Ainda vale a pena programar? O que os cursos de ciência da computação devem ensinar na era da IA

Universidades dos EUA estão se esforçando para entender as implicações da transformação da tecnologia pela IA generativa

Por Steve Lohr – Estadão/The New York Times – 02/07/2025 

A Universidade Carnegie Mellon tem merecida reputação de ser uma das melhores faculdades de ciência da computação dos EUA. Seus formandos vão trabalhar em grandes empresas de tecnologia, startups e laboratórios de pesquisa em todo o mundo.

Apesar de todo o sucesso, o corpo docente do departamento está planejando um encontro neste verão para repensar o que a faculdade deve ensinar para se adaptar ao rápido avanço da inteligência artificial (IA) generativa.

O ensino da ciência da computação provavelmente se concentrará menos na codificação e mais no pensamento computacional e na alfabetização em IA, disse Mary Lou Maher, diretora da Computing Research Association 

A tecnologia “abalou mesmo o ensino da ciência da computação”, diz Thomas Cortina, professor e reitor associado dos programas de graduação da universidade. A ciência da computação, mais do que qualquer outro campo de estudo, está sendo desafiada pela IA generativa.

A IA por trás de chatbots como o ChatGPT está ganhando espaço no meio acadêmico. Mas essa tecnologia chegou ainda mais rapidamente e com mais força à ciência da computação, que foca no desenvolvimento de código, a linguagem dos computadores.

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Grandes empresas de tecnologia e startups lançaram assistentes de IA que podem gerar código — e eles estão se tornando cada vez mais potentes. Em janeiro, Mark Zuckerberg, CEO da Meta, estimou que a tecnologia terá ainda neste ano o mesmo desempenho de um engenheiro de software de nível médio.

Assim, os programas de ciência da computação nas universidades de todo os EUA estão se esforçando para entender as implicações da transformação tecnológica, debatendo o que deve continuar a ser ensinando na era da IA. As ideias variam desde dar menos ênfase ao domínio das linguagens de programação até concentrar esforços em cursos híbridos projetados para incorporar a computação em todas as profissões, enquanto os educadores ponderam como serão os empregos do futuro na economia de IA.

“Estamos vendo a ponta do iceberg da IA”, diz Jeannette Wing, professora de ciência da computação e vice-presidente executiva de pesquisa da Universidade de Columbia.

O que aumenta a urgência da questão é que o mercado para empregos de tecnologia se tornou mais restrito nos últimos anos. Os formados em ciência da computação estão descobrindo que as vagas, antes abundantes, agora são escassas. As empresas de tecnologia já confiam mais na IA para alguns aspectos da programação, eliminando trabalhos de nível básico.

Alguns educadores acreditam que curso poderia se ampliar para se tornar mais parecida com as graduações em humanas, com maior ênfase no pensamento crítico e nas habilidades de comunicação.

A Fundação Nacional de Ciência dos EUA (NSF, na sigla em inglês) está financiando um programa, o Level Up AI, para reunir educadores e pesquisadores de universidades e faculdades com o objetivo de avançar em direção a uma visão compartilhada dos fundamentos da educação em IA. O projeto de 18 meses, administrado pela Associação de Pesquisa em Computação, organização sem fins lucrativos de pesquisa e educação, em parceria com a Universidade Estadual do Novo México, está organizando conferências e mesas redondas e produzindo artigos para compartilhar recursos e melhores práticas.

A iniciativa apoiada pela NSF foi criada devido a “uma sensação de urgência de que precisamos de muito mais estudantes de computação — e mais pessoas — que conheçam a IA na força de trabalho”, diz Mary Lou Maher, cientista da computação e diretora da Associação de Pesquisa em Computação.

O futuro da educação em ciência da computação, diz Maher, provavelmente se concentrará menos em programação e mais em pensamento computacional e letramento em IA. O pensamento computacional envolve dividir os problemas em tarefas menores, desenvolver soluções passo a passo e usar dados para chegar a conclusões baseadas em evidências.

O letramento em IA é a compreensão — em diferentes níveis de profundidade para alunos de diferentes níveis — de como a tecnologia funciona, como usá-la de forma responsável e como ela está afetando a sociedade. Cultivar o ceticismo informado, diz ela, deve ser uma meta.

Na Carnegie Mellon, enquanto os membros do corpo docente se preparam para sua reunião, Cortina opina que o curso deve incluir instrução nos fundamentos tradicionais da computação e nos princípios da IA, seguidos por muita experiência prática em projeto de software usando as novas ferramentas.

“Acho que esse é o caminho”, disse ele. “Mas precisamos de uma mudança mais profunda no currículo?”

Atualmente, cada professor de ciência da computação decide se permite que os alunos usem IA. No ano passado, a Carnegie Mellon aprovou o uso da tecnologia em cursos introdutórios. Inicialmente, diz Cortina, muitos dos alunos consideravam a IA uma “solução mágica” para concluir rapidamente as lições de casa, que envolvem desenvolver programas.

“Mas eles não entendiam metade do código”, diz ele, levando muitos a perceberem o valor de saber escrever e revisar códigos por conta própria. “Os alunos estão se reiniciando.”

Isso é verdade para muitos alunos de ciência da computação que estão adotando as novas ferramentas de IA. Eles dizem que usam as soluções para construir protótipos de programas protótipos, para corrigir erros no código e para responder perguntas como se fossem tutores. Mas eles relutam em confiar demais nos algoritmos, temendo que isso diminua sua habilidade em computação.

Muitos estudantes dizem que enviam de 100 a 200 candidaturas para estágios e primeiros empregos. Connor Drake, que será aluno do último ano na Universidade da Carolina do Norte, em Charlotte, no segundo semestre, se considera sortudo, pois conseguiu uma entrevista após se candidatar para apenas 30 vagas. Ele recebeu uma oferta de emprego como estagiário de segurança cibernética na Duke Energy, uma grande empresa de serviços públicos, em Charlotte.

“Um diploma de ciência da computação costumava ser um bilhete dourado para a terra prometida dos empregos”, disse Drake, 22 anos. “Esse não é mais o caso.”

A estratégia de Drake para se proteger da IA é expandir seu conjunto de habilidades. Além de seu curso de ciência da computação, ele estudou ciências políticas com especialização em estudos de segurança e inteligência – um campo em que sua experiência em segurança cibernética poderia muito bem ser aplicada. Ele também é presidente de um clube de segurança cibernética da universidade.

Drake, assim como outros estudantes de ciência da computação, foi forçado a se adaptar a um mercado de trabalho de tecnologia cada vez mais difícil. Vários fatores, segundo especialistas em trabalho, estão em ação. As grandes empresas de tecnologia, em particular, reduziram suas contratações nos últimos anos, um recuo acentuado em relação aos anos de expansão da era da pandemia. A exceção é o recrutamento de um número relativamente pequeno dos mais cobiçados especialistas em IA, para os quais estão sendo ofertados pacotes salariais altíssimos.

Mas a maioria dos trabalhadores de tecnologia não trabalha para empresas do setor. O emprego mais comum para os trabalhadores em ocupações de tecnologia, de modo geral, se manteve estável até recentemente – uma queda de 6% desde fevereiro, de acordo com as estatísticas do governo.

Os empregadores enviaram um sinal mais nítido com um recuo significativo nas listas de empregos em tecnologia. Nos últimos três anos, houve uma queda de 65% nas empresas que procuram trabalhadores com dois anos de experiência ou menos, de acordo com uma análise da CompTIA, uma organização de pesquisa e educação em tecnologia. O declínio nas listagens de profissionais de tecnologia com todos os níveis de experiência caiu 58%.

“Estamos vendo principalmente uma redução pós-pandêmica das contratações e o impacto da atual incerteza econômica”, disse Tim Herbert, diretor de pesquisa da CompTIA. “Ainda não temos um efeito claro da IA”.

Embora o caminho à frente para a educação em ciência da computação possa ser incerto, o mercado de software assistido por IA está pronto para crescer, dizem os especialistas. A IA é uma ferramenta de produtividade, e cada nova onda de computação – o computador pessoal, a internet, o smartphone – aumentou a demanda por software e por programadores.

Desta vez, dizem eles, o resultado pode ser uma explosão de democratização da tecnologia, já que as ferramentas do tipo chatbot são usadas por pessoas de áreas que vão da medicina ao marketing para criar seus próprios programas, personalizados para seu setor, alimentados por conjuntos de dados específicos do setor.

“O crescimento dos empregos em engenharia de software pode diminuir, mas o número total de pessoas envolvidas em programação aumentará”, diz Alex Aiken, professor de ciência da computação da Universidade Stanford.

Ainda vale a pena programar? O que os cursos de ciência da computação devem ensinar na era da IA – Estadão

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Revolução silenciosa: drones do tamanho de insetos equipados com IA podem espionar, operar e cultivar; entenda

China apresentou drone espião do tamanho de um mosquito e se une ao avanço global dos microveículos aéreos não tripulados

Por Filipe Vidon — O Globo – 28/06/2025 

RoboBees: microrrobôs voadores autônomosRoboBees: microrrobôs voadores autônomos — Foto: Divulgação/Wyss Um drone do tamanho de um mosquito, revelado recentemente por um laboratório militar na Universidade Nacional de Tecnologia de Defesa (NUDT), na província de Hunan, na China, está sendo apontado como um marco no desenvolvimento de tecnologias de vigilância e espionagem.

Embora desperte preocupações sobre uso militar, essa mesma tecnologia de miniaturização extrema, combinada com inteligência artificial, também vem abrindo caminho para avanços na medicina de precisão, com microrrobôs cirúrgicos, e na agricultura, com drones polinizadores inspirados em insetos.

Com asas minúsculas e três “perninhas” finas como fios de cabelo, o aparelho foi exibido em uma reportagem da CCTV 7, o canal militar da televisão estatal chinesa. Segundo os pesquisadores, sua missão principal será atuar em operações de reconhecimento e infiltração sigilosa.

A apresentação pública do microdrone chinês levanta uma série de questões sobre os rumos tecnológicos e éticos da chamada guerra invisível. Em tempos de tensão geopolítica crescente, o surgimento de equipamentos com esse nível de miniaturização acende um alerta sobre os limites entre segurança e vigilância indiscriminada.

China revela 'drone espião do tamanho de um mosquito' — Foto: ReproduçãoChina revela ‘drone espião do tamanho de um mosquito’ — Foto: Reprodução

Silêncio, sigilo e alcance estratégico

Drones do tipo mosquito, apesar de limitados em poder ofensivo, têm um potencial estratégico imenso em ações de coleta de dados. Por seu tamanho reduzido e operação silenciosa, são especialmente projetados para ambientes de difícil acesso, como o interior de instalações militares, governamentais ou empresariais de alta segurança.

Em áreas urbanas densas ou cenários de guerra híbrida, um microdrone pode se infiltrar em prédios sem chamar atenção, posicionar-se em salas de reunião, ou mesmo seguir um alvo específico sem ser detectado. Segundo os especialistas, o risco de se tornarem ferramentas de espionagem em escala nunca antes vista é real e crescente.

Apesar do entusiasmo em torno da novidade chinesa, os desafios técnicos ainda são relevantes. A redução extrema de tamanho exige componentes mínimos, como sensores e baterias ultracompactas, que limitam o tempo de voo. Além disso, o controle remoto do drone ainda requer que o operador esteja a curta distância para manter a conexão, o que reduz a aplicabilidade em missões de longo alcance.

Inspirados pela biologia de uma abelha, pesquisadores do Instituto Wyss estão desenvolvendo RoboBees — Foto: Instituto Wyss da Universidade de Harvard

Corrida global pelos microdrones

Além do uso desses equipamentos em ações de segurança, essa tecnologia já está sendo desenvolvida para agricultura de precisão, monitoramento ambiental, medicina e inspeção de infraestruturas. Nesse cenário, o drone chinês não é o primeiro a se inspirar no mundo dos insetos.

A Universidade de Harvard desenvolve há anos o projeto RoboBee, que utiliza drones em miniatura com formato de abelha para missões de busca, resgate e polinização artificial. Alguns modelos já são capazes de voar e até nadar.

Para viabilizar a construção dos RoboBees, cientistas do Instituto Wyss criaram técnicas inovadoras de fabricação conhecidas como tecnologias microeletromecânicas Pop-Up (MEMs). Esse método de fabricação permite construir microrrobôs tridimensionais a partir de estruturas planas, ampliando significativamente os limites atuais do design e da engenharia robótica.

Utilizando materiais leves e dobradiças microscópicas, as peças se erguem automaticamente em formas complexas ao serem liberadas da base. Essa técnica facilita a produção precisa e em larga escala desses robôs em miniatura.

Pesquisadores do Instituto Wyss desenvolveram métodos de fabricação inovadores, as chamadas tecnologias microeletromecânicas Pop-Up (MEMs) — Foto: Instituto Wyss da Universidade de HarvardPesquisadores do Instituto Wyss desenvolveram métodos de fabricação inovadores, as chamadas tecnologias microeletromecânicas Pop-Up (MEMs) — Foto: Instituto Wyss da Universidade de Harvard

No setor militar, microdrones do tamanho da palma da mão também foram criados na Noruega e amplamente adotados por forças armadas do Reino Unido, dos Estados Unidos e da Ucrânia. Desde o início da invasão russa em 2022, unidades ucranianas de operações especiais têm usado os “Black Hornet” em áreas como Kursk para reconhecimento e mapeamento em tempo real.

— Trata-se de uma corrida multidisciplinar que une controle remoto, sensores microscópicos e inteligência artificia — definiu um estudante da NUDT durante a apresentação do projeto.

Revolução silenciosa: drones do tamanho de insetos equipados com IA podem espionar, operar e cultivar; entenda

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Disseminação da IA estimula novos data centers no Brasil

País oferece vantagens e quer atrair mais projetos internacionais; mercado mundial do segmento deve crescer em média 7% em 2025

Por Martha Funke — Para o Valor – 30/05/2025

Investimentos bilionários em data centers (DC) prometem colocar o Brasil na rota da inteligência artificial (IA) global. Ainda impulsionado por digitalização e computação em nuvem, o mercado mira instalações mais parrudas para exportar serviços como processamento para treinamento de IA generativa.

O cenário é favorecido pela Nova Política de Data Centers, apresentada em maio. Além de vantagens locais, como disponibilidade de energia limpa e renovável, espaço e segurança geopolítica, a ideia é oferecer benefícios à importação de equipamentos, cuja tarifa hoje é pouco mais de 50%, e à exportação de serviços do setor, com antecipação dos efeitos da reforma tributária para o setor digital.

O regime, batizado de Redata, deve ser concedido a empresas que cumprirem metas de sustentabilidade e investimentos em pesquisas sobre DCs, com contribuição de 2% da receita para o Fundo Nacional de Desenvolvimento Industrial e Tecnológico (FNDIT). Nas contas do Ministério da Fazenda, o potencial alcança R$ 2 trilhões em investimentos em dez anos e pode reverter a balança atual, com 60% da carga digital do país rodando no exterior.

Por enquanto, o mercado brasileiro de DC se fortalece com expansão de “regiões” e “zonas” de nuvem (capacidade de processamento local) das empresas de “hiperescala” (companhias do porte de AWS e Microsoft, por exemplo). Nos dados da consultoria IDC, o avanço foi de 19,7% em 2024 e deve ficar em 17,9% este ano, somando US$ 1,39 bilhão. “Os clientes estão mais criteriosos”, avalia Luciano Saboia, diretor de pesquisa e consultoria para o setor de telecomunicações da IDC. O mercado mundial de DC deve crescer em média 7% em 2025.

“A nova onda de investimento com IA está no começo. Ainda não há demanda”, diz Renato Pasquini, vice-presidente global de pesquisa da consultoria Frost & Sullivan. Mas os provedores antecipam o movimento. Um dos destaques é o retorno do Pátria Investimentos – depois da venda da Odata (em 2023) -, com a Omnia. O fundo planeja investir em DCs voltados à IA, com densidade energética na casa dos 100 MW, que em média exigem investimento de R$ 1 bilhão em infraestrutura, detalha o CEO da Omnia, Rodrigo Abreu.

Segundo ele, a vocação é o mercado local e, eventualmente, cargas globais de processamento de IA. A empresa já tem desenvolvimentos no Brasil e em outros países da América Latina e seu primeiro projeto deve começar a ser construído aqui ainda este ano.

Uma das implicações da magnitude dos novos projetos é a necessidade de conexão direta com a rede de transmissão de energia e a inserção dos DCs no sistema integrado nacional. A questão levou a Aneel a aprovar, em maio, novas regras para o acesso de grandes consumidores de energia à rede básica.

A demanda energética estimula a instalação de DCs em regiões com energia disponível. A entrante RT-One mira redução de encargos para custos competitivos. Uma das estratégias prevê parcerias para se classificar como autoprodutora de energia e cortar até 40% na conta. Outra é buscar Zonas de Processamento de Exportação (ZPE), áreas de livre-comércio para produção e exportação de bens e serviços sem IPI, Pis-Cofins e impostos de importação para insumos e matérias-primas.

A empresa já fechou parceria com a Supermicro para equipamentos, a exemplo de GPUs, e elegeu áreas como Uberaba (MG) e Maringá (PR), cuja ZPE aguarda autorização federal, para trazer processamento de IA para o Brasil. O CEO Fernando Palamone estima que 95% da IA nacional sejam processados no exterior, já que o parque nacional sequer dispõe hoje de equipamentos suficientes. Em Maringá a meta é ocupar um terreno adquirido pela prefeitura para criar uma zona industrial. Os investimentos alcançam R$ 6 bilhões em sete anos, em 400 mil m2 e 400 MW de TI, com consumo energético total de 480 MW, mais do que o dobro da cidade. Na primeira fase serão 80 MW, em parceria com a concessionária local, Copel.

Outra que aposta em infraestrutura para IA global, a Scala tem 6 GW em conexões de energia garantida para suportar expansão. A empresa possui 13 DCs em operação, dos quais dez no Brasil, e mais cinco em construção, três deles por aqui. Já investiu R$ 12 bilhões entre Brasil, Chile, México e Colômbia e prevê mais R$ 24 bilhões.

O destaque fica por conta da “cidade” de DCs em Eldorado do Sul (RS), em terreno de 11 milhões de m2, com investimentos de US$ 50 bilhões e carga total de 4,75 GW. “Mais do que o Estado do Rio de Janeiro”, compara Christiana Weisshuhn, vice-presidente de marketing e comunicação da Scala. Outra instalação está sendo construída em Fortaleza (CE), com 7,2 MW.

Fortaleza é um dos destaques da Tecto, empresa pertencente à V.Tal que está investindo US$ 1 bilhão em DCs em várias regiões. O data center cearense Mega Lobster terá 20 MW de potência, com conexão à estação de cabos submarinos e ao ponto de troca de tráfego local, um dos principais do país. Em Santana do Parnaíba (SP), projeto de DC hiperescala deve alcançar 200 MW, para IA, machine learning e nuvem, detalha o diretor comercial André Busnardo.

Mais uma que aposta no modelo “cidade” de DCs é a Elea, que está investindo R$ 5 bilhões na sua AI City no Rio de Janeiro (RJ), aproveitando infraestrutura construída para a Olimpíada. O projeto prevê até 3,2GW de capacidade energética, com 80 MW entregues em 2026. São Bernardo do Campo (SP) recebe cerca de US$ 300 milhões para agregar mais 32 MW até o ano que vem e Alphaville (SP) segue plano semelhante, descreve o CEO Alessandro Lombardi.

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O plano da Amazon para controlar o ‘caos do marketplace’

O volume alto de anúncios de baixa performance atrapalha as vendas e desafio sonho da “loja infinita”

Laura Pancini – Exame – 31 de maio de 2025 

Quando criou a Amazon, Jeff Bezos imaginava um marketplace onde o cliente encontraria “qualquer coisa e tudo o que quisesse comprar online”. Hoje, essa busca pelo catálogo infinito esbarra em um problema: são tantas ofertas que o cliente pode se perder e a experiência de compra fica confusa desestimulando as vendas.

A gigante do e-commerce lançou, então, o projeto interno “Bend the Curve”, que já eliminou mais de 24 bilhões de anúncios considerados “não produtivos”. A iniciativa tem o objetivo de organizar o catálogo digital e controlar os custos crescentes da infraestrutura de nuvem.

Por que agora?

Liderada pelo CEO Andy Jassy desde 2021, a estratégia marca uma mudança de foco para além do crescimento acelerado do marketplace. O objetivo é dar um basta na expansão desenfreada de anúncios pouco relevantes — desde produtos com estoque inexistente até listagens desatualizadas há mais de dois anos, que não geram vendas ou causam confusão entre os consumidores.

O equilíbrio entre oferecer uma variedade quase infinita e manter a qualidade do catálogo é delicado. Pesquisas internacionais indicam uma queda na satisfação dos consumidores com o portfólio da empresa — que atingiu o menor índice em 12 anos, segundo levantamento realizado pela Evercore ISI.

Além da exclusão de anúncios, o programa criou um mecanismo de limitação para novos cadastros de produtos por vendedores com desempenho fraco. Em 2024, foram encontrados cerca de 12 mil vendedores ativos com catálogos com mais de 100 mil produtos e nenhuma venda registrada. Eles tiveram o limite de criação de novas listagens bloqueado, o que impediu a entrada de mais de 110 milhões de anúncios considerados improdutivos.

Esse esforço gerou uma economia direta de mais de US$ 22 milhões em custos com servidores da Amazon Web Services (AWS) em 2024, com previsão de US$ 36 milhões adicionais em 2025. Mesmo com o aumento previsto de 27% no orçamento da AWS para 2025, a iniciativa visa desacelerar o ritmo de crescimento dos custos operacionais na nuvem.

A iniciativa, no entanto, não está isenta de desafios. Alguns vendedores expressaram confusão sobre o escopo das restrições, chegando a acreditar que suas contas foram completamente bloqueadas, quando o foco são apenas as listagens consideradas “não produtivas”. Segundo o portal Business Insider, a Amazon promete aprimorar a comunicação para evitar mal-entendidos.

O plano da Amazon para controlar o ‘caos do marketplace’ | Exame

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Um micro-ondas gigante pode mudar o futuro da guerra

A startup de tecnologia de defesa Epirus desenvolveu equipamentos anti-drones de ponta e custo eficiente, que estão despertando o interesse do exército dos EUA.

by Sam Dean – MIT Technology Review – junho 25, 2025

Imagine o cenário: a China desliga centenas de milhares de drones autônomos no ar, no mar e debaixo d’água, todos armados com ogivas explosivas ou pequenos mísseis. Essas máquinas descem em um enxame em direção às instalações militares em Taiwan e às bases dos EUA nas proximidades, e, ao longo de algumas horas, uma ofensiva robótica sobrecarrega a força do Pacífico dos EUA antes mesmo que ela consiga começar a reagir.

Pode até parecer um novo filme de Michael Bay, mas é o cenário que mantém o diretor de tecnologia do Exército dos EUA acordado à noite.

“Estou hesitante em dizer isso em voz alta para não manifestá-lo”, diz Alex Miller, um veterano oficial de inteligência do Exército que se tornou CTO do chefe de Estado-Maior do Exército em 2023.

Mesmo que a Terceira Guerra Mundial não ecloda no Mar do Sul da China, toda instalação militar dos EUA ao redor do mundo é vulnerável às mesmas táticas, assim como as forças militares de todos os outros países. A proliferação de drones baratos significa que qualquer grupo com os recursos para montar e lançar um enxame poderia causar estragos, sem a necessidade de jatos caros ou instalações massivas de mísseis.

Embora os EUA tenham mísseis de precisão capazes de derrubar esses drones, eles nem sempre têm sucesso: um ataque de drone matou três soldados dos EUA e feriu dezenas de outros em uma base no deserto da Jordânia no ano passado. E cada míssil americano custa ordens de magnitude mais do que seus alvos, o que limita seu fornecimento; combater drones de mil dólares com mísseis que custam centenas de milhares, ou até milhões, de dólares por disparo só pode funcionar por um tempo, mesmo com um orçamento de defesa que pode atingir um trilhão de dólares no próximo ano.

As forças armadas dos EUA agora estão em busca de uma solução, e querem isso rápido. Militares e uma série de startups de tecnologia de defesa estão testando novas armas que prometem desativar drones em massa. Há drones que colidem com outros drones como um aríete (uma máquina de guerra medieval); drones que atiram redes para capturar hélices de quadricópteros; metralhadoras guiadas por precisão que simplesmente derrubam drones do céu; abordagens eletrônicas, como bloqueadores de GPS e ferramentas de hacking; e lasers que derretem buracos diretamente no lado de um alvo.

E, então, existem os micro-ondas: dispositivos eletrônicos de alta potência que liberam quilowatts de energia para queimar os circuitos de um drone como se fosse o papel alumínio que você esqueceu de tirar da comida quando a aqueceu.

É aí que a Epirus entra.

Quando fui visitar a sede dessa startup de 185 pessoas em Torrance, Califórnia, no início deste ano, tive uma visão dos bastidores de seu gigantesco micro-ondas, chamado Leonidas, no qual o Exército dos EUA já está apostando como uma arma anti-drone de ponta. O Exército concedeu à Epirus um contrato de 66 milhões de dólares no início de 2023, aumentou esse valor com mais 17 milhões de dólares no outono passado, e atualmente está implantando alguns desses sistemas para testes com tropas dos EUA no Oriente Médio e no Pacífico. (O Exército não divulga detalhes sobre a localização das armas no Oriente Médio, mas publicou um relatório sobre um teste de fogo real nas Filipinas no início de maio.)

De perto, o Leonidas que a Epirus construiu para o Exército parece uma placa de metal de 60 cm de espessura, do tamanho de uma porta de garagem, fixada em uma base giratória. Ao abrir a tampa traseira, é possível ver que a placa está preenchida com dezenas de unidades amplificadoras de micro-ondas individuais dispostas em uma grade. Cada uma tem cerca do tamanho de um cofre de banco e é construída em torno de um chip de nitreto de gálio, um semicondutor que pode suportar voltagens e temperaturas muito mais altas do que o silício típico.

O Leonidas fica em cima de um reboque que um caminhão padrão do Exército pode puxar, e quando é ligado, o software da empresa orienta a grade de amplificadores e antenas a moldar as ondas eletromagnéticas que estão emitindo com uma matriz de fase, sobrepondo com precisão os sinais de micro-ondas para moldar a energia em um feixe focado. Em vez de precisar apontar fisicamente uma arma ou prato parabólico para cada um dos mil drones que se aproximam, o Leonidas pode alternar rapidamente entre eles com a velocidade do software.

Claro, isso não é magia. Existem limites práticos sobre o quanto de dano um único conjunto pode causar, e a que distância, mas o efeito total poderia ser descrito como um emissor de pulso eletromagnético, um raio da morte para eletrônicos, ou um campo de força que poderia criar uma barreira protetora em torno de instalações militares e derrubar drones da mesma forma que uma raquete estoura um bando de mosquitos.

Caminhei pelas seções não classificadas do chão de fábrica do Leonidas, onde um grupo de engenheiros trabalhando em “weaponeering” — o termo militar para descobrir exatamente quanto de uma arma, seja alta explosão ou feixe de micro-ondas, é necessário para alcançar o efeito desejado — realizava testes em uma série de pequenas salas sem eco. Dentro delas, eles disparavam unidades individuais de micro-ondas em uma ampla gama de drones comerciais e militares, passando por formas de onda e níveis de potência para tentar encontrar o sinal que pudesse fritar cada um com a máxima eficiência.

Em uma transmissão de vídeo ao vivo de dentro de uma dessas salas com isolamento acústico, assisti a um drone quadricóptero girar suas hélices e, em seguida, assim que o emissor de micro-ondas foi ligado, ele parou instantaneamente: primeiro a hélice frontal esquerda e depois o restante. Um drone atingido por um feixe Leonidas não explode, ele simplesmente cai.

Comparado à explosão de um míssil ou ao estalo de um laser, não parece muito. Mas isso poderia forçar os inimigos a encontrarem maneiras mais caras de atacar que reduzam a vantagem do enxame de drones, e poderia contornar as limitações inerentes aos sistemas de defesa puramente eletrônicos ou estritamente físicos. Isso poderia salvar vidas.

O CEO da Epirus, Andy Lowery, um homem alto com uma energia elétrica e um sotaque rápido do sul de Illinois, não hesita em falar sobre seu produto. Como ele me disse durante minha visita, o Leonidas foi projetado para liderar uma última resistência, como o espartano do qual o micro-ondas recebe seu nome, neste caso, contra hordas de veículos aéreos não tripulados, ou UAVs. Embora o alcance real do sistema Leonidas seja mantido em segredo, Lowery diz que o Exército está buscando uma solução que possa parar drones de forma confiável em um intervalo de alguns quilômetros. Ele me disse: “Eles gostariam que nosso sistema fosse o proprietário dessa camada final, para pegar qualquer um que escape, qualquer vazamento, qualquer coisa assim.”

Agora que eles disseram ao mundo que “inventaram um campo de força”, acrescentou Lowery, o foco está na fabricação em larga escala, antes que os enxames de drones realmente comecem a descer ou uma nação com uma grande força militar decida lançar uma nova guerra. Antes, em outras palavras, o pesadelo de Miller se torne realidade.

Por que anti-drones?

Miller se lembra bem de quando o perigo dos pequenos drones armados apareceu pela primeira vez em seu radar. Os relatos de combatentes do Estado Islâmico amarrando granadas na parte inferior de quadricópteros comerciais DJI Phantom surgiram pela primeira vez no final de 2016, durante a Batalha de Mossul. “Eu pensei, ‘Oh, isso vai ser ruim,’ porque basicamente é um IED (dispositivo explosivo improvisado) aéreo naquele ponto,” diz ele.

Ele tem acompanhado o perigo à medida que ele se constrói de forma constante desde então, com avanços em visão computacional, software de coordenação de IA e táticas de drones suicidas acelerando ainda mais.

Então, a guerra na Ucrânia mostrou ao mundo que a tecnologia barata mudou fundamentalmente como a guerra acontece. Assistimos em vídeos em alta definição como um drone barato, pronto para uso, modificado para carregar uma pequena bomba, pode ser pilotado diretamente contra um caminhão distante, um tanque ou um grupo de tropas, com um efeito devastador. E drones suicidas maiores, também conhecidos como “munições de patrulha”, podem ser produzidos por apenas dezenas de milhares de dólares e lançados em grandes salvas para atingir alvos fáceis ou sobrecarregar defesas militares mais avançadas apenas pelo número.

Como resultado, Miller, juntamente com grandes setores do Pentágono e círculos políticos de Washington, acredita que o atual arsenal dos EUA para defender contra essas armas é simplesmente muito caro e os recursos são tão escassos que não podem realmente acompanhar a ameaça.

Basta olhar para o Iémen, um país pobre onde o grupo militar Houthi tem sido constantemente atacado na última década. Armados com esse novo arsenal de baixa tecnologia, nos últimos 18 meses o grupo rebelde conseguiu bombardear navios de carga e efetivamente interromper o transporte global no Mar Vermelho, como parte de um esforço para pressionar Israel a parar sua guerra em Gaza. Os Houthis também usaram mísseis, drones suicidas e até barcos-drones para lançar poderosos ataques contra navios da Marinha dos EUA enviados para detê-los.

A empresa de tecnologia de defesa mais bem-sucedida que vende armas anti-drones para o Exército dos EUA atualmente é a Anduril, fundada por Palmer Luckey, o inventor do equipamento de realidade virtual Oculus, e uma equipe de cofundadores da Oculus e do gigante de dados de defesa Palantir. Apenas nos últimos meses, os Fuzileiros Navais escolheram a Anduril para contratos de combate a drones que podem valer quase 850 milhões de dólares na próxima década, e a empresa tem trabalhado com o Comando de Operações Especiais desde 2022 em um contrato de combate a drones que pode valer quase um bilhão de dólares no mesmo período. Não está claro, pelos contratos, o que exatamente a Anduril está vendendo para cada organização, mas suas armas incluem bloqueadores de guerra eletrônica, bombas de drones movidas a jato e drones propulsados por hélices Anvil, projetados para simplesmente colidir com drones inimigos.

Neste arsenal, a maneira mais barata de parar um enxame de drones é a guerra eletrônica: bloquear os sinais de GPS ou rádio usados para pilotar as máquinas. Mas as intensas batalhas de drones na Ucrânia avançaram a arte de bloquear e contra-bloquear a tal ponto que estamos quase em um impasse. Como resultado, um novo estado da arte está surgindo: drones inbloqueáveis que operam autonomamente usando processadores internos para navegar por mapas internos e visão computacional, ou até drones conectados com filamentos de cabo de fibra óptica de 20 quilômetros para controle ancorado.

Mas inbloqueáveis não significa imunes a anti-drones Em vez de usar o método de embaralhamento de um bloqueador, que emprega uma antena para bloquear a conexão do drone com um piloto ou sistema de orientação remota, o feixe de micro-ondas Leonidas atinge o corpo de um drone de lado. A energia encontra seu caminho em algo elétrico, seja o controlador central de voo ou um fio minúsculo que controla uma aba em uma asa, para causar um curto-circuito no que estiver disponível. (A empresa também afirma que esse golpe de energia direcionado permite que pássaros e outros animais selvagens continuem se movendo com segurança.)

Tyler Miller, engenheiro sênior de sistemas da equipe de armamento da Epirus, me disse que eles nunca sabem exatamente qual parte do drone alvo vai ser afetada primeiro, mas eles têm visto com confiabilidade o sinal de micro-ondas invadir algum lugar para sobrecarregar um circuito. “Com base na geometria e na maneira como os fios estão dispostos,” ele disse, “um desses fios será o melhor caminho para a entrada.” “Às vezes, se rotacionarmos o drone 90 graus, o motor diferente vai falhar primeiro,” ele acrescentou.

A equipe chegou até a tentar envolver os drones-alvo com fita de cobre, o que teoricamente proporcionaria blindagem, apenas para descobrir que o micro-ondas ainda encontra uma maneira de entrar através dos eixos das hélices móveis ou das antenas que precisam permanecer expostas para que o drone possa voar.

O Leonidas também tem uma vantagem quando se trata de derrubar uma grande quantidade de drones de uma vez. Derrubar fisicamente um drone do céu ou iluminá-lo com um laser pode ser eficaz em situações onde a guerra eletrônica falha, mas drones anti-drones só conseguem derrubar um de cada vez, e lasers precisam ser apontados e disparados com precisão. Os micro-ondas da Epirus podem danificar tudo em um arco de aproximadamente 60 graus a partir do emissor Leonidas simultaneamente e continuar disparando indefinidamente; sistemas de energia dirigida como este nunca ficam sem munição.

Quanto ao custo, cada unidade do Leonidas do Exército atualmente custa “alguns milhões de dólares”, disse Lowery. A precificação de contratos de defesa pode ser opaca, mas a Epirus entregou quatro unidades para o contrato inicial de 66 milhões de dólares, o que dá um preço aproximado de 16,5 milhões de dólares cada. Para comparação, mísseis Stinger da Raytheon, que os soldados atiram contra aeronaves inimigas ou drones a partir de um lançador montado no ombro, custam centenas de milhares de dólares por disparo, o que significa que o Leonidas pode começar a custar menos (e continuar disparando) depois de derrubar a primeira onda de um enxame.

Radar da Raytheon, revertido

A Epirus faz parte de uma nova onda de empresas de defesa apoiadas por capital de risco que estão tentando mudar a forma como as armas são criadas e como o Pentágono as compra. As maiores empresas de defesa, como Raytheon, Boeing, Northrop Grumman e Lockheed Martin, normalmente desenvolvem novas armas em resposta a subsídios de pesquisa e contratos de custo mais, nos quais o Departamento de Defesa dos EUA garante uma margem de lucro certa para as empresas que constroem produtos que atendem à sua lista de especificações técnicas. Esses programas têm mantido o Exército abastecido com armas de ponta por décadas, mas os resultados podem ser peças exóticas de maquinaria militar entregues anos depois do prazo e bilhões de dólares além do orçamento.

Em vez de construir com especificações minuciosas, a nova geração de contratantes militares visa produzir produtos em um cronograma rápido para resolver um problema e depois ajustá-los enquanto fazem propostas para o Exército. O modelo, pioneiro pela Palantir e SpaceX, impulsionou empresas como Anduril, Shield AI e dezenas de outras startups menores para o negócio de guerra à medida que o capital de risco coloca dezenas de bilhões de dólares em defesa.

Assim como a Anduril, a Epirus tem raízes diretas na Palantir; foi cofundada por Joe Lonsdale, que também cofundou a Palantir, e John Tenet, colega de Lonsdale na época em seu fundo de investimento, o 8VC. (Tenet, filho do ex-diretor da CIA, George Tenet, pode ter inspirado o nome da empresa. Os pais de Tenet eram nascidos na região de Epirus, no noroeste da Grécia. Mas a empresa geralmente diz que o nome faz referência ao Arco Epirus da fantasia pseudo-mítica do filme Imortals, de 2011, que nunca fica sem flechas.)

Embora a Epirus esteja fazendo negócios no novo modelo, suas raízes estão no antigo, especificamente na Raytheon, pioneira no campo da tecnologia de micro-ondas. Cofundada pelo professor do MIT Vannevar Bush em 1922, a empresa fabricava tubos de vácuo, como os encontrados em rádios antigos. Mas a empresa se tornou sinônimo de defesa eletrônica durante a Segunda Guerra Mundial, quando Bush criou um laboratório para desenvolver a tecnologia de radar de micro-ondas inventada pelos britânicos em um produto viável, e a Raytheon começou a produzir em massa os tubos de micro-ondas, conhecidos como magnetrons, para o esforço de guerra dos EUA. Ao final da guerra, em 1945, a Raytheon fabricava 80% dos magnetrons que alimentavam o radar dos Aliados no mundo todo.

Os grandes tubos permaneceram a melhor forma de emitir micro-ondas de alta potência por mais de meio século, superando facilmente os amplificadores de estado sólido baseados em silício. Eles ainda estão por aí — o micro-ondas na sua cozinha funciona com um magnetron de tubo de vácuo. Mas os tubos têm desvantagens: são quentes, grandes e exigem manutenção. (Na verdade, o outro equipamento anti drones de micro-ondas atualmente em desenvolvimento no Pentágono, o Tactical High-power Operational Responder, ou THOR, ainda depende de um tubo de vácuo físico. Relatou-se que é eficaz para derrubar drones em testes, mas ocupa um contêiner de carga inteiro e precisa de uma antena parabólica para atingir seus alvos.)

Na década de 2000, novos métodos de construção de amplificadores de estado sólido usando materiais como o nitreto de gálio começaram a amadurecer e conseguiram lidar com mais potência do que o silício sem derreter ou causar curtos-circuitos. A Marinha dos EUA gastou centenas de milhões de dólares em contratos de micro-ondas de ponta, um deles para um projeto da Raytheon chamado Next Generation Jammer, voltado especificamente para projetar uma nova forma de criar micro-ondas de alta potência que funcionam a distâncias extremamente longas.

Lowery, o CEO da Epirus, começou sua carreira trabalhando em reatores nucleares em porta-aviões da Marinha antes de se tornar o engenheiro chefe do Next Generation Jammer na Raytheon em 2010. Lá, ele e sua equipe trabalharam em um sistema que dependia de muitos dos mesmos fundamentos que agora alimentam o Leonidas, usando o mesmo tipo de material amplificador e configuração de antena para fritar a eletrônica de um pequeno alvo a uma distância muito mais curta, em vez de interromper o radar de um alvo a centenas de quilômetros de distância.

💥 O avanço da guerra com drones autônomos

A proliferação de drones autônomos armados está mudando a forma como as forças militares enfrentam ameaças, tornando as instalações vulneráveis a ataques rápidos e devastadores, sem a necessidade de grandes investimentos em armas caras.

🔧 A resposta militar: micro-ondas Leonidas

A Epirus, startup focada em defesa, desenvolveu o Leonidas, uma arma de micro-ondas que promete ser a solução para enfrentar enxames de drones. Com um feixe de micro-ondas, o Leonidas pode derrubar drones de forma eficiente, sem usar mísseis caros.

⚡ Tecnologia de defesa de baixo custo

Em vez de depender de mísseis de alto custo, o Leonidas utiliza micro-ondas para desativar drones de forma eficaz e barata, podendo derrubar vários drones de uma vez em um arco de 60 graus, uma revolução na defesa eletrônica.

💡 Inovações e desafios da guerra moderna

Com a guerra na Ucrânia e o aumento de ataques com drones baratos, as forças armadas dos EUA estão buscando soluções rápidas e mais acessíveis para enfrentar essa ameaça crescente, e tecnologias como o Leonidas estão no centro dessa mudança.

Micro-ondas gigante pode mudar guerras – MIT Technology Review

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A criatividade humana e o desafio da IA

Os LLMs aumentam nossa produtividade, mas não podemos ignorar o provável preço a pagar por isso. Evitar o perigo depende de dois posicionamentos da liderança

Francisco Castro, Jian Gao e Sébastien Martin – MIT Management Sloan Review Brasil – 20 de dezembro de 2024

Os sistemas generativos de inteligência artificial que modelam a linguagem vêm exibindo, de 2022 para cá, notável proficiência em uma série de tarefas. Profissionais que trabalham com escrita ou desenvolvimento de softwares que o digam. 

Ferramentas como o oferecem uma maior produtividade, o que está levando muitos gestores a incorporarem essa tecnologia aos fluxos de trabalho. Mas nossa pesquisa revela que esse possível aumento de eficiência pode cobrar um preço alto.

A dependência excessiva da IA pode desestimular os funcionários de expressar seu conhecimento específico e de apresentar suas próprias ideias. Com isso, produções cada vez mais homogeneizadas tendem a ficar mais comuns. 

Em longo prazo, a inovação e a originalidade ficarão ameaçadas. Os gestores que buscam obter eficiência com os grandes modelos de linguagem (LLMs, na sigla em inglês) precisarão trabalhar no equilíbrio entre a produtividade e a criatividade em sua interação com a IA.

Códigos escritos por máquina e afins

O conteúdo gerado por IA imita de maneira impressionante a fluência linguística daquele criado por humanos. Mas ele carece, em geral, das escolhas estilísticas individuais e do pensamento original que as pessoas expressariam naturalmente ao realizar uma tarefa sem IA. 

Trabalhar os outputs criados pela tecnologia para que eles tragam algo mais humano (e de qualidade) pode exigir uma ação de refinamento a ser executada várias vezes – o que toma tempo. Isso levaria os usuários a decidirem que não vale o esforço, caso o output inicial da IA já for bom o suficiente. 

Assim, surge o impasse. Devemos investir tempo na personalização de sugestões de IA generativa, para que ela assimile, progressivamente, seu estilo e know-how únicos, ou se contentar com o primeiro rascunho, um tanto abaixo do ideal?

Vejamos, por exemplo, uma equipe de engenheiros de software trabalhando em um projeto de tecnologia de grande escala. À medida que o grupo está na base do código, cada membro tomará decisões de codificação e documentação que estão de acordo com os padrões acordados, mas que também são orientadas pela própria experiência e preferências de cada um em relação a arquitetura de objetos, nomenclatura de funções, escolhas de teste etc. 

Quando se prioriza a produtividade, as ferramentas baseadas em LLM, como o GitHub Copilot, facilitam a geração rápida de um rascunho ou o preenchimento automático de grandes blocos de código. Isso pode economizar muito tempo, já que os LLMs geralmente escrevem códigos bons o bastante. 

No entanto, o primeiro rascunho da IA talvez não reflita as melhores práticas da equipe ou o domínio e o estilo de um dado engenheiro. Embora o time possa refinar seus prompts de IA ou editar o código manualmente para melhorá-lo e deixá-lo mais fiel à intenção original, isso torna o trabalho mais lento. 

Não refinar/editar também pode ter implicações negativas sobre a produtividade: mais tarde, quando um programador precisar voltar ao código para corrigir um bug ou fazer melhorias, os custos e o esforço para resolver quaisquer deficiências tendem a ser muito maiores. Na verdade, nossa pesquisa descobriu que revisar e adaptar o código gerado pela IA pode ser trabalhoso demais. Em alguns casos, é mais eficiente recomeçar do zero.

O risco consequente para os gestores que colocam muito foco nas metas de produtividade e prazos difíceis de cumprir é que isso acaba estimulando os funcionários a evitarem o esforço extra e aceitarem outputs mais genéricos, o que eleva o risco de repercussões negativas significativas: um estudo de 2023 descobriu que as ferramentas de codificação baseadas em LLM podem diminuir a qualidade e dificultar a atualização do código.

Profissionais que se apoiam em ferramentas do tipo para programar já vivenciam isso. A integração da IA com pacotes de software corporativos facilitou que LLMs cumpram as tarefas de escrever e-mails, gerar relatórios ou preparar slides de apresentações. 

E os usuários, nesses casos, têm de decidir entre aceitar o que a IA entrega como está (mesmo considerando que não seja suficientemente preciso ou careça de originalidade) e fazer um esforço extra para obter melhores outputs por meio de refinamentos imediatos. É provável que a pressão seja grande nesses momentos. 

Quanto mais tempo os usuários gastam editando o conteúdo ou refinando prompts iterativos, mais próximo o output da ferramenta estará de suas preferências e padrões. Já se sempre aceitarem o output inicial da IA, a empresa acumulará conteúdos ou códigos que não refletem a experiência de seus funcionários.

Em um artigo para o arXiv, da Cornell University (EUA), apresentamos um modelo matemático simples adaptado para recriar e capturar aspectos-chave das interações entre humanos e IA. A seguir, resumimos o que ele nos ensina sobre as consequências da adoção indiscriminada da IA.

A criatividade está, sim, em risco

Nossa pesquisa sugere que aquilo que as pessoas ganham em eficiência ao interagir com a IA elas perdem em diversidade de pensamento e criatividade. Outputs gerados por LLMs e não modificados tendem a oferecer conteúdos mais homogêneos do que algo criado por uma pessoa real. 

Imagine, por exemplo, se o Microsoft Copilot escrevesse todos os e-mails de todo mundo. Essa homogeneidade em escala pode colocar em risco a originalidade e a diversidade de ideias, algo essencial para o crescimento e a inovação.

Essa homogeneização se intensifica quando o conteúdo gerado por IA serve para treinar outros modelos de IA. A situação é mais preocupante à medida que mais conteúdo de IA chega aos conjuntos de dados usados para treinar LLMs. 

Se a internet ficar saturada desse tipo de conteúdo e se a IA for cada vez mais incorporada ao nosso fluxo de trabalho, entramos em uma espiral negativa em que a criatividade e a diversidade de pensamento serão cada vez menores. 

Alguns pesquisadores chegam a defender a tese de que treinar LLMs com mais conteúdo gerado por outros LLMs (não por humanos) pode levar até ao colapso desses modelos.

Você pode estar se questionando: perder diversidade de pensamento é realmente tão ruim quando ganhamos tanto em eficiência? De fato, a IA é capaz de gerar, eficientemente, uma grande quantidade de conteúdo para uso rotineiro. 

A resposta é sim, ao menos no longo prazo. O hábito de adotar como padrão os outputs de LLMs tende a afetar a capacidade de inovação da empresa, uma vez que esta depende de originalidade e criatividade. 

O que fazer

Os gestores devem equilibrar o foco nos ganhos de produtividade com a garantia de que as ferramentas de IA aprimorem, em vez de limitarem, as ideias e as perspectivas humanas expressas em seus produtos.

Existem ao menos duas maneiras de colher os benefícios da IA generativa sem limar a criatividade e a diversidade de pensamento, a saber:

 Revisar as expectativas de produtividade. Ao avaliar o uso potencial da IA generativa para determinada tarefa, eles precisam levar em consideração a natureza e os requisitos da tarefa, quanta supervisão ela demanda ou com quanto pensamento original os funcionários devem contribuir. Em alguns casos, os funcionários podem até mesmo precisar de mais tempo para concluir a tarefa se fizerem uso de IA.

Aprimorar as interações humanos e IA. A ideia é permitir que os usuários orientem, alterem e corrijam o output do modelo com mais facilidade, pode desempenhar um papel crucial. Exemplos de medidas a tomar? Um é incentivar a geração aumentada de recuperação (ou RAG), em que a IA recorre a bases de conhecimento externas definidas para responder à demanda desses humanos. Mais treinamento em prompts também deve facilitar para os usuários humanos a transmissão de suas ideias, permitindo construir outputs de LLM mais originais.

AO LONGO DA HISTÓRIA, DECISÕES GERENCIAIS DE AUTOMAÇÃO E TERCEIRIZAÇÃO transferiram carga de trabalho e tarefas rotineiras para máquinas ou outras entidades externas. Em troca, isso permitiu que as empresas aumentassem sua produtividade e reduzissem custos. 

Agora, a tecnologia de IA generativa promete fazer o mesmo, mas, diferentemente de suas predecessoras, ela afeta as empresas em um domínio diferente – o de ideias, conteúdo e inovação. 

A IA pode diminuir nossa carga cognitiva em tarefas como redigir documentos de rotina ou analisar relatórios longos. Porém, corremos riscos ao lhe terceirizar nossos pensamentos originais – ou críticos. 

Os líderes organizacionais devem entender que LLMs têm de ser assistentes que enriquecem o trabalho humano, não substitutos que corroem a riqueza da individualidade e da diversidade de pensamento.

Para mitigar essas preocupações, é essencial que a liderança oriente suas equipes no uso cuidadoso das ferramentas de IA. O gestor deve incentivar seus funcionários a expressarem suas próprias perspectivas e contribuírem com sua criatividade para a empresa. Isso garantirá um melhor uso dos sistemas de IA e protegerá contra as armadilhas potenciais causadas por uma cultura muito homogênea.

Francisco Castro, Jian Gao e Sébastien Martin

Francisco Castro é professor de decisões, operações e gestão de tecnologia na UCLA Anderson School of Management (EUA). Jian Gao é doutorando na UCLA Anderson. Sébastien Martin é professor de operações na Kellogg School of Management da Northwestern University (EUA).

A criatividade humana e o desafio da IA – MIT Sloan Management Review Brasil

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O alto custo da fuga de cérebros nos EUA

Trump e seus aliados não compreendem a forte relação entre a excelência das universidades americanas e o histórico de inovação do país

Por Anne Krueger – Valor – 26/06/2025 

Os ataques do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à Universidade Harvard e seus estudantes estrangeiros chocaram o mundo, não só por sua grosseria, mas também por sua evidente miopia.

Durante décadas, universidades de ponta como Harvard foram pilares do chamado “soft power” dos EUA. Muitos dos estudantes mais brilhantes do mundo aspiraram estudar em instituições americanas, e os melhores pesquisadores buscaram integrar seus quadros docentes. A própria Harvard representa o ápice do ensino superior americano – e global. Até mesmo o presidente chinês Xi Jinping decidiu enviar sua filha para lá.

Mas agora a maré está mudando. Acadêmicos de destaque estão deixando os EUA para escapar do clima de paranoia alimentado pelas políticas de Trump, e estudantes internacionais de alto nível, que antes tinham como meta universidades americanas como Harvard, Columbia e Northwestern – todas recentemente atacadas por Trump -, estão optando por outros países, temendo que sua formação seja interrompida.

As consequências poderão ser graves. Desde 2000, pesquisadores radicados nos EUA ganharam cerca de dois terços dos prêmios Nobel de Química, Física e Medicina – e 40% desses laureados eram imigrantes. É significativo que quase a metade dos imigrantes laureados com o Nobel nos EUA tenham feito seus estudos de pós-graduação em universidades americanas. Esses acadêmicos não só impulsionaram pesquisas inovadoras e elevaram o prestígio de suas instituições, como também atuaram como professores e mentores de estudantes americanos e estrangeiros, atraindo uma nova geração de talentos acadêmicos.

Além disso, essas interações interculturais ajudam os estudantes americanos a obter uma compreensão mais profunda de outras sociedades, ao mesmo tempo em que proporcionam aos seus colegas estrangeiros uma experiência em primeira mão da vida nos EUA. Muitos dos que estudaram nos EUA posteriormente retornam para seus países de origem e ascendem a cargos de destaque no governo, na academia e no setor privado. Até 2024, 70 chefes de Estado ou de governo haviam concluído parte ou toda a sua formação superior nos EUA.

Até recentemente, esses benefícios eram amplamente reconhecidos em todo o espectro político dos EUA. Um sistema bem estruturado – o Programa de Estudantes e Visitantes de Intercâmbio (SEVP, na sigla em inglês) permitia que instituições credenciadas recebessem alunos estrangeiros. O SEVP também possibilitava que graduados com visto de estudante permanecessem no país por até três anos para adquirir experiência profissional.

Mas, em uma impressionante demonstração de ignorância e má-fé, o governo Trump tentou retirar de Harvard a autoridade para matricular estudantes estrangeiros e até mesmo instruiu os consulados dos EUA a não processarem pedidos de visto daqueles que planejavam estudar na universidade – medida que foi bloqueada recentemente por um tribunal federal.

Desde 2000, pesquisadores radicados nos EUA ganharam cerca de dois terços dos prêmios Nobel de Química, Física e Medicina, e 40% deles eram imigrantes. Deram impulso a pesquisas inovadoras e atuaram como professores, atraindo nova geração de talentos acadêmicos

Essa incerteza é profundamente perturbadora para estudantes atuais e futuros. Aqueles que planejaram iniciar seus estudos em setembro poderão agora descobrir que é tarde demais para se matricular em outro lugar para o próximo ano letivo. Uma queda nas matrículas de estudantes estrangeiros não só prejudicará a pesquisa em instituições americanas, reduzindo o número de assistentes talentosos, como também enfraquecerá o fluxo global de futuros cientistas, diminuindo a profundidade e a qualidade da pesquisa em todo o mundo.

O que Trump e seus aliados não conseguem entender é a forte relação entre a excelência das universidades americanas e o histórico de inovação do país. Uma análise de 2022 constatou que mais da metade das startups dos EUA avaliadas em mais de US$ 1 bilhão tinham pelo menos um fundador nascido no exterior – e, em metade desses casos, o fundador chegou ao país como estudante.

Alguns apoiadores de Trump afirmam que impedir estudantes estrangeiros de se matricular em Harvard e outras universidades particulares abrirá mais vagas para estudantes americanos. Mas, embora umas poucas vagas adicionais possam surgir, o impacto deverá ser mínimo. Na verdade, como uma parcela significativa de estudantes estrangeiros paga o valor integral das mensalidades, sua ausência reduzirá os recursos disponíveis para bolsas e auxílios. Estudantes estrangeiros têm, na prática, subsidiado os alunos americanos que recebem ajuda financeira – uma fonte essencial de apoio que agora seria perdida.

Essas receitas perdidas são insignificantes em comparação com as contribuições mais amplas de Harvard e do sistema de ensino superior. O ensino universitário tem sido, há muito tempo, uma das principais fontes de exportação dos EUA, com muito mais estudantes estrangeiros vindo para o país, do que americanos indo estudar no exterior. Apenas no ano letivo de 2023-2024, os estudantes estrangeiros contribuíram com estimados US$ 44 bilhões para a economia americana.

É claro que Harvard e outras universidades não estão imunes a críticas. No entanto, desencorajar ou restringir as matrículas de estrangeiros seria uma perda profunda tanto para os estudantes e professores americanos quanto para os internacionais. Ao atacar as universidades de ponta, o governo Trump está minando uma das joias da coroa dos EUA e impondo um golpe sem precedentes ao motor da competitividade americana. (Tradução de Mário Zamarian)

Anne O. Krueger é ex-economista-chefe do Banco Mundial e ex-primeira vice-diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), é professora sênior de pesquisa em economia internacional na Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins e pesquisadora sênior do Centro de Desenvolvimento Internacional da Universidade Stanford. Direitos autorais: Project Syndicate, 2025.

http://www.project-syndicate.org

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ITA chinês abre centro para estudantes e professores do Brasil

Universidade Beihang, voltada a engenharia, prepara institutos em Hangzhou e também na USP e na UFRJ

Nelson de Sá – Folha – 25.jun.2025 

Hangzhou

Em Hangzhou, cidade próxima a Xangai que concentra os avanços mais recentes da China em tecnologia, o campus da Universidade Beihang acaba de abrir as primeiras onze salas para professores, pesquisadores e estudantes brasileiros.

O físico Diao Xungang, professor que está à frente da criação do Centro Beihang Brasil, entrou em seu próprio escritório pela primeira vez na visita solicitada pela reportagem. Dias depois, viajou ao Brasil, onde deve permanecer nos próximos três meses.

“Os professores estão vindo e vamos acomodá-los, trabalhar juntos em engenharia, especialmente a parte de aviação, mecânica, inteligência artificial e big data”, disse, destrancando as portas e descrevendo as instalações recém-mobiliadas.

Antes chamada de Universidade Aeronáutica e Aeroespacial, a Beihang é “equivalente ao ITA”, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica brasileiro, mas sem o currículo e o comando militar, afirmou Diao. É vinculada ao Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação e ex-alunos seus se destacam em startups como Deepseek.

Há outras universidades hoje voltadas à aviação, pelo país, mas a Beihang é a principal, disputando a ponta em Stem (sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática). Participou, por exemplo, do desenvolvimento de conquistas chinesas como o avião comercial C919 e a estação espacial, destaques em seu museu em Hangzhou.

De acordo com Diao, diversos professores do ITA já estão colaborando no projeto, mas a relação institucional é com a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e a USP (Universidade de São Paulo), que devem ser visitadas em julho pelo reitor da Beihang, Wang Yunpeng.

“Como é uma universidade aeronáutica, teremos uma colaboração muito próxima com a USP, cujo departamento de aeronáutica em São Carlos eu conheço bastante bem”, disse o professor, que morou dois anos e passou outras temporadas no Brasil, inclusive como professor visitante da USP.

“Estamos apenas começando, mas seguindo uma grande estratégia, baseada na relação entre a China e o Brasil”, acrescenta. Comentou que o centro foi lançado no campus de Pequim em meio à visita do presidente Lula (PT), em maio, após a ideia surgir durante a visita do líder Xi Jinping ao Brasil, em novembro.

Segundo o diretor do Centro USP-China, Ricardo Trindade, disse ao site da universidade paulista, o entendimento com a Beihang prevê um centro comum e o lançamento de editais no segundo semestre, para escolher os estudantes brasileiros e chineses que vão participar do intercâmbio, em graduação e pós. Segundo o professor Diao Xungang, será um “laboratório conjunto”, sem detalhar.

Tanto o reitor da USP, Carlos Gilberto Carlotti Junior, como o da UFRJ, Roberto de Andrade Medronho, estiveram na China para encaminhar os acordos, nos últimos meses. No caso de Carlotti, foi fechado convênio também com a Huawei ICT Academy (academia de tecnologia da informação e de comunicações da empresa chinesa).

Medronho descreveu a criação do centro em Hangzhou e do Instituto de Pesquisa de Inovação Beihang Brasil, segundo o site da universidade carioca, como uma mostra da “profunda integração e confiança mútua, entre a China e o Brasil, nas áreas de educação, ciência e tecnologia”.

O projeto inclui o estabelecimento de um Instituto Confúcio na UFRJ, com apoio do Ministério da Educação chinês. Segundo Diao, será o 14º no Brasil e voltado a intercâmbio cultural, tanto de língua chinesa como portuguesa.

O movimento da Beihang é parte de um projeto de aproximação acadêmica com a América Latina. Há um mês, Xi anunciou 3.500 bolsas de estudo para a região, entre outras ações.

Uma feira de universidades e escolas chinesas passou por São Paulo e outras cidades latino-americanas há duas semanas. Na capital paulista, conseguiu atrair 800 pessoas, inclusive representantes dos governos estadual e municipal.

Diao lembra que chegou a ser discutido se o centro em Hangzhou levaria América Latina no nome. “Mas o Brasil é tão importante. São países grandes, China, Brasil. E o Brasil é um país abrangente, tem todas as indústrias, todas as tecnologias, muitas universidades.”

ITA chinês abre centro para pesquisadores do Brasil – 25/06/2025 – Educação – Folha

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Quem inventou a roda? Simulações indicam que ela foi criada há 6 mil anos

Assim como a evolução das espécies, a roda teria surgido aos poucos, fruto de pequenas melhorias ao longo do tempo

KAI JAMES – Fast Company Brasil – 21-06-2025 

Imagine que você é um minerador de cobre no sudeste da Europa, por volta do ano 3.900 a.C. Todos os dias, você arrasta a carga por túneis abafados, conformado com a rotina pesada e repetitiva da mineração. Até que, um dia, vê um colega fazendo algo inesperado.

Com um aparelho estranho ele consegue transportar, com facilidade, uma carga três vezes maior que seu próprio peso – e em uma única viagem. Quando o vê voltar tranquilamente para buscar mais material, você percebe: sua profissão está prestes a mudar completamente – e, com isso, o esforço exigido e o valor do seu trabalho.

O que você ainda não sabe é que está diante de uma inovação que vai mudar o rumo da história – não só da sua comunidade, mas de toda a humanidade.

Apesar da importância inquestionável da invenção da roda, até hoje ninguém sabe exatamente quem a criou, nem quando ou onde isso aconteceu.

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A cena imaginada acima é baseada em uma teoria proposta em 2015, segundo a qual mineradores das montanhas dos Cárpatos (hoje parte da Hungria) teriam inventado a roda há quase seis mil anos, como uma solução para o transporte de minério.

Essa hipótese ganhou força após a descoberta arqueológica de mais de 150 carrinhos em miniatura na região. Exames de datação por carbono revelaram que esses modelos são as mais antigas representações conhecidas do transporte sobre rodas.

A RODA NÃO TERIA SIDO “INVENTADA”, MAS SURGIDO AOS POUCOS, FRUTO DE PEQUENAS MELHORIAS AO LONGO DO TEMPO.

Durante muito tempo, acreditou-se que a roda evoluiu a partir de rolos de madeira simples. Mas, até recentemente, ninguém havia conseguido explicar como – ou por que – essa transformação aconteceu. A partir da década de 1960, inclusive, alguns estudiosos começaram a contestar seriamente essa ideia.

Afinal, os rolos só funcionam bem em terrenos planos, firmes e sem muitas curvas ou declives. Além disso, eles precisam ser constantemente recolocados na frente da carga para que o transporte continue. Por isso, seu uso era bastante limitado no mundo antigo. Para os céticos, os rolos eram soluções improvisadas demais para terem dado origem à roda.

Mas dentro de uma mina – com seus túneis retilíneos – as condições eram bem mais favoráveis. Esse foi um dos principais motivos que levou nossa equipe a revisitar a hipótese de que os rolos foram o primeiro passo na criação da roda.

O PONTO DE VIRADA

Para que essa transição acontecesse, duas inovações foram fundamentais. A primeira foi uma mudança no próprio carrinho de transporte: era necessário criar encaixes semicirculares em sua base, capazes de manter os rolos fixos. Assim, ao puxar o carrinho, os rolos se movimentavam junto com a estrutura, sem a necessidade de reposição constante.

É possível que essa adaptação tenha sido motivada pelo próprio ambiente da mina – onde parar a todo momento para reposicionar os rolos tornaria o trabalho ainda mais cansativo.

A invenção desses “rolos encaixados” foi um marco na evolução da roda. A partir dela, veio a segunda – e mais importante – inovação: a transformação dos rolos em rodas. Para entender melhor como isso pode ter acontecido, recorremos à física e à engenharia computacional.

Desenvolvemos um programa capaz de simular a evolução dos rolos até que eles se tornassem rodas. O algoritmo testou centenas de formatos possíveis e analisou o desempenho de cada um. Como esperado, ele acabou chegando à forma mais eficiente: a clássica roda com eixo.

Não sabemos exatamente o que levou os mineradores a começar a modificar os rolos. Uma possibilidade é o desgaste natural da madeira causado pelo atrito – o que teria gerado um estreitamento no centro dos rolos.

Outra hipótese é que os próprios trabalhadores tenham afinado os rolos de propósito, para que os carrinhos conseguissem ultrapassar pequenos obstáculos no caminho.

INVENÇÃO E REINVENÇÃO DA RODA

Segundo a nossa teoria, a roda não teria sido propriamente “inventada”. Assim como a evolução das espécies, ela teria surgido aos poucos, fruto de pequenas melhorias ao longo do tempo.

Esse é apenas um capítulo da longa – e ainda em curso – evolução da roda. Mais de cinco mil anos depois das contribuições dos mineradores dos Cárpatos, um mecânico de bicicletas em Paris criou os rolamentos de esferas – outra inovação que transformou o transporte sobre rodas.

Curiosamente, eles são, em essência, uma versão moderna dos antigos rolos: formam um anel ao redor do eixo e criam uma interface de rolagem entre o eixo e o cubo da roda, diminuindo o atrito.

No fim, isso mostra como a evolução da roda – assim como sua forma icônica – seguiu um caminho circular: sem começo claro, sem fim definido e repleto de revoluções silenciosas ao longo do tempo.


SOBRE O AUTOR

Kai James é professor de engenharia aeroespacial no Instituto de Tecnologia da Geórgia. 

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Saúde, dinheiro, moradia, Justiça e mais: como a IA pode mudar o futuro do Brasil

Série Tecnologia em Transformação, que integra os especiais temáticos de 150 anos do Estadão, ouve especialistas para mapear a revolução que ainda vem por aí – e explicar por que você não pode ficar fora dela

Por Henrique Sampaio – Estadão – 07/06/2025 

A inteligência artificial (IA) está infiltrada nas engrenagens invisíveis que movem decisões públicas e privadas no Brasil — do processamento de exames médicos ao combate a fraudes bancárias. E isso é só o começo. Com o boom dos últimos anos, a tecnologia promete reconfigurar profundamente os bastidores da vida cotidiana no País: diagnósticos médicos, decisões judiciais, concessões de crédito, operações de venda e locação de imóveis — diferentes processos serão permeados, em diferentes graus, por sistemas automatizados.

A promessa é de ganhos expressivos de produtividade, eficiência máxima, redução de custos, eliminação de gargalos e uma suposta “democratização” de bens e serviços — expressão recorrente no discurso dos entusiastas da IA. Mas, claro, há algumas “pedras” pelo caminho.

O Estadão ouviu especialistas na área para entender como a IA pode mudar o futuro do País. O resultado é esta reportagem especial em sete partes que ancora este Tecnologia em Transformação, o quarto capítulo da série de especiais temáticos que o jornal publicará até o fim de 2025, dentro das celebrações de seus 150 anos. Veja também: o “hub” de conteúdo, onde estão reunidas todas as notícias relacionadas ao aniversário do jornal, e os especiais República em transformação – em que discutimos saídas para a polarização política no País – e Economia em transformação, que aborda caminhos para o Brasil deixar de ser uma nação de renda média.

Um estudo da PwC aponta que a IA pode adicionar até 13 pontos porcentuais ao Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil até 2035, desde que sua implementação ocorra de forma responsável e com ampla confiança da sociedade e do mercado. Em um cenário global, o impacto potencial chega a 15 pontos, comparável à transformação econômica vivida na era da industrialização. No Brasil, só em 2025, estima-se que US$ 130 bilhões (cerca de R$ 715 bilhões) em receitas poderão mudar de mãos entre empresas como reflexo das mudanças tecnológicas.

Os desafios são proporcionais: extração de dados sensíveis, riscos de vieses socioeconômicos, ausência de regulação clara e dilemas ambientais são alguns deles.

A boa notícia é que o Brasil reúne vantagens competitivas, como uma base tecnológica sólida em setores como finanças, saúde, eleições e Justiça (veja mais abaixo), um ecossistema técnico qualificado, instituições de pesquisa consolidadas e uma população conectada. Mas ainda há um longo caminho a percorrer diante das escolhas que podem moldar seu futuro.

Para Patrícia Florissi, diretora técnica do Google Cloud, o País tem todos os elementos necessários para deixar de ser apenas consumidor de soluções estrangeiras e assumir um protagonismo global no desenvolvimento de IA. “A gente realmente tem a capacidade do capital humano e o acesso à tecnologia”, afirma. “Eu acho que o Brasil tem a possibilidade de se tornar a startup de IA generativa do futuro.”

Alavanca de transformação na saúde

Entre os setores mais impactados está a saúde. E, no caso brasileiro, a discussão vai além da automação de processos: ela se confunde com a própria missão de ampliar o acesso ao cuidado médico e combater desigualdades regionais.

Segundo a 28.ª edição da Global CEO Survey, que entrevistou mais de 4,7 mil líderes em mais de cem países, incluindo o Brasil, a IA tem gerado ganhos expressivos de eficiência no setor de saúde. Entre os CEOs brasileiros da área, 58% relataram aumento na produtividade dos funcionários com o uso de IA generativa, superando a média internacional de 52%. Além disso, 35% afirmaram já ter registrado crescimento nas receitas graças à adoção dessas tecnologias.

Na visão de Luiz Fernando Joaquim, sócio da Deloitte e especialistas em soluções de tecnologia para o setor de saúde, a IA terá um papel integrador, focado em eliminar a papelada, melhorando a organização de informações. A tecnologia será especialmente útil para antecipar diagnósticos e identificar padrões precoces, como possíveis casos de diabete ou câncer em estágios iniciais, além de reforçar práticas preventivas.

Esse raciocínio também guia o trabalho de Bruno Farias, cofundador da startup brasileira Neomed, que usa modelos do Google Cloud para acelerar o diagnóstico de doenças cardíacas. “Se a gente não começar a utilizar a IA para otimizar esses processos e direcionar o paciente certo para o atendimento certo, com critério, não é uma questão de alguém lucrar mais, é que o sistema vai colapsar. O modelo atual, como está, não se sustenta”, aponta.

Enquanto isso, no setor público, o Ministério da Saúde aposta na digitalização dos dados e na criação de um prontuário único nacional por meio do projeto Open Health. O objetivo é que esses dados circulem de forma segura entre diferentes níveis do Sistema Único de Saúde (SUS) e instituições privadas, permitindo que o histórico do paciente o acompanhe ao longo da vida. Isso também abre espaço para que a IA processe volumes maiores de dados clínicos, de forma mais rápida e padronizada, permitindo diagnósticos mais precisos e personalizados.

Por outro lado, a livre circulação de dados sensíveis de cidadãos também possibilita o uso indevido dessas informações para fins que prejudiquem os próprios pacientes, como discriminação em seguros, práticas abusivas de mercado ou exclusão de atendimentos com base em perfis de risco calculados por algoritmos.

Ao longo de quase um mês, o Estadão buscou entrevista com a Secretaria de Informação e Saúde Digital, responsável pela transformação digital do SUS. Embora a assessoria tenha indicado o interesse da pasta em responder à reportagem, não enviou as informações solicitadas nem concedeu entrevista até a conclusão deste texto.

‘Banco invisível’

A presença da IA na vida do brasileiro vai muito além da saúde. Silenciosamente, ela começa a transformar a forma como se obtém crédito, se decide uma causa na Justiça ou se busca um novo imóvel. Não é exagero dizer que, para boa parte da população, a IA vai interferir justamente nos pilares mais sensíveis da vida prática: dinheiro, moradia e Justiça.

No sistema financeiro, a transformação é visível e acelerada. “Hoje a IA está sendo muito aplicada para segurança, resiliência cibernética (capacidade de um sistema se proteger e se recuperar de ataques digitais) e análise de crédito. São áreas de maior prioridade para proteger o sistema financeiro e onde estão os maiores esforços dos bancos em tecnologia”, afirma Wagner Martin, vice-presidente da Veritran e mentor do Lift Lab, iniciativa do Banco Central.

Segundo Martin, o futuro passa pela combinação entre IA, Open Finance (compartilhamento autorizado de dados financeiros entre instituições) e Drex (a moeda digital brasileira), promovendo o que ele chama de “banco invisível”.

“As principais transformações estarão ligadas à potencialização do conceito de banco invisível, dos serviços não financeiros dentro da indústria e a oferta cada vez mais assertiva em tempo, forma e cliente.”

Na prática, de acordo com o especialista, o consumidor deve parar de interagir com produtos financeiros diretamente. Em vez de o cliente buscar um empréstimo ou financiamento ativamente, os sistemas passarão a fazer sugestões a ele com as melhores opções com base em seu histórico, renda, comportamento de consumo e metas futuras, como comprar um carro ou viajar. “A IA vai tornar a vida das pessoas mais simples”, acredita Martin.

IA sabe qual é a melhor casa para você

No mercado imobiliário, a automatização ganha contornos parecidos. Plataformas como a Kenlo já integram IA em todas as etapas do processo de compra, venda e locação, usando modelos do Google Cloud — é um setor que já tem grandes nomes como QuintoAndar e Loft. “A gente não cria soluções de IA para tentar cortar custos ou demitir corretores. Mas para potencializar o negócio, para fazer o empresário entender o que ele precisa para ser uma imobiliária melhor no mercado”, afirma Roberto Dariva, CEO da Kenlo.

Dariva reconhece que o setor enfrenta riscos como a reprodução de vieses socioeconômicos, algo que tenta mitigar com treinamento contínuo da IA pelos próprios corretores. “Se tiver o problema de viés, o próprio corretor pode entrar, dar sugestões e descartar os imóveis que achou que não faria sentido para aquele cliente, treinando novamente a IA.”

Justiça para todos

Já no campo jurídico, a promessa da IA é nivelar o acesso à informação e, com isso, reduzir desigualdades processuais. Segundo Marcelo Alcântara, diretor de produto do JusBrasil, a IA pode corrigir falhas comuns em peças processuais, acelerar a tramitação de causas e eliminar a vantagem antes restrita a certos profissionais. “Agora não importa se você é um advogado autônomo ou se você trabalha em um grande escritório de advocacia. A mesma informação, por mais complexa, está acessível a todo mundo.”

Ele acredita que a IA pode corrigir distorções do sistema que até então eram consideradas inevitáveis. “Pela primeira vez na história do Direito, independentemente do poder econômico, dos advogados, as partes vão conseguir apresentar argumentos jurídicos igualmente sólidos e bem fundamentados ao juiz”, diz. Segundo Alcântara, o nivelamento e o acesso a informações precisas podem ajudar a reduzir erros que levam a causas perdidas ou a atrasos processuais.

Em março, o JusBrasil lançou o Jus IA, um assistente jurídico alimentado com o acervo de mais de 1,2 bilhão de documentos públicos da empresa, estruturados e validados ao longo de 16 anos.

Direcionada a profissionais do Direito mas acessível a qualquer um, a ferramenta pode responder perguntas, criar documentos e analisar referências jurídicas. Por trás da tecnologia, estão múltiplos modelos de linguagem, combinando grandes modelos comerciais (como ChatGPT e Gemini) com um modelo próprio treinado com tecnologia nacional, em parceria com a startup paulista Maritaca AI.

O Supremo Tribunal Federal (STF) também já começou a adotar ferramentas baseadas em IA para agilizar a produção de documentos e a triagem de processos. Em dezembro de 2023, o tribunal lançou o MARIA, um módulo de apoio à redação automatizada criado em parceria com o JusBrasil.

A ferramenta é capaz de gerar minutas de ementas, elaborar relatórios em recursos extraordinários e fazer análises iniciais de petições. Segundo Alcântara, essa colaboração mostra como o Judiciário brasileiro tem se mostrado receptivo à tecnologia. “Há um trabalho realmente a quatro mãos para fazer a tecnologia funcionar melhor para o sistema”, diz. Ele destaca que, além de aumentar a produtividade, a IA pode ajudar a reduzir erros procedimentais e acelerar a tramitação de causas, com impactos diretos na prestação de Justiça.

Em 2024, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) identificou 147 sistemas de IA em uso ou em desenvolvimento no Judiciário brasileiro. Esses sistemas incluem desde classificadores automáticos de processos até ferramentas de apoio à redação de decisões e assistentes virtuais, com o objetivo de agilizar tarefas e reduzir a morosidade do setor. Embora o uso da IA generativa por magistrados e servidores ainda seja pouco frequente, o interesse é elevado, com ampla demanda por capacitação.

Desde setembro de 2024, a Advocacia-Geral da União (AGU) passou a usar IA generativa integrada ao seu sistema Super Sapiens para agilizar a gestão e a produção de documentos jurídicos e administrativos. A expectativa é de que o tempo economizado nessas tarefas rotineiras seja direcionado à análise jurídica e formulação de estratégias, otimizando o trabalho da instituição, que movimenta cerca de 16 milhões de processos por ano e, só em 2023, arrecadou em nome da União R$ 57,8 bilhões e evitou outros R$ 64,6 bilhões em despesas judiciais — os valores não são relacionados ao uso de IA em si, mas à atuação geral da AGU. São cifras que podem aumentar à medida que a tecnologia avança na instituição.

Aprendizado personalizado

Outras áreas estratégicas da sociedade brasileira podem ser transformadas pela inteligência artificial generativa, segundo Patrícia Florissi, do Google Cloud. Um dos setores mais promissores é a educação. Patrícia defende que cada estudante brasileiro tenha acesso a um tutor privado baseado em IA, capaz de oferecer um aprendizado personalizado.

“Que esse tutor entregasse um aprendizado personalizado para cada brasileiro, que ele entendesse quais são as deficiências do indivíduo e criasse um currículo que encontra o aluno onde ele está.” Para ela, a IA pode inverter a lógica atual, em que o aluno precisa se adaptar ao currículo e ao ritmo da escola. “Eu acho que o Brasil seria um país que poderia se beneficiar muito disso para diminuir o déficit do setor educacional.”

Outra frente destacada por Patrícia é o combate à fome. Ela relata sua atuação junto ao movimento Pacto Contra a Fome e aponta um problema central: “Uma das maiores dificuldades é conectar quem tem fome a quem tem algum alimento que possa combater essa fome e a outros agentes que podem transformar aquele alimento numa refeição”, diz. Ela defende que a IA generativa poderia articular essa rede de doadores, cozinhas solidárias e organizações de distribuição de forma mais eficiente e automatizada.

Coordenação geral e edição: Ana Carolina Sacoman e Bruno Romani; Editora de infografia: Regina Elisabeth Silva; Editores-assistentes de infografia: Adriano Araujo e William Mariotto; Design: Lucas Almeida; Infografista Multimídia: Gisele Oliveira e Lucas Thaynan; Head do núcleo de vídeos: Manuella Menezes; Subeditor do núcleo de vídeos: Everton Oliveira; Editor de fotografia: Clayton de Souza; Pesquisa de foto: Sérgio Neves; Editor Executivo de Economia, Negócios e Link: Ricardo Grinbaum; Editor do Link: Bruno Romani; Editor Executivo de Distribuição, Engajamento e Vídeo: Leonardo Cruz.

Saúde, dinheiro, moradia, Justiça e mais: como a IA pode mudar o futuro do Brasil – Estadão

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