Como os conselhos podem orientar a adoção da IA nas empresas

Especialistas afirmam que os colegiados precisam ser capazes de entender os riscos e benefícios envolvidos, além de manter o alinhamento da tecnologia com os objetivos dos negócios

Por Jacilio Saraiva – Valor – 12/04/2025

Os conselhos podem aumentar a sensação de confiança das empresas nos processos de adoção da inteligência artificial (IA) ao desenvolverem princípios de uso e garantindo a conformidade dos sistemas com as regulamentações existentes. Também são peças essenciais no incentivo à criação de valor por meio da tecnologia, incentivando a inovação, a disponibilidade de dados e as possíveis mudanças nos modelos de negócios. Mas será que os colegiados estão prontos para essas tarefas? A análise aparece em artigo que acaba de ser publicado pelo Centro Global de Assuntos do Conselho da consultoria EY, sediado em Hong Kong.

No trabalho, a líder da unidade, Sharon Sutherland; e Beatriz Sanz Sáiz, líder global do setor de IA da EY, defendem que os boards deverão estar preparados para aconselhar as organizações sobre as estratégias de crescimento da tecnologia. Nessa linha, dividem as missões dos conselheiros em três áreas: construção de confiança, criação de valor e ampliação do potencial humano nos comitês. Em cada uma, as executivas sugerem perguntas que os colegiados podem fazer a gestores e pares durante a “aterrissagem” da IA nas operações. São elas:

1. Construindo confiança na IA

Fomentar a credibilidade do uso da IA nas empresas é fundamental para impulsionar a adoção e mitigar riscos. “Isso inclui manter a conformidade dos sistemas com as regulamentações existentes [na União Europeia já existe a Lei de IA] e o desenvolvimento de um modelo eficaz de governança organizacional”, assinalam.

Segundo as consultoras, que conversaram com várias lideranças sobre o tema, há necessidade de encontrar um equilíbrio na tensão entre ética, inovação e regulamentação.

Perguntas que os conselhos podem fazer aos gestores:

  • A empresa tem uma estrutura de IA responsável, transparente e bem comunicada? Como foi desenvolvida e que princípios prioriza? Se não há uma estrutura, como planejamos desenvolver uma?
  • A estrutura de IA está integrada ao programa de gerenciamento de riscos da companhia?
  • A estrutura de IA está sendo aplicada de forma eficaz em toda a organização? Qual é o seu nível de confiança nessa avaliação? Quais as salvaguardas existentes para identificar quando ela não é usada conforme o esperado?

2. Criando valor com a IA

Gerar valor com a IA requer uma cultura de inovação e aprendizado. É importante capacitar as equipes para falharem rapidamente, usar a tecnologia com segurança e criar barreiras de proteção nos sistemas, anotam. “A disponibilidade de dados e o ‘comportamento’ dos times em relação à IA serão os principais impulsionadores de valor dessa novidade”, ensinam.

As organizações também enfrentam um escrutínio cada vez maior em relação ao custo de implementação e ao ROI (retorno sobre o investimento) da IA, ponderam. “É crucial identificar os casos de uso que gerarão os melhores resultados”, orientam as pesquisadoras, acrescentando que a IA tem o potencial de remodelar modelos operacionais e de negócios nas empresas.

“A partir dos primeiros casos de adoção, as corporações podem passar para testes, fazer provas de conceito e, em seguida, partir para a produção e escalonamento”, afirmam.

Perguntas que os conselhos podem fazer aos gestores:

  • Como desenvolver e implementar a IA em toda a empresa e no ecossistema de parceiros?
  • Quais métricas a organização deve usar para identificar as maiores oportunidades de criação de valor com a IA?
  • Como a IA pode impactar a cultura organizacional e o modo como os funcionários trabalham?
  • Estamos preparando os dados para deixá-los prontos para a IA?
  • Quais as barreiras para adotar a IA rapidamente e a estratégia que usaremos para superá-las?

3. Aumentar o potencial humano nos conselhos

Embora a IA tenha o poder de remodelar as atividades de uma empresa, ampliar o potencial humano nos conselhos que lidarão com práticas associadas à tecnologia é uma ação menos explorada no mercado, avaliam. “É fundamental que os conselhos desenvolvam expertise em IA para supervisioná-la com eficácia”, destacam Sutherland e Sáiz.

Executivos ouvidos pelas consultoras enfatizam que os conselheiros devem freqüentar congressos e eventos da indústria de inovação, ajudando as diretorias a avançarem na curva de aprendizado sobre a IA.

Como a supervisão da IA exige habilidades diversas e envolve novos vetores de valor, os boards precisarão também avaliar as suas composições, apontam. “As organizações precisam de tecnólogos nos colegiados, independentemente de atuarem ou não no setor de TI”, dizem. “Os conselhos consultivos podem atrair profissionais mais jovens, com experiência em tecnologia.”

Em algum momento, os colegiados também usarão a IA para analisar riscos, afirma uma das lideranças entrevistadas pelas pesquisadoras da EY. “A IA pode se tornar parte do processo de tomada de decisões dos conselhos”, concluem.

Perguntas que os conselhos podem considerar:

  • De quais competências adicionais o conselho precisa para fornecer uma supervisão eficaz da IA? Qual o plano para incrementar essas habilidades?
  • Como o conselho está estruturado para supervisionar a IA? Que informações recebe sobre alternativas de uso e o potencial da tecnologia?
  • Como o colegiado saberá que a organização tem as estratégias adequadas de desenvolvimento e de aquisição de talentos para atingir os resultados pretendidos com a IA?

Visão do todo

Na avaliação de Sandro Benelli, coordenador acadêmico do curso “Formação para conselheiros de empresas de controle familiar” na Fundação Getulio Vargas (FGV), a maioria dos conselhos ainda não está preparada para supervisionar a adoção e o impacto da IA nas organizações.

“O papel do colegiado em relação à IA não é dar apoio técnico, mas assegurar que a companhia esteja pronta para usá-la com responsabilidade, segurança e visão estratégica”, afirma Benelli ao Valor.

Em várias áreas, a IA já é considerada crítica para o negócio, então também é crítico para o conselho saber cuidar desse tema, argumenta. “É necessário ter um alinhamento com os objetivos do negócio e cabe ao conselho entender a relevância que a IA trará para a corporação.”

Benelli sugere que firmas no início da jornada de adoção devem considerar o quanto a novidade vai agregar de receita e despesas no orçamento e quais o investimento, benefícios e riscos para encampá-la. Depois dessa análise, o professor sugere seis etapas de trabalho: “educar” o conselho sobre o assunto, identificar o potencial estratégico para o negócio, criar uma estrutura de governança para a IA, integrá-la nas discussões sobre capital humano, além de estabelecer responsabilidades e avaliar os riscos relacionados à tecnologia.

“Sem compreender o básico sobre IA, o conselho não conseguirá analisar se a estratégia escolhida está aproveitando bem as oportunidades”, afirma. “A IA traz novos riscos ao negócio, como problemas éticos, uso inadequado de dados e dependência de fornecedores externos. Muitos desses entraves serão ‘invisíveis’ para o board se os conselheiros não tiverem um entendimento da matéria. É preciso fazer as ‘perguntas certas’ para a gestão.”

Clientes e produtividade

Ter um conhecimento abrangente, tanto das oportunidades como dos riscos da IA, é decisivo para que o conselho possa realizar uma avaliação correta sobre essa agenda na empresa, concorda a conselheira Cristina Palmaka, ex-presidente da gigante de tecnologia SAP para a América Latina e Caribe. “Principalmente em relação ao impacto nos negócios da companhia”, ressalta.

Palmaka, que atua como conselheira de administração independente em três grandes organizações, diz que tem sido vital olhar como as questões de inovação e IA farão parte das estratégias corporativas.

“A IA precisa ser entendida por diferentes perspectivas”, explica a especialista, que chama a atenção para aspectos como o relacionamento com os clientes e a produtividade.

“[É preciso] saber onde a tecnologia poderá agregar valor e diferencial competitivo junto aos consumidores, com uma experiência mais fluida no processo de compra, na pesquisa de produtos e no atendimento”, detalha. “Na área de produtividade, pode automatizar processos com grande volume de dados, como conciliação de contas e otimização de inventários, além de evitar erros em rotinas manuais.”

Qualquer que seja o foco de utilização, lembra a conselheira, é crucial levar em conta a governança das ferramentas e a segurança das informações utilizadas. “São aspectos que devem ser discutidos nos comitês de risco e auditoria, e entrar na pauta regular das reuniões do conselho”, defende. “Revisar as competências dos times para as exigências futuras da organização também é indispensável para que o colegiado dê o ritmo à gestão, com a tecnologia e as pessoas necessárias aos desafios que virão.”

Especialistas à mesa

Renata Filippi Lindquist, sócia da Soul HR Consulting, de recrutamento de executivos para a alta liderança e conselhos, diz que a adesão à IA deve ser tratada como uma prioridade estratégica nas organizações, com o conselho de administração no papel de protagonista dessa mudança.

“Para grupos globais de tecnologia, a IA deixou de ser apenas uma ferramenta operacional”, alerta. “Passou a representar um ativo central de valor competitivo e de inovação.”

Lindquist argumenta que é primordial que os conselhos incorporem a IA como um tópico permanente nas reuniões, com uma visão de longo prazo. Mas, no Brasil, esse avanço ainda está em estágio inicial, pondera.

“Segundo pesquisa do IBGC [Instituto Brasileiro de Governança Corporativa], apenas 20% dos conselhos discutem a IA com regularidade, enquanto 46% estão na fase exploratória”, comenta.

Entre os principais obstáculos para inverter esse quadro estão a baixa familiaridade com a tecnologia, com a maioria dos conselheiros sem formação ou experiência no campo digital, além de conflitos com outras prioridades de negócios.

“Quarenta e dois por cento das organizações enfrentam dificuldades para direcionar recursos à IA por causa de outras ações em curso”, detalha a consultora, a partir de dados do estudo.

Diante desse cenário, Lindquist orienta que os colegiados se posicionem como aceleradores da transformação digital nas empresas. “Eles devem fomentar a aplicação segura da IA como um vetor de crescimento e sustentabilidade dos negócios”, garante.

A especialista recomenda também que as organizações diversifiquem “as cadeiras” dos boards. “Empresas de vanguarda vêm incorporando conselheiros com expertise em dados, IA e inovação, criando uma governança mais ágil e capaz de antecipar oportunidades”, diz.

As companhias que tratam a IA como um tópico periférico correm o risco de perder competitividade, continua Lindquist, que sugere a formação de mais comitês de TI, similares aos grupos de auditoria e de pessoas, ligados aos conselhos.

“A IA não é um tema do futuro”, alerta. “Ela já está moldando o presente dos negócios. O desafio é garantir que a governança acompanhe esse movimento.”

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Alfabetização em inteligência artificial precisa ganhar espaço nas escolas

Educadores, empregadores e legisladores buscam garantir que as pessoas compreendam também as limitações da tecnologia


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JACKIE SNOW – Fast Company Brasil – 15-02-2025 

Nem mesmo a Apple conseguiu evitar que sua inteligência artificial cometesse erros. No mês passado, a empresa teve que suspender um recurso de alertas de notícias baseado em IA depois que ele divulgou, de maneira equivocada, que um suspeito de assassinato havia tirado a própria vida.

Essa foi apenas uma das várias manchetes falsas que apareceram sob os logotipos de veículos jornalísticos respeitados. O erro foi ainda mais constrangedor porque aconteceu apesar dos vastos recursos e da expertise técnica da Apple.

O episódio evidencia um problema crescente: empresas estão incorporando IA em tudo – de consultas médicas a serviços financeiros –, frequentemente priorizando velocidade em vez de segurança. Muitas dessas aplicações vão além do que a tecnologia realmente consegue oferecer, criando riscos que nem sempre são perceptíveis para os usuários.

“Os modelos não estão falhando”, explica Maria De-Arteaga, professora assistente na Universidade do Texas em Austin. “O que acontece é que estamos usando esses modelos para finalidades para as quais eles não foram projetados.”

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Com a inteligência artificial se tornando cada vez mais parte do dia a dia, pesquisadores e educadores enfrentam dois desafios principais: ensinar as pessoas a usá-la de forma responsável, sem dependência excessiva, e convencer os céticos a aprender o suficiente sobre o tema para que possam tomar decisões informadas – mesmo que escolham não utilizá-la.

O objetivo não é apenas “corrigir” a IA, mas entender suas limitações e desenvolver habilidades para usá-la com discernimento. É o mesmo que aconteceu com os primeiros usuários da internet, que logo perceberam que a Wikipédia poderia ser um ótimo ponto de partida para pesquisas, mas não deveria ser usada como fonte primária.

LETRAMENTO DIGITAL E ALFABETIZAÇÃO EM IA

Assim como o letramento digital se tornou essencial na sociedade moderna, entender a inteligência artificial está se tornando fundamental para que possamos moldar nosso próprio futuro. É preciso investir na alfabetização em IA.

A Califórnia aprovou recentemente uma lei que exige a inclusão da IA no currículo escolar do ensino fundamental e médio já a partir deste ano. Na União Europeia, a Lei de IA, que entrou em vigor no dia 5 de fevereiro, determina que organizações que utilizam essa tecnologia em seus produtos ofereçam programas de capacitação sobre o tema.

“A alfabetização em IA é mais importante do que nunca, especialmente enquanto ainda estamos definindo políticas, limites e o que queremos aceitar como normal”, diz Victor Lee, professor associado da Escola de Educação da Universidade de Stanford.

PARA A MAIORIA, APRENDER A USAR A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL SIGNIFICA SE BASEAR NO QUE DIZ O MARKETING, SEM MUITA ORIENTAÇÃO.

Lee vê paralelos entre essa adaptação e o que já aconteceu com outras tecnologias ao longo do tempo. “Pense nas calculadoras – até hoje há debates sobre quando usá-las no ensino básico e o que os alunos devem saber sem depender delas.” Segundo ele, com a IA, o debate tem se concentrado, principalmente, na escrita.

Com o marketing agressivo das big techs, o trabalho dos educadores se torna ainda mais desafiador. Estudos recentes mostram que pessoas com menos conhecimento sobre inteligência artificial tendem a aceitá-la com mais facilidade, muitas vezes a vendo como algo quase mágico.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E PENSAMENTO CRÍTICO

O objetivo da alfabetização em IA não é desencorajar o uso da tecnologia, e sim combiná-lo com pensamento crítico, para que as pessoas compreendam tanto suas possibilidades quanto suas limitações. Isso é especialmente importante para quem tem menos acesso a essas inovações.

“A ansiedade e a incerteza alimentam o ceticismo e a resistência à tecnologia”, afirma Lee. “Mas, quando as pessoas compreendem que a inteligência artificial não é uma máquina pensante, e sim um sistema que apenas identifica e reproduz padrões, elas começam a entender melhor como usá-la.”

Na Universidade da Cidade de Nova York, Luke Waltzer, diretor do Centro de Ensino e Aprendizagem da instituição, lidera um projeto para ajudar professores a desenvolver estratégias eficazes para ensinar sobre IA em diferentes disciplinas.

“A adoção da inteligência artificial não é inevitável e sua integração no nosso dia a dia precisa ser questionada”, argumenta Waltzer. “Os alunos precisam entender que essas ferramentas não surgem do nada – elas são criadas por pessoas, envolvem trabalho humano e têm impacto ambiental.”

O projeto, financiado por um subsídio de US$ 1 milhão do Google, envolverá 75 professores ao longo de três anos para explorar novas abordagens de ensino sobre as implicações da inteligência artificial em diversas áreas do conhecimento.

“Já vimos várias ondas de hype em torno de inovações tecnológicas, como os cursos online gratuitos, que prometiam revolucionar a educação”, observa Waltzer. “A IA generativa é diferente, mas também está cercada de exageros. Três anos de pesquisa nos darão uma visão mais clara sobre o futuro dessa tecnologia.”

Esse tipo de iniciativa está crescendo rapidamente no ensino superior. De acordo com um estudo do Centro de Tecnologia Emergente e Segurança, cerca de 100 universidades e faculdades comunitárias dos EUA já lançaram programas de certificação em IA.

ALFABETIZAÇÃO EM IA ALÉM DA SALA DE AULA

Para a maioria das pessoas, aprender a usar a inteligência artificial significa se basear no que diz o marketing, sem muita orientação. Ao contrário dos estudantes, que terão uma educação formal sobre IA, os adultos precisam descobrir sozinhos quando confiar nessas ferramentas e quando suas qualidades são exageradas por empresas ansiosas para recuperar seus investimentos na tecnologia.

Esse aprendizado por conta própria está acontecendo rapidamente: o LinkedIn descobriu que as pessoas estão adicionando em seus perfis habilidades de alfabetização em IA (como engenharia de prompts e proficiência em ferramentas como o ChatGPT) a uma taxa quase cinco vezes maior do que outras habilidades profissionais.

A ADOÇÃO DA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NÃO É INEVITÁVEL E SUA INTEGRAÇÃO NO NOSSO DIA A DIA PRECISA SER QUESTIONADA.

Enquanto universidades e legisladores tentam acompanhar o ritmo, empresas de tecnologia estão oferecendo seus próprios cursos e certificações. Recentemente, a Nvidia anunciou uma parceria com a Califórnia para treinar 100 mil estudantes, educadores e trabalhadores em IA. Empresas como Google e Amazon Web Services oferecem seus próprios programas de certificação em IA.

A Intel pretende treinar 30 milhões de pessoas em habilidades de IA até 2030. Além disso, cursos gratuitos online sobre habilidades em IA são oferecidos por instituições como a Universidade de Harvard e a Universidade da Pensilvânia, além de empresas como IBM, Microsoft e Google.

No entanto, a especialista em ética da tecnologia Stephanie Hare aconselha que as pessoas prestem bastante atenção em quem está ensinando IA. “A alfabetização em IA é como a alfabetização digital: é algo real. Mas quem deveria ensiná-la? Meta e Google adorariam ensinar a visão deles sobre IA”, diz Hare.

Em vez de depender de empresas com interesses próprios, Hare sugere começar com ferramentas de IA em áreas nas quais você já tenha experiência, para que possa reconhecer tanto sua utilidade quanto suas limitações.

Um programador, por exemplo, pode usar IA para ajudar a escrever código de forma mais eficiente, mas também identificar falhas e problemas de segurança que um novato não perceberia.

A chave é combinar experiência prática com orientação de terceiros confiáveis, que possam fornecer informações imparciais sobre as capacidades da IA, especialmente em áreas críticas como saúde, finanças e defesa.


SOBRE A AUTORA

Jackie Snow é jornalista multimídia, com trabalhos publicados na “National Geographic”, “Vanity Fair” e “The Atlantic”, entre outros veículos de comunicação.

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China larga na frente dos EUA na corrida por robôs humanoides

Peças mais baratas, rápidas inovações e financiamento estatal chinês permitem que robôs parecidos a humanos possam espelhar sucesso dos carros elétricos

Por Ryan McMorrow, Eleanor Olcott e William Langley — Valor/Financial Times – 10/04/2025

Na sede da Unitree, uma fabricante de robôs pioneira na China, os visitantes são convidados a empurrar e chutar o G1 – um robô humanoide prateado de 1,3 metro de altura – para testar seu equilíbrio.

É como a empresa, com sede em Hangzhou, demonstra o avanço de seus esforços para transformar o nascente setor de construção de máquinas parecidas a humanos. Os robôs são alimentados por softwares de código aberto, de forma que os compradores podem programá-los para correr, dançar ou dar chutes giratórios de kung fu.

A Unitree encabeça um grupo de startups chinesas no setor – com nomes como AgiBot, Engine AI, Fourier e UBTech – que têm atraído atenção nos últimos meses com demonstrações em vídeo feitas nas plataformas de relacionamento social on-line. Durante o grande evento de gala do festival de primavera transmitido pela TV na China, 16 robôs H1 da Unitree realizaram uma dança folclórica sincronizada em um show ao vivo transmitido para milhões de espectadores.

Foi uma exibição impressionante das capacidades da China em construir hardwares humanoides, que podem se tornar a nova fronteira na competição tecnológica entre Estados Unidos e China. Analistas de bancos de investimento acreditam que o setor pode produzir o dispositivo que será a próxima bola da vez entre os consumidores, após os smartphones e veículos elétricos (VEs), enquanto o fundador e executivo-chefe (CEO) da Unitree, Wang Xingxing, prevê que o setor terá um “momento iPhone”, de inovações revolucionárias, dentro de cinco anos.

O Goldman Sachs calcula que o mercado mundial de robôs humanoides valerá até US$ 205 bilhões em 2035. Analistas da Bernstein estimam vendas anuais de até 50 milhões robôs em 2050. O Citibank prevê 648 milhões de robôs humanoides até 2040, enquanto o Bank of America projeta 3 bilhões em 2060.

Entre os concorrentes americanos estão a montadora Tesla, grandes empresas de tecnologia, como Google e Meta, e startups de robótica, como Boston Dynamics, Figure e Agility Robotics. Por enquanto, as quatro grandes fabricantes de robôs industriais do Japão e da Europa têm se concentrado em construir robôs colaborativos para trabalhar ao lado de humanos, em vez de humanoides.

Tesla, Google e Meta estão entre os concorrentes americanos que apostam na inovação

A profundidade da cadeia de suprimentos de eletrônicos e VEs da China deu ao país uma vantagem inicial, segundo pesquisadores, com muitos dos componentes para robôs humanoides já sendo fabricados no país e incluídos em VEs.

Isso inclui dispositivos como os atuadores, que convertem energia em movimento, além baterias e sistemas de visão, como o da tecnologia Lidar [Light Detection and Ranging, um sensor que usa luz]. Ainda assim, os EUA contam com tecnologias líderes na área de partes móveis, além dos processadores de inteligência artificial (IA) da Nvidia, que continuam sendo o cérebro da maioria dos humanoides, segundo analistas.

“A China é muito boa em hardware, mas [em] inovação e software, os EUA ainda têm uma vantagem”, disse Johnson Wan, analista industrial do banco de investimentos Jefferies.

No entanto, os componentes são tão mais baratos na China que analistas do Bank of America estimam que o conteúdo do robô Optimus de segunda geração, da Tesla, custaria cerca de um terço a menos se tivesse componentes chineses, em vez dos fornecidos por empresas não chinesas. No caso das mãos articuladas, por exemplo, há 25 empresas chinesas fornecedoras de componentes, em comparação com apenas 7 nos EUA.

O baixo preço do hardware chinês começou a abrir o campo a experimentações, que antes estavam concentradas em alguns poucos laboratórios selecionados e em startups como a Boston Dynamics, uma cria do Massachusetts Institute of Technology.

“Há um boom na pesquisa de humanoides em andamento”, disse Bruno Adorno, professor de robótica da Universidade de Manchester. “Isso não era possível antes da Unitree.”

Analistas da Bernstein dizem que o progresso da China pode ser comparado à forma como ela veio a dominar o mercado de VEs. “A China age extremamente rápido na multiplicação de produtos e das situações de uso, enquanto os concorrentes dos EUA parecem apostar em encontrar uma solução que seja o Santo Graal; a China adota a abordagem de ‘seleção natural’ com modelos de produtos imensamente diversos”, disseram os analistas, em relatório recente.

Durante a reunião anual do Parlamento em março, Pequim considerou a robótica humanoide uma indústria estratégica a ser apoiada e começou a oferecer grandes financiamentos para startups. Wang, o fundador da Unitree, recentemente teve uma audiência com o presidente da China, Xi Jinping. Forças de segurança chinesas já experimentaram o uso de robocães da startup em exercícios, embora a Unitree tenha enfatizado que não vende para os militares.

A empresa levantou dinheiro de investidores de prestígio, como o antigo braço de investimentos de capital de risco da Sequoia Capital na China, o HongShan, e a firma de entregas Meituan. Fundos governamentais, como o China Internet Investment Fund, alinhado com a agência reguladora da área no país, e um fundo especializado em robôs financiado pelo Estado também investiram na empresa, segundo registros comerciais chineses.

“Robôs alimentados por IA podem não representar apenas o rumo futuro do desenvolvimento da China, mas possivelmente do mundo inteiro”, disse Shen Zhengchang, um delegado legislativo chinês. “A China está se empenhando em dominar a indústria”, disse ele ao “Financial Times”.

As empresas chinesas também são auxiliadas por uma política industrial bem afinada. O Ministério da Indústria e da Tecnologia da Informação da China divulgou um ambicioso roteiro para o setor, definindo um caminho para superar os principais obstáculos tecnológicos. Um novo fundo de capital de risco, de 1 trilhão de yuans (US$ 137 bilhões), liderado pelo Estado, aumentará ainda mais o poder financeiro.

Governos locais também vêm se juntando à corrida para atrair empresas, oferecendo subsídios para a construção da cadeia de suprimentos industrial. Fundos governamentais em Hangzhou vêm injetando dinheiro no setor, enquanto autoridades de Shenzhen dizem estar trabalhando em um pacote de políticas e já oferecem subsídios e concessões.

Xangai criou uma fazenda de treinamento para os robôs, financiada pelo Estado, onde humanoides realizam repetidamente certas tarefas para coletar os dados necessários para executarem as manobras por conta própria. Segundo a Shanghai Electric, estatal que apoia o projeto, a instalação abriga 100 humanoides e planeja expandir para treinamento simultâneo de 1.000 robôs de uso geral até 2027.

O objetivo é estabelecer as bases para que os humanoides se equiparem aos robôs industriais, que são construídos para se especializar em executar uma tarefa repetidamente e já tornaram possível a crescente automação de fábricas. Isso forneceria um modelo de negócios comercial para os robôs humanoides, que em seu atual nível tecnológico carecem de casos de uso.

Chen Guishun, chefe de robótica da Inovance, uma potência de automação industrial com sede em Shenzhen, disse que os robôs semelhantes a humanos são uma grande promessa, mas não no caso do tipo de humanoide de duas pernas chamativo, que viraliza em vídeos.

“O movimento bípede é a solução menos eficiente em energia e a mais cara”, disse ele. “Estruturas com esteiras ou rodas podem alcançar mobilidade da mesma forma.”

Algumas unidades policiais locais chinesas começaram a usar robocães e, ocasionalmente, humanoides em patrulhas de bairro, enquanto lojas começaram a empregar humanoides, por seu valor de entretenimento. Fábricas estão nas fases iniciais de uso de robôs humanoides nas linhas de produção.

Por enquanto, a Unitree está enviando a maioria de seus robôs para universidades e laboratórios de pesquisa.

De acordo com Adorno, da Universidade de Manchester, a empresa reduziu o custo de aquisição de um robô humanoide, o seu modelo programável H1, que chegava a US$ 1 milhão, para cerca de US$ 100 mil. A Unitree oferece o código responsável por manipular e controlar motores e sensores disponível gratuitamente, o que permitiu à sua equipe trabalhar em cima da plataforma.

“Estamos desenvolvendo novas técnicas que melhoram o comportamento do robô e destravando capacidades, conectando-nos à [interface de programação de aplicativos] da Unitree”, disse Adorno.

Markus Fischer, especialista em robótica da firma de consultoria tecnológica alemã Exxeta, disse que o trabalho de programação necessário para controlar humanoides ainda é enorme. Ele disse que levou cerca de dez dias para programar um G1 para andar livremente pelo seu escritório, com a tecnologia Lidar em sua cabeça, sem precisar guiá-lo pelo controle remoto.

Embora tarefas como abrir portas continuem sendo um problema, Fischer disse que há demanda de clientes interessados no valor dos humanoides como entretenimento e novidade, por exemplo, ao cumprimentar clientes em lojas de varejo.

Mais à frente, Fischer espera que seja possível que façam o inventário ou abasteçam prateleiras de supermercados com comida, embora ressalte que ainda há desafios.

“Agarrar coisas é muito fácil para humanos”, disse Fischer. “Vemos um copo e o pegamos, e sabemos que se colocarmos muita força, podemos quebrá-lo, mas o robô precisa ser ensinado a fazer isso.”

Desafios técnicos complicados como esse tornam alguns especialistas céticos quanto à viabilidade de comercialização dos humanoides. O chinês Allen Zhu, um importante investidor de capital de risco, disse recentemente à imprensa local que sua empresa está saindo da área e se desfazendo de seus investimentos em humanoides.

Em meio à badalação, ele ressaltou que apenas um novo tipo de cliente surgiu: “Empresas estatais comprando-os para exibir na recepção”, disse. “Mas esse não é o tipo de cliente que estamos procurando.” (Colaboraram Gloria Li, Nian Liu e Wenjie Ding) (Tradução de Sabino Ahumada)

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O sistema que impede Veneza de afundar há mais de 1.600 anos

Cidade foi construída sobre as fundações de milhões de estacas curtas de madeira

Anna Bressanin – Folha/BBC Future – 7.abr.2025

Todos os moradores locais sabem que Veneza, na Itália, é uma floresta de cabeça para baixo.

A cidade completou 1.604 anos no dia 25 de março. Ela foi construída sobre as fundações de milhões de estacas curtas de madeira, socadas contra o solo com a ponta para baixo.

As árvores são lariços, carvalhos, amieiros, pinheiros, abetos e elmos, com altura que varia de 3,5 metros até menos de 1 metro. Elas sustentam os palácios de pedra e altos campanários há séculos, formando uma verdadeira maravilha da engenharia, que equilibra as forças da física e da natureza.

Engenheiros criaram um sistema que mantém Veneza em pé há mais de 1.600 anos, usando madeira – Emmanuel Lafont/ BBC

Na maioria das estruturas modernas, concreto reforçado e aço fazem o mesmo trabalho que essa floresta invertida mantém há séculos. Mas, apesar da sua força, poucas fundações atuais poderão durar tanto quanto as de Veneza.

“Estacas de concreto ou aço são projetadas hoje em dia [com garantia para durar] 50 anos”, afirma o professor de geomecânica e engenharia de geossistemas Alexander Puzrin, do Instituto Federal de Tecnologia (ETH) de Zurique, na Suíça.

“É claro que elas podem durar mais tempo, mas, quando construímos casas e estruturas industriais, o padrão é de 50 anos de vida”, explica o professor.

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Apenas uma vez, no início da carreira, um cliente solicitou a Puzrin que oferecesse uma garantia de 500 anos, para a construção de um templo Bahá’í em Israel. “Fiquei meio que chocado, porque isso era incomum”, relembra ele.

“Fiquei muito assustado e eles queriam que eu assinasse. Liguei para o meu patrão em Tel Aviv [Israel], um velho engenheiro com muita experiência, e perguntei ‘o que vamos fazer? Eles querem 500 anos.'”

“Ele respondeu: ‘500 anos? [pausa] Assine.’ Nenhum de nós vai estar aqui.”

A técnica veneziana usando estacas é fascinante pela sua geometria, sua secular resistência e sua imensa escala.

Ninguém tem absoluta certeza de quantos milhões de estacas existem sob a cidade. O que se sabe é que há 14 mil postes de madeira firmemente instalados, apenas nas fundações da ponte Rialto, mais 10 mil carvalhos sob a Basílica de São Marcos, construída no ano 832.

“Nasci e cresci em Veneza”, conta a professora de química ambiental e patrimônio cultural Francesca Caterina Izzo, da Universidade de Veneza.

“Quando era criança, como todos os demais, eu sabia que, no subsolo das construções de Veneza, existem as árvores de Cadore [a região montanhosa perto de Veneza]”, relembra ela. “Mas eu não sabia como essas estacas foram colocadas, como elas foram contadas e derrubadas, nem que os battipali [batedores de estacas] eram uma profissão muito importante.”

“Eles tinham até as suas próprias canções”, ela conta. “É fascinante, do ponto de vista técnico e tecnológico.”

Os battipali martelavam as estacas manualmente e cantavam uma música antiga para manter o ritmo —uma melodia assombrosa e repetitiva, com letras que elogiavam Veneza, sua glória republicana, sua fé católica e declaravam morte ao inimigo da época, os turcos.

Em tom mais leve, uma expressão veneziana em uso até hoje diz na testa da bater pai (“uma cabeça boa para bater estacas”). É uma forma descontraída de dizer que alguém é apático ou tem raciocínio lento.

As estacas eram imobilizadas o mais fundo possível, até que não pudessem mais ser comprimidas, começando na extremidade externa da estrutura e se movendo em direção ao centro das fundações.

Normalmente, eram nove estacas por metro quadrado em formato espiral. As pontas eram serradas para obter uma superfície regular, que ficaria abaixo do nível do mar.

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Sistema impede Veneza de afundar há mais de 1.600 anos

  • A madeira, o solo e a água se combinam para oferecer notável resistência às fundações de Veneza

Por cima, foram colocadas estruturas de madeira transversais —zatteroni (placas) ou madieri (feixes).

No caso dos campanários, esses feixes ou placas tinham espessura de até 50 cm. Para outras construções, as dimensões eram de 20 cm ou até menos.

Carvalho era a madeira mais resistente, mas também a mais preciosa. O carvalho, posteriormente, só seria usado para construir navios, pois era valioso demais para ser enterrado na lama.

E, sobre a estrutura de madeira, os trabalhadores colocariam as pedras da construção.

A República de Veneza logo começou a proteger suas florestas, para fornecer madeira suficiente para construir a cidade e os navios.

“Veneza inventou a silvicultura”, explica Nicola Macchioni, diretor de pesquisa do Instituto de Bioeconomia do Conselho Nacional de Pesquisa da Itália. Silvicultura é a prática de cultivar árvores.

“O primeiro documento oficial sobre silvicultura na Itália, de fato, é da Magnífica Comunidade do Vale de Fiemme [a noroeste de Veneza], datado de 1111. Ele detalha as regras de exploração da madeira sem causar seu esgotamento.”

Para Macchioni, essas práticas de conservação já deviam ser empregadas anos antes de serem escritas.

“Isso explica por que o Vale de Fiemme ainda é coberto por uma exuberante floresta de pinheiros hoje em dia.” E, enquanto isso, países como a Inglaterra já enfrentavam escassez de madeira em meados do século 16, explica ele.

Veneza não é a única cidade que emprega estacas de madeira nas suas fundações. Mas existem diferenças fundamentais que fazem da cidade italiana um caso único.

Amsterdã, na Holanda, é outra cidade construída parcialmente sobre estacas de madeira. Ali e em muitas outras cidades do norte da Europa, elas descem pelo subsolo até encontrarem o leito rochoso, funcionando como longas colunas ou as pernas de uma mesa.

“O que é ótimo, se a rocha estiver próxima da superfície”, explica o professor de arquitetura Thomas Leslie, da Universidade de Illinois, nos Estados Unidos. Mas, em muitas regiões, o leito rochoso fica muito além do alcance das estacas.

Leslie mora nas margens do lago Michigan, nos Estados Unidos. Ali, o leito rochoso pode ficar a até 30 metros abaixo da superfície.

“Encontrar árvores desta altura é difícil, não? Existem histórias de Chicago nos anos 1880 em que eles tentaram colocar um tronco de árvore em cima do outro, o que, como você pode imaginar, acabou não funcionando. Por fim, eles perceberam que você pode confiar na fricção do solo.”

O princípio é baseado na ideia de reforço do solo, espetando o máximo de estacas possível. Esse processo cria fricção substancial entre as estacas e o solo.

“O inteligente sobre isso é que você meio que usa a física”, explica Leslie. “A beleza é que você está usando a natureza fluida do solo para fornecer resistência para sustentar as construções.”

O nome técnico é pressão hidrostática. Ela significa essencialmente que o solo “aperta” as estacas, se muitas delas forem inseridas densamente em um ponto, segundo ele.

De fato, é assim que funcionam as estacas venezianas. Elas são curtas demais para atingir o leito rochoso e, em vez disso, mantêm os edifícios em pé graças à fricção. Mas a história dessa forma de construção remonta a muito tempo atrás.

A técnica foi mencionada pelo engenheiro e arquiteto romano Vitrúvio, do século 1º a.C. Os romanos teriam usado estacas submersas para construir pontes, que também ficam perto da água.

A China também construiu portais de água usando estacas de fricção. E os astecas usaram estacas em Tenochtitlán (hoje Cidade do México), antes da chegada dos espanhóis —que destruíram a cidade velha e construíram no mesmo lugar sua catedral católica, destaca Puzrin.

“Os astecas sabiam construir no seu ambiente muito melhor que os espanhóis, que vieram depois”, explica ele. “Agora, eles têm enormes problemas com sua catedral metropolitana”, pois seu piso está afundando de forma irregular.

Puzrin leciona em um curso de graduação da ETH que investiga falhas geotécnicas famosas.

“E essa é uma dessas falhas”, afirma ele. “A catedral e a Cidade do México como um todo são um museu a céu aberto de tudo o que pode dar errado com as suas fundações.”

Depois de mais de um milênio e meio na água, as fundações de Veneza se mostraram incrivelmente resistentes. Mas não são imunes à degradação.

Dez anos atrás, uma equipe das universidades italianas de Pádua e Veneza (incluindo o departamento florestal e de engenharia até o de patrimônio cultural) investigaram as condições das fundações da cidade, a começar do campanário da Basílica dei Frari, construído em 1440 sobre estacas de amieiro.

O campanário afunda 1 mm por ano desde a sua construção, atingindo um total de 60 cm.

Em comparação com as igrejas e edifícios, os campanários têm mais peso distribuído sobre uma superfície menor. Por isso, eles afundam mais e com maior rapidez, “como um salto agulha”, segundo Macchioni. Ele fez parte da equipe que investigou as fundações da cidade.

Caterina Francesca Izzo trabalhava no campo, perfurando, coletando e analisando amostras de madeira do subsolo das igrejas, campanários e das laterais dos canais, que, na época, estavam sendo esvaziados e limpos.

Ela declarou que eles precisavam trabalhar com cuidado no fundo dos canais secos, para evitar o esgoto que jorrava esporadicamente dos canos laterais.

A equipe descobriu que, em todas as estruturas investigadas, a má notícia era que a madeira estava danificada, mas o sistema formado pela água, madeira e lama mantinha tudo aquilo unido, o que é bom.

Os pesquisadores desmentiram a crença comum de que a madeira no subsolo da cidade não se deteriora por ser mantida sem oxigênio, em condições anaeróbicas.

Na verdade, as bactérias atacam a madeira, mesmo na ausência de oxigênio. Mas sua ação é muito mais lenta do que a ação dos fungos e insetos, que trabalham na presença de oxigênio.

Além disso, a água preenche as células esvaziadas pelas bactérias, o que permite que as estacas de madeira mantenham seu formato. Por isso, mesmo que as estacas de madeira sejam danificadas, o sistema completo de madeira, água e lama é mantido coeso sob intensa pressão, mantendo sua resistência por séculos.

“Existe algo para se preocupar?”, questiona Izzo. “Sim e não, mas devemos ainda verificar a continuidade desse tipo de pesquisa.”

Desde o trabalho realizado dez anos atrás, eles não coletaram novas amostras, principalmente devido à logística envolvida.

Macchioni ressalta que não se sabe por quantos séculos as fundações ainda irão durar. “Mas será enquanto o ambiente permanecer inalterado.”

“O sistema de fundações funciona porque é feito de madeira, solo e água.” O solo cria um ambiente livre de oxigênio, a água também contribui para isso e mantém o formato das células, enquanto a madeira fornece fricção. Sem 1 destes 3 elementos, o sistema desaba.

Nos séculos 19 e 20, a madeira foi totalmente substituída por cimento na construção de fundações. Mas, nos últimos anos, uma nova tendência de construção com madeira vem despertando mais interesse, incluindo o aumento dos arranha-céus de madeira.

“É meio que o material da moda, agora, por razões muito boas”, comenta Leslie. Afinal, a madeira é um sifão de carbono, biodegradável e, graças à sua flexibilidade, é considerada um dos materiais mais resistentes a terremotos.

“É claro que não podemos construir cidades inteiras de madeira, pois existem muitas no planeta”, destaca Macchioni. Mas é inegável que, como os construtores antigos não contavam com motores e materiais artificiais, eles simplesmente precisaram ser mais criativos.

Veneza não é a única cidade com fundações de madeira, mas é “a única [em que a técnica de fricção foi empregada] em massa, continua sobrevivendo hoje em dia e é imensamente bonita”, ressalta Puzrin.

“Havia pessoas ali que não estudaram a mecânica do solo e a engenharia geotécnica e, ainda assim, geraram algo que durou tanto tempo e só conseguimos produzir em sonhos. Eles eram engenheiros incríveis e intuitivos, que fizeram exatamente a coisa certa, aproveitando todas estas condições especiais.”

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Earth.

As ilustrações desta reportagem têm apenas propósitos artísticos. Elas não são representações reais das fundações de estacas de madeira no subsolo de Veneza, que são firmemente compactadas e não têm galhos.

Sistema impede Veneza de afundar há mais de 1.600 anos – 07/04/2025 – Ciência – Folha

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5 lições de felicidade do país mais feliz do mundo

A Finlândia lidera, pelo oitavo ano consecutivo, o ranking de felicidade realizado pela ONU a partir de análises de especialistas; veja quais os segredos do país europeu

Por Gabriela Caputo – Estadão – 21/03/2025 

A Finlândia segue ostentando o título de país mais feliz do mundo, de acordo com o relatório divulgado nesta quinta-feira, 20. O estudo é realizado anualmente pela Organização das Nações Unidas (ONU) em parceria com o instituto de pesquisa Gallup e a universidade de Oxford, no Reino Unido.

Este é o oitavo ano consecutivo que o país lidera a lista, seguido pelos vizinhos nórdicos Dinamarca, Islândia e Suécia. A Noruega fica um pouco atrás, na sétima colocação. O relatório é feito a partir de uma avaliação média da qualidade de vida da população, e especialistas analisam o cenário a partir de fatores diversos, como PIB per capta, expectativa de vida saudável, senso de liberdade, generosidade e percepção de corrupção.

A Finlândia, assim como os países vizinhos, funciona no modelo nórdico, com forte Estado de bem-estar social. É um país com baixa desigualdade social e de gênero. Ou seja, o segredo para a felicidade pode estar, sim, no bom desempenho das políticas sociais e econômicas, aspectos que fogem do controle individual.

Leia também

Ainda assim, é possível extrair algumas lições de felicidade a partir da experiência da nação mais feliz do mundo. Confira:

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Prazer nas pequenas coisas

A valorização da simplicidade é característica marcante da cultura finlandesa. Há até uma palavra para isso: sisu. O termo, sem tradução exata, remete à filosofia que exalta a coragem, a determinação silenciosa e a resiliência. Essa mentalidade está refletida, por exemplo, no minimalismo e funcionalidade do design escandinavo, e na moda finlandesa, que valoriza a inovação e a sustentabilidade. Mas aparece também, e principalmente, na vida cotidiana – se levada com praticidade, sobra tempo para dar atenção ao que realmente importa.

Apreciar a natureza

Apesar do frio extremo do inverno nórdico, estar ao ar livre faz parte do modo de vida finlandês, em um território com florestas profundas e mais de 160 mil lagos. De acordo com o Finnish Happiness Institute, nas pesquisas que avaliam os motivos de felicidade da população, sempre são mencionadas a proximidade com a natureza e as oportunidades para lazer e relaxamento. O fácil acesso a parques ou florestas, bem preservados, contribuem para a diminuição do estresse e alimentam a criatividade.

Descansar

Talvez a lição mais complexa de seguir em um mundo acelerado e hiperconectado. A cultura finlandesa valoriza a comunhão com a natureza tanto quanto os momentos de silêncio. O descanso e o relaxamento não são vistos de forma negativa como em muitas sociedades ocidentais; não são uma recompensa pelo trabalho árduo – e sim parte essencial da vida. Algo que ilustra muito bem esse pensamento é a tradição milenar finlandesa da sauna. O ambiente fechado e aquecido, um ritual simples, é usado para relaxar e também para socializar com amigos e familiares.

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Estar em comunidade

Essa apreciação da presença do outro é justamente um dos aspectos mais valiosos para a felicidade. O relatório da ONU deste ano traz enfoque sobre o impacto do cuidado e do compartilhamento na felicidade das pessoas. O estudo aponta a prevalência da desconexão social sobretudo entre jovens adultos, enquanto, na verdade, as conexões sociais são “vitais para o bem-estar pois fornecem uma proteção contra os efeitos tóxicos do estresse”.

Os especialistas destacam a corriqueira arte de comer em companhia, apontando a existência de diferenças profundas nas taxas de compartilhamento de refeições ao redor do mundo, que “não são totalmente explicadas por diferenças de renda, educação ou emprego”. Essa atividade tem forte impacto no bem-estar. “Aqueles que compartilham mais refeições com outros relatam níveis significativamente mais altos de satisfação com a vida e afeto positivo, e níveis mais baixos de afeto negativo. Isso é verdade em todas as idades, gêneros, países, culturas e regiões”, resumem os autores.

‘Gentileza gera gentileza’

A frase é clichê, mas apropriada. No relatório de felicidade da ONU, especialistas afirmam ter novas evidências de que atos de generosidade e a crença na bondade dos outros são “previsores significativos da felicidade, inclusive mais do que receber um salário maior”. As pessoas costumam ser muito pessimistas sobre a bondade alheia, e acabam se surpreendendo: experimentos feitos com carteiras perdidas e devoluções inesperadas mostram que os países nórdicos estão “entre os melhores lugares em termos de taxas esperadas e reais de devolução de carteiras perdidas”.

De acordo com o Business Finland, a felicidade finlandesa é explicada, em parte, pelos altos níveis de confiança e liberdade em sua sociedade, “o que pesquisas mostram que contribui para o bem-estar e a produtividade”. Essa confiança reflete o que é visto em âmbito coletivo no país, que apresenta índices positivos quanto à transparência e à percepção sobre corrupção. / COM AFP

5 lições de felicidade do país mais feliz do mundo – Estadão

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Como o CESAR se reinventou com o venture building

Primeiro foram as startups. Então vieram os projetos de hardware e software. Agora as startups voltam a ser o foco de um dos principais centros de inovação do País, que as transforma em ativos estratégicos para o horizonte 3 de inovação

Eduardo Peixoto – MIT Sloan Management Review Brasil – 6/10/2025

Se esta história que vou contar agora fosse um documentário, nossa cena de abertura teria como plano de fundo o início dos anos 2000, em meio ao fervor das inovações tecnológicas e experimentações ainda tímidas com os primeiros computadores e celulares. Lá atrás, além do trabalho do CESAR com tecnologia da informação, também se fortalecia a nossa missão de transformar problemas reais em soluções concretas, criando empresas a partir da inovação aplicada ao mercado.

No começo, nossa abordagem era clássica: criar startups a partir de desafios identificados em grandes organizações. A lógica era simples: se uma empresa tem um problema, provavelmente outras também têm. Se criarmos uma solução replicável, podemos transformá-la em um negócio independente, capaz de atender diversos clientes.

Foi assim que surgiram algumas iniciativas que prosperaram além do que imaginamos, como a Tempest, focada em cibersegurança, e a Neurotech, que atua com inteligência artificial e dados para avaliação de riscos no setor financeiro. Mas também outras que ficaram pelo caminho. O Meantime, por exemplo, nosso projeto de gamificação com a Motorola, tinha muito potencial, mas estava à frente do tempo –  nosso mercado não era maduro o suficiente  e tinha poucos investidores dispostos a oferecer um aporte capaz de fazer com que a solução resistisse mais tempo. Na época, o Brasil ainda não tinha uma estrutura consolidada de venture capital como no Vale do Silício.

Até que, em meio a esses horizontes incertos, aconteceu a chegada da Lei de Informática e, com ela, a estratégia do CESAR tomou outro rumo. Passamos a desenvolver o que hoje chamamos de soluções robustas com software e hardware e as iniciativas de startups ficaram em segundo plano por um bom tempo. Até que aconteceu um outro momento de inflexão na nossa história.

O estalo: Por que mudamos de rota?

Startups são essenciais para movimentar a economia e desafiar empresas maduras, e nós como um hub de inovação precisamos contribuir significativamente para o ecossistema. Embora o empreendedorismo sempre tenha sido parte do DNA do CESAR, nossa abordagem precisava de mais estrutura e direção. Estávamos experimentando, testando caminhos, mas sem uma estratégia consolidada.

Foi nesse processo que entendemos: não bastava apenas acelerar startups, precisávamos construir um modelo mais sólido, que combinasse nossa expertise em tecnologia com um olhar estratégico para investimento e crescimento sustentável. Foi então que nos perguntamos:  e se, em vez de apenas acelerar startups, nós nos tornássemos parte da construção delas?

Com o tech venture building, a lógica não foi mais a de apoiar startups do modo tradicional; passamos a criar negócios junto com os empreendedores, trocando tecnologia por participação

A partir dessa provocação, o conceito de “tech venture building” ganhou força. A lógica mudou. Em vez de apenas apoiar startups de maneira tradicional, como antes, começamos a criar negócios junto aos empreendedores, trocando tecnologia por participação. Além disso, já éramos aptos a captar recursos de fomento (como Embrapii) para financiar o desenvolvimento da tecnologia, garantindo que no momento do exit, o CESAR também capturasse o valor gerado. O match estava feito.

Entre erros e acertos, o que aprendemos

Os primeiros experimentos deram certo. Ajustamos o processo, eliminamos distrações  e consolidamos um time dedicado ao modelo de Ventures. Começamos a promover ações de impulsionamento de startups, como eventos, workshops e mentorias. E, enquanto apoiávamos o ecossistema, também estávamos avaliando e selecionando startups de base tecnológica compatíveis com o nosso novo modelo de venture building.

O resultado? Nossas ações de impulsionamento já alcançaram mais de 1200 negócios e hoje temos um portfólio crescente de mais de 50 startups. Deste montante, 10 estão ativas e as demais já fizemos exits, com diversos casos de sucesso – assim como write-offs (retirada do portfólio após o período de cinco anos sem “rampar”).  Além disso, lançamos o Dates, uma plataforma que utiliza IA para conexão entre negócios, investidores e empresas, com mais de 1500 startups cadastradas. Com nosso sistema de match ágil e preciso, ajudamos a conectar empreendimentos promissores com as melhores oportunidades de negócios.

O principal erro foi a falta de foco estratégico. No início, tentamos executar o modelo de aceleração clássica ao mesmo tempo que estávamos estruturando outros negócios do CESAR. Também não definimos, de forma clara, como iríamos atuar e contribuir para as startups, se seria por aceleração, investimento, consultoria, entre tantas outras abordagens. 

Com o passar dos anos e um estudo mais aprofundado no cenário de ventures, suas necessidades, lacunas e objetivos, ficou evidente que precisávamos direcionar nossos esforços. Entendemos que não dava para ser tudo ao mesmo tempo—ou éramos uma aceleradora, ou nos tornávamos Venture Builders. Escolhemos a segunda opção. Foi um divisor de águas.

Outro aprendizado foi entender que venture building exige paciência. O ciclo de retorno é diferente do de uma consultoria ou serviço tradicional. O valor real aparece no longo prazo, conforme as startups crescem e chegam ao exit. Mas os primeiros sinais já mostram que a aposta foi acertada: no último ano, o CESAR Ventures gerou cerca de 3% da receita do CESAR, porém foi responsável por 19% do superávit da organização. 

Um dos nossos maiores resultados se deu com o exit da Tallos, startup que impulsionamos, que ao ser comprada pela TOTVS, gerou um múltiplo de capital investido (MOIC)  de 93x para o CESAR.

O futuro do CESAR Ventures

Se projetarmos o CESAR Ventures cinco anos à frente, a visão é clara: um portfólio robusto de startups, exits acontecendo regularmente, e um modelo cada vez mais refinado de criação de negócios de base tecnológica.

Nosso papel não é apenas melhorar processos existentes, mas criar empresas que desafiem o status quo

Porém o mais importante é o impacto que queremos gerar. Nosso papel não é apenas melhorar processos existentes, mas criar empresas que desafiem o status quo. Queremos atuar dentro do que McKinsey define como horizontes de inovação: navegar no chamado horizonte 3, aquele espaço onde surgem negócios que realmente causam ruptura. Mas, ao mesmo tempo, equilibramos isso com projetos de horizonte 2, que promovem inovação incremental e garantem um crescimento sustentável. É esse equilíbrio que torna um centro de inovação como o CESAR relevante no longo prazo.

Startups são o motor da inovação. Se uma economia sem novas empresas está fadada à estagnação, um ecossistema de inovação sem venture building perde a chance de gerar mudanças profundas. E é exatamente esse espaço que queremos ocupar. A jornada é incerta, mas os resultados compensam. E nós estamos apenas começando.

Eduardo Peixoto

Eduardo Peixoto é CEO do CESAR Centro de Inovação e professor da CESAR School. Mestre em comunicação de dados pela Technical University of Eindhoven-Holanda, com MBA na Kellogg School of Management e na Columbia Business School, atua há 30 anos na área de tecnologias da informação e comunicação (TICs). Trabalhou como executivo no exterior, na Philips da Holanda e na Ascom Business System AG (Suíça).

Como o CESAR se reinventou com o venture building – MIT Sloan Management Review Brasil

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Google apresenta auxiliar digital que trabalha em hospital e quer popularizar funcionários de IA

Big tech mostra ferramenta para criar apps sem conhecimento em programação entre outros recursos

Pedro S. Teixeira – Folha – 10.abr.2025

Os médicos de um hospital pediátrico de Seattle, nos Estados Unidos, já recebem auxílio de um funcionário digital criado com IA (inteligência artificial).

O avanço da digitalização no trabalho foi um dos anúncios do Google, durante um evento realizado em Las Vegas na quarta-feira (9) para clientes corporativos.

Entre os lançamentos apresentados, destacaram-se uma plataforma para criar agentes (como são chamados os funcionários digitais) de maneira intuitiva e outra, cujo objetivo é permitir a criação de aplicativos sem conhecimento avançado em programação.

O chamado kit de desenvolvimento de agentes é um conjunto de ferramentas para personalizar a atuação dos agentes. Esses funcionários digitais são modelos de IA generativa que trocam comandos e informações entre si automaticamente para simular uma atuação autônoma.

O assistente do hospital americano, por exemplo, pesquisa informações de histórico clínico (em texto e imagens) e de literatura médica, de forma autônoma, para fornecer ao profissional da saúde avaliações baseadas em evidências.

De acordo com o Google, o kit permite criar um agente com menos de cem linhas de código de programação.

Outro destaque do evento foi o Firebase Studio, plataforma que permite a criação de aplicativos por meio de comandos em texto, no lugar de código de programação.

O gigante americano afirma que o recurso aumenta a produtividade de programadores.

Além disso, ferramentas similares são usadas por pessoas sem conhecimento técnico para a criação dos próprios apps sem precisar contratar terceiros —a prática é conhecida como vibe coding, algo como programar pela vibração.

O Google diz que criou esse programador digital, que também chamou de agente, ao unir as habilidades de programação do modelo Firebase (especialista em programação) com a criatividade do Gemini (o chatbot da big tech)

Interessados em testar a ferramenta podem criar até três ambientes de trabalho gratuitamente. Os programadores que pagam o serviço especializado do Google (US$ 299 por ano) podem gerar 30 ambientes.

No evento, o Google anunciou que pretende investir US$ 75 bilhões (R$ 443 bilhões) neste ano, sobretudo para acelerar o desenvolvimento e funcionamento de produtos de IA.

“Estamos muito confiantes em nosso próprio destino”, disse o CEO do Google Cloud (serviço de nuvem do gigante das buscas) em entrevista à agência Bloomberg. “Estamos conversando com clientes e parceiros ao redor do mundo. Ainda é muito cedo. Eu não tiraria conclusões precipitadas sobre a situação agora. Mas, no final das contas, tudo se resume a quão bem você reage a uma situação inesperada.”

Analistas da imprensa internacional avaliam que os lançamentos de Las Vegas reposicionaram o Google na disputa, contra Microsoft e Amazon, pelo mercado de IA para negócios.

IA: Google quer popularizar funcionários digitais – 10/04/2025 – Tec – Folha

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Computação quântica: materiais magnéticos e a próxima revolução tecnológica

Os avanços na criação de novos materiais magnéticos são promissores e importantes para tornar a computação quântica mais acessível

Lívia Batista Lopes Escobar – O Globo/The Conversation* — 8/04/2025 

A computação quântica promete transformar a forma como processamos informações e lidamos com problemas complexos. Nos últimos anos, essa tecnologia avançou rapidamente, saindo do campo teórico para experimentos cada vez mais sofisticados.

Empresas e instituições de pesquisa têm investido pesado em protótipos de computadores quânticos, buscando superar os limites da computação clássica.

Recentemente, cientistas demonstraram a chamada supremacia quântica em tarefas específicas, resolvendo em poucos minutos problemas que levariam bilhões de anos para serem solucionados pelos melhores supercomputadores atuais.

Apesar de ainda estar em fase experimental, a computação quântica está cada vez mais próxima de aplicações reais. Um dos desafios centrais para esse avanço está na busca por materiais magnéticos mais estáveis e eficientes.

Bits quânticos: o segredo da velocidade

Para entender a potência dos computadores quânticos, podemos compará-los aos convencionais. Nos computadores clássicos, a informação é armazenada em bits, que podem assumir os valores 0 ou 1. Já nos computadores quânticos, a menor unidade de informação é o qubit, que pode estar em qualquer combinação entre 0 e 1 ao mesmo tempo, devido ao princípio da superposição quântica.

Uma forma de visualizar isso é pensar num globo terrestre: um bit clássico poderia estar apenas nos polos Norte (0) ou Sul (1). Já um qubit pode estar em qualquer ponto da superfície do globo, que combinam diferentes posições de Norte e Sul. Essa propriedade aumenta exponencialmente a capacidade de cálculo dos computadores quânticos, permitindo resolver problemas que seriam impossíveis para as máquinas convencionais.

O papel do magnetismo na computação quântica

O funcionamento dos qubits depende de fenômenos magnéticos. O magnetismo dos materiais surge do comportamento dos elétrons desemparelhados, que possuem uma propriedade quântica chamada spin. O spin funciona como um pequeno ímã microscópico: quando esses pequenos imãs se alinham em uma direção, o material se torna magnético. Quando estão desorganizados ou se cancelam mutuamente, o material se encontra desmagnetizado.

Diferentes tipos de qubits exploram o magnetismo para armazenar e processar informações de formas distintas. Por exemplo, os Qubits de Spin são baseados no spin dos elétrons em materiais semicondutores, onde o estado “para cima” representa 1 e “para baixo”, 0. Esses qubits são manipulados por campos magnéticos e pulsos de micro-ondas.

Já os Qubits supercondutores são usados nos computadores quânticos mais avançados da IBM e do Google. Esses sistemas criam circuitos onde a corrente elétrica pode fluir em superposição de direções, gerando um campo magnético que pode ser controlado para armazenar e processar informação.

Outra abordagem usa átomos carregados eletricamente (íons) presos em campos eletromagnéticos. O magnetismo é essencial para controlar as interações dos íons e manipular os estados quânticos.

Os desafios dos qubits magnéticos

A principal barreira para o avanço dessa tecnologia é que os qubits são extremamente sensíveis à interação com o ambiente externo. Isso pode levar à perda rápida da informação quântica, chamada de “decoerência”. Para contornar esse problema, cientistas estão explorando diferentes materiais e mecanismos físicos para criar qubits mais estáveis, garantindo que os qubits mantenham sua coerência por mais tempo.

Outro problema é a necessidade de temperaturas extremamente baixas para manter a estabilidade dos qubits. Para tornar a computação quântica escalável e viável comercialmente, precisamos desenvolver materiais que mantenham suas propriedades quânticas em temperaturas mais altas.

Novos materiais quânticos: o que estamos estudando

No meu laboratório, no Departamento de Química da PUC-Rio, estudamos materiais magnéticos moleculares, que apresentam propriedades fundamentais que os tornam adequados para aplicações em computação quântica. Ao manipular as sínteses e escolher combinações específicas de metais e ligantes, buscamos criar materiais que mantêm a coerência por mais tempo, contribuindo para a reduzir erros em cálculos quânticos, melhorar a estabilidade e eficiência, permitindo operações lógicas mais rápidas e precisas.

Um dos materiais que descrevemos recentemente é um complexo de cobre, onde dois átomos desse metal estão conectados por um composto orgânico especial, que ajuda a organizar os átomos metálicos de forma específica. Descobrimos que assim os centros de cobre não interagem magneticamente entre si, o que sugere um bom isolamento do meio externo, uma propriedade desejável para a computação quântica.

Estamos também estudando íons de elementos da família dos lantanídeos, elementos que possuem propriedades magnéticas e ópticas interessantes para aplicações quânticas. Esses materiais são usados em lasers, telas de celulares e exames médicos, mas também têm potencial para contribuir no desenvolvimento de qubits mais robustos.

O futuro dos materiais magnéticos na computação quântica

Os avanços na criação de novos materiais magnéticos são promissores e importantes para tornar a computação quântica mais acessível. A expectativa é que, em breve, possamos operar qubits magnéticos em temperaturas mais altas, acelerando o desenvolvimento de sistemas quânticos aplicáveis em larga escala.

Além da computação quântica, esses materiais magnéticos são multifuncionais e extremamente versáteis. Eles também têm grande potencial em outras áreas, como armazenamento de dados, refrigeração magnética e na medicina, em carreamento de fármacos e técnicas de imagem por ressonância magnética.

Acredito que a interseção entre química, física e tecnologia é o que torna esse campo tão fascinante. Ao desvendar os segredos do magnetismo em nível molecular, estamos abrindo caminho para uma revolução tecnológica que pode transformar a maneira como processamos informações e resolvemos problemas complexos.

*Lívia Batista Lopes Escobar é professora e pesquisadora do Departamento de Química da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio)

*Este artigo foi republicado de The Conversation sob licença Creative Commons . Leia o artigo original.

Computação quântica: materiais magnéticos e a próxima revolução tecnológica

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‘Novidade mundial’: Com impressora 3D, Japão constrói estação de trem em seis horas

Autoridades apontam que erguer estrutura da maneira tradicional levaria mais de dois meses e custaria o dobro

TOPO

Por O Globo/The New York Times — 08/04/2025 

Nas seis horas entre a partida do último trem da noite e a chegada do primeiro da manhã, trabalhadores no Japão rural construíram uma estação de trem inteiramente nova. Ela substituirá uma estrutura de madeira significativamente maior que atendeu os passageiros desta comunidade remota por mais de 75 anos.

Os componentes da nova estação foram impressos em 3D em outro lugar e montados no local no mês passado, no que os operadores da ferrovia dizem ser uma novidade mundial. Pode parecer mais um abrigo do que uma estação, mas construir uma da maneira tradicional levaria mais de dois meses e custaria o dobro, de acordo com a West Japan Railway Co.

À medida que a população do Japão envelhece e sua força de trabalho diminui, a manutenção da infraestrutura ferroviária, incluindo edifícios de estações desatualizados, é um problema crescente para os operadores ferroviários. Estações rurais com números decrescentes de usuários representam um desafio particular.

A nova estação, Hatsushima, fica em uma tranquila cidade litorânea que faz parte de Arida, uma cidade de 25 mil habitantes sob a prefeitura de Wakayama, que faz fronteira com dois destinos turísticos populares, Osaka e Nara. A estação, servida por uma única linha com trens que circulam de uma a três vezes por hora, atende cerca de 530 passageiros por dia.

Yui Nishino, de 19 anos, usa a estrutura todos os dias para ir à universidade. Ela disse que ficou surpresa quando soube que a primeira estação impressa em 3D do mundo seria construída aqui.

— O trabalho progrediu a uma velocidade que seria impossível com uma construção normal — disse ela. — Espero que eles possam fazer mais edifícios com tecnologia de impressão 3D.

A Serendix, a construtora que a West Japan Railway contratou para o projeto, disse que imprimir as peças e reforçá-las com concreto levou sete dias.

A impressão foi feita em uma fábrica na prefeitura de Kumamoto, na ilha sudoeste de Kyushu. As peças saíram da fábrica na manhã de 24 de março para serem transportadas cerca de 800 quilômetros a nordeste, por estrada, até a Estação Hatsushima.

— Normalmente, a construção ocorre ao longo de vários meses, enquanto os trens não circulam todas as noites — disse Kunihiro Handa, cofundador da Serendix.

O trabalho de construção perto de linhas comerciais está sujeito a restrições rigorosas e geralmente é realizado durante a noite para não atrapalhar os horários.

A construção

Quando os caminhões carregando as peças impressas em 3D começaram a chegar em uma terça-feira à noite, no final de março, várias dezenas de moradores se reuniram para assistir à iniciativa inédita começar, em um lugar profundamente familiar para eles.

Depois que o último trem partiu às 23h57, os trabalhadores se ocuparam construindo a nova estação. Em menos de seis horas, as peças impressas, feitas de uma argamassa especial, foram montadas. Elas foram entregues em caminhões separados, e um grande guindaste foi usado para içar cada uma até onde os trabalhadores as deveriam juntar, a poucos metros da antiga estação.

A nova estação, que mede pouco mais de nove metros quadrados, foi concluída antes da chegada do primeiro trem, às 5h45. É um edifício minimalista e branco, com designs que incluem uma tangerina e um peixe-espada, especialidades de Arida.

A estrutura, porém, ainda precisava de equipamentos como máquinas de bilhetes e leitores de cartão de transporte. A West Japan Railway disse que espera abrir o novo edifício para uso em julho.

Autoridades ferroviárias dizem que esperam que a estação mostre como o serviço pode ser mantido em locais remotos com novas tecnologias e menos trabalhadores.

— Acreditamos que a importância deste projeto reside no fato de que o número total de pessoas necessárias será reduzido significativamente — disse Ryo Kawamoto, presidente da JR West Innovations, uma unidade de capital de risco da operadora ferroviária.

O prédio de madeira que a nova estação substituirá foi concluído em 1948. Desde 2018, ele foi automatizado, como muitas estações menores no Japão.

Toshifumi Norimatsu, de 56 anos, que administra o correio a algumas centenas de metros de distância, tinha sentimentos agridoces sobre o novo prédio.

— Estou um pouco triste com a demolição da antiga estação — disse ele. — Mas ficaria feliz se esta estação pudesse se tornar pioneira e beneficiar outras.

‘Novidade mundial’: Com impressora 3D, Japão constrói estação de trem em seis horas

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Cerco às universidades de Trump incentiva fuga de cérebros e cria novo fenômeno nos EUA

Segundo pesquisa, 75% dos acadêmicos consideram deixar o país após medidas recentes, que incluem cortes de bolsas, caça a estudantes envolvidos em protestos e termos proibidos; movimento já mobiliza governos e instituições em outros países

Por Emanuelle Bordallo – O Globo – 06/04/2025 

Em menos de três meses, o cerco do presidente Donald Trump às universidades americanas acende o alerta para um fenômeno que, até pouco tempo, tinha os Estados Unidos como o maior beneficiário: a fuga de cérebros. Lar de algumas das mais prestigiosas instituições de ensino do planeta, a capacidade dos EUA de atrair estudantes do mundo todo sempre foi vista como um importante soft power. No entanto, diante de uma série de medidas do governo — que incluem cortes em financiamentos, veto a iniciativas de diversidade, caça a estudantes envolvidos em protestos e até proibição do uso de determinadas palavras —, os ventos parecem mudar de direção.

Com apenas dois meses e meio da nova administração, ainda não há números, mas as discussões sobre uma possível fuga de cérebros entraram na pauta do dia. Em uma pesquisa da revista Nature feita com 1,6 mil acadêmicos, 75% disseram considerar sair dos EUA devido à instabilidade causada pelo governo Trump. A tendência é ainda mais forte entre estudantes de mestrado (79%), uns dos mais afetados pelos cortes de bolsas e pesquisas. Se por um lado a fuga de cérebros representa um desafio aos EUA, por outro, já há países aproveitando a oportunidade para oferecer “asilo científico”. Para analistas ouvidos pelo GLOBO, Donald Trump põe em risco não só a atratividade das universidades para estrangeiros — uma fonte de receita para o país — como também a competitividade dos EUA em setores-chave na sua guerra comercial com a China.

Negócio em risco

A caça a cérebros em fuga dos EUA já mobiliza governos e instituições em outros países. Uma das primeiras foi a Universidade Aix-Marseille, na França, que no início de março lançou o programa “Espaço Seguro para a Ciência” para atrair 15 cientistas americanos das áreas de meio ambiente, saúde e astrofísica dispostos a trabalhar por três anos no seu campus. Segundo a instituição, mais de 60 candidatos se inscreveram, 30 deles nas primeiras 24 horas. Duas universidades da Bélgica e o governo da Holanda anunciaram planos semelhantes. Por sua vez, o governo da Catalunha apresentou na segunda-feira um programa trienal de € 30 milhões para atrair cientistas americanos, com 78 vagas em 12 universidades públicas.

Em carta à comissária de Pesquisa da União Europeia, Ekaterina Zaharieva, ministros do setor de 13 países-membros — incluindo de potências da área como Alemanha e França — exortaram o bloco a aproveitar o momento para “dar as boas-vindas a talentos brilhantes do exterior que podem estar sofrendo interferência nas pesquisas e cortes de financiamento brutais e mal motivados”. A arquirrival China, que disputa fortemente com os EUA os avanços na área de tecnologia, também já começou a buscar atrair “os refugiados com PhD dos EUA”, segundo o jornal South China Morning Post, de Hong Kong, oferecendo “novos caminhos acadêmicos”.

Em fevereiro, a Sociedade Max Planck, um dos maiores institutos de pesquisa no mundo, registrou um aumento no número de candidaturas de cientistas americanos, noticiou a revista alemã Der Spiegel. Ironicamente, a instituição, sediada em Munique, foi uma das mais prejudicadas com a fuga de cérebros durante a Alemanha nazista, perdendo alguns dos seus nomes mais proeminentes para os EUA, incluindo Albert Einstein.

Há uma semana, o professor de Yale Jason Stanley se tornou o rosto do movimento ao anunciar que estava deixando a prestigiosa universidade da Ivy League para assumir um cargo na Universidade de Toronto. Ao site Daily Nous, o autor do livro “Como o fascismo funciona” justificou a decisão afirmando que gostaria de “criar meus filhos em um país que não está se inclinando para uma ditadura fascista”.

— O perigo que os EUA correm é começar a perder pessoal qualificado no médio e longo prazo. Na área de STEM (sigla em inglês para Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática) isso não deixa de ser curioso, pois há um esforço para trazer mão de obra de fora devido a um tradicional déficit de profissionais do setor. São eles que abastecem muitas big techs que apoiam Trump — analisa Gustavo Nicolau, advogado de imigração nos EUA, acrescentando que o cerco “pode levar estudantes para outros destinos, como Europa, ou mesmo inimigos americanos, como China e Rússia”.

De acordo com o último censo, 62% dos americanos não têm ensino superior completo. Segundo o advogado, tal cenário criou uma dependência das universidades em relação a estrangeiros, que, em alguns cursos, chegam a ocupar até 80% das vagas. Ao mesmo tempo, eles também contribuem para a economia americana, afirma.

— Há um interesse dos EUA em continuar recebendo estudantes estrangeiros, porque o americano percebeu que não precisa de faculdade para ter uma vida boa — explica. — Também há circulação de capital em solo americano, porque ele vai pagar impostos, alimentação, moradia, consumir em outras áreas. É um baita negócio para os EUA.

Ensino superior nos EUA — Foto: Editoria de Arte/O GloboEnsino superior nos EUA — Foto: Editoria de Arte/O Globo

Os EUA são o principal destino de estudantes internacionais do planeta, com 800 mil estrangeiros no ensino superior. Com sete universidades entre as 20 melhores do mundo no ranking QS World University, o país é o sonho de muitos estudantes que desejam estudar fora. Mas para alguns, a experiência se transformou num pesadelo em questão de meses.

— Eu com certeza estou cogitando outros países quando terminar o doutorado ou até mesmo voltar para o Brasil — contou ao GLOBO a farmacêutica Juliana (nome fictício), que estuda em uma universidade estadual nos EUA.

Segundo a brasileira, que falou sob anonimato por temer represálias, o cenário já reflete no seu comportamento:

— Eu já não postava nada político em rede social, mas ultimamente até em mensagens eu estou tentando evitar.

A estudante de pós-doutorado Flávia (nome fictício), que também falou sob anonimato, contou estar evitando tratar do tema Israel-Palestina, “que parece ser o principal foco da perseguição digital, e criticar o governo diretamente”.

— Recebi sugestões de ‘trancar as redes sociais’, ‘usar um segundo telefone’, mas me recuso. Se for para viver assim, volto para o Brasil logo.

Autocensura

Lucas Martins, professor de história dos EUA na Universidade Temple, classifica o clima como “o mais temeroso possível”. A sua instituição está entre as 60 de ensino superior que receberam uma carta do governo no mês passado exigindo ações para conter o antissemitismo, tema central na cruzada da Casa Branca — especialmente contra universidades que se engajaram nos protestos contra a guerra em Gaza, que tomaram os campi no ano passado.

A Universidade Columbia — palco de algumas das manifestações mais emblemáticas — virou alvo de uma investigação por supostamente ter permitido assédio contra judeus e teve US$ 400 milhões (R$ 2,27 bilhões) em verbas suspensas. Mahmoud Khalil, estudante palestino que liderou os protestos na instituição nova-iorquina, chegou a ser detido por agentes da polícia migratória (ICE) e corre risco de deportação, apesar de ter visto de residência permanente.

— Não é um recado a respeito do antissemitismo, mas um presságio mais amplo de que tudo aquilo que for expressado em um campus universitário será monitorado — pontua. — A autocensura já existe. Agora, há um temor de se engajar em manifestações não só envolvendo o Oriente Médio, mas a vida americana.

É o caso da estudante Clarissa (nome fictício):

— Estão ocorrendo várias manifestações na minha faculdade porque há um mês fecharam o Escritório de Diversidade e Inclusão e várias pessoas perderam o emprego. Eu fui no primeiro protesto, mas agora eu não tenho coragem mais de ir a nenhum.

Entre as orientações da universidade, Clarissa conta ter sido aconselhada a andar sempre com uma cópia do visto e evitar viagens ao exterior. Por medo, Flávia também disse ter cancelado viagens ao México, previstas no seu projeto de pesquisa. Juliana, por sua vez, preferiu adiar a visita que faria ao Brasil no meio do ano apesar da saudade da família, que não vê há dois anos.

Asfixia financeira

As ameaças de suspensão de verbas forçaram departamentos financiados pelo governo federal a se adaptar.

— Trabalho em um laboratório sobre doenças que afetam o sistema reprodutivo feminino e estamos preocupados com a renovação do nosso financiamento, pois termos como ‘women’ (mulheres) e ‘female’ (fêmea) agora estão vetados — conta Juliana.

Flávia, que faz parte de um laboratório que pesquisa meio ambiente, disse que “uma parte significativa do financiamento foi afetada pelos cortes” e temas climáticos estão sob pressão. A revista onde Clarissa trabalha agora precisa ser revisada e aprovada pelo departamento de comunicação da universidade antes de ser publicada.

Segundo Martins, a estratégia da Casa Branca tem sido efetiva em fazer as universidades cederem para evitar a asfixia financeira. No final de março, Columbia concordou em atender às exigências para reverter o corte, anunciando medidas como a presença de agentes dentro do campus e uma supervisão externa do Departamento de Estudos do Oriente Médio.

— Sem recursos para desenvolver pesquisa de qualidade e sem liberdade acadêmica, um acadêmico com poder de escolha não vai querer estar em um ambiente hostil assim — destaca. — A fuga de cérebros é real e o impacto dela no longo prazo é que os EUA vão deixar de ser a referência dos últimos 70 anos e se tornarão um país comum em termos de produção acadêmica.

Cerco às universidades de Trump incentiva fuga de cérebros e cria novo fenômeno nos EUA

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