Cortes e restrições de Trump ameaçam fazer país perder a liderança histórica em ciência
Por James Glanz – O Globo/The New York Times – 31/05/2025
Por décadas, Bangalore, na Índia, tem sido um berço de talentos científicos, enviando doutores recém-formados para todo o mundo para realizar pesquisas inovadoras. Em um ano comum, muitos deles miram laboratórios nos Estados Unidos.
— Queremos que nossos alunos façam coisas incríveis — diz Raj Ladher, professor do Centro Nacional de Ciências Biológicas em Bangalore.
Mas este não é um ano comum. Quando o professor Ladher perguntou recentemente a cerca de 30 formandos da cidade sobre seus planos, apenas um tinha emprego garantido nos Estados Unidos. Para muitos outros, a turbulência política em Washington secou as oportunidades de trabalho naquele que ele chama de “o melhor ecossistema de pesquisa do mundo”. Alguns decidiram levar suas habilidades para outros países, como Áustria, Japão e Austrália, enquanto outros optaram por permanecer na Índia.
À medida que o governo de Donald Trump avança para negar vistos, expulsar estudantes estrangeiros e cortar recursos para pesquisa, cientistas nos Estados Unidos estão cada vez mais alarmados. A supremacia global que os EUA há muito desfrutam nas áreas de saúde, biologia, ciências físicas e outras, alertam eles, pode estar chegando ao fim.
— Se as coisas continuarem assim, a ciência americana será arruinada. Se não for possível trabalhar com cientistas de fora dos EUA, o tipo de pesquisa que faço será inviável — disse David W. Hogg, professor de física e ciência de dados da Universidade de Nova York, que trabalha em estreita colaboração com astrônomos e outros especialistas ao redor do mundo.
Os cortes em pesquisa e as ações para reduzir a presença de estudantes estrangeiros avançaram em ritmo acelerado sob a administração Trump. O governo chegou ao ponto de tentar bloquear totalmente o acesso de estudantes internacionais à Universidade de Harvard, e mais de US$ 3 bilhões em bolsas de pesquisa para a instituição foram cancelados ou suspensos.
Na Universidade Johns Hopkins, um dos centros de excelência em pesquisa científica, autoridades anunciaram a demissão de mais de 2.000 pessoas após perderem US$ 800 milhões em verbas governamentais. Uma análise do The New York Times revelou que a Fundação Nacional de Ciências dos EUA, principal agência de fomento em ciências físicas do mundo, tem concedido financiamento a novos projetos no ritmo mais lento desde pelo menos 1990.
Não se trata apenas da perda de poder ou prestígio da comunidade científica americana. Dirk Brockmann, professor de biologia e física na Alemanha, alertou que as implicações são bem mais amplas. A aceitação do risco e os saltos aparentemente “malucos” de inspiração, profundamente enraizados na cultura americana, disse ele, ajudaram a criar um ambiente de pesquisa sem igual. O resultado tem sido décadas de inovação, crescimento econômico e avanços militares.
— Existe algo muito profundo na cultura que a torna especial. É quase um ingrediente mágico — afirmou Brockmann, que já lecionou na Universidade Northwestern.
Cientistas acreditam que parte do talento internacional que há muito impulsiona a ciência nos EUA pode acabar migrando para outros países. Muitos governos estrangeiros — da França à Austrália — também começaram a cortejar abertamente os cientistas americanos.
Mas, como os Estados Unidos lideram o campo há tanto tempo, há grande preocupação de que a pesquisa científica global seja prejudicada.
— Para muitas áreas, os EUA são absolutamente o parceiro essencial — disse Wim Leemans, diretor da divisão de aceleradores do centro de pesquisa DESY, na Alemanha, e professor da Universidade de Hamburgo.
Leemans, que tem cidadanias americana e belga e passou 34 anos nos Estados Unidos, afirmou que, em áreas como pesquisa médica e monitoramento climático, o resto do mundo teria grande dificuldade em compensar a perda da liderança americana.
Fronteiras fechadas
Houve um tempo em que o governo dos EUA reconhecia e valorizava seu papel na comunidade científica internacional.
Em 1945, o conselheiro científico presidencial Vannevar Bush apresentou um plano decisivo para a ciência no país no pós-Segunda Guerra Mundial. Chamado “Science, the Endless Frontier” (Ciência, a Fronteira Infinita), o documento argumentava que o país ganharia mais ao compartilhar informações — incluindo a acolhida de cientistas estrangeiros, mesmo que pudessem partir no futuro — do que tentando proteger descobertas que acabariam sendo feitas em outros lugares de qualquer forma.
Esse plano ajudou a impulsionar a supremacia científica americana no pós-guerra, segundo Cole Donovan, assessor internacional de tecnologia da Casa Branca durante o governo Biden. Grande parte do poder e influência dos EUA deriva da supremacia em ciência e tecnologia, disse ele.
Agora, os EUA estão retirando o tapete de boas-vindas.
Brockmann, que estuda sistemas complexos na Universidade Técnica de Dresden, planejava retornar à Northwestern para apresentar uma palestra principal em junho. Seria parte de uma viagem em família aos Estados Unidos; seus filhos já haviam morado em Evanston, Illinois, onde ele lecionou de 2008 a 2013.
Ele cancelou a palestra após o Ministério das Relações Exteriores da Alemanha emitir novas orientações sobre viagens aos EUA, após a detenção de turistas alemães na fronteira americana.
— Esse alerta foi um tipo de sinal para mim. Não me sinto seguro — frisou ele.
Liderança chinesa
Donovan disse que ainda é cedo para saber se a Europa ou a China, por exemplo, podem assumir a liderança internacional em ciência. Ladher, de Bangalore, afirmou que até o momento a Europa tem preenchido parte do vazio na contratação de seus graduados.
— A Áustria se tornou um destino muito procurado por muitos dos nossos estudantes — disse ele.
Em Bangalore, uma doutoranda prestes a defender sua tese sobre sinalização celular e câncer disse que há uma percepção generalizada na Índia de que os laboratórios americanos dificilmente contratarão muitos estudantes estrangeiros este ano. Isso levou muitos de seus colegas a buscarem oportunidades em outros países, contou a estudante, que preferiu não se identificar porque ainda planeja se candidatar a posições nos EUA e não quer prejudicar suas chances.
A comunidade científica americana, disse ela, sempre foi altamente respeitada no exterior.
— É triste ver o heroi caindo do pedestal — concluiu.
EUA: Centros de pesquisa deixam de atrair cientistas estrangeiros
Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: ttps://chat.whatsapp.com/GBBZ1SCBDTkC2uPqSe6kP7 para WhatsApp e https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/
Acesse o link abaixo para entrar no meu grupo do WhatsApp onde publico meus artigos semanais e entrevistas que faço no rádio e TV, sempre na temática inovação e negócios: https://chat.whatsapp.com/HqlJjC80rJ0Bu9lmsZgw5B
Sugestão: Se estiver procurando alguém para implementar uma solução de IA com agentes veja a Aumo | Transformamos dados em soluções de IA avançadas