa nova estratégia que a gente achou vai permitir que a gente faça isso de maneira muito mais eficiente do que antes.
Como isso foi possível de ser feito?
Nesse chip temos fótons que se posicionam como se tivessem entre dois espelhos, em que eles batem várias vezes. Isso é o ‘oscilator’, eles oscilam entre essas cavidades, entre esses dois espelhos. O que a gente consegue ver é que quando a gente coloca mais fótons lá, ele se torna mais robusto para erros, para um tipo de erro pelo menos. O que a gente conseguiu fazer, usando esse tipo de qubit, foi corrigir um desses tipos de erro diretamente no nível do qubit. Então, a gente consegue construir um qubit que só tem o mesmo erro que os bits clássicos. E aí a gente pode usar só um código de correção de erro tradicional para resolver esse tipo de ruído. Resumindo, a gente desenvolveu um novo tipo de qubit que só é suscetível a um dos dois tipos de erros que normalmente a gente tem no computador quântico.
Qual foi o maior desafio que vocês encontraram nesse projeto?
O maior desafio foi esse tipo de qubit especial, chamado “qubit gato”. Já se sabia que eles poderiam ser úteis para correção de erro quântico, eles são mais robustos que outros tipos de qubits, mas era muito difícil fazê-los de uma maneira escalável, colocar vários deles num chip e implementar o código de correção de erro. E acho que isso foi a maior inovação que a gente conseguiu fazer. A gente conseguiu fazer esses “qubits gato” mas de uma maneira escalável, onde a gente pode colocar vários num chip, conectá-los, fazer eles funcionarem e aí ter essa correção de erro mais eficiente.
Estamos em um momento em que temos visto com mais frequência descobertas no mundo da computação quântica. Esses anúncios ficarão mais comuns?
Sim. Tem bastante interesse na área e a gente chama de “moonshots” todos os projetos, porque o objetivo final ainda está bem no futuro para todo mundo, ainda precisa de muito desenvolvimento, não importa qual é a plataforma que você está considerando. Também tem todos esses grupos e empresas diferentes porque tem muitas ideias de como construir o computador quântico. E qual dessas ideias vai ser realmente a melhor e vai construir o primeiro computador quântico? Isso só a história vai falar para a gente. Na Amazon, a gente se sentiu muito bem trabalhando com versões futuras do Ocelot. Mas eu acho muito bom que tenham outras pessoas tentando outras abordagens e isso faz a área de computação quântica ser interessante, com muita coisa acontecendo e muitas vezes a gente vê também uma plataforma ou uma abordagem para construir um computador quântico influenciando a outra. Então, eu acho que é um momento realmente de muito aprendizado, de muita construção e que bom que há todo esse investimento, porque sem isso não tem como progredir em uma área de tecnologia igual essa.
Qual o cenário futuro da computação quântica para os próximos anos?
Todo esse trabalho, todo esse esforço é para atingir um objetivo final que é construir um computador quântico que, um dia, vai trazer benefícios para a sociedade – e isso significa resolver alguns problemas de interesse da sociedade que são totalmente impossíveis para os computadores que a gente tem hoje em dia. Com certeza é um objetivo muito valioso, que vale a pena investir, mas vai demorar muito tempo ainda, não é uma questão de alguns poucos anos. Ao mesmo tempo, por causa de todo esse investimento e todo o interesse, estamos em uma curva exponencial de desenvolvimento. É muito difícil prever, mas eu vejo todos os passos necessários para chegar lá acontecendo, e talvez isso comece a acontecer mais rapidamente no futuro.
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Corrida para construir a infraestrutura do futuro é a mais importante desde a era nuclear
Álvaro Machado Dias – Folha – 8.mar.2025
Neurocientista, professor livre-docente da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), sócio do Instituto Locomotiva e da WeMind e colunista da Folha
[RESUMO] Disputa para liderar a revolução tecnológica desencadeada pela inteligência artificial promete remodelar a geopolítica nas próximas décadas, de forma tão acentuada quanto a Guerra Fria. EUA e China protagonizam os embates, mas Europa, Coreia do Sul e Taiwan também ocupam papéis importantes no tabuleiro de acordos, embargos e transferência de tecnologia deste jogo de resultados imprevisíveis.
A evolução tecnológica acelera-se com o tempo e, com ela, a tendência a enxergar as coisas que inventamos como uma segunda natureza. Inteligências artificiais (IAs) generativas são uma etapa desse processo no domínio das criações que externalizam e automatizam a nossa inteligência. A fase seguinte envolverá robôs com sensores e sistemas motores que replicam os nossos, afinal, o mundo não se resume a telas.
Os incentivos para liderar a evolução tecnológica são tremendos e estão sendo discutidos nos grandes centros de poder sob o prisma da infraestrutura.
Tal como a internet baseia-se em cabos interoceânicos, satélites e protocolos universais de comunicação, não tardará o momento de estabelecer protocolos para que as IAs e os sistemas físicos em que são embarcadas possam interagir globalmente e multiplicar seu impacto, o que deve ser decidido em função da relevância das alternativas. Isso faz da corrida pela supremacia em IA a mais importante desde a era nuclear.
Estados Unidos e China dominam a cena, que não é mero replay da antiga Guerra Fria. Ainda que as faíscas estejam por todos os lados, os adversários são interdependentes, sem contar que estão no negócio de oferecer alternativas para o mundo livre, o que a União Soviética via com ceticismo.
Até aqui, os dois gigantes vêm adotando estratégias opostas. O incumbente ocidental opta pela defesa exaustiva de seus segredos, enquanto o desafiante aposta na pulverização do conhecimento por meio da distribuição de soluções de código livre.
A intenção é evitar que o consórcio público-privado americano consolide seu monopólio, enquanto corre para reduzir o gap tecnológico que subsiste, a despeito de os chineses contarem com ativos valiosos: alunos mais bem formados em exatas, 200% mais engenheiros de software e ética de trabalho superior.
Uma vantagem potencial de Pequim é ser mais simpática para os países em desenvolvimento, consolidando sua liderança entre o Brics, que hoje representa 40% da população mundial e 35% do PIB por paridade de compra. Enquanto Trump distribui cotoveladas, Xi Jinping, líder chinês, pensa obsessivamente em destravar a demanda reprimida das economias médias. No entanto, a missão é mais difícil do que parece.
O segredo das IAs atuais é colocar o processador (GPU) para resolver matrizes de comparação de palavras, até o ponto em que dê para assumir que uma é boa. O mesmo vale para imagens, vídeos e tudo o mais.
A mágica, portanto, não emerge somente dos algoritmos generativos, mas do hardware, onde as demandas a serem destravadas encontram embargos e outros obstáculos de natureza geopolítica, que os chineses não conseguem contrapor com seus próprios trunfos materiais, como a hegemonia no refinamento das terras raras, fundamentais para a indústria tecnológica.
A contenda sobre os segredos industriais desses hardwares é antiga e já envolveu múltiplas empresas e países. Ela começou a ganhar contornos quando William Shockley descobriu uma propriedade fascinante do germânio, utilizado na construção de radares. Dependendo da corrente aplicada, o material se torna condutor ou isolante.
Isso o remeteu a Alan Turing, que inventou o processador universal para quebrar a criptografia nazista (Enigma), abrindo as portas para uma revolução produtiva e intelectual. O problema é que a máquina de Turing dependia de técnicos, os “computadores”, que faziam as operações usando switches.
A descoberta de Shockley permite a substituição desse trabalho manual pela própria eletricidade. Quando ela passa, temos o “1”; quando não, temos o “0”. Assim surgiram os semicondutores e, moto-contínuo, o Vale do Silício.
O desafio decorrente nunca deixou de ser atual: como compactar mais semicondutores em um único circuito? Esse fator é crucial, já que o aumento da distância entre eles reduz o poder de processamento, de nada adiantando construir circuitos do tamanho de uma cidade.
A resposta veio do entendimento de que os próprios circuitos poderiam ser feitos de semicondutores, o que deu origem ao chip, criado por dissidentes do grupo de Shockley (fundadores da Intel) e considerado a invenção mais importante do século 20 pelos historiadores da tecnologia.
O material era caríssimo, a construção complicada e o mercado incipiente, mas em 1957 os russos lançaram o Sputnik, primeiro satélite a orbitar a Terra, levando a Nasa a procurar inovações capazes de tirar o atraso americano.
Chips prometiam reduzir substancialmente o peso dos controladores a bordo dos satélites, alterando o curso da corrida espacial e talvez até levando o homem à Lua, o que de fato aconteceu em 1969 para o espanto do mundo.
A década de 1960 foi de imensa tensão entre os Estados Unidos e a União Soviética, a qual também desenvolveu sua indústria de semicondutores, com o objetivo de se preparar para a corrida armamentista.
Na ocasião, surgiram as primeiras restrições à exportação de circuitos eletrônicos e os primeiros esquemas para burlá-las, com os soviéticos montando empresas de fachada ao redor do mundo para comprar e repassar os chips para os russos, que os replicavam em um complexo industrial perto de Moscou. Funcionou bem por uma década.
Mais de 90% dos microprocessadores fabricados na década de 1960 tinham destinação militar. A obsessão com a Terceira Guerra Mundial canalizou as verbas estatais para pesquisa e desenvolvimento, o que levou ao barateamento dos chips e, por consequência, ao fortalecimento da indústria de eletroeletrônicos, que já na década seguinte havia ultrapassado a militar e hoje produz mais de 1,5 trilhão de chips por ano. Foi exatamente aí que a natureza planificada da economia soviética cobrou o seu preço.
Entre a metade da década de 1960 e a reestruturação econômica de 1986 (Perestroika), a distância entre a qualidade dos bens produzidos no Ocidente e a do mundo soviético acentuou-se dramaticamente, justamente porque a eletrônica era incipiente.
Quem se lembra do Lada sabe do que estou falando: mecânica de tanque, experiência de carroça. A razão é a ausência de circuitos integrados nas montadoras, o que se estendia às fábricas de geladeiras, telecom, máquinas industriais e aos computadores pessoais, que ninguém tinha em casa.
Boa parte da insatisfação da população soviética advinha do conhecimento de que havia televisões coloridas e máquinas automáticas de café do outro lado da Cortina de Ferro.
Chips elevam tremendamente as experiências sensoriais e tiveram papel muito maior para a sublevação contra o comunismo soviético do que aparece nos livros de história.
Esses pequenos geradores de experiências tecnológicas também são fundamentais para a compreensão da inserção da Rússia capitalista na ordem mundial. O país atropelou os Estados Unidos e seus aliados em uma invasão em plena Europa —sendo que modelos empíricos mostram que é cerca de três vezes mais difícil invadir um país do que defendê-lo—, ao mesmo tempo que foi incapaz de registrar uma única patente relevante neste século.
O fator que fez com que os russos ficassem na poeira é o mesmo que explica a emergência da China, na esteira de outros países asiáticos: a priorização da indústria de eletroeletrônicos, composta de bilhões de consumidores, em vez da bélica, composta de um punhado. No mercado global de tecnologia, mais do que em qualquer outro, ser o melhor decide o jogo.
Foi exatamente por essa via que o primeiro grande rearranjo produtivo do pós-guerra ocorreu, durante a década de 1980, com a emergência do Japão como potência criativa e econômica da então chamada terceira revolução industrial.
Livre de embargos, os japoneses foram de importadores de semicondutores americanos para líderes incontestes no mercado civil de alta tecnologia e donos de 50% das fábricas do mundo. Nada ilustra melhor essa história do que o walkman,uma invenção do brasileiro Andreas Pavel convertida em produto de mercado em 1979, que entrou para o dicionário Oxford em 1986, por ter se tornado sinônimo da categoria.
O toca-fitas portátil, com seus quatro chips, foi o segundo produto tecnológico moderno mais importante da história, só perdendo para o iPhone (2007). Porém, no ano de sua consagração vernacular, os americanos forçaram os japoneses a assinar um acordo que limitava severamente suas exportações de chips, ao mesmo tempo que passaram a fazer transmissões maciças de tecnologia para a Coreia do Sul, cuja indústria era incipiente.
A economia do Japão tomou um tombo do qual nunca se recuperou, ao passo que a do tigre asiático cresceu sob princípios que impedem o país de se tornar um novo Japão.
Por outro lado, conseguiu embargar a exportação de tecnologias não militares de ponta para a China, arquiteta da invasão da parte Sul pela Norte (Guerra da Coreia, 1950-1953), ainda que essa restrição não fosse crítica para os americanos. Enquanto isso, no Ocidente, livros sobre inovação e livre mercado eram impressos para as massas.
A globalização tecnológica
A entrada dos computadores pessoais na casa das pessoas, durante a década de 1980, levou a uma especialização dramática da cadeia produtiva de eletrônicos, mas um princípio se mantinha: os fabricantes de semicondutores tanto concebiam quanto produziam os dispositivos responsáveis pela experiência de magia.
Suas fábricas custavam bilhões, e toda vez que alguém aparecia com uma descoberta digna de um Prêmio Nobel —foram vários— iniciava-se uma guerra orçamentária para definir se valeria ou não a pena reconstruir o parque industrial para acomodá-la.
Essa é a narrativa de alguns dos “nãos” mais desastrosos da história da tecnologia, como o da Kodak, que rejeitou a criação de máquinas fotográficas digitais (1976), e o da Blackberry, que fez o mesmo em relação às telas sensíveis ao toque (2007).
Em 1987, Morris Chang, então com 55 anos (o equivalente profissional de 65 anos atuais), migrou dos Estados Unidos para Taiwan, onde colocou em prática a ideia que molda a atual geopolítica da IA: uma indústria de semicondutores exclusivamente dedicada à fabricação de chips para outras empresas, que ele batizou de TSMC.
Chips são a criação em escala mais complexa da história da humanidade. Eles são prédios microscópicos, com pavimentos de plantas gigantescas, com uma profusão de detalhes obsessivamente ordenados. O WSE-3 da Cerebras (fabricação TSMC), chip de IA mais avançado do mundo, possui 4 trilhões de transistores ao longo dos seus pavimentos.
Como se observa nesse caso e em todos os outros, os avanços produzidos são a verdadeira expressão do que a parceria científico-empresarial significa. Eles raramente acontecem sem saltos teóricos extraordinários, seguidos por invenções produtivas capazes de convertê-los em existências ordinárias.
Assim, é de se entender por que ninguém deu atenção àquilo que o ex-engenheiro da Texas Instruments se meteu a fazer, numa época em que o Japão dominava, com um modelo produtivo em que chips e produtos eram vistos como uma coisa só.
No entanto, o mundo estava errado, e Chang, certo. A partir da virada do milênio, os gigantes da tecnologia passaram a abandonar a fabricação do segredo do seu negócio para se concentrarem em seu design.
Surgia assim o conceito de “fabless”, as empresas de tecnologia sem fábricas de supercondutores, que hoje se aplica à Apple, à Microsoft, à Tesla e até à Nvidia, que equipa todas as outras com chips fabricados por Morris Chang.
A relevância geopolítica da TSMC, responsável por 15% do PIB de Taiwan em 2023/2024, excede a da grande maioria dos países e faz dela a empresa mais importante do mundo. Apenas ela é capaz de fabricar os chips que estão na fronteira da virada para a IA, que caminha para se consolidar como um dos três grandes pilares da dominância global, junto com a moeda de reserva e o parque de armas, que vem se fundindo à IA.
A empresa taiwanesa exerce papel correspondente ao das grandes petroleiras na estratégia dos americanos para tentar assegurar sua hegemonia global pelo maior tempo possível.
Nos últimos cem anos, o pilar central do imperialismo americano foi o controle da distribuição do petróleo, maná do mundo moderno. Durante a Segunda Guerra, 60% do óleo do mundo era produzido pelos Estados Unidos, o que permitiu ao país endividar os aliados (Lend-Lease Act, 1941), antes mesmo de qualquer discussão sobre a reconstrução da Europa, criando as bases para acordos que consolidaram a hegemonia americana no “Oeste”.
A ideia agora é abrigar, sob as asas de águia do Estado, as empresas responsáveis por tornar a IA a infraestrutura do mundo digital, robótico e militar. Esse é o prisma pelo qual o risco de uma invasão chinesa a Taiwan precisa ser visto.
O que está em jogo não é só a soberania de um protetorado ocidental no Mar da China, mas o risco de disrupção da indústria que hoje alicerça a principal estratégia para a manutenção da supremacia global dos americanos, em meio aos indicadores de declínio da unipolaridade.
A situação é séria a ponto de existirem planos para a implosão das fábricas da TSMC no caso de uma invasão chinesa. O mundo entraria em recessão, mas os chineses pagariam seu preço.
Paralelamente, os americanos correm para internalizar a cadeia produtiva da IA. Em 2022, foi promulgado o Chips & Science Act, uma lei de incentivo multibilionária para fomentar a indústria de semicondutores do país, com apoio de republicanos e democratas, da Câmara e do Senado e do governo federal.
O impulso foi um acordo com Morris Chang para a construção de unidades da TSMC nos EUA. A primeira está prestes a entrar em operação (no Arizona em 2025), mas já é certo que permanecerá distante da capacidade de fabricar em escala os chips que definirão o futuro da IA.
A razão é que a TSMC não é simplesmente a líder na criação das pecinhas mais complexas do mundo; ela é a arquiteta de uma cadeia logística sem precedentes.
No centro desta está a ASML, da Holanda, que comercializa as máquinas usadas na indústria desses chips avançados, as quais custam US$ 380 milhões cada uma e são consideradas as mais sofisticadas peças de engenharia de todos os tempos.
A empresa holandesa detém sozinha o segredo da fotolitografia por raios ultravioleta extremos (EUV), uma técnica para criar circuitos em escala atômica, usando pulsos de laser em plasma que geram raios ultravioleta a 13,5 nanômetros, direcionados pelos espelhos ultraprecisos para printar os circuitos. É bem complexo, mas lembra o mimeógrafo.
A única indústria capaz de produzir esses espelhos é a alemã Carl Zeiss. Mais de cem outros componentes do equipamento só têm um fornecedor mundial, quase todos na Europa e no Japão. A máquina de EUV tem sua venda proibida para a China desde 2019 e há um cuidadoso controle para outros países, supervisionado pelos governos holandês e americano.
Essa cadeia logística traduz o que é a globalização na atualidade. Trata-se de algo diferente do que cantou Gilberto Gil em “Parabolicamará” (1991) e pode ser sumarizado assim:
1) Ainda que Trump esteja subtraindo o protagonismo americano em boa parte das instituições globais e taxando amigos e inimigos, segue totalmente investido na blindagem da cadeia logística que verdadeiramente importará para a supremacia americana nas próximas décadas. Salvo exceções de método, o ponto é consensual nos Estados Unidos há décadas.
2) A Europa, o Japão e, claro, Taiwan têm papéis bem mais importantes na revolução da IA do que uma análise da procedência dos softwares sugere. Como se diz nesse meio, a TSCM tem o poder de paralisar o mundo, e a ASML tem o poder de paralisar a TSMC.
A corrida para estabelecer a IA como a nova infraestrutura global nem sempre passa pelas empresas que ocupam as manchetes, como a OpenAI e o Google. Aliás, ela cada vez mais tende a estar relacionada a fabricantes de armas autônomas e outros sistemas robóticos, que vêm fazendo o caminho inverso ao que nos trouxe até aqui, incorporando avanços das tecnologias civis na criação de máquinas de matar que não geram publicidade negativa em casa.
3) A despeito de todos os avanços conseguidos, a China está de três a cinco anos atrás dos americanos no que se refere à fabricação de chips de última geração, uma vez que esta emerge de uma miríade de patentes embargadas, as quais são oriundas de décadas de trabalho em centros de pesquisa espalhados pelo Ocidente e Japão.
Mesmo que os chineses tomassem as fábricas de Taiwan e passassem a produzir chips de última geração, seguiriam sem acesso continuado às máquinas de fotolitografia da ASML, necessárias para a próxima e mais crítica fase da IA.
4) Os embargos vêm obrigando a China a colocar todos os esforços na internalização da cadeia produtiva completa dos chips de IA e a fazer o mesmo na translação à produção de robôs de trabalho e armas autônomas. Os avanços são notáveis, como mostram os novos chips de IA da Huawei.
No entanto, a verdade é que eles apenas decorrem de usos mais espertos de máquinas antigas da ASML e não do domínio sobre a litografia de ponta.
Se esta for dominada, o que em algum momento deve acontecer, o padrão dólar será o último bastião da hegemonia americana, que desse modo tende a sucumbir. Alijar a China da cadeia produtiva mais importante do mundo é vantajoso para os EUA em curto prazo, mas introduz riscos altíssimos de médio e longo tempo.
Toda disputa tem um fim
Os chips mais avançados da atualidade são os da TSMC de 3 nm (nanômetros), sendo que um fio de cabelo tem cerca de 100.000 nm. A empresa, assim como Samsung, Intel e a startup japonesa Rapidus, tem planos de lançar uma versão de 2 nm em 2027 e seguir em direção aos angstroms (décimos de nanômetros), o tamanho dos próprios átomos.
Os incentivos são bilionários, e as consequências, planetárias, o que sugere que os empecilhos fabris serão superados. Todavia, o repto não acaba aí.
A partir de 2 nm —e, sobretudo, 1nm—, fenômenos quânticos tomam conta, fazendo com que os elétrons atravessem as barreiras estabelecidas pelos semicondutores como se esses não existissem, o que torna estéril a própria noção de design de circuito.
Soluções hipotéticas estão cobrindo sucessivas capas da revista Nature, em geral pela manipulação de outros efeitos quânticos para neutralizar os indesejáveis.
No Vale do Silício e em Shenzhen, a aposta é que haverá uma transição tecnológica, durante a primeira metade da década que vem, por meio da qual mesmo os processadores digitais serão semiquânticos.
A mecânica quântica é centenária, mas a aplicação dos seus princípios para computar é nova e radicalmente complexa. Isso significa que a conjuntura pode voltar a ser como na época em que Alan Turing bateu o Enigma pela capacidade de tratar a ciência fundamental de modo superior.
Essa é justamente a aposta em curso na China, que vem multiplicando seus investimentos, enquanto Trump e seu tecnologista-mor passam a faca no Orçamento.
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Num mundo onde humanos e máquinas serão “colegas” de trabalho, surge uma necessidade urgente de requalificação.
Junior Borneli – StartSe – fev 25, 2025
O mercado de trabalho está mudando de maneira irreversível. Com a ascensão da inteligência artificial, da automação e da robótica, os algoritmos não serão apenas ferramentas – serão colegas de trabalho.
Neste cenário, a dicotomia tradicional entre hard skills (habilidades técnicas) e soft skills (habilidades interpessoais) já não é suficiente. Surge, então, a necessidade de um novo conjunto de competências: as Hybrid Skills.
O Que São Hybrid Skills?
Hybrid Skills são uma fusão entre conhecimento técnico e habilidades humanas avançadas. Elas vão além da programação e da comunicação, combinando pensamento crítico, adaptabilidade e domínio de novas tecnologias com criatividade e empatia. Essa interseção entre o mundo analítico e o humano será o grande diferencial para profissionais que querem continuar relevantes.
Por Que Apenas Soft e Hard Skills Não Bastam?
No passado, era possível dividir os profissionais em dois grandes grupos: aqueles que dominavam conhecimentos técnicos (como engenheiros, cientistas de dados e desenvolvedores) e aqueles que se destacavam pelas habilidades interpessoais (como líderes, vendedores e criativos). No entanto, a era da IA embaralhou esse jogo.
A automação já executa diversas tarefas técnicas, tornando algumas hard skills obsoletas mais rapidamente do que nunca. O conhecimento técnico, de forma isolada, não garante a relevância de carreira.
Soft skills isoladas não garantem empregabilidade, pois, sem a capacidade de lidar com tecnologia, o profissional se torna menos produtivo e menos competitivo. É preciso saber usar as melhores ferramentas.
A combinação de ambos os mundos será crucial, pois o profissional do futuro precisará interagir com máquinas, entender seus limites e agregar valor onde a automação ainda não chega.
As Principais Hybrid Skills Para o Futuro
Se adaptar a esse novo mundo exigirá um mindset de aprendizado contínuo e uma combinação equilibrada entre habilidades técnicas e humanas. Algumas das principais Hybrid Skills incluem:
Alfabetização em IA e Dados – Entender como os algoritmos funcionam e saber interpretar dados será essencial, independentemente da área de atuação.
Resolução Criativa de Problemas – A criatividade não será um diferencial apenas para artistas, mas para todos que precisarem encontrar soluções onde os sistemas automatizados falham.
Liderança Digital – O novo líder precisará influenciar equipes híbridas, compostas por humanos e máquinas. Não se iluda, isso está mais próximo do que você imagina.
Pensamento Crítico e Ético – Com a IA tomando decisões complexas, a ética e o discernimento humano serão indispensáveis para evitar viéses e impactos negativos.
Comunicação Avançada e Multimodal – Saber se comunicar através de diferentes plataformas, combinando texto, vídeo, design e outras mídias será um grande diferencial.
Aprendizado Contínuo e Adaptabilidade – A capacidade de requalificação constante será a base para a longevidade profissional. Se o mundo muda o tempo todo, você precisa evoluir o tempo todo.
O Que Isso Significa Para o Profissional de Hoje?
A era da especialização extrema está dando lugar à era da interseção. O profissional que souber navegar entre o técnico e o humano terá uma vantagem competitiva considerável. Empresas já estão priorizando talentos que combinam pensamento analítico com inteligência emocional, automação com criatividade e estratégia com empatia.
Em um mundo onde robôs, IA e humanos precisarão trabalhar juntos, aqueles que desenvolverem as Hybrid Skills não apenas sobreviverão—eles prosperarão. A questão não é se você precisará dessas habilidades, mas quando começará a desenvolvê-las.
Leitura Recomendada
Sugiro esses 2 artigos para complementar a visão que apresentei no texto de hoje. Eles podem ajudar no processo de alongamento mental. É só clicar abaixo:
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