O alto custo da fuga de cérebros nos EUA

Trump e seus aliados não compreendem a forte relação entre a excelência das universidades americanas e o histórico de inovação do país

Por Anne Krueger – Valor – 26/06/2025 

Os ataques do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à Universidade Harvard e seus estudantes estrangeiros chocaram o mundo, não só por sua grosseria, mas também por sua evidente miopia.

Durante décadas, universidades de ponta como Harvard foram pilares do chamado “soft power” dos EUA. Muitos dos estudantes mais brilhantes do mundo aspiraram estudar em instituições americanas, e os melhores pesquisadores buscaram integrar seus quadros docentes. A própria Harvard representa o ápice do ensino superior americano – e global. Até mesmo o presidente chinês Xi Jinping decidiu enviar sua filha para lá.

Mas agora a maré está mudando. Acadêmicos de destaque estão deixando os EUA para escapar do clima de paranoia alimentado pelas políticas de Trump, e estudantes internacionais de alto nível, que antes tinham como meta universidades americanas como Harvard, Columbia e Northwestern – todas recentemente atacadas por Trump -, estão optando por outros países, temendo que sua formação seja interrompida.

As consequências poderão ser graves. Desde 2000, pesquisadores radicados nos EUA ganharam cerca de dois terços dos prêmios Nobel de Química, Física e Medicina – e 40% desses laureados eram imigrantes. É significativo que quase a metade dos imigrantes laureados com o Nobel nos EUA tenham feito seus estudos de pós-graduação em universidades americanas. Esses acadêmicos não só impulsionaram pesquisas inovadoras e elevaram o prestígio de suas instituições, como também atuaram como professores e mentores de estudantes americanos e estrangeiros, atraindo uma nova geração de talentos acadêmicos.

Além disso, essas interações interculturais ajudam os estudantes americanos a obter uma compreensão mais profunda de outras sociedades, ao mesmo tempo em que proporcionam aos seus colegas estrangeiros uma experiência em primeira mão da vida nos EUA. Muitos dos que estudaram nos EUA posteriormente retornam para seus países de origem e ascendem a cargos de destaque no governo, na academia e no setor privado. Até 2024, 70 chefes de Estado ou de governo haviam concluído parte ou toda a sua formação superior nos EUA.

Até recentemente, esses benefícios eram amplamente reconhecidos em todo o espectro político dos EUA. Um sistema bem estruturado – o Programa de Estudantes e Visitantes de Intercâmbio (SEVP, na sigla em inglês) permitia que instituições credenciadas recebessem alunos estrangeiros. O SEVP também possibilitava que graduados com visto de estudante permanecessem no país por até três anos para adquirir experiência profissional.

Mas, em uma impressionante demonstração de ignorância e má-fé, o governo Trump tentou retirar de Harvard a autoridade para matricular estudantes estrangeiros e até mesmo instruiu os consulados dos EUA a não processarem pedidos de visto daqueles que planejavam estudar na universidade – medida que foi bloqueada recentemente por um tribunal federal.

Desde 2000, pesquisadores radicados nos EUA ganharam cerca de dois terços dos prêmios Nobel de Química, Física e Medicina, e 40% deles eram imigrantes. Deram impulso a pesquisas inovadoras e atuaram como professores, atraindo nova geração de talentos acadêmicos

Essa incerteza é profundamente perturbadora para estudantes atuais e futuros. Aqueles que planejaram iniciar seus estudos em setembro poderão agora descobrir que é tarde demais para se matricular em outro lugar para o próximo ano letivo. Uma queda nas matrículas de estudantes estrangeiros não só prejudicará a pesquisa em instituições americanas, reduzindo o número de assistentes talentosos, como também enfraquecerá o fluxo global de futuros cientistas, diminuindo a profundidade e a qualidade da pesquisa em todo o mundo.

O que Trump e seus aliados não conseguem entender é a forte relação entre a excelência das universidades americanas e o histórico de inovação do país. Uma análise de 2022 constatou que mais da metade das startups dos EUA avaliadas em mais de US$ 1 bilhão tinham pelo menos um fundador nascido no exterior – e, em metade desses casos, o fundador chegou ao país como estudante.

Alguns apoiadores de Trump afirmam que impedir estudantes estrangeiros de se matricular em Harvard e outras universidades particulares abrirá mais vagas para estudantes americanos. Mas, embora umas poucas vagas adicionais possam surgir, o impacto deverá ser mínimo. Na verdade, como uma parcela significativa de estudantes estrangeiros paga o valor integral das mensalidades, sua ausência reduzirá os recursos disponíveis para bolsas e auxílios. Estudantes estrangeiros têm, na prática, subsidiado os alunos americanos que recebem ajuda financeira – uma fonte essencial de apoio que agora seria perdida.

Essas receitas perdidas são insignificantes em comparação com as contribuições mais amplas de Harvard e do sistema de ensino superior. O ensino universitário tem sido, há muito tempo, uma das principais fontes de exportação dos EUA, com muito mais estudantes estrangeiros vindo para o país, do que americanos indo estudar no exterior. Apenas no ano letivo de 2023-2024, os estudantes estrangeiros contribuíram com estimados US$ 44 bilhões para a economia americana.

É claro que Harvard e outras universidades não estão imunes a críticas. No entanto, desencorajar ou restringir as matrículas de estrangeiros seria uma perda profunda tanto para os estudantes e professores americanos quanto para os internacionais. Ao atacar as universidades de ponta, o governo Trump está minando uma das joias da coroa dos EUA e impondo um golpe sem precedentes ao motor da competitividade americana. (Tradução de Mário Zamarian)

Anne O. Krueger é ex-economista-chefe do Banco Mundial e ex-primeira vice-diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), é professora sênior de pesquisa em economia internacional na Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins e pesquisadora sênior do Centro de Desenvolvimento Internacional da Universidade Stanford. Direitos autorais: Project Syndicate, 2025.

http://www.project-syndicate.org

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ITA chinês abre centro para estudantes e professores do Brasil

Universidade Beihang, voltada a engenharia, prepara institutos em Hangzhou e também na USP e na UFRJ

Nelson de Sá – Folha – 25.jun.2025 

Hangzhou

Em Hangzhou, cidade próxima a Xangai que concentra os avanços mais recentes da China em tecnologia, o campus da Universidade Beihang acaba de abrir as primeiras onze salas para professores, pesquisadores e estudantes brasileiros.

O físico Diao Xungang, professor que está à frente da criação do Centro Beihang Brasil, entrou em seu próprio escritório pela primeira vez na visita solicitada pela reportagem. Dias depois, viajou ao Brasil, onde deve permanecer nos próximos três meses.

“Os professores estão vindo e vamos acomodá-los, trabalhar juntos em engenharia, especialmente a parte de aviação, mecânica, inteligência artificial e big data”, disse, destrancando as portas e descrevendo as instalações recém-mobiliadas.

Antes chamada de Universidade Aeronáutica e Aeroespacial, a Beihang é “equivalente ao ITA”, o Instituto Tecnológico de Aeronáutica brasileiro, mas sem o currículo e o comando militar, afirmou Diao. É vinculada ao Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação e ex-alunos seus se destacam em startups como Deepseek.

Há outras universidades hoje voltadas à aviação, pelo país, mas a Beihang é a principal, disputando a ponta em Stem (sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharia e matemática). Participou, por exemplo, do desenvolvimento de conquistas chinesas como o avião comercial C919 e a estação espacial, destaques em seu museu em Hangzhou.

De acordo com Diao, diversos professores do ITA já estão colaborando no projeto, mas a relação institucional é com a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e a USP (Universidade de São Paulo), que devem ser visitadas em julho pelo reitor da Beihang, Wang Yunpeng.

“Como é uma universidade aeronáutica, teremos uma colaboração muito próxima com a USP, cujo departamento de aeronáutica em São Carlos eu conheço bastante bem”, disse o professor, que morou dois anos e passou outras temporadas no Brasil, inclusive como professor visitante da USP.

“Estamos apenas começando, mas seguindo uma grande estratégia, baseada na relação entre a China e o Brasil”, acrescenta. Comentou que o centro foi lançado no campus de Pequim em meio à visita do presidente Lula (PT), em maio, após a ideia surgir durante a visita do líder Xi Jinping ao Brasil, em novembro.

Segundo o diretor do Centro USP-China, Ricardo Trindade, disse ao site da universidade paulista, o entendimento com a Beihang prevê um centro comum e o lançamento de editais no segundo semestre, para escolher os estudantes brasileiros e chineses que vão participar do intercâmbio, em graduação e pós. Segundo o professor Diao Xungang, será um “laboratório conjunto”, sem detalhar.

Tanto o reitor da USP, Carlos Gilberto Carlotti Junior, como o da UFRJ, Roberto de Andrade Medronho, estiveram na China para encaminhar os acordos, nos últimos meses. No caso de Carlotti, foi fechado convênio também com a Huawei ICT Academy (academia de tecnologia da informação e de comunicações da empresa chinesa).

Medronho descreveu a criação do centro em Hangzhou e do Instituto de Pesquisa de Inovação Beihang Brasil, segundo o site da universidade carioca, como uma mostra da “profunda integração e confiança mútua, entre a China e o Brasil, nas áreas de educação, ciência e tecnologia”.

O projeto inclui o estabelecimento de um Instituto Confúcio na UFRJ, com apoio do Ministério da Educação chinês. Segundo Diao, será o 14º no Brasil e voltado a intercâmbio cultural, tanto de língua chinesa como portuguesa.

O movimento da Beihang é parte de um projeto de aproximação acadêmica com a América Latina. Há um mês, Xi anunciou 3.500 bolsas de estudo para a região, entre outras ações.

Uma feira de universidades e escolas chinesas passou por São Paulo e outras cidades latino-americanas há duas semanas. Na capital paulista, conseguiu atrair 800 pessoas, inclusive representantes dos governos estadual e municipal.

Diao lembra que chegou a ser discutido se o centro em Hangzhou levaria América Latina no nome. “Mas o Brasil é tão importante. São países grandes, China, Brasil. E o Brasil é um país abrangente, tem todas as indústrias, todas as tecnologias, muitas universidades.”

ITA chinês abre centro para pesquisadores do Brasil – 25/06/2025 – Educação – Folha

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Quem inventou a roda? Simulações indicam que ela foi criada há 6 mil anos

Assim como a evolução das espécies, a roda teria surgido aos poucos, fruto de pequenas melhorias ao longo do tempo

KAI JAMES – Fast Company Brasil – 21-06-2025 

Imagine que você é um minerador de cobre no sudeste da Europa, por volta do ano 3.900 a.C. Todos os dias, você arrasta a carga por túneis abafados, conformado com a rotina pesada e repetitiva da mineração. Até que, um dia, vê um colega fazendo algo inesperado.

Com um aparelho estranho ele consegue transportar, com facilidade, uma carga três vezes maior que seu próprio peso – e em uma única viagem. Quando o vê voltar tranquilamente para buscar mais material, você percebe: sua profissão está prestes a mudar completamente – e, com isso, o esforço exigido e o valor do seu trabalho.

O que você ainda não sabe é que está diante de uma inovação que vai mudar o rumo da história – não só da sua comunidade, mas de toda a humanidade.

Apesar da importância inquestionável da invenção da roda, até hoje ninguém sabe exatamente quem a criou, nem quando ou onde isso aconteceu.

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A cena imaginada acima é baseada em uma teoria proposta em 2015, segundo a qual mineradores das montanhas dos Cárpatos (hoje parte da Hungria) teriam inventado a roda há quase seis mil anos, como uma solução para o transporte de minério.

Essa hipótese ganhou força após a descoberta arqueológica de mais de 150 carrinhos em miniatura na região. Exames de datação por carbono revelaram que esses modelos são as mais antigas representações conhecidas do transporte sobre rodas.

A RODA NÃO TERIA SIDO “INVENTADA”, MAS SURGIDO AOS POUCOS, FRUTO DE PEQUENAS MELHORIAS AO LONGO DO TEMPO.

Durante muito tempo, acreditou-se que a roda evoluiu a partir de rolos de madeira simples. Mas, até recentemente, ninguém havia conseguido explicar como – ou por que – essa transformação aconteceu. A partir da década de 1960, inclusive, alguns estudiosos começaram a contestar seriamente essa ideia.

Afinal, os rolos só funcionam bem em terrenos planos, firmes e sem muitas curvas ou declives. Além disso, eles precisam ser constantemente recolocados na frente da carga para que o transporte continue. Por isso, seu uso era bastante limitado no mundo antigo. Para os céticos, os rolos eram soluções improvisadas demais para terem dado origem à roda.

Mas dentro de uma mina – com seus túneis retilíneos – as condições eram bem mais favoráveis. Esse foi um dos principais motivos que levou nossa equipe a revisitar a hipótese de que os rolos foram o primeiro passo na criação da roda.

O PONTO DE VIRADA

Para que essa transição acontecesse, duas inovações foram fundamentais. A primeira foi uma mudança no próprio carrinho de transporte: era necessário criar encaixes semicirculares em sua base, capazes de manter os rolos fixos. Assim, ao puxar o carrinho, os rolos se movimentavam junto com a estrutura, sem a necessidade de reposição constante.

É possível que essa adaptação tenha sido motivada pelo próprio ambiente da mina – onde parar a todo momento para reposicionar os rolos tornaria o trabalho ainda mais cansativo.

A invenção desses “rolos encaixados” foi um marco na evolução da roda. A partir dela, veio a segunda – e mais importante – inovação: a transformação dos rolos em rodas. Para entender melhor como isso pode ter acontecido, recorremos à física e à engenharia computacional.

Desenvolvemos um programa capaz de simular a evolução dos rolos até que eles se tornassem rodas. O algoritmo testou centenas de formatos possíveis e analisou o desempenho de cada um. Como esperado, ele acabou chegando à forma mais eficiente: a clássica roda com eixo.

Não sabemos exatamente o que levou os mineradores a começar a modificar os rolos. Uma possibilidade é o desgaste natural da madeira causado pelo atrito – o que teria gerado um estreitamento no centro dos rolos.

Outra hipótese é que os próprios trabalhadores tenham afinado os rolos de propósito, para que os carrinhos conseguissem ultrapassar pequenos obstáculos no caminho.

INVENÇÃO E REINVENÇÃO DA RODA

Segundo a nossa teoria, a roda não teria sido propriamente “inventada”. Assim como a evolução das espécies, ela teria surgido aos poucos, fruto de pequenas melhorias ao longo do tempo.

Esse é apenas um capítulo da longa – e ainda em curso – evolução da roda. Mais de cinco mil anos depois das contribuições dos mineradores dos Cárpatos, um mecânico de bicicletas em Paris criou os rolamentos de esferas – outra inovação que transformou o transporte sobre rodas.

Curiosamente, eles são, em essência, uma versão moderna dos antigos rolos: formam um anel ao redor do eixo e criam uma interface de rolagem entre o eixo e o cubo da roda, diminuindo o atrito.

No fim, isso mostra como a evolução da roda – assim como sua forma icônica – seguiu um caminho circular: sem começo claro, sem fim definido e repleto de revoluções silenciosas ao longo do tempo.


SOBRE O AUTOR

Kai James é professor de engenharia aeroespacial no Instituto de Tecnologia da Geórgia. 

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Saúde, dinheiro, moradia, Justiça e mais: como a IA pode mudar o futuro do Brasil

Série Tecnologia em Transformação, que integra os especiais temáticos de 150 anos do Estadão, ouve especialistas para mapear a revolução que ainda vem por aí – e explicar por que você não pode ficar fora dela

Por Henrique Sampaio – Estadão – 07/06/2025 

A inteligência artificial (IA) está infiltrada nas engrenagens invisíveis que movem decisões públicas e privadas no Brasil — do processamento de exames médicos ao combate a fraudes bancárias. E isso é só o começo. Com o boom dos últimos anos, a tecnologia promete reconfigurar profundamente os bastidores da vida cotidiana no País: diagnósticos médicos, decisões judiciais, concessões de crédito, operações de venda e locação de imóveis — diferentes processos serão permeados, em diferentes graus, por sistemas automatizados.

A promessa é de ganhos expressivos de produtividade, eficiência máxima, redução de custos, eliminação de gargalos e uma suposta “democratização” de bens e serviços — expressão recorrente no discurso dos entusiastas da IA. Mas, claro, há algumas “pedras” pelo caminho.

O Estadão ouviu especialistas na área para entender como a IA pode mudar o futuro do País. O resultado é esta reportagem especial em sete partes que ancora este Tecnologia em Transformação, o quarto capítulo da série de especiais temáticos que o jornal publicará até o fim de 2025, dentro das celebrações de seus 150 anos. Veja também: o “hub” de conteúdo, onde estão reunidas todas as notícias relacionadas ao aniversário do jornal, e os especiais República em transformação – em que discutimos saídas para a polarização política no País – e Economia em transformação, que aborda caminhos para o Brasil deixar de ser uma nação de renda média.

Um estudo da PwC aponta que a IA pode adicionar até 13 pontos porcentuais ao Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil até 2035, desde que sua implementação ocorra de forma responsável e com ampla confiança da sociedade e do mercado. Em um cenário global, o impacto potencial chega a 15 pontos, comparável à transformação econômica vivida na era da industrialização. No Brasil, só em 2025, estima-se que US$ 130 bilhões (cerca de R$ 715 bilhões) em receitas poderão mudar de mãos entre empresas como reflexo das mudanças tecnológicas.

Os desafios são proporcionais: extração de dados sensíveis, riscos de vieses socioeconômicos, ausência de regulação clara e dilemas ambientais são alguns deles.

A boa notícia é que o Brasil reúne vantagens competitivas, como uma base tecnológica sólida em setores como finanças, saúde, eleições e Justiça (veja mais abaixo), um ecossistema técnico qualificado, instituições de pesquisa consolidadas e uma população conectada. Mas ainda há um longo caminho a percorrer diante das escolhas que podem moldar seu futuro.

Para Patrícia Florissi, diretora técnica do Google Cloud, o País tem todos os elementos necessários para deixar de ser apenas consumidor de soluções estrangeiras e assumir um protagonismo global no desenvolvimento de IA. “A gente realmente tem a capacidade do capital humano e o acesso à tecnologia”, afirma. “Eu acho que o Brasil tem a possibilidade de se tornar a startup de IA generativa do futuro.”

Alavanca de transformação na saúde

Entre os setores mais impactados está a saúde. E, no caso brasileiro, a discussão vai além da automação de processos: ela se confunde com a própria missão de ampliar o acesso ao cuidado médico e combater desigualdades regionais.

Segundo a 28.ª edição da Global CEO Survey, que entrevistou mais de 4,7 mil líderes em mais de cem países, incluindo o Brasil, a IA tem gerado ganhos expressivos de eficiência no setor de saúde. Entre os CEOs brasileiros da área, 58% relataram aumento na produtividade dos funcionários com o uso de IA generativa, superando a média internacional de 52%. Além disso, 35% afirmaram já ter registrado crescimento nas receitas graças à adoção dessas tecnologias.

Na visão de Luiz Fernando Joaquim, sócio da Deloitte e especialistas em soluções de tecnologia para o setor de saúde, a IA terá um papel integrador, focado em eliminar a papelada, melhorando a organização de informações. A tecnologia será especialmente útil para antecipar diagnósticos e identificar padrões precoces, como possíveis casos de diabete ou câncer em estágios iniciais, além de reforçar práticas preventivas.

Esse raciocínio também guia o trabalho de Bruno Farias, cofundador da startup brasileira Neomed, que usa modelos do Google Cloud para acelerar o diagnóstico de doenças cardíacas. “Se a gente não começar a utilizar a IA para otimizar esses processos e direcionar o paciente certo para o atendimento certo, com critério, não é uma questão de alguém lucrar mais, é que o sistema vai colapsar. O modelo atual, como está, não se sustenta”, aponta.

Enquanto isso, no setor público, o Ministério da Saúde aposta na digitalização dos dados e na criação de um prontuário único nacional por meio do projeto Open Health. O objetivo é que esses dados circulem de forma segura entre diferentes níveis do Sistema Único de Saúde (SUS) e instituições privadas, permitindo que o histórico do paciente o acompanhe ao longo da vida. Isso também abre espaço para que a IA processe volumes maiores de dados clínicos, de forma mais rápida e padronizada, permitindo diagnósticos mais precisos e personalizados.

Por outro lado, a livre circulação de dados sensíveis de cidadãos também possibilita o uso indevido dessas informações para fins que prejudiquem os próprios pacientes, como discriminação em seguros, práticas abusivas de mercado ou exclusão de atendimentos com base em perfis de risco calculados por algoritmos.

Ao longo de quase um mês, o Estadão buscou entrevista com a Secretaria de Informação e Saúde Digital, responsável pela transformação digital do SUS. Embora a assessoria tenha indicado o interesse da pasta em responder à reportagem, não enviou as informações solicitadas nem concedeu entrevista até a conclusão deste texto.

‘Banco invisível’

A presença da IA na vida do brasileiro vai muito além da saúde. Silenciosamente, ela começa a transformar a forma como se obtém crédito, se decide uma causa na Justiça ou se busca um novo imóvel. Não é exagero dizer que, para boa parte da população, a IA vai interferir justamente nos pilares mais sensíveis da vida prática: dinheiro, moradia e Justiça.

No sistema financeiro, a transformação é visível e acelerada. “Hoje a IA está sendo muito aplicada para segurança, resiliência cibernética (capacidade de um sistema se proteger e se recuperar de ataques digitais) e análise de crédito. São áreas de maior prioridade para proteger o sistema financeiro e onde estão os maiores esforços dos bancos em tecnologia”, afirma Wagner Martin, vice-presidente da Veritran e mentor do Lift Lab, iniciativa do Banco Central.

Segundo Martin, o futuro passa pela combinação entre IA, Open Finance (compartilhamento autorizado de dados financeiros entre instituições) e Drex (a moeda digital brasileira), promovendo o que ele chama de “banco invisível”.

“As principais transformações estarão ligadas à potencialização do conceito de banco invisível, dos serviços não financeiros dentro da indústria e a oferta cada vez mais assertiva em tempo, forma e cliente.”

Na prática, de acordo com o especialista, o consumidor deve parar de interagir com produtos financeiros diretamente. Em vez de o cliente buscar um empréstimo ou financiamento ativamente, os sistemas passarão a fazer sugestões a ele com as melhores opções com base em seu histórico, renda, comportamento de consumo e metas futuras, como comprar um carro ou viajar. “A IA vai tornar a vida das pessoas mais simples”, acredita Martin.

IA sabe qual é a melhor casa para você

No mercado imobiliário, a automatização ganha contornos parecidos. Plataformas como a Kenlo já integram IA em todas as etapas do processo de compra, venda e locação, usando modelos do Google Cloud — é um setor que já tem grandes nomes como QuintoAndar e Loft. “A gente não cria soluções de IA para tentar cortar custos ou demitir corretores. Mas para potencializar o negócio, para fazer o empresário entender o que ele precisa para ser uma imobiliária melhor no mercado”, afirma Roberto Dariva, CEO da Kenlo.

Dariva reconhece que o setor enfrenta riscos como a reprodução de vieses socioeconômicos, algo que tenta mitigar com treinamento contínuo da IA pelos próprios corretores. “Se tiver o problema de viés, o próprio corretor pode entrar, dar sugestões e descartar os imóveis que achou que não faria sentido para aquele cliente, treinando novamente a IA.”

Justiça para todos

Já no campo jurídico, a promessa da IA é nivelar o acesso à informação e, com isso, reduzir desigualdades processuais. Segundo Marcelo Alcântara, diretor de produto do JusBrasil, a IA pode corrigir falhas comuns em peças processuais, acelerar a tramitação de causas e eliminar a vantagem antes restrita a certos profissionais. “Agora não importa se você é um advogado autônomo ou se você trabalha em um grande escritório de advocacia. A mesma informação, por mais complexa, está acessível a todo mundo.”

Ele acredita que a IA pode corrigir distorções do sistema que até então eram consideradas inevitáveis. “Pela primeira vez na história do Direito, independentemente do poder econômico, dos advogados, as partes vão conseguir apresentar argumentos jurídicos igualmente sólidos e bem fundamentados ao juiz”, diz. Segundo Alcântara, o nivelamento e o acesso a informações precisas podem ajudar a reduzir erros que levam a causas perdidas ou a atrasos processuais.

Em março, o JusBrasil lançou o Jus IA, um assistente jurídico alimentado com o acervo de mais de 1,2 bilhão de documentos públicos da empresa, estruturados e validados ao longo de 16 anos.

Direcionada a profissionais do Direito mas acessível a qualquer um, a ferramenta pode responder perguntas, criar documentos e analisar referências jurídicas. Por trás da tecnologia, estão múltiplos modelos de linguagem, combinando grandes modelos comerciais (como ChatGPT e Gemini) com um modelo próprio treinado com tecnologia nacional, em parceria com a startup paulista Maritaca AI.

O Supremo Tribunal Federal (STF) também já começou a adotar ferramentas baseadas em IA para agilizar a produção de documentos e a triagem de processos. Em dezembro de 2023, o tribunal lançou o MARIA, um módulo de apoio à redação automatizada criado em parceria com o JusBrasil.

A ferramenta é capaz de gerar minutas de ementas, elaborar relatórios em recursos extraordinários e fazer análises iniciais de petições. Segundo Alcântara, essa colaboração mostra como o Judiciário brasileiro tem se mostrado receptivo à tecnologia. “Há um trabalho realmente a quatro mãos para fazer a tecnologia funcionar melhor para o sistema”, diz. Ele destaca que, além de aumentar a produtividade, a IA pode ajudar a reduzir erros procedimentais e acelerar a tramitação de causas, com impactos diretos na prestação de Justiça.

Em 2024, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) identificou 147 sistemas de IA em uso ou em desenvolvimento no Judiciário brasileiro. Esses sistemas incluem desde classificadores automáticos de processos até ferramentas de apoio à redação de decisões e assistentes virtuais, com o objetivo de agilizar tarefas e reduzir a morosidade do setor. Embora o uso da IA generativa por magistrados e servidores ainda seja pouco frequente, o interesse é elevado, com ampla demanda por capacitação.

Desde setembro de 2024, a Advocacia-Geral da União (AGU) passou a usar IA generativa integrada ao seu sistema Super Sapiens para agilizar a gestão e a produção de documentos jurídicos e administrativos. A expectativa é de que o tempo economizado nessas tarefas rotineiras seja direcionado à análise jurídica e formulação de estratégias, otimizando o trabalho da instituição, que movimenta cerca de 16 milhões de processos por ano e, só em 2023, arrecadou em nome da União R$ 57,8 bilhões e evitou outros R$ 64,6 bilhões em despesas judiciais — os valores não são relacionados ao uso de IA em si, mas à atuação geral da AGU. São cifras que podem aumentar à medida que a tecnologia avança na instituição.

Aprendizado personalizado

Outras áreas estratégicas da sociedade brasileira podem ser transformadas pela inteligência artificial generativa, segundo Patrícia Florissi, do Google Cloud. Um dos setores mais promissores é a educação. Patrícia defende que cada estudante brasileiro tenha acesso a um tutor privado baseado em IA, capaz de oferecer um aprendizado personalizado.

“Que esse tutor entregasse um aprendizado personalizado para cada brasileiro, que ele entendesse quais são as deficiências do indivíduo e criasse um currículo que encontra o aluno onde ele está.” Para ela, a IA pode inverter a lógica atual, em que o aluno precisa se adaptar ao currículo e ao ritmo da escola. “Eu acho que o Brasil seria um país que poderia se beneficiar muito disso para diminuir o déficit do setor educacional.”

Outra frente destacada por Patrícia é o combate à fome. Ela relata sua atuação junto ao movimento Pacto Contra a Fome e aponta um problema central: “Uma das maiores dificuldades é conectar quem tem fome a quem tem algum alimento que possa combater essa fome e a outros agentes que podem transformar aquele alimento numa refeição”, diz. Ela defende que a IA generativa poderia articular essa rede de doadores, cozinhas solidárias e organizações de distribuição de forma mais eficiente e automatizada.

Coordenação geral e edição: Ana Carolina Sacoman e Bruno Romani; Editora de infografia: Regina Elisabeth Silva; Editores-assistentes de infografia: Adriano Araujo e William Mariotto; Design: Lucas Almeida; Infografista Multimídia: Gisele Oliveira e Lucas Thaynan; Head do núcleo de vídeos: Manuella Menezes; Subeditor do núcleo de vídeos: Everton Oliveira; Editor de fotografia: Clayton de Souza; Pesquisa de foto: Sérgio Neves; Editor Executivo de Economia, Negócios e Link: Ricardo Grinbaum; Editor do Link: Bruno Romani; Editor Executivo de Distribuição, Engajamento e Vídeo: Leonardo Cruz.

Saúde, dinheiro, moradia, Justiça e mais: como a IA pode mudar o futuro do Brasil – Estadão

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Por que 90% dos dados de internet que chegam ao Brasil passam por essa praia do Ceará

No local estão ancorados 16 cabos submarinos de fibra óptica, o maior número da América Latina

Camilla Veras Mota – Folha/BBC News Brasil – 21.jun.2025

O avanço das redes móveis como o 5G e o próprio conceito da computação “em nuvem” podem dar a impressão de que a infraestrutura por trás da internet hoje em dia é sem fio.

A realidade, contudo, é que ela é majoritariamente ligada por cabos.

Uma parte importante dessa rede está debaixo d’água: quase 600 cabos submarinos de fibra óptica conectam o mundo hoje, funcionando como uma espécie de espinha dorsal da internet.

Na praia do Futuro, em Fortaleza, 16 cabos submarinos ligam o Brasil a Europa, África, Caribe e EUA – Jade Queiroz – MTUR

É por meio deles que os dados viajam de um continente para outro —os filmes que você assiste pelos serviços de streaming, as fotos que compartilha pelas redes sociais, os arquivos que salva na nuvem.

No Brasil, a maioria dessas “rodovias” de informação chega por um mesmo lugar. Na praia do Futuro, em Fortaleza, 16 cabos submarinos ligam o país à Europa, à África, ao Caribe, aos EUA.

A concentração faz da capital cearense uma das cidades com maior quantidade de cabos submarinos ancorados no mundo.

Segundo a TeleGeography, consultoria que mantém uma base de dados sobre infraestrutura de telecomunicações, é a primeira na América Latina e a 17ª no mundo. Cingapura está no topo da lista, com 28 cabos.

“Fortaleza acolhe a grande maioria dos cabos submarinos que chegam ao Brasil e concentra perto de 90% do tráfego internacional que chega ou sai do país”, diz Antonio Moreiras, gerente de projetos e desenvolvimento do NIC.br, entidade que implementa as decisões do Comitê Gestor da Internet no Brasil e é responsável pela emissão e registro dos domínios “.br”.

Mapa mostra cabos submarinos ancorados no Brasil; capital cearense tem 16 cabos submarinos, maior número da América Latina – Reprodução/TeleGeography

A principal razão é geográfica: a cidade é um dos centros urbanos brasileiros mais próximos simultaneamente tanto dos EUA quanto da Europa e da África, diz Rodrigo Porto, professor titular de Telecomunicações da Universidade Federal do Ceará (UFC).

“A praia do Futuro, por sua vez, tem um leito oceânico estável, ou seja, sem muita movimentação de sedimentos no fundo, não é uma das regiões mais densamente povoadas da cidade e tem terrenos disponíveis para construção”, acrescenta o especialista.

Essa faixa do litoral é um dos principais destinos turísticos da cidade —é lá que estão as mega barracas procuradas por turistas e locais especialmente aos finais de semana.

A alta concentração de maresia, contudo, deixou a praia do Futuro às margens do processo de especulação imobiliária que transformou outras regiões da capital cearense nos últimos anos.

“E tem um fator hoje importante, que vem ganhando força, que é o fato de o Estado [do Ceará] ser um grande produtor de energia renovável, solar e eólica”, acrescenta Porto.

Esse conjunto de fatores, segundo o professor, consolidou Fortaleza como um hub de conectividade.

Dados do NIC.br mostram que a cidade ultrapassou recentemente o Rio de Janeiro e passou a ser a segunda com maior tráfego de dados pela internet entre as 38 cidades (ou “ponto de troca de tráfego”, no jargão do setor) acompanhadas pela entidade. A primeira é São Paulo.

Rodovias submarinas conectam os ‘cérebros’ da internet

Os cabos submarinos são como grandes rodovias que permitem que a informação circule com rapidez pela rede mundial de computadores.

Sua principal função é transportar dados entre data centers, que são, por sua vez, estruturas que operam como uma espécie de “cérebro” da internet.

É nessas instalações que empresas como Google, Meta, Netflix e Amazon armazenam dados. Por isso, são ambientes com níveis de segurança extremamente elevados.

Os centros de dados do Google, por exemplo, chegam a usar identificação biométrica da íris para controlar quem tem acesso a determinados espaços.

Em Fortaleza, atualmente seis data centers operam com níveis mais elevados de certificação de segurança, que garante que os equipamentos continuem a funcionar mesmo diante de intempéries climáticas severas e de falta de energia.

A BBC News Brasil visitou um deles, o da Angola Cables, que ocupa uma área de 3 mil metros quadrados a cerca de 850 metros da orla da praia do Futuro.

O espaço que abriga dezenas de armários de ferro com servidores de clientes é totalmente vedado e tem temperatura e umidade controladas 24 horas por dia.

O acesso é permitido a poucos funcionários, que precisam deixar equipamentos eletrônicos guardados em uma gaveta com chave antes de adentrar a porta giratória que liga os espaços do prédio.

Segundo a Empresa de Tecnologia da Informação do Ceará (Etice), há pelo menos outros três espaços como esse em construção, com investimentos previstos em R$ 2,1 bilhões.

Além de um megaempreendimento com investimento previsto de R$ 50 bilhões que deve ser erguido na região do porto do Pecém, próxima à Fortaleza, para abrigar um data center que, conforme noticiou recentemente a agência de notícias Reuters, estaria gerando interesse em grandes empresas de tecnologia como a chinesa ByteDance, dona do TikTok.

À reportagem, o TikTok afirmou que no momento não confirma nem nega a informação.

A Casa dos Ventos, responsável pelo projeto, disse que o início da construção está previsto para o segundo semestre de 2025 e que a expectativa é que o complexo entre em operação em 2027.

Como funciona a internet

A estrutura que a reportagem visitou é também estação de desembarque de um dos 16 cabos que chegam a Fortaleza, no caso, o que vem de Angola.

Depois de viajar milhares de quilômetros pelo fundo mar —quando um navio literalmente foi desenrolando o fio de um carretel e posicionando o cabo no leito oceânico pelo caminho, a profundidades que chegaram a milhares de metros—, ele foi aterrado na praia do Futuro até alcançar o interior do prédio do data center, de onde foi conectado à rede interna do país em 2018.

A parte visível dele fica dentro de um armário de ferro protegido na área controlada do prédio.

Os data centers são um pedaço da enorme infraestrutura física responsável por manter a internet em funcionamento.

É desses centros de armazenamento que os dados viajam, também por uma malha de cabos, até finalmente chegarem às redes sem fio de wi-fi ou às redes móveis de 4G/5G que hoje geralmente entregam a informação ao usuário final.

É o que acontece, por exemplo, quando o assinante de um serviço como a Netflix clica em um filme na plataforma.

O período que o site leva para carregar o arquivo é o tempo de o dado sair de um dos data centers onde a Netflix guarda seu catálogo —nesse caso, aquele que for mais próximo de onde mora o usuário—, percorrer os fios de fibra óptica até a vizinhança do assinante e ser distribuído pelo wi-fi ou a rede de telefonia móvel para uma televisão ou um celular.

Caso o filme que o usuário escolheu não esteja em um data center no Brasil, ele primeiro viaja de outro continente pelo cabo submarino até o território nacional para depois fazer esse caminho.

Tudo isso geralmente acontece em menos de um segundo, graças à tecnologia da fibra óptica, por onde a informação viaja em velocidade próxima à da luz.

“A nuvem é só uma imagem que a gente usa, mas, na verdade, tudo é engenharia, tudo tem meio físico, tem equipamento”, comenta o professor Rodrigo Porto.

Cerca de 97% dos dados que circulam de um continente para outro trafegam pelos cabos submarinos, conforme os registros da Agência Europeia para a Segurança das Redes e da Informação (Enisa) repassados à reportagem pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

Os satélites correspondem apenas por uma fração dos 3% restantes. Segundo Porto, eles hoje desempenham mais um papel complementar, para chegar a regiões remotas, onde a infraestrutura de fibra óptica não está presente.

E se o cabo submarino der defeito?

Os cabos submarinos têm uma vida útil média de 25 anos, quando geralmente são substituídos, em operações que custam centenas de milhões de dólares.

Antes disso, contudo, estão sujeitos a problemas técnicos —e até a sabotagem.

Mergulhadores conseguem fazer reparos em regiões costeiras, diz Porto, mas caso a pane aconteça em grandes profundidades, a alternativa pode ser enviar um robô ou pinçar o cabo de volta à superfície para que um técnico possa fazer o serviço necessário.

“É realmente bem complexo”, comenta o professor, emendando que, dada sua importância, os cabos têm ganhado protagonismo na geopolítica global e virado inclusive alvo de ações militares.

Nos últimos dois anos, desde o início da invasão da Ucrânia pela Rússia, pelo menos 11 cabos submarinos no mar Báltico foram danificados, sob suspeita de sabotagem por parte das Forças Armadas russas.

No caso dos cabos ancorados na praia do Futuro, para ficar no exemplo ilustrativo da Netflix, caso houvesse problema em um deles, uma possível consequência poderia ser a demora para atualizar o cardápio de filmes e séries, já que a transmissão de dados entre continentes seria prejudicada.

O transtorno não seria maior porque boa parte do tráfego de internet no Brasil tem origem no próprio país, algo entre 70% e 80%, conforme os dados do NIC.br.

“Haveria impacto principalmente nas conexões que dependem de servidores fora do país”, explica Antonio Moreiras, gerente de projetos e desenvolvimento da entidade.

“A maior parte do vídeo, da rede social e do cloud seguiria fluindo normalmente, graças ao IX.br”, acrescenta, referindo-se à infraestrutura da internet brasileira.

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Com drones e carros voadores, ‘economia de baixa altitude’ da China decola

Autoridades encontram nova indústria e querem que empresas chinesas a dominem

Folha/The Economist – 13.jun.2025 

O coração da repórter disparou quando a porta se fechou com um baque. Ela estava sozinha no elegante veículo de dois lugares, mas nervosa demais para aproveitar o estofado de couro e as janelas panorâmicas. As 16 hélices dispostas em círculo ao redor da cabine começaram a girar e, então, a aeronave elétrica de decolagem e pouso vertical (também chada de eVTOL) —na prática, um carro voador autônomo— começou a subir suavemente. Ela alcançou cerca de 50 metros de altura, revelando a paisagem de guindastes e docas de um bairro industrial de Guangzhou (China), antes de pousar novamente no mesmo local, na sede da EHang, empresa que a fabrica.

A EHang convidou The Economist para testar o veículo, logo após uma influenciadora e antes de um investidor da empresa. Mas, em março, a EHang se tornou a primeira fabricante de eVTOL do mundo a obter licença para operar voos comerciais com passageiros. A empresa pretende começar a oferecer voos em breve, em Guangzhou e em outra cidade grande, Hefei.

Os carros voadores ainda estão decolando lentamente, mas as entregas por drones já voam alto em partes da China. Em Shenzhen, numa tarde de primavera, poucos funcionários que saíam de arranha-céus pareciam impressionados ao formar fila num quiosque operado pelo aplicativo de entregas Meituan. Apenas uma, Huang Jieling, demonstrou surpresa ao saber que seu almoço seria entregue por drone. As refeições saem pela frente do quiosque, após os clientes digitarem os quatro últimos dígitos do celular, enquanto drones despejam chá, macarrão e arroz com frango por uma escotilha no teto.

“Não imaginei que comida tão barata fosse entregue por drones”, admitiu Huang, de 24 anos, funcionária do setor de comércio eletrônico.

Drones de entrega e carros voadores ainda soam como ficção científica na maior parte do mundo, embora em alguns lugares já existam testes e protótipos. A americana Walmart, por exemplo, já realizou 150 mil entregas por drone desde 2021. Mas, na China, essas tecnologias começam a fazer parte do cotidiano. O governo as promove ativamente como parte da estratégia de desenvolver uma “economia de baixa altitude”: um setor voltado ao uso de aeronaves que voam abaixo de mil metros (bem abaixo da aviação comercial), oferecendo uma série de novos serviços. A ideia é que o país lidere essa indústria futurista, assim como já lidera a produção de veículos elétricos.

VELOCIDADE DE DOBRA

A economia de baixa altitude ainda é pequena, mas cresce rápido. A autoridade chinesa de aviação civil estima que o setor movimentará 1,5 trilhão de yuans (R$ 1,1 trilhão) até o fim de 2025, e 3,5 trilhões até 2035. Só a Meituan entregou mais de 200 mil refeições por drone em 2024, quase o dobro do ano anterior. As ações da EHang subiram cerca de 50% em dois anos —e ela é apenas uma entre diversas fabricantes. “Até 2030, a China terá pelo menos 100 empresas de eVTOL”, afirmou Luo Jun, diretor da Aliança Chinesa da Economia de Baixa Altitude, em conferência realizada em abril, em Pequim. No fim de 2024, o país já contava com 2,2 milhões de drones civis em operação, um salto de 455% em cinco anos.

ANTIGRAVIDADE

Drones estão por toda parte. Em 2023, cerca de 2,7 milhões de pacotes foram entregues por drones na China (sem contar refeições). O serviço postal estatal os usa para alcançar ilhas da província de Fujian. Cidades inteiras já transportam bolsas de sangue para hospitais com drones. No campo, 250 mil drones aplicam fertilizantes e pesticidas. Outros combatem incêndios em prédios altos, monitoram o tráfico de drogas nas fronteiras e levam exames médicos a laboratórios.

Essa proliferação reflete o incentivo oficial. No início de 2023, o primeiro-ministro Li Qiang classificou a economia de baixa altitude como motor de crescimento nacional, ao lado da inteligência artificial e da computação quântica. Isso sinalizou a todos —burocratas, investidores e empresários— que drones e carros voadores seriam prioridade do Partido Comunista.

Em dezembro, a poderosa agência nacional de planejamento criou um departamento exclusivo para o setor, algo raro: outras divisões têm missões amplas como “defesa nacional” ou “emprego”. O novo departamento já articulou reuniões entre ministérios sobre segurança, desenvolvimento de negócios e construção de infraestrutura.

Shenzhen, na China, administra a chamada economia de baixa altitude, em que drones entregam comida, remédio e até sangue para transfusão 

Como a maior parte do espaço aéreo chinês é controlada por militares ou sujeito a restrições, é surpreendente ver o país flexibilizar normas para aeronaves de baixa altitude. Seis cidades, entre elas Shenzhen e Hefei, ganharam certa autonomia para liberar o espaço abaixo de 600 metros para uso comercial.

A mensagem está sendo entendida. Em 2024, seis universidades criaram cursos superiores de “tecnologia e engenharia de baixa altitude”. Governos locais, pressionados pela queda de receita com a crise imobiliária, veem na nova economia uma chance de atrair investimentos. Em abril, representantes da cidade de Mianyang, no sudoeste montanhoso do país, promoveram seu território como destino ideal para o setor. Abalada por terremotos em 2008, a cidade quer usar drones tanto para estimular a economia quanto para acelerar o socorro a áreas remotas. Prometem subsídios, mão de obra qualificada e regras flexíveis: “Tudo o que você precisa para voar é se registrar com 20 minutos de antecedência.”

A busca por receitas criou polêmicas. O condado de Pingyin, na província de Shandong, vendeu “direitos de franquia da economia de baixa altitude” por 924 milhões de yuans (R$ 711 milhões). Alguns elogiaram a criatividade; outros zombaram: “O próximo passo é vender o ar”, disse um internauta. As autoridades esclareceram que a transação dizia respeito apenas a terminais de aeronaves em dois aeroportos locais, e não ao espaço aéreo público nacional.

Shenzhen, que liderou a abertura econômica da China nos anos 1980, hoje é também vanguarda da economia de baixa altitude. A cidade criou centenas de rotas fixas para drones, com quase 500 terminais de pouso e decolagem. Expandiu a rede 5G para garantir conexão estável até 120 metros de altura. Resultado: mais de 776 mil entregas por drone foram feitas em 2023. Um fundo municipal investe diretamente em empresas do setor.

A Meituan iniciou operações em Shenzhen em 2019, aproveitando um projeto-piloto. No começo, seus funcionários precisavam bater de porta em porta para convencer moradores, Força Aérea e autoridades de segurança. Hoje, a aprovação de uma nova rota leva dias, não meses. “A visão é termos milhares de pontos de coleta e entrega numa cidade como Shenzhen”, diz Mao Yinian, executivo da empresa.

No centro de controle da Meituan, às 14h, o pico do almoço começa a ceder. Um painel mostra 41 drones ainda voando; nos horários de maior movimento, há mais de 100 no ar. Para evitar colisões, os drones seguem rotas exclusivas e usam sensores para detectar obstáculos. Em áreas com tráfego aéreo compartilhado, como a Grande Muralha, empresas trocam planos de voo com antecedência. Shenzhen também planeja um centro de comando próprio para coordenar o uso do espaço aéreo.

Desde 2021, a Meituan já fez mais de 520 mil entregas por drone. A meta é que 10% de todos os pedidos sejam entregues por via aérea em 5 a 10 anos. No dia mais movimentado de 2023, foram 98 milhões de pedidos —10% disso seriam 10 milhões de entregas aéreas por dia.

Mesmo os carros voadores, ainda incipientes, foram impulsionados pelo aval do Partido. Diversas montadoras chinesas tentam desenvolvê-los. A Xpeng criou um veículo elétrico com seis rodas que carrega um eVTOL no porta-malas. Pretende vendê-lo por menos de 2 milhões de yuans (R$ 1,5 milhão) a partir do próximo ano. Já há 4 mil pedidos. A ideia é montar redes de pistas específicas, diz Wang Tan, da subsidiária AeroHT, embora ainda faltem aprovações regulatórias.

O valor de startups de eVTOL disparou. Montadoras estatais exibem protótipos. A Hongqi, fabricante dos carros de luxo usados pela elite do Partido, criou o Tiannian 1: um modelo híbrido que pode rodar ou voar.

TRÁFEGO TRIDIMENSIONAL

Em seu apartamento em arranha-céu, Hu Huazhi, CEO da EHang, critica o trânsito terrestre “0,5 dimensional” e exalta a liberdade aérea em três dimensões. Mesmo com poucas horas de sono, ele fala com entusiasmo. Dá o exemplo de Pequim: são 30km entre os extremos do quinto anel viário. Leva-se uma hora de carro, mas só dez minutos voando. “Voos curtos dentro das cidades serão o maior mercado do futuro”, afirma.

Voar por Pequim ainda é sonho: o espaço aéreo da capital é fortemente controlado. No momento, a EHang foca em passeios turísticos que decolam e pousam no mesmo local. Ainda assim, governos locais e empresas estatais já compraram 216 unidades em 2023, de olho no turismo. O caminho regulatório para voos regulares, no entanto, ainda é longo.

A China costuma escolher setores estratégicos para impulsionar. Já fez isso com a “economia do gelo e da neve” (esportes de inverno) e com a “economia prateada” (envelhecimento). Às vezes, o entusiasmo supera os resultados. Mas analistas acreditam que a economia de baixa altitude tem fundamentos sólidos.

Primeiro, porque drones e eVTOLs aproveitam forças industriais já consolidadas. A China lidera na produção de baterias e veículos elétricos. “A razão de termos tanta força agora é que acumulamos muito com carros elétricos”, afirmou Qiao Dong, da Yunhe Capital.

Além disso, os reguladores chineses, apesar de autoritários, têm sido ágeis. Hoje, são os próprios burocratas que procuram a Meituan para propor novas rotas. As regras vão sendo ajustadas conforme o setor evolui. Isso permite menos rigidez do que no Ocidente. Segundo a consultoria McKinsey, 86% dos consumidores chineses apoiam a entrega por drone; nos EUA, só 53%.

Resultado: as empresas chinesas conseguem desenvolver e lançar produtos mais rápido. A EHang foi criada cinco anos depois da americana Joby, mas já opera voos comerciais. “Podemos iterar mais rápido e ganhar experiência com voos reais”, diz Hu. Já Robin Riedel, da McKinsey, diz que, enquanto ocidentais prezam pela qualidade, os chineses priorizam velocidade: “Há mais disposição para experimentar na China”.

O novo governo dos EUA parece preocupado. Recentemente, editou um decreto para acelerar o uso de drones e eVTOLs, com o objetivo explícito de conter a concorrência externa. Há intenso debate na China sobre se o país poderá ultrapassar os rivais ocidentais nesse setor, como já fez com os carros elétricos.

Entretanto, há alertas internos contra o excesso de entusiasmo. A agência nacional de planejamento pediu que a expansão seja coordenada em nível nacional —”um país, um tabuleiro de xadrez”. A mídia estatal advertiu contra “modismos cegos” e infraestrutura redundante.

Se as entregas por drone já mostram viabilidade econômica, o mesmo ainda não se pode dizer dos eVTOLs. Muitas startups ocidentais quebraram. Na China, boa parte do financiamento vem de fundos estatais, mais atentos às diretrizes políticas do que à lógica de mercado. Mas, mesmo que o retorno financeiro demore, é certo que os céus da China verão cada vez mais drones e carros voadores.

Como resume Hu, da EHang: “Já estamos vivendo a era futurista retratada nos filmes de ficção científica”

A ‘economia de baixa altitude’ da China decola, via drone – 13/06/2025 – Mercado – Folha

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Embraer quer quase dobrar produção de aviões para enfrentar Airbus e Boeing

Por Carlos Martins – aeroin.net – 10 de junho de 2025

Dois aviões Embraer E195-E2 lado a ladoDivulgação – Embraer

A brasileira Embraer planeja aumentar sua produção de aviões comerciais de 73 para 120 unidades por ano, em meio à crescente demanda das companhias aéreas por mais concorrência no setor, hoje dominado pelo duopólio Boeing-Airbus.

Terceira maior fabricante de aeronaves do mundo, a Embraer se destaca na aviação regional, com jatos de 50 a 146 assentos, como os modelos da família E-Jets E2.

Em entrevista ao jornal indiano Economic Times, o CEO Francisco Gomes Neto confirmou os planos de crescimento. “Neste ano, pretendemos entregar entre 75 e 80 aviões comerciais. Nossa meta é elevar a produção para algo entre 110 e 120 por ano”, disse.

Além disso, a fabricante estuda lançar um projeto totalmente novo — conhecido como clean sheet design, ou “projeto de folha em branco” — que não aproveita fuselagens anteriores e permite o uso das tecnologias mais modernas em aerodinâmica, motores e materiais, como aponta o portal Aviacionline, parceiro do AEROIN.

Apesar de não confirmar se se trata de um novo jato de passageiros, fontes da indústria apontam para um possível modelo narrow-body (fuselagem estreita / corredor único) de nova geração que concorreria diretamente com os consagrados Airbus A320 e Boeing 737.

Pode ser um novo jato comercial ou executivo, maior ou menor do que temos hoje”, disse Gomes Neto, deixando amplamente aberto o leque de opções. Segundo ele, a empresa está em conversas com fabricantes de motores e avaliando diferentes tipos de asas. “Queremos garantir que, se construirmos um novo produto, ele esteja preparado para as próximas duas ou três décadas.”

O movimento da Embraer acontece enquanto a Airbus já estaria desenvolvendo seu próprio jato narrow-body de nova geração, previsto para estrear na segunda metade da década de 2030.

Embraer quer quase dobrar produção de aviões para enfrentar Airbus e Boeing

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As Novas Lições do CEO da Amazon sobre IA

Entrelinhas, por Junior Bornelijun 18, 2025

Imagine estar no comando de uma das maiores empresas do mundo… e perceber que tudo vai mudar. Foi exatamente isso que Andy Jassy, CEO da Amazon, compartilhou em sua nova carta sobre inteligência artificial.

Segundo ele, a IA generativa é uma daquelas tecnologias que surgem uma vez por geração — como a chegada da internet. Ela vai reinventar produtos, serviços, a forma como trabalhamos… e quem vai trabalhar. A Amazon já tem mais de mil projetos com IA em andamento — de assistentes como a Alexa+, passando por robôs logísticos, até ferramentas para vendedores e anunciantes. E isso é só o começo.

A próxima grande revolução está nos agentes de IA — sistemas que pensam, pesquisam, traduzem, escrevem e agem por nós. Eles serão onipresentes. Milhões deles, dentro e fora da empresa. Isso significa menos tarefas operacionais, mais eficiência… e uma reorganização profunda.

E aqui vem a lição mais importante da carta:

“Não importa o cargo. Quem dominar IA, for curioso, aprender rápido e entregar resultado real, vai liderar a nova era da Amazon.”

Jassy faz um convite direto aos seus times: trabalhe em grupos menores, teste, erre rápido, aprenda mais rápido ainda — e esteja pronto para reinventar a empresa. Porque o futuro está batendo na porta. E só vai entrar quem estiver pronto pra ele.


As 10 Lições Mais Relevantes da Carta de Andy Jassy

  1. A IA generativa é uma tecnologia única na vida
    Ela está para esta geração como a internet esteve para a anterior: transformadora.
  2. Já existem mais de 1.000 projetos de IA em andamento na Amazon
    A adoção não é conceitual — é prática, intensa e crescente.
  3. A nova Alexa+ é apenas o começo
    A Amazon quer agentes que façam tarefas inteiras por você, com comandos naturais.
  4. IA será aplicada em todas as áreas da empresa
    De logística a marketing, de atendimento a recomendação de produtos.
  5. Os agentes de IA serão a próxima grande onda
    Eles irão interagir, agir e decidir em nosso lugar — em escala massiva.
  6. Trabalhos serão transformados — e muitos, eliminados
    A IA vai gerar eficiência, mas também mudanças estruturais na força de trabalho.
  7. Trabalhar como uma startup é a chave
    Equipes menores, ágeis, com liberdade para experimentar e errar rápido.
  8. Curiosidade será mais valiosa que cargo
    Quem for curioso e se adaptar à IA vai crescer. Quem esperar, ficará para trás.
  9. A cultura da Amazon precisa evoluir com a IA
    A obsessão pelo cliente continua, mas agora com IA como catalisador.
  10. Reinvenção será o novo normal
    Não se trata de adotar IA. Trata-se de repensar tudo com IA no centro.

As Novas Lições do CEO da Amazon sobre IA

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Essa empresa quer acabar com seu emprego usando IA; conheça os planos

A Mechanize, uma startup de São Francisco, está desenvolvendo ferramentas de inteligência artificial para automatizar trabalhos administrativos “o mais rápido possível”

Por Kevin Roose – Estadão/The New York Times – 17/06/2025 

Anos atrás, quando comecei a escrever sobre os esforços do Vale do Silício para substituir trabalhadores por inteligência artificial (IA), a maioria dos executivos de tecnologia pelo menos tinha a decência de mentir sobre isso.

“Não estamos automatizando os trabalhadores, estamos aprimorando-os”, diziam os executivos. “Nossas ferramentas de IA não destruirão empregos. Elas serão assistentes úteis que libertarão os trabalhadores de tarefas rotineiras e enfadonhas.”

É claro que frases como essas — que muitas vezes tinham como objetivo tranquilizar os trabalhadores nervosos e encobrir os planos de automação das empresas — diziam mais sobre as limitações da tecnologia do que sobre os motivos dos executivos. Naquela época, a IA simplesmente não era boa o suficiente para automatizar a maioria dos empregos e certamente não era capaz de substituir trabalhadores com formação superior em setores de colarinho branco, como tecnologia, consultoria e finanças.

Isso está começando a mudar. Alguns dos sistemas de IA atuais podem escrever software, produzir relatórios de pesquisa detalhados e resolver problemas complexos de matemática e ciências. Os novos “agentes” de IA são capazes de realizar longas sequências de tarefas e verificar seu próprio trabalho, da mesma forma que um ser humano faria. E embora esses sistemas ainda estejam aquém dos seres humanos em muitas áreas, alguns especialistas estão preocupados que o recente aumento do desemprego entre os graduados universitários seja um sinal de que as empresas já estão usando a IA como substituto para alguns trabalhadores iniciantes.

Na última semana, tive um vislumbre de um futuro pós-trabalho em um evento realizado em São Francisco pela Mechanize, uma nova startup de IA que tem a meta audaciosa de automatizar todos os empregos — o seu, o meu, os de nossos médicos e advogados, das pessoas que escrevem nossos softwares, projetam nossos edifícios e cuidam de nossos filhos.

“Nosso objetivo é automatizar totalmente o trabalho”, disse Tamay Besiroglu, 29, um dos fundadores da Mechanize. “Queremos chegar a uma economia totalmente automatizada e fazer isso acontecer o mais rápido possível.”

O sonho da automação total não é novo. John Maynard Keynes, economista, previu na década de 1930 que as máquinas automatizariam quase todos os empregos, criando abundância material e deixando as pessoas livres para perseguir suas paixões.

É claro que isso nunca aconteceu. Mas os recentes avanços na IA reacenderam a crença de que a tecnologia capaz de automatizar o trabalho em massa está próxima. Dario Amodei, diretor executivo da Anthropic, alertou recentemente que a IA poderia substituir até metade de todos os empregos de nível básico em escritórios nos próximos cinco anos.

A Mechanize é uma das várias startups que trabalham para tornar isso possível. A empresa foi fundada este ano por Besiroglu, Ege Erdil e Matthew Barnett, que trabalharam juntos na Epoch AI, uma empresa de pesquisa que estuda as capacidades dos sistemas de IA.

Ela atraiu investimentos de líderes tecnológicos renomados, incluindo Patrick Collison, fundador da Stripe, e Jeff Dean, cientista-chefe de IA do Google. Agora, ela tem cinco funcionários e está trabalhando com empresas líderes em IA. (Ela se recusou a dizer quais, alegando acordos de confidencialidade.)

A abordagem da Mechanize para automatizar tarefas usando IA está focada em uma técnica conhecida como aprendizado por reforço — o mesmo método que foi usado para treinar um computador a jogar o jogo de tabuleiro Go em um nível sobre-humano há quase uma década.

Hoje, as principais empresas de IA estão usando o aprendizado por reforço para melhorar os resultados de seus modelos de linguagem, realizando cálculos adicionais antes de gerar uma resposta. Esses modelos, frequentemente chamados de modelos de “pensamento” ou “raciocínio”, tornaram-se impressionantemente bons em algumas tarefas específicas, como escrever código ou resolver problemas matemáticos.

“Só saberemos realmente que tivemos sucesso quando criarmos sistemas de IA capazes de assumir quase todas as responsabilidades que um ser humano poderia desempenhar em um computador”, escreveu a empresa em uma publicação 

Mas a maioria dos trabalhos envolve mais de uma tarefa. E os melhores modelos de IA atuais ainda não são confiáveis o suficiente para lidar com cargas de trabalho mais complicadas ou navegar em sistemas corporativos complexos.

Para resolver isso, a Mechanize está criando novos ambientes de treinamento para esses modelos — essencialmente, testes elaborados que podem ser usados para ensinar aos modelos o que fazer em um determinado cenário e avaliar se eles tiveram sucesso ou não.

Para automatizar a engenharia de software, por exemplo, a Mechanize está construindo um ambiente de treinamento que se assemelha ao computador que um engenheiro de software usaria — uma máquina virtual equipada com uma caixa de entrada de e-mail, uma conta Slack, algumas ferramentas de codificação e um navegador da web. Um sistema de IA é solicitado a realizar uma tarefa usando essas ferramentas. Se for bem-sucedido, recebe uma recompensa. Se falhar, recebe uma penalidade. Em seguida, tenta novamente. Com tentativas e erros suficientes, se a simulação foi bem projetada, a IA deve eventualmente aprender a fazer o que um engenheiro humano faz.

“É efetivamente como criar um videogame muito chato”, disse Besiroglu.

A Mechanize está começando com programação de computadores, uma ocupação em que o aprendizado por reforço já se mostrou promissor. Mas ela espera que a mesma estratégia possa ser usada para automatizar trabalhos em muitos outros campos de colarinho branco.

“Só saberemos realmente que tivemos sucesso quando criarmos sistemas de IA capazes de assumir quase todas as responsabilidades que um ser humano poderia desempenhar em um computador”, escreveu a empresa em uma postagem recente no blog.

Tenho algumas dúvidas sobre se a abordagem da Mechanize funcionará, especialmente para trabalhos não técnicos, nos quais o sucesso e o fracasso não são tão facilmente mensuráveis. (O que significaria, por exemplo, para uma IA “ter sucesso” como professora do ensino médio? E se seus alunos fossem bem em testes padronizados, mas fossem todos infelizes e desmotivados? E se a professora de IA aprendesse a manipular as recompensas, fornecendo as respostas corretas aos alunos, na esperança de melhorar suas notas nos testes?)

Os fundadores da Mechanize não são ingênuos quanto à dificuldade de automatizar trabalhos dessa forma. Barnett me disse que sua melhor estimativa era que a automação total levaria de 10 a 20 anos. (Erdil e Besiroglu esperam que leve de 20 a 30 anos.)

Esses são prazos conservadores, para os padrões do Vale do Silício. E eu aprecio que, ao contrário de muitas empresas de IA que trabalham com tecnologia de substituição de mão de obra a portas fechadas, a Mechanize seja sincera sobre o que está tentando fazer.

Mas também achei sua apresentação estranhamente desprovida de empatia pelas pessoas cujos empregos estão tentando substituir e indiferente quanto à questão de saber se a sociedade está pronta para uma mudança tão profunda.

Besiroglu disse acreditar que a IA acabaria criando uma “abundância radical” e riqueza que poderia ser redistribuída aos trabalhadores demitidos, na forma de uma renda básica universal que lhes permitiria manter um alto padrão de vida.

Mas, como muitas empresas de IA que trabalham com tecnologia de substituição de mão de obra, a Mechanize não tem propostas políticas inovadoras para ajudar a suavizar a transição para uma economia impulsionada pela IA, nem ideias brilhantes sobre a expansão da rede de segurança social ou a requalificação dos trabalhadores para novos empregos — apenas o objetivo de tornar os empregos atuais obsoletos o mais rápido possível.

A certa altura durante a sessão de perguntas e respostas, eu me manifestei para perguntar: é ético automatizar todo o trabalho?

Barnett, que se descreveu como libertário, respondeu que sim. Ele acredita que a IA acelerará o crescimento econômico e estimulará avanços que salvarão vidas na medicina e na ciência, e que uma sociedade próspera com automação total seria preferível a uma economia de baixo crescimento onde os humanos ainda tivessem empregos.

“Se a sociedade como um todo se tornar muito mais rica, acho que isso supera as desvantagens das pessoas perderem seus empregos”, disse Barnett.

Pelo menos eles estão sendo honestos.

Essa empresa quer acabar com seu emprego usando IA; conheça os planos – Estadão

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Uso de terras-raras como arma muda contornos do campo de batalha na guerra comercial

Por Reuters — Valor – 07/06/2025


Há mais de 15 anos, a China sinaliza a intenção de usar partes da cadeia mundial de suprimentos como armas, uma estratégia inspirada nos controles sobre as exportações que os Estados Unidos aplicam há tempos e que Pequim entende como forma de conter sua ascensão.

A corrida nas últimas semanas para garantir licenças de exportação de terras-raras, que culminou na ligação telefônica, na quinta-feira (5), entre os líderes Donald Trump e Xi Jinping, mostra que a China desenvolveu uma arma ainda melhor e de precisão mais cirúrgica para a guerra comercial.

Executivos do setor e analistas dizem que, embora a China venha dando sinais de aprovar mais exportações desses minerais cruciais, ela não vai desmantelar seu novo sistema.

Inspirado no esquema dos próprios EUA, o sistema de licenciamento de exportações de Pequim permite ao país controlar de uma forma sem precedentes os gargalos das empresas em inúmeras áreas, desde motores para veículos elétricos (VEs) até sistemas de controle de voo para mísseis guiados.

“A China se inspirou originalmente nos métodos de controle de exportação do abrangente esquema de sanções dos EUA”, disse Zhu Junwei, pesquisador do Grandview Institution, um centro de estudos de Pequim especializado em relações internacionais.

“A China vem tentando construir seu próprio sistema de controle de exportações desde então, para ser usado como último recurso.”

Após a ligação de quinta-feira, Trump disse que os dois líderes estavam “esclarecendo alguns pontos, em sua maioria relacionados a ímãs de terras raras e algumas outras coisas”.

Ele não disse se a China se comprometeu a acelerar a emissão de licenças para exportação de ímãs de terras raras, após Washington ter restringido as exportações de softwares de design de chips e turbinas de avião para Pequim, em resposta a uma acusação americana de demora deliberada nas licenças.

A China detém quase um monopólio sobre os ímãs de terras raras, um componente crucial nos motores de VEs.

Em abril, o país adicionou algumas exigências mais elaboradas à lista de controle de exportações em sua guerra comercial com os EUA, obrigando todos os exportadores a solicitarem licenças a Pequim.

As novas medidas colocaram um departamento pouco conhecido do Ministério do Comércio da China, com cerca de 60 funcionários, no controle de um gargalo crucial da indústria mundial.

O ministério chinês não respondeu de imediato às perguntas enviadas por fax pela “Reuters”.

Nesta semana, vários fornecedores europeus de autopeças paralisaram linhas de produção após ficarem sem suprimentos. Embora as restrições de abril coincidam com um pacote mais amplo de retaliações às tarifas dos EUA, as medidas têm aplicação mundial.

“A China tem um certo grau de negação plausível, ninguém pode provar que ela está fazendo isso de propósito”, disse Noah Barkin, assessor sênior do Rhodium Group, um centro de estudos americano especializado em China.

“Mas o ritmo das aprovações é um sinal bastante claro de que a China está enviando um recado, exercendo pressão para impedir que as negociações comerciais com os EUA levem a mais controles sobre a tecnologia.”

A China minera cerca de 70% das terras raras do mundo, mas detém um monopólio quase completo sobre o refino e o processamento.

Mesmo que o ritmo das aprovações de exportação aumente, como sinalizou Trump, o novo sistema permite que Pequim tenha uma visão sem precedentes sobre como as empresas na cadeia de suprimentos usam as terras raras processadas pela China, alertam executivos europeus e americanos.

Outros governos não têm acesso a essas informações, em razão da complexidade das cadeias de suprimento.

Por exemplo, acredita-se que centenas de fornecedores japoneses precisarão que a China aprove licenças de exportação de ímãs de terras raras nas próximas semanas para evitar interrupções na produção, segundo uma fonte que fez lobby junto a Pequim em nome deles.

“É como se a China estivesse afiando um bisturi [tal a precisão de suas ações]”, disse um executivo com sede nos EUA, de uma empresa que tenta montar uma cadeia alternativa de suprimentos e não quis ter o nome divulgado.

“Não é uma forma de supervisionar a exportação de ímãs, mas de ganhar influência e vantagem sobre os EUA.”

Décadas em gestação

Os temores de que a China pudesse transformar sua força na cadeia de suprimentos internacional em arma surgiram pela primeira vez após ter proibido as exportações de terras raras ao Japão de forma temporária, em 2010, por uma disputa territorial.

Já em 1992, o ex-líder chinês Deng Xiaoping era citado dizendo “o Oriente Médio tem petróleo, a China tem terras raras”.

A decisiva Lei de Controle das Exportações da China, de 2020, ampliou as restrições, que passaram a cobrir qualquer item considerado capaz de afetar a segurança nacional, desde bens e materiais críticos até tecnologia e dados.

Desde então, a China construiu sua própria capacidade de impor sanções, enquanto investe o equivalente a bilhões de dólares no desenvolvimento de alternativas em resposta às políticas dos EUA.

Em 2022, os EUA impuseram amplas restrições à venda de chips semicondutores avançados e ferramentas para a China, por receios de que a tecnologia impulsionasse o poderio militar de Pequim.

A medida, contudo, não impediu o desenvolvimento chinês de chips avançados e da inteligência artificial (IA), segundo analistas.

A China revidou um ano depois, adotando o sistema de licenças de exportação para o gálio, germânio e alguns produtos de grafite. As exportações desses produtos para os EUA foram proibidas em dezembro.

Em fevereiro, a China restringiu a exportação de mais cinco metais fundamentais para as indústrias de defesa e de energias limpas.

Os analistas têm sofrido para conseguir rastrear o ritmo das aprovações chinesas após a ligação entre Trump e Xi.

“É virtualmente impossível saber qual percentual dos pedidos para fins não militares é aprovado, porque os dados não são públicos e as empresas não querem confirmar publicamente, seja uma coisa ou outra”, disse Cory Combs, analista de minerais críticos da firma de consultoria Trivium, especializada em política chinesa.

Uso de terras-raras como arma muda contornos do campo de batalha na guerra comercial | Mundo | Valor Econômico

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