Brasil tem menos calouros em Engenharias do que há dez anos e maioria entra em cursos EAD

Graduações a distância viram opção mais acessível, mas especialistas se preocupam com a garantia de experiências práticas e qualidade da oferta; governo prepara novas regras para a modalidade

Por Isabela Moya – Estadão – 20/01/2025

Em dez anos, o Brasil viu diminuir em 23% o total de calouros nas Engenharias, que prepara profissionais para áreas cruciais no desenvolvimento do País, como transição energética e uso da inteligência artificial. Em 2014, eram 469,4 mil ingressantes em graduações da área, número que caiu para 358,4 mil em 2023, último ano com dados disponíveis.

Entre os motivos para o baixo interesse está a dificuldade em Matemática e a dificuldade de tornar as aulas mais conectadas com a vida real. Especialistas veem o risco de apagão de profissionais em alguns setores.

Além de menor quantidade, o perfil mudou – são cada vez mais cursos a distância (EAD). Em 2014, era de 5,9% a fração de ingressantes na modalidade – e saltou para 54% após uma década. Em 2023, pela primeira vez, o EAD superou o presencial – o Ministério da Educação (MEC) prepara novas regras para as graduações remotas.

Nesta semana, os estudantes que fizeram do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) estão escolhendo seus cursos no Sistema de Seleção Unificada (Sisu), plataforma que reúne as vagas em universidades públicas.

Em 2023, número de calouros em cursos de Engenharia a distância superou o total de ingressantes em graduações presenciais pela primeira vez 

Diferentemente de cursos como Direito ou Medicina, um engenheiro pode se formar quase totalmente a distância. A exigência é de 10% da carga horária em atividades de extensão (nos polos ou em campo) e avaliações presenciais, além do estágio.

O EAD, que abrange cursos com grade curricular de 41% a 100% a distância, ganhou força após a flexibilização de regras para abrir graduações em 2017, e a pandemia, que fez os alunos experimentarem aulas remotas.

É opção mais barata e acessível, principalmente para quem mora em áreas distantes, mas sofre questionamentos sobre sua qualidade. O Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) defende uma cota mínima de classes presenciais (leia mais abaixo).

Leia também

Os motivos para escolher Engenharia a distância não diferem do que é visto em outras áreas: flexibilidade de horários, comodidade, preço mais baixo e chance de conciliar com o trabalho.

É o caso de Millena Silva, do 9º semestre de Engenharia Ambiental. Ela saiu de Pindamonhangaba (SP) para estudar na Universidade Federal do Pampa (Unipampa), no Rio Grande do Sul, em 2019. No 2º ano da graduação, o coronavírus impôs aulas remotas.

Em 2022, na volta do presencial, Milena não retornou por questões financeiras – viver em outro Estado era caro e ela conseguiu trabalho na cidade natal -, além de ter se adaptado ao ensino remoto. Pediu transferência para uma faculdade particular a distância.

“O que sinto falta é que no presencial tinha bastante contato com laboratórios”, diz ela, de 26 anos. “Para mim, que já tive experiência no laboratório e nas visitas em campo, foi mais tranquilo o EAD. Mas para quem tem o primeiro contato a distância é mais complicado.”

A jovem afirma também que o estágio ajuda a ter contato com a prática. Mesmo assim, não recomenda entrar direto no remoto. “Tem de ser focado no que quer para estudar a distância, gerenciar a rotina”, continua.

Leia também

Quem escolhe o EAD?

Acima dos 30 anos, casados, que já trabalham e com renda familiar de até 3 salários mínimos – este é o perfil dos alunos da Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp), instituição pública EAD. Nas faculdades presenciais, a maioria é mais jovem, entra sem emprego, e tem renda maior.

A Univesp tem Engenharias de Computação e de Produção. As aulas são assíncronas (gravadas, para assistir quando puder), mas as avaliações são presenciais. Há seis disciplinas de extensão acadêmica, que devem ser presenciais em campo por meio de projetos com a comunidade, para ter experiência prática.

Para o engenheiro Marcos Borges, presidente da Univesp, a inclusão é uma vantagem: alunos de diferentes regiões do Estado, incluindo cidades com poucos habitantes, onde não há outras faculdades. “A gente consegue com EAD criar riqueza na cidade. Vai formar engenheiro lá (em cidades pequenas)”, diz.

Estamos em 370 municípios (paulistas) – desses, 220 não têm faculdade presencial. Ou eles estudam EAD ou não estudam em nível superior. Isso em São Paulo, um Estado super-rico.

Marcos Borges, presidente da Univesp

O MEC estima que em 2024 o total de matriculados no EAD em todas graduações supere o de alunos do presencial. Para as engenharias, essa transformação leva mais tempo, por ser um curso mais longo.

Engenheiro vira uber? ‘Perda de essência da profissão’, diz presidente de entidade dos Politécnicos

O governo, porém, diz que vai propor em breve um novo marco regulatório: “referenciais de qualidade, decreto, portarias e instrumentos de avaliação que, certamente, provocarão alterações das regras de oferta de todos os cursos de graduação a distância, não só para os de Engenharia”, segundo a pasta.

O Conselho de Engenharia e Agronomia é contrário à formação 100% online. “O ensino remoto permite a democratização do ensino, mas dentro disso há a preocupação com a qualidade e a capacidade do profissional”, diz Vinicius Marchese, presidente da entidade. “São profissões que incorrem em risco à vida.” Para o Confea, o ensino híbrido – combinação do remoto com o presencial – é boa alternativa.

Já na visão do presidente da Univesp, uma cota obrigatória de aulas presenciais é inviável para parte da população”, como a “mãe solo que não tem com quem deixar a criança, o aluno surdo que precisa do Libras, o aluno cego que precisa da legenda, o aluno que tem autismo e se sente desconfortável no meio de muita gente”. Para ele, a mudança nessa direção “tira o sonho de milhares”.

“Tem EAD bom e ruim, assim como presencial bom e ruim”, afirma Borges. “O MEC tem de atuar para evitar abusos de cursos que não têm a menor qualidade, que não ensinam nada. Mas isso não é específico do EAD nem mesmo do EAD privado. É de faculdades não sérias”.

E por que há menos jovens interessados na área?

Segundo a professora da Escola Politécnica da USP Roseli Lopes, a queda de interesse pelas Engenharias é fenômeno global, que ocorre pelo fato de ser um curso considerado difícil, com duração de ao menos cinco anos. E hoje há oferta grande de outras possibilidades com inserção mais rápida no mercado de trabalho.

“A certificação de Engenharia tem o objetivo de formar profissionais com maior grau de responsabilidade que vão, inclusive, coordenar equipes de pessoas com formação técnica”, diz ela, diretora da Associação Brasileira de Ensino de Engenharia (Abenge).

Para reverter esse desinteresse, o Confea quer atualizar a grade curricular para tornar os cursos mais atrativos. A ideia é incluir mais disciplinas práticas e promover interdisciplinaridade por meio da interação não só entre Engenharias, como também outras profissões, como as da Saúde.

“Os cursos não podem ser chatos, onde o jovem de hoje, a geração Z, fica três ou quatros anos estudando teoria, para enxergar onde vai aplicar na prática”, diz o presidente do conselho.

“É preciso trazer problemas da vida real, com impacto nas comunidades; aproximação maior com a indústria, em projetos de inovação nas empresas; ensinar habilidades sociais e incentivar o trabalho em equipe”, acrescenta Roseli.

TechLab do Insper é um espaço usado pelo curso de Engenharia voltado para a indústria 4.0, conceito de produção que engloba novas tecnologias .Atividades práticas são vistas, por alguns especialistas, como essenciais para a formação

TechLab do Insper é um espaço usado pelo curso de Engenharia voltado para a indústria 4.0, conceito de produção que engloba novas tecnologias .Atividades práticas são vistas, por alguns especialistas, como essenciais para a formação Foto: Daniel Teixeira/Estadão

Coordenador das engenharias Química e de Materiais da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Renato Meneghetti defende também mais projetos de extensão universitária. Ressalta ainda que a “aprendizagem passiva”, sem “mão na massa”, contribui para a evasão.

Outro fator que afasta os jovens é a defasagem em Matemática, especialmente após a pandemia. O Brasil é um dos países com piores índices de aprendizado na disciplina.

Muitas faculdades fazem reforço das matérias básicas para recuperar a aprendizagem e nivelar os calouros. “Se não toma medida nesse aspecto, o estudante com déficit reprova, reprova, e se transforma em evasão”, afirma Meneghetti, que diz ver lacunas até de alunos vindos de “bons colégios”.

Na Univesp, a disciplina de Cálculo não é dada no 1º semestre. No lugar, há revisão dos conteúdos de Matemática de nível de ensino médio.

Leia também

Somada à baixa de recém-formados, há migração de engenheiros para outras áreas, como o mercado financeiro, onde há maior remuneração.

“Corre o risco de ter apagão profissional. Temos uma agenda de sustentabilidade, de energias renováveis, eletrificação, que passa pelas áreas de engenharia. E colocamos cada vez menos profissionais novos no mercado”, completa Meneghetti.

Desde 2014, houve queda no interesse pelas Engenharias, que teve leve recuperação só em 2022. Especialistas afirmam que disciplinas mais práticas podem elevar interesse dos jovens na área e reduzir evasão

Desde 2014, houve queda no interesse pelas Engenharias, que teve leve recuperação só em 2022. Especialistas afirmam que disciplinas mais práticas podem elevar interesse dos jovens na área e reduzir evasão Foto: Gastão Guedes/Fatec

Escolheu Engenharia no Sisu? Entenda por que área tem recebido nº menor de novos alunos – Estadão

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/GeLUPi5zQ2582nGKD6JFey para WhatsApp e https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Acesse o link abaixo para entrar no meu grupo do WhatsApp onde publico meus artigos semanais e entrevistas que faço no rádio e TV, sempre na temática inovação e negócios: https://chat.whatsapp.com/HqlJjC80rJ0Bu9lmsZgw5B

Sugestão: Se estiver procurando alguém para implementar uma solução de IA com agentes veja a Aumo | Transformamos dados em soluções de IA avançadas

A fusão do trabalho humano e máquinas inteligentes nas organizações. Você está preparado?

O assunto está no radar de todos os setores de atividades, e o desafio da escassez de talentos digitais está presente em todas as áreas do conhecimento

Por Marisa Eboli – Estadão – 25/06/2025

Em praticamente todas as áreas do conhecimento, houve um crescimento significativo da preocupação com a Inteligência Artificial (IA). Esse aumento não se limita ao campo da tecnologia, mas se estende a disciplinas como Direito, Medicina, Educação, Filosofia, Ciências Sociais, Artes e até mesmo Teologia. A IA provocou uma transformação transversal, exigindo reflexões éticas, políticas, sociais e filosóficas em todos os domínios do saber.

Embora a IA exista como campo de estudo formal desde 1956, quando o termo foi cunhado, suas ideias fundamentais são ainda mais antigas. Sem retornar à Antiguidade, basta voltarmos ao século XVII, quando filósofos como Descartes e Leibniz já especulavam sobre o pensamento como um processo mecânico. No século XIX, Ada Lovelace escreveu o primeiro algoritmo publicado destinado a ser processado por uma máquina — a máquina analítica de Charles Babbage — antecipando a lógica dos programas modernos.

Já os fundamentos da Inteligência Artificial moderna remetem a Alan Turing, que foi o primeiro a indagar se máquinas poderiam pensar. O Teste de Turing foi um experimento teórico por ele proposto, para avaliar se uma máquina podia exibir comportamento inteligente indistinguível do de um ser humano. “As máquinas podem pensar?” — é a pergunta que abre seu famoso artigo Computing Machinery and Intelligence (1950). Suas ideias são as raízes mais profundas da IA contemporânea.

Foi a partir de 2010, contudo, que ocorreu uma verdadeira explosão do deep learning, big data, assistentes de voz (como Siri e Alexa), diagnósticos médicos automatizados, carros autônomos, sistemas generativos como o ChatGPT, entre outros.

Desde 1999, ou seja, há mais de duas décadas, dedico-me a atividades de ensino, pesquisa, publicação de artigos e aplicação de projetos em organizações relativos à Educação Corporativa (EC) no Brasil. Atualmente, essas atividades são desenvolvidas no âmbito do Programa de Gestão da Educação Corporativa da FIA (PROGEC-FIA).

Em todas as minhas áreas de atuação relacionadas à EC, a importância da Inteligência Artificial e a correspondente preocupação associada ao tema vem crescendo de forma notável.

O artigo “The Transformer CLO”, publicado pela Harvard Business Review (2020), discute uma profunda transformação no papel do Chief Learning Officer (CLO), ou Gestor de Educação Corporativa. Seus autores, Abbie Lundberg e George Westerman, identificam e definem o perfil do Transformer CLO, que vai muito além da responsabilidade por capacitações. Entre outros aspectos, os autores enfatizam que os CLOs devem liderar o desenvolvimento de competências digitais essenciais para preparar as organizações para um ambiente de transformação contínua. Essas competências não se limitam ao domínio técnico, mas envolvem mentalidade, comportamentos e fluência digital.

O artigo ilustra as argumentações com casos reais de várias empresas. Destaca, por exemplo, o caso do DBS Bank, que formulou uma estratégia para desenvolver, em todos os seus funcionários, sete habilidades vitais para um mundo digital: comunicação digital, metodologias ágeis, modelos de negócios digitais, compliance e riscos, pensamento de jornada, tecnologias digitais e pensamento orientado a dados.

As sete competências do DBS Bank revelam exatamente o que Lundberg & Westerman chamam de ‘competências digitais essenciais.

Nos projetos de consultoria que tenho realizado pelo PROGEC-FIA, para conceber e modelar Universidades Corporativas (UCs) ou Sistemas de Educação Corporativa (SECs), invariavelmente aparece, como uma competência estratégica a ser desenvolvida pela empresa, a Transformação Digital, o que dá origem à criação de uma academia ou escola dentro da UC.

Sempre atenta ao assunto, li recentemente o livro The Year in Tech, 2025: The Insights You Need, da Harvard Business Review (2024). Trata-se de um compêndio dos melhores artigos publicados pela HBR ao longo de 2024, sobre as tecnologias de maior impacto. O livro mostra que devemos esperar uma aceleração na tendência de fusão entre humanos e máquinas, impulsionada pelo papel cada vez mais abrangente da IA, em sinergia com outras tecnologias — da IA generativa ao futuro do trabalho, da biometria à computação espacial, de veículos elétricos à inovação industrial e sustentabilidade.

A obra traça um caminho claro em direção ao que os autores chamam de uma realidade empresarial “humanizada”, onde a fusão de humanos e máquinas inteligentes ocorre de forma integrada e em larga escala. À medida que essa convergência se acelera, novas oportunidades surgirão, juntamente com riscos crescentes.

Embora seja difícil prever o ritmo da mudança organizacional, os autores destacam que uma coisa é certa:

“Este ano, você verá uma fusão crescente e contínua da tecnologia de IA e do trabalho humano em sua organização.”

Todos os artigos da coletânea são instigantes, e recomendo a leitura, mas o capítulo que mais me interessou foi justamente o intitulado “Usando Academias Digitais para Preencher a Lacuna de Habilidades”, escrito por Rubén Mancha e Salvatore Parise.

Segundo os autores:

“Hoje, o problema que a maioria das empresas enfrenta ao executar sua transformação digital não é o acesso à tecnologia, mas a escassez de profissionais com habilidades em ciência digital e de dados. A demanda está crescendo mais rápido do que a oferta. Em outras palavras, o recrutamento só leva sua empresa até certo ponto. Para chegar ao fim do caminho, as empresas precisam se comprometer com treinamento e qualificação, dando aos funcionários oportunidades de aprender sobre tecnologias e espaço para experimentá-las (e fracassar).”

Eles acrescentam que, embora existam benefícios comprovados nos esforços internos de qualificação — como inovação, produtividade, transformação digital, engajamento e retenção de talentos — há também limitações. A aprendizagem autodirigida, por exemplo, pode aumentar a carga de trabalho dos indivíduos, sendo um esforço raramente reconhecido ou recompensado pelas organizações.

Em uma pesquisa conduzida sobre iniciativas de requalificação, os autores descobriram que as academias digitais estão entre as abordagens mais eficazes para eliminar a lacuna de competências digitais. De acordo com eles:

“Uma academia digital visa catalisar a forma como os funcionários interagem com a ciência digital e de dados, e liderar a transformação de processos, produtos e serviços.”

Eles destacam que, em geral, essas academias compartilham algumas características fundamentais:

  • São específicas para a cultura e a narrativa da empresa;
  • Ofertam programas educacionais altamente experienciais, levando em conta a dinâmica das equipes, apesar da diversidade de duração e conteúdo;
  • Abrangem toda a organização, atendendo desde novos funcionários até líderes e altos executivos;
  • Ajudam a criar e reforçar uma cultura de tecnologia e inovação, de forma que treinamentos genéricos dificilmente conseguem alcançar.

Os autores relatam cases de academias digitais desenvolvidas por empresas como DuPont, Gestamp e Deloitte, o que ajuda a compreender como essas iniciativas funcionam e o que é necessário considerar ao projetá-las.

As Academias de Transformação Digital destacadas no livro representam uma abordagem proativa e sistêmica para capacitação, alinhando o aprendizado às reais necessidades organizacionais atuais e futuras.

Em minha prática profissional vejo algo semelhante quando da estruturação de UCs que possuem Academias de Transformação Digital. Só acrescentaria que muitas delas também incluem criatividade, metodologias e aspectos comportamentais ligados à inovação. Com frequência objetivam promover de maneira integrada a inovação, a transformação digital e a inteligência de dados para a gerar valor para a empresa.

Como mencionado no início deste ensaio, o assunto está no radar de todos os setores de atividades, e o desafio da escassez de talentos digitais está presente em todas as áreas do conhecimento. Há um déficit que o recrutamento externo, por si só, não resolve. Por isso, as academias internas têm se mostrado uma solução eficaz.

E na organização em que você trabalha? Já existe uma Academia de Transformação Digital?Se existisse, você acredita que ela alavancaria seu sucesso profissional e sua carreira?

Opinião por Marisa Eboli

Doutora em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e Especialista em Educação Corporativa. É Professora de Graduação e do Mestrado Profissional na FIA Business School.

A fusão do trabalho humano e máquinas inteligentes nas organizações. Você está preparado? – Estadão

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/GeLUPi5zQ2582nGKD6JFey para WhatsApp e https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Acesse o link abaixo para entrar no meu grupo do WhatsApp onde publico meus artigos semanais e entrevistas que faço no rádio e TV, sempre na temática inovação e negócios: https://chat.whatsapp.com/HqlJjC80rJ0Bu9lmsZgw5B

Sugestão: Se estiver procurando alguém para implementar uma solução de IA com agentes veja a Aumo | Transformamos dados em soluções de IA avançadas

Inovação e Desenvolvimento: a trajetória chinesa

Carta IEDI

Edição 1317

Publicado em: 18/06/2025

Inovação e Desenvolvimento: a trajetória chinesa

Sumário

Recentemente, além de “fábrica do mundo”, a China vem se firmando como um polo inovativo incontornável. O país tornou-se líder global na produção de painéis solares, veículos e baterias elétricas, Huawei inaugurou em 2024 um centro de P&D com mais de cem edifícios em Xangai e DeepSeek deu prova, no início deste ano de 2025, dos avanços chineses em IA, isso tudo apesar das progressivas restrições e sanções do Ocidente a mercados e a insumos avançados.

Estes exemplos indicam o sucesso da estratégia Made in China 2025, lançada em 2015, e de outras ações que a sucederam. Em grande parte, é a este processo que os países ocidentais – e não apenas os EUA – estão respondendo com medidas que vêm transformando a governança do comércio mundial e do investimento transfronteiriço, como o Instituto já abordou em outras oportunidades, como nas Cartas n. 1004, 1088, 1154, 1168.

A Carta IEDI de hoje retoma a discussão sobre a estratégia de desenvolvimento industrial da China baseada em ciência, tecnologia e inovação, a partir de dois estudos recentes, um da Johns Hopkins University, intitulado “Innovation Policies, Technology Parks, and Development in China”, e outro do Oxford Institute for Energy Studies: “China’s green industrial policy: lessons for innovation”.

O primeiro artigo, de autoria de María José Haro Sly, resgata a trajetória chinesa enfatizando o desenvolvimento de parques industriais de alta tecnologia, que hoje somam 169 e representam 12% do PIB, e a transformação do país em um grande player em tecnologias de ponta, com gastos governamentais em P&D subindo de 0,9% do PIB em 2000 para 2,3% em 2020.

Segundo a autora, desde 2006, as competências inovativas internas da China vêm sendo reforçadas pelo governo em seus planos estratégicos, tendo como marcos importantes a iniciativa Made in China e o 14º Plano Quinquenal, em que a inovação foi colocada no centro do processo de desenvolvimento e modernização da China.

Haro Sly destaca que há um entendimento do papel dos parques industriais como o mecanismo concreto e o locus do processo de inovação na China. Os parques industriais são igualmente vistos como uma ferramenta-chave para a estratégia de internacionalização (going out) da tecnologia chinesa.

Transferir os motores da inovação de organizações públicas de pesquisa para setores industriais, empregar os investimentos públicos em P&D para ensejar a capacidade de inovação dos setores industriais e melhorar a comercialização de resultados das pesquisas básicas e aplicadas são objetivos considerados há muito tempo na China.

Exemplo disso é que, diferentemente de outras potências, a China orientou a maior parte (85%) de seus gastos governamentais de P&D para atividades de desenvolvimento experimental relacionado à fabricação e produção, em vez da pesquisa básica ou pesquisa aplicada. Ou seja, apoio à inovação e indústria estão bem integrados.

Para a autora, o Programa Torch, de 1988, evoluiu de modo a tornar-se importante instrumento do governo chinês para orientar o desenvolvimento industrial de alta tecnologia, caracterizando-se pela experimentação institucional e políticas descentralizadas, um esquema de financiamento dominado por empresas, bem como pela inclusão de PMEs não estatais em suas atividades de incubadora. 

Também coordena as zonas industriais de alta tecnologia, estabelecidas com o propósito de transformar conquistas da ciência e tecnologia em uma força produtiva prática e orientadas tanto ao mercado doméstico quanto a mercados estrangeiros.

A partir de 2013, a internacionalização da tecnologia e inovação chinesas tornou-se um objetivo e, em boa medida, vem se dando no âmbito da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI), com a construção de parques industriais no exterior. Segundo a autora, há 85 parques industriais chineses no exterior com diferentes orientações estratégicas.

O estudo do Oxford Institute for Energy Studies, realizado pelo pesquisador Anders Hove, analisa um exemplo concreto de engajamento inovativo “autóctone” da China: tecnologias essenciais para a transição energética.

Para Hove, o domínio da China nestas tecnologias (energia solar, baterias, veículos elétricos etc.) não se deve somente a subsídios desleais ou a mão de obra barata. O autor observa que o discurso ocidental, em geral, ignora o papel das políticas industriais estratégicas que fomentaram a inovação, a transferência de tecnologia e o rápido aumento da produção de bens inovadores.

O progresso chinês resultou igualmente das extraordinárias taxas de aprendizado quando as novas tecnologias começaram a atingir escala de fabricação. Subvenções, exigências de conteúdo local, regulação e outros mandatos governamentais foram partes integrantes de políticas industriais para a produção das novas tecnologias em larga escala. 

Com isso, aprendizado pela prática, compartilhamento de conhecimento tácito e interações com fornecedores deram robustez à empreitada chinesa. A despeito do papel estratégico da política pública, entretanto, o autor destaca que a economia de mercado passou a desempenhar um papel maior na determinação dos players vencedores e perdedores. Ou seja, a política industrial e tecnológica se articula com a concorrência de mercado.

A constituição de competência tecnológica e produtiva em veículos elétricos é um exemplo disso mencionado pelo autor. Diferentemente dos painéis solares, a escala de produção de veículos elétricos teve como base o mercado doméstico chinês, mas buscou-se atrair um competidor estrangeiro de peso para o mercado local com o propósito de forçar as empresas nacionais a atualizarem seus produtos, ao mesmo tempo em que poderiam se beneficiar de transbordamentos de conhecimento, trabalhadores e fornecedores locais.

Assim, o tradicional requisito de joint ventures com participantes locais não foi aplicado no caso da Tesla, quando instalou uma fábrica em Xangai, muito embora a disposição da empresa de usar fornecedores chineses tenha sido um fator-chave em favor do afrouxamento dos requisitos de implantação da Tesla no país. 

Ademais, tanto no setor de energia solar como no de veículos elétricos, os governos locais promoveram clusters de manufatura como um caminho para o desenvolvimento industrial. A proximidade geográfica com as cadeias de suprimentos locais e a concorrência intensa contribuíram para acelerar o ritmo da inovação e dos novos ciclos de produtos. Segundo o autor, os modelos de veículos elétricos chineses duram, em média, 1,3 ano no mercado antes de novas versões e 4,2 anos no caso das marcas estrangeiras.

De acordo com o estudo do Oxford Institute, os principais atributos da experiência chinesa na promoção dos setores de energia limpa consistem:

     •  Sinais de política claros do governo indicando que as indústrias de energia limpa são uma prioridade de desenvolvimento.

     •  Requerimentos de conteúdo local e de transferência de tecnologia em troca de acesso ao mercado.

     •  Promoção de polos industriais, favorecendo as interações com fornecedores e levando ao surgimento de players locais de equipamentos. 

     •  Estímulo à aceleração da inovação e novos ciclos de produtos por meio da proximidade com cadeias de suprimentos e concorrência intensa.

     •  Criação de projetos-pilotos para testar políticas e que combinem fabricação com implantação

     •  Requisitos para instalação de projetos pilotos em regiões segundo sua base industrial existente, incentivos de políticas locais e infraestrutura.

     •  Monitoramento do progresso dos projetos e vinculação do suporte futuro a métricas específicas.

Na avaliação do autor, estes atributos não dependem do planejamento central, vantagem de pioneirismo ou mão de obra barata e, por isso, outros países poderiam se inspirar nessas políticas.

Introdução

A Carta IEDI de hoje retoma a discussão sobre a estratégia de desenvolvimento industrial da China baseada em ciência, tecnologia e inovação. Algumas das Cartas IEDI anteriores sobre o tema compreendem as edições de nº 827 “Indústria 4.0 – A iniciativa Made in China 2025” e nº 1094 “O 14º Plano Quinquenal Chinês: transformando a China em potência industrial e tecnológica”. 

Nesta Carta, abordamos dois estudos de diferentes instituições. O primeiro deles é intitulado “Innovation Policies, Technology Parks, and Development in China”, de autoria da pesquisadora da Johns Hopkins University, María José Haro Sly. O segundo artigo tem como título “China’s green industrial policy: Lessons for innovation”, divulgado no The Oxford Institute for Energy Studies, pelo pesquisador Anders Hove. 

Evolução das políticas de C,T&I na China 

Nas últimas décadas, a China fez um progresso notável em ciência, tecnologia e inovação (C,T&I). De um país agrário nos anos 1970, a China se transformou em grande player em tecnologias de ponta, tais como 5G, nanotecnologia, tecnologias verdes, aeroespacial, inteligência artificial etc.. 

Além de se tornar o segundo maior investidor em pesquisa e desenvolvimento (P&D) do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, a China assumiu a posição de líder em diversos setores industriais intensivos em conhecimento.

Para o governo chinês, a área de ciência e tecnologia foi considerada central, dado que sem o domínio das ciências e tecnologias modernas não seria possível constituir atividades econômicas modernas. De acordo com a autora, a reforma das políticas de C,T&I adotou uma abordagem incremental, caracterizada por uma compreensão progressivamente mais profunda de políticas, transformação sistêmica e inovação institucional. 

O quadro abaixo resume os principais marcos das políticas de C,T&I em cada uma das seis fases identificadas no estudo: a experimental (1978-1985), a de reforma sistêmica (1985-1995), a de aprofundamento da reforma (1996-2006), a da inovação autóctone (2006-2015), a de internacionalização do C&T e a de desenvolvimento liderado pela inovação (iniciada em 2015). 

Nas duas fases iniciais, paralelamente à implantação das Zonas Econômicas Especiais e dos parques industriais tecnológicos, ao treinamento de recursos humanos qualificados e às medidas voltadas para a obtenção de transferência de tecnologia, a China implementou uma estratégia tácita de engenharia reversa, utilizando, sem pagar, conhecimento protegido por direitos de propriedade intelectual. Não obstante a pressão de potências estrangeiras e empresas multinacionais, essa prática, denominada shanzhai, foi amplamente adotada como uma forma alternativa de inovação.

Na fase de aprofundamento da reforma sistêmica (1996-2006), a China estabeleceu uma estratégia nacional abrangente com o propósito de “rejuvenescer a economia da nação com ciência e educação”. Nessa fase, segundo Haro Sly, o país começou a abrir caminho para se tornar a segunda potência tecnológica mundial com os três objetivos principais: 

     •  Aumentar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento; 

     •  Orientar esses investimentos fundamentalmente para o desenvolvimento experimental; 

     •  Passar de uma estratégia de inovação de engenharia reversa para uma fase de “inovação autóctone”.

À medida que a estratégia foi implementada, o investimento em P&D aumentou rapidamente. A proporção das despesas brutas governamentais com P&D (GERD) em relação ao produto interno bruto (PIB) passou de 0,57% em 1995 para 0,90% em 2000, 1,33% em 2005 e atingindo 2,3% em 2020.

As novas políticas se concentraram em três áreas: transferir os motores da inovação de organizações públicas de pesquisa para setores industriais; ampliar o GERD e a capacidade de inovação dos setores industriais; e melhorar a comercialização eficiente de resultados das pesquisas básicas e aplicadas. 

De acordo com a autora, para alcançar esses objetivos a China orientou 85% de seu GERD para investimento nas atividades de desenvolvimento experimental relacionado à fabricação e produção, em vez de pesquisa básica ou pesquisa aplicada, que respondem, respectivamente, por 5% e 10% do GERD chinês. Uma estratégia diferente da adotada pelos Estados Unidos, Japão e Cingapura, como mostra a figura abaixo.

A prioridade atribuída ao desenvolvimento de inovações autóctones foi reforçada, no início de 2006, com o lançamento pelo Conselho de Estado chinês do Programa Nacional de Médio e Longo Prazo para Desenvolvimento Científico e Tecnológico (2006–2020). Com o objetivo principal de transformar a China em uma potência mundial em ciência e tecnologia, os princípios orientadores desse programa centravam-se na melhoria da capacidade doméstica de gerar inovação e na realização de saltos tecnológicos em domínios prioritários. 

Anunciado pelo governo chinês em maio de 2015, o plano industrial decenal Made in China 2025 priorizou o aumento da competitividade nacional em indústrias de ponta e a redução da dependência de tecnologias estrangeiras, passando do status de imitador para o de inovador. Para isso, a China se concentrou em ampliar sua capacidade de gerar inovação local, enfatizando a inovação original, a inovação integrada e a “reinovação” com base na assimilação de tecnologia importada.

Reproduzindo trecho de um discurso do líder chinês Xi Jinping na Academia de Ciências da China, em junho de 2015, sobre a importância de dominar as tecnologias críticas para o país realmente ter iniciativa na concorrência e no desenvolvimento, o estudo destaca que “essa concepção é a chave para entender as políticas de ciência, tecnologia e inovação na China na última década e sua concentração em inovação nativa e autônoma, bem como consolidar a posição da China como líder na padronização de tecnologias de ponta em todo o mundo”.

Em 2021, com os lançamentos dos 14º Plano Quinquenal e do Plano de Médio e Longo Prazo para a Ciência e Tecnologia 2021-2035, a inovação foi colocada no centro do processo de desenvolvimento e modernização da China. Desde então, a ciência e a tecnologia têm assumido cada vez mais importância estratégica para o desenvolvimento nacional da China. 

Parques Industriais Tecnológicos como locus de inovação

Haro Sly destaca que há um entendimento do papel dos parques industriais como o mecanismo concreto e o locus do processo de inovação na China. Papel crítico que o 14º Plano Quinquenal sugeriu que continuarão a desempenhar. Os parques industriais são igualmente uma ferramenta-chave para a estratégia de internacionalização (going out) da tecnologia chinesa.

Na avaliação da autora, o Programa Torch, criado em 1988, na fase de reforma sistêmica, sob a égide do Ministério da Ciência e Tecnologia (MOST), é um elemento central no desenvolvimento industrial de alta tecnologia da China. Criado, com a missão de estimular a construção de parques industriais, o Programa Torch evoluiu ao longo das últimas décadas, tornando-se um dos principais programas utilizados pelo governo chinês para orientar o desenvolvimento industrial de alta tecnologia.

O Programa promove a comercialização de conquistas de C&T, a industrialização de resultados de P&D e a internacionalização de indústrias de alta tecnologia. Seus principais instrumentos são: os parques industriais de ciência e tecnologia, as incubadoras de negócios baseadas em tecnologia e o Fundo de Inovação para Pequenas e Médias Empresas (PMEs) baseadas em tecnologia. O governo chinês oferece suporte financeiro às empresas por meio de fundos especiais, incluindo assistência para a construção de infraestrutura de incubadora.

Desde a sua origem, o Programa Torch se caracteriza, de acordo com o estudo, por fortes elementos de experimentação institucional e políticas descentralizadas, um esquema de financiamento dominado por empresas, bem como uma inclusão de longa data de PMEs não estatais em suas atividades de incubadora. O programa também coordena as zonas industriais de alta tecnologia, responsáveis por forte contribuição para as exportações chinesas de produtos intensivos em tecnologia e de maior valor agregado.

As novas zonas de desenvolvimento industrial de alta tecnologia são baseadas em inteligência intensiva e um ambiente aberto. Estabelecidas com o propósito de transformar conquistas da ciência e tecnologia em uma força produtiva prática, essas novas zonas de desenvolvimento industrial abrigam parques industriais orientados aos mercados domésticos e estrangeiros e ao desenvolvimento das novas indústrias de alta tecnologia da China. 

Exemplos mencionados no artigo são o parque industrial Suzhou, localizado na zona de desenvolvimento tecnológico e econômico de Guangzhou, e o parque industrial de ciência e tecnologia Nanjing, na zona nacional de desenvolvimento industrial de alta tecnologia.

Os parques combinam infraestrutura material e logística com aspectos econômicos, legais e de gestão suave para favorecer a inovação. A China possui vários tipos de parques que diferem em termos de administração, escala/escopo e indústrias-alvo. 

Atualmente, o país conta com mais de 1.500 parques industriais nacionais ou provinciais, incluindo 169 parques de alta tecnologia (High Techparks). Esses últimos respondem por aproximadamente 12% do PIB da China e 18% das exportações. Segundo a autora, a expectativa do 14º Plano Quinquenal de 2021 é elevar acima de 17% do PIB chinês a contribuição dos clusters de tecnologias emergentes de importância estratégica. 

Com estratégia de internacionalização da tecnologia e inovação chinesas, iniciada em 2013, no âmbito da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI), a construção de parques industriais no exterior tornou-se um instrumento-chave. 

Nesse processo, a Academia Chinesa de Ciências (CAS) desempenhou um papel ativo, fornecendo mais de 1,8 bilhões de yuans (cerca de US$ 268 milhões) para a construção de projetos de ciência e tecnologia em cooperação entre a China e os países participantes da Iniciativa Cinturão e Rota. Igualmente, treinou quase 5 mil talentos científicos e tecnológicos de alto nível para países e regiões participantes da BRI, incluindo mais de 1.500 pessoas com mestrado e doutorado em ciência e engenharia. Muito dos quais retornaram aos seus países de origem para construção da BRI. 

A CAS também cooperou com mais de 100 empresas de alta tecnologia e instituições de pesquisa para estabelecer a Belt and Road Industry Alliance para servir ao desenvolvimento econômico e social regional. Para Haro Sly, este programa constitui uma nova fase da estratégia chinesa de desenvolvimento e terá impactos no redesenho da ciência, tecnologia e inovação do mundo.

Embora apresentem características diferenciadas, em termos gerais, esses parques industriais instalados em países participantes da BRI são uma exportação de um cluster industrial chinês para promover o investimento estrangeiro direto no exterior. 

A maioria dos parques é promovida e desenvolvida em conjunto por governos ou empresas chinesas e estrangeiras. Esses parques geralmente têm melhor infraestrutura, uma cadeia de valor mais integrada e indústrias com características distintas, que podem impulsionar o desenvolvimento completo.

Nos dias atuais, há 85 parques industriais chineses no exterior, dos quais 53 localizados em 20 países da Ásia, 19 em onze países da África e treze em seis países da Europa, incluindo Bélgica (1), França (1) , Hungria (2) e Rússia (6). Esses parques podem ser orientados para processamento e manufatura, agricultura, comércio e logística, utilização de recursos, tecnologia, pesquisa e desenvolvimento, ou podem ser abrangentes (combinando diferentes orientações).

Inovação chinesa

De acordo com Haro Sly, utilizado pela primeira vez em 1994, o termo inovação “autóctone” ou “nativa” ou “autodeterminada” (zizhu chuangxin) tornou-se amplamente utilizado a partir do lançamento do Programa Nacional de Médio e Longo Prazo para Desenvolvimento Científico e Tecnológico (2006–2020), já mencionado. Esse conceito refere-se: “a aprimorar a inovação original, a inovação integrada e a ‘reinovação’, com base na assimilação e absorção de tecnologia importada, a fim de melhorar a capacidade de inovação nacional chinesa.” 

Segundo a autora, inicialmente, o governo chinês estabeleceu negociações com fabricantes estrangeiros que operavam no país para que, em troca de acesso preferencial ao mercado, realizassem transferências de tecnologia para parceiros locais. Contudo, o investimento estrangeiro não trouxe a transferência de tecnologia visível em larga escala que o governo chinês esperava.

Diante da realidade concreta da baixa escala de, ou mesmo nenhuma, transferência tecnológica de países desenvolvidos para países em desenvolvimento, o governo chinês elaborou estratégias de desenvolvimento de tecnologias nativas. A autora destaca que o país asiático entendeu o papel do Estado na promoção da inovação, bem como a importância da inovação nativa no fechamento da lacuna de renda entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. 

Ciente que o processo de redução do gap tecnológico e de renda em relação aos países desenvolvidos não ocorreria apenas com o aumento dos investimentos em P&D ou meramente pela incorporação de mais pesquisadores, o governo chinês implementou estratégias orientando esses investimentos para o desenvolvimento experimental em vez de promover a pesquisa básica motivada pela curiosidade apenas para fins científicos.

Desse modo, a política industrial passou a ser projetada com base na antecipação de demandas nacionais prioritárias e no investimento estatal correspondente. 

Para explicitar a prioridade atribuída à inovação nativa original como motor do desenvolvimento, o slogan do plano industrial Made in China 2025, lançado em 2015, foi posteriormente atualizado, segundo a autora. O slogan da política “fabricado na China” foi substituído por “projetado e criado na China”, mais adequado ao objetivo do país de passar de imitador a inovador de produtos, bens e tecnologias.

Com objetivo de promover avanços na indústria manufatureira, e, em particular, aumentar a competitividade nacional em indústrias de tecnologias avançadas mediante inovações industriais e assim garantir que os produtos industriais do país alcancem patamares elevados nas cadeias internacionais de valor, o Plano Made in China, identificou dez setores de tecnologia avançada como prioridades críticas: novas tecnologias da informação; máquinas-ferramentas e robôs de controle numérico de ponta; equipamento aeroespacial; equipamentos de engenharia oceânica e embarcações de ponta; equipamentos de transporte ferroviário de ponta; veículos com eficiência energética e novas fontes de energia; equipamentos elétricos; máquinas agrícolas; novos materiais; biomedicina e equipamentos médicos de ponta.

A estratégia governamental chinesa tem se mostrado bem-sucedida. O forte vínculo entre o design de políticas públicas, o sistema de C,T&I e o setor produtivo tornou possível transformar estruturalmente a produção e avançar em todas as cadeias de valor. A China já lidera vários setores industriais de alta tecnologia, superando os Estados Unidos. 

De acordo com Haro Sly, a abordagem estratégica da China para a inovação, que confere ao Estado um papel estratégico e enfatiza os parques industriais, tem sido fundamental em seu avanço tecnológico. Todavia, esse rápido progresso suscitou igualmente suspeitas e contestações de potências mundiais estabelecidas, obrigando a China a seguir por um caminho complexo para manter seu desenvolvimento econômico e sua liderança tecnológica.

Na avaliação da autora, o rápido avanço tecnológico, a intenção explícita do governo chinês de começar a impor normas internacionais nos novos domínios tecnológicos e a crescente competitividade dos bens e produtos de alta tecnologia chineses continuarão a criar suspeitas entre os países centrais estabelecidos. Exemplo emblemático desse processo foram as sanções à Huawei e a crescente pressão dos Estados Unidos para conter a expansão chinesa na tecnologia 5G. 

Conclui-se o estudo, afirmado que “encontrar um equilíbrio complexo entre as sanções ocidentais e continuar o processo de desenvolvimento econômico, catching-up e inovação autônoma, ao mesmo tempo em que evita qualquer possibilidade de conflito direto, determinará a consolidação da hegemonia chinesa na corrida tecnológica no século XXI”.

Lições da política industrial de energia limpa chinesa

O pesquisador do Instituto para Estudos de Energia de Oxford (OIES), Anders Hove, destaca que o domínio da China na fabricação de energia limpa __ energia solar, baterias e, mais recentemente, veículos elétricos __,  tecnologias essenciais para a transição energética, coincidiu com uma forte ênfase na inovação autóctone. 

Segundo o autor, esse aspecto é frequentemente ignorado no discurso ocidental, que atribui as vantagens competitivas da indústria chinesa de energia limpa aos subsídios governamentais e à mão de obra de baixo custo. 

Para Hove, o domínio da China na produção de energia limpa (solar, baterias, veículos elétricos) não se deve somente a subsídios desleais ou mão de obra barata. Em vez disso, é resultado de políticas industriais estratégicas que fomentaram a inovação, a transferência de tecnologia e o rápido aumento da produção. Entre as políticas industriais explícitas, aquelas que promovem a transferência de tecnologia, a localização da produção e o agrupamento industrial têm sido notavelmente eficazes. 

O progresso no domínio da energia limpa na China resultou igualmente das extraordinárias taxas de aprendizado quando as novas tecnologias começaram a atingir escala de fabricação. Com aprendizado pela prática, compartilhamento de conhecimento tácito e interações com fornecedores, a China se destacou.

Todavia, na vanguarda da política industrial, outro fator foi igualmente importante: as políticas de implantação que permitiram que essas indústrias atingissem escala. O autor ressalta que, obviamente, a implantação em escala não poderia ter acontecido se essas tecnologias ainda estivessem no laboratório ou ainda com preços extremamente elevados. Subvenções e mandatos governamentais também foram partes integrantes das políticas industriais. 

Mesmo após a adesão do país à Organização Mundial do Comércio, o Estado chinês nunca deixou de planejar e orientar o desenvolvimento econômico, moldando o investimento em todos os níveis. Porém, a economia de mercado passou a desempenhar um papel maior na determinação de vencedores e perdedores.

Cada um dos quatro principais campos tecnológicos de energia limpa (solar, eólica, baterias e VEs), nos quais a China está agora na liderança ou próxima dos líderes, seguiu um caminho de crescimento diferente, com sua própria combinação única de suporte político e aumento de escala de fabricação. 

Para a energia solar, que se beneficiou de linhas de produção prontas para uso que facilitaram a entrada de novas empresas no estágio inicial, os governos locais ofereceram incentivos para que as empresas montassem laboratórios de pesquisa. Inúmeros cientistas-líderes no exterior foram atraídos a retornar à China para desenvolver a tecnologia em parceria com participantes locais.

Para a energia solar, o caminho liderado pela exportação foi inicialmente crucial, enquanto na área de energia eólica os formuladores de políticas chineses buscaram investimentos e assistência ao desenvolvimento do exterior. Porém, uma vez que as tecnologias atingiram escala e se aproximaram dos principais limites econômicos, os formuladores de políticas mudaram a ênfase para a implantação doméstica por meio de subsídios orientados à demanda – ou seja, tarifas feed-in, inspiradas nas políticas adotadas em países europeus. 

No segmento de energia eólica, o governo chinês implementou requisitos de conteúdo doméstico para empresas internacionais que forneciam equipamentos para projetos eólicos apoiados pelo Mecanismo de Desenvolvimento Limpo. Segundo Hove, essa exigência desempenhou um papel crítico no desenvolvimento de expertise local em energia eólica na China.

No segmento de baterias para veículos elétricos, o licenciamento de patentes foi um fator importante. No campo tecnológico de química de baterias de níquel-manganês-cobalto (NMC), as empresas chinesas conseguiram licenciar tecnologias estrangeiras, encorajar empresas dos Estados Unidos e de outros países a estabelecer joint ventures com parceiros chineses. 

Já na tecnologia concorrente de baterias de lítio-ferro-fosfato (LFP), a China obteve, segundo Hove, uma vantagem descomunal ao vencer, em 2010, a concessionária de energia elétrica canadense Hydro-Quebec em disputa de reivindicação de patente LFP. E em 2013, a fabricante chinesa de autopeças Wanxiang, uma empresa com fortes ligações com o governo, adquiriu a startup americana A123 de baterias LFP.

Também no caso dos veículos elétricos, o programa de Veículos de Nova Energia, lançado em 2009, continha estruturas sofisticadas projetadas para garantir não apenas a transferência de tecnologia, mas o surgimento de players e inovação nacionais. 

Para evitar duplicação e desperdícios, a China estabeleceu requisitos para regiões que abrigariam projetos-piloto de VE, limitando alguns incentivos de política às regiões selecionadas com base em sua estrutura industrial existente, incentivos de política local para promover VEs e infraestrutura de recarga. Depois de designar regiões-piloto, o governo chinês monitorou o progresso em cada uma dessas frentes, vinculando o suporte futuro do governo central a métricas relacionadas a cada uma. 

A obtenção de apoio financeiro governamental para produção de VE e baterias para VE estavam vinculados à transferência de tecnologia, e as empresas beneficiárias qualificadas tinham que demonstrar domínio de um dos três elementos principais da fabricação de VE: baterias, motores ou sistemas de controle. 

Para baterias com densidade de energia adequada para VEs (acima de 110 Wh/kg), foi definido conteúdo nacional mínimo de 50%. Igualmente, foram instituidas listas para empresas produtoras de baterias qualificadas para receber subsídios do programa Veículos de Nova Energia.

Essas políticas levaram as montadoras chinesas a transferir as compras de baterias dos principais fornecedores japoneses e coreanos para participantes nacionais. Posteriormente, em 2017, os requisitos para as empresas beneficiárias foram ampliados, exigindo que as empresas nacionais demonstrassem domínio de todas as áreas principais da produção de VE, descartando a especialização da cadeia de fornecimento chinesa em apenas um elemento da fabricação de VEs o que favoreceu a integração vertical.

No domínio tecnológico dos VEs, os líderes chineses identificaram uma oportunidade e buscaram alavancar a crescente capacidade de fabricação de baterias da China para ultrapassar as montadoras estrangeiras. Em contraste com energia solar, o impulso para a ampliação da escala de produção dos veículos elétricos orginou-se no mercado doméstico. Só recentemente começou a mudar para incluir exportações. 

De acordo com Hove, embora já existissem inúmeras empresas chinesas de VE, o requisito de joint ventures com participantes locais no setor automotivo, em vigor desde a década de 2000, não foi aplicado no caso da Tesla, a principal empresa de VE no mundo em 2019, quando instalou uma fábrica em Xangai. Nesse caso, o governo chinês adotou a estratégia de atrair um concorrente forte para o mercado local com o propósito de forçar as empresas domésticas a atualizarem seus produtos, ao mesmo tempo em que, potencialmente, se beneficiariam de transbordamentos de conhecimento de trabalhadores e fornecedores locais. 

Segundo o autor, a disposição da Tesla de usar componentes chineses foi um fator-chave que levou à decisão de Xangai de fazer lobby junto ao governo central em favor do afrouxamento das restrições para trazer a Tesla. Atualmente, 95% dos fornecedores da Tesla Shanghai são chineses.

O pesquisador da OIES ressalta que a abordagem holística da política chinesa de incentivos aos veículos elétricos é muito diferente das políticas implementadas em outros países, onde os subsídios para compra de VE são uma coisa, o suporte para fabricantes é outra, e o suporte para ampliação da infraestrura de recarga é ainda mais estanque. Como resultado de um política compartimentada, os fabricantes ou fornecedores podem estar localizados em regiões com infraestrutura precária de recarga e baixa adoção de VEs, levando a um ciclo vicioso no qual os fabricantes relatam que a demanda do mercado local não consegue suportar uma expansão rápida.

Tanto no setor de energia solar quanto no de veículos elétricos, os governos locais promoveram corretamente clusters de manufatura como um caminho para o desenvolvimento industrial. No setor de energia solar, no qual as empresas europeias e norte-americanas inicialmente forneceram linhas de produção de ponta, enquanto empresas chinesas se concentraram na produção em massa, as interações com fornecedores permitiram o rápido surgimento de fornecedores locais de ferramentas e equipamentos que gradualmente suplantaram os líderes internacionais.

No segmento dos veículos elétricos também, a proximidade geográfica com as cadeias de suprimentos locais e a concorrência intensa contribuíram para acelerar o ritmo da inovação e dos novos ciclos de produtos, que são essenciais para o crescimento e a manutenção da participação de mercado nos ambientes ultracompetitivos da China. Segundo o autor, os modelos de veículos elétricos chineses têm em média apenas 1,3 ano de vida útil no mercado antes que atualizações ou novas versões sejam lançadas, em comparação com o ciclo de 4,2 anos das marcas estrangeiras.

Em todos os quatro segmentos de energia limpa, os formuladores de políticas sinalizaram que essas indústrias eram uma prioridade de desenvolvimento. Como indústrias emergentes estratégicas se beneficiaram de capital de baixo custo, projetos-piloto e foram alvos de metas e mandatos para implantação. Essa sinalização forneceu um indicador crítico para autoridades locais, empresas estatais de energia e empreendedores de que uma maior exposição a esses campos estratégicos seria recompensada.

Anders Hove salienta, contudo, que a consistência do apoio político na China não é absoluta. Segundo ele, os subsídios foram cortados da noite para o dia para a energia solar quando o mercado se tornou superaquecido. Subsídios para VE também foram suprimidos diante de alegações de fraude.

Principais elementos da política industrial verde da China

Segundo o estudo do Oxford Institute, os principais atributos da política industrial utilizadas na promoção dos setores de energia limpa na China podem ser resumidas da seguinte maneira:

     •  Sinalização de política e políticas de implantação. Sinais de política claros do governo indicando que as indústrias de energia limpa são uma prioridade de desenvolvimento. Subsídios orientados à demanda para atingir escala e se aproximar de limites econômicos.

     •  Exigência de transferência de tecnologia, com requisitos explícitos e implícitos para empresas estrangeiras compartilharem tecnologia com players nacionais em troca de acesso ao mercado e incentivos para criarem laboratórios de pesquisa locais. Do ponto de vista das potências ocidentais, essa exigência é um dos aspectos mais controversos da política industrial chinesa. Exemplos: energia eólica (requisito implícito em conjunto com requisitos explícitos de conteúdo nacional), setor automotivo (joint ventures com participantes locais) e tecnologia de baterias (licenciamento de patentes estrangeiras e joint ventures). 

     •  Requerimentos de conteúdo local, com requisitos de conteúdo doméstico em troca de acesso ao mercado, concessão de subsídios para produção de EV e baterias vinculados à transferência de tecnologia para as empresas que demonstrem domínio dos principais elementos da produção de EV. Criação de “listas brancas” para empresas de baterias qualificadas para subvenções, excluindo inicialmente empresas estrangeiras, que foram eliminadas em 2019, momento em que a China já dominava as cadeias de fornecimento de baterias. 

     •  Clusters industriais. Além da promoção de polos industriais por governos locais, as interações com fornecedores levam ao surgimento de fornecedores locais de ferramentas e equipamentos. Proximidade com cadeias de suprimentos e concorrência intensa acelerando a inovação e novos ciclos de produtos.

     •  Programas-piloto que combinam fabricação com implantação. Criação de projetos-pilotos para testar políticas de energia limpa. Requisitos para regiões-piloto de EV com base na fabricação existente, incentivos de políticas locais e infraestrutura de carregamento. Monitoramento do progresso e vinculação do suporte futuro a métricas específicas.

Na avaliação do autor, as ferramentas de política industrial da China não dependem de planejamento central, vantagem de pioneirismo ou mão de obra barata. Outros países podem emular essas políticas, estabelecendo, notadamente, exigência de transferência de tecnologia, políticas de conteúdo doméstico e suporte para clusters industriais. 

Ele destaca que a Europa já está adotando ativamente muitas políticas industriais inspiradas no modelo chinês para veículos elétricos. Isso inclui licenciamento, requisitos de transferência de tecnologia e políticas de conteúdo doméstico. A Europa já considera exigir transferência de tecnologia e licenciamento como condição para a empresa receber subvenções. Requisitos de conteúdo doméstico para minerais críticos e baterias estão em discussão.

Anders Hove também sugere que integração vertical, aglomeração geográfica e interações com fornecedores são essenciais para manter as vantagens conquistadas. Trabalhar com fornecedores chineses pode garantir acesso à tecnologia e aos processos mais recentes.

Segundo ele, as próprias empresas chinesas também estão aprendendo a lição sobre os benefícios da integração vertical à medida que se expandem para o exterior. A líder em fabricação de baterias CATL, que já possui fábrica na Europa, anunciou recentemente planos para estabelecer um fundo de US$ 1,5 bilhão para investir em peças e fornecedores locais no continente europeu, porque os fornecedores locais não atendem às suas necessidades ou não conseguem responder com rapidez suficiente às suas exigências de volume de produção e qualidade.

IEDI – Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/GeLUPi5zQ2582nGKD6JFey para WhatsApp e https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Acesse o link abaixo para entrar no meu grupo do WhatsApp onde publico meus artigos semanais e entrevistas que faço no rádio e TV, sempre na temática inovação e negócios: https://chat.whatsapp.com/HqlJjC80rJ0Bu9lmsZgw5B

Sugestão: Se estiver procurando alguém para implementar uma solução de IA com agentes veja a Aumo | Transformamos dados em soluções de IA avançadas

Minerais críticos, satélites, energia e data centers: os interesses dos EUA no Brasil

Segundo membros da CNI, que estiveram em missão recente ao país, empresas americanas demonstraram interesse em projetos ligados a esses setores. Entidade articula agenda bilateral para facilitar novos aportes

Luciano Pádua – Exame – 17 de maio de 2025 

NOVA YORK* – Os investidores dos Estados Unidos querem ampliar sua presença econômica no Brasil em áreas de interesse estratégico. Em conversas recentes com representantes da Confederação Nacional da Indústria (CNI), autoridades e empresários americanos destacaram quatro setores prioritários para novos investimentos no país: minerais críticos, tecnologia de satélites, energia e data centers.

“Eles já colocaram as áreas de interesse: minerais críticos, satélites, energia e data centers”, diz à EXAME Frederico Lamego, superintendente de Relações Internacionais da CNI durante evento da entidade em Nova York nesta semana.

Além dos recursos naturais, há uma ênfase em infraestrutura digital e energética. O interesse em data centers está diretamente ligado à agenda de energia limpa do Brasil, avalia a CNI, considerada atrativa pelos investidores diante da demanda crescente por soluções sustentáveis.

Investimentos em data centers são vistos como uma possibilidade muito forte.”Ainda mais com a nossa agenda verde de enegia”, afirma Léo de Castro, vice-presidente da CNI.

Segundo os executivos, o setor privado americano sinalizou de forma clara o desejo de sair da tradicional pauta — centrada em etanol, aço e alumínio — e ampliar as possibilidades de cooperação. O objetivo agora é abrir uma base mais ampla de negociações e atrair investimentos com transferência de tecnologia.

“A mensagem que os americanos colocaram para a gente é que precisamos sair de uma discussão do etanol, do aço e do alumínio para ampliar uma base de negociação que seja benéfica para os dois lados”, afirma Lamego.

Castro aponta que a agenda da CNI no país é um gesto de “boa vizinhança” para apontar que o país que cooperar em outros níveis. “É um gesto de dizer que a gente quer cooperar, que está trabalhando junto e quer achar caminhos comuns tanto para o trade quanto para o investimento”, diz.

Por muitos anos, ressalta o vice-presidente, o investimento americano foi para a Ásia. “Queremos atrair o investimento americano para o Brasil”, afirma.

Essa atração, avaliam, precisa vir acompanhada de uma agenda de transferência de tecnologia.

Pauta exportadora para os EUA

Para os membros da comitiva da indústria, os americanos parecem interessados em trabalhar com o Brasil. A pauta exportadora para a maior economia do mundo é de particular interesse da CNI, uma vez que é formada pela indústria de base.

“Mais de 50% da pauta exportadora brasileira para os EUA é de produtos semi ou manufaturados. Então, o peso da indústria é maior”, diz Lamego.

Dados da CNI apontam que cada US$ 1 bilhão exportado para os EUA gera 24.000 empregos no Brasil, cifra muito maior do que a mesma comparação das exportações da China.

“Esse é o desafio endereçado para a política industrial: avançarmos na indústria de transformação. Os EUA são um grande mercado importante nosso para indústria de transformação e a China é um grande concorrente na disputa desse mercado também”, diz Castro.

Estratégia do governo Trump

Segundo os relatos de autoridades americanas, a prioridade do país no momento é fechar acordo com Índia, Coreia do Sul, Reino Unido (já feito), Japão e União Europeia, especialmente após o entendimento avançado com os ingleses, que deve ser utilizado como base para outros acordos. Com o bloco europeu a negociação está em estágio menos avançado.

“Se ele consegue estabelecer dois ou três acordos com países do G8, é bem  possível que essa regra tenha o efeito dominó”, diz Lamengo. “É uma transformação da ordem econômica mundial para uma ordem que é do multilateralismo para uma ordem na qual o bilateralismo não vai ter uma predominância.”

A impressão é de que o governo Trump foca prioritariamente em sua base, formada por pessoas de classe média baixa com renda estagnada há mais de 20 anos e que não consegue poupar.

Seria uma espécie de agenda rápida, com resultados até setembro deste ano, para agradar essa base diante da aproximação das eleições de meio de mandato (midterm).

Caso os republicanos saiam sem maioria em novembro de 2026, o governo Trump pode passar seus últimos dois anos se esquivando de torpedos da oposição, como investigações sobre as ações tomadas no início do mandato.

Canal direto com os EUA e atração de talentos

A CNI também estuda institucionalizar um canal direto com o Departamento de Comércio dos Estados Unidos. Uma das ideias é por meio da iniciativa Select USA, que atualmente promove oportunidades nos EUA para empresas estrangeiras e o funciona sob o guarda-chuva do departamento de comércio norte-americano

Uma das ideias apresentadas é articular um ponto focal do Select USA dentro da CNI. Esse canal pode funcionar como um local para investimentos do Brasil nos EUA, e no fluxo contrário também. Empresas como Gerdau, Randon e JBS já mantêm operações relevantes no mercado americano e devem expandir suas atividades neste ano, por exemplo.

A indústria de máquinas e equipamentos — que tem nos Estados Unidos 25% do seu faturamento — também se destaca como potencial beneficiada no novo ciclo de aproximação bilateral.

Paralelamente, a indústria tenta construir também uma agenda de intercâmbio de talentos. Os executivos se reuniram com a comunidade científica brasileira em Massachusetts, onde ficam as universidades Harvard e MIT.

“Precisamos pensar nessa agenda que, hoje, está no mundo, e até pensar num programa de atração de talentos”, disse Lamego.

*O jornalista viajou a convite da Apex Partners

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/GeLUPi5zQ2582nGKD6JFey para WhatsApp e https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Acesse o link abaixo para entrar no meu grupo do WhatsApp onde publico meus artigos semanais e entrevistas que faço no rádio e TV, sempre na temática inovação e negócios: https://chat.whatsapp.com/HqlJjC80rJ0Bu9lmsZgw5B
Sugestão: Se estiver procurando alguém para implementar uma solução de IA com agentes veja a Aumo | Transformamos dados em soluções de IA avançadas

Ainda vale a pena programar? O que os cursos de ciência da computação devem ensinar na era da IA

Universidades dos EUA estão se esforçando para entender as implicações da transformação da tecnologia pela IA generativa

Por Steve Lohr – Estadão/The New York Times – 02/07/2025 

A Universidade Carnegie Mellon tem merecida reputação de ser uma das melhores faculdades de ciência da computação dos EUA. Seus formandos vão trabalhar em grandes empresas de tecnologia, startups e laboratórios de pesquisa em todo o mundo.

Apesar de todo o sucesso, o corpo docente do departamento está planejando um encontro neste verão para repensar o que a faculdade deve ensinar para se adaptar ao rápido avanço da inteligência artificial (IA) generativa.

O ensino da ciência da computação provavelmente se concentrará menos na codificação e mais no pensamento computacional e na alfabetização em IA, disse Mary Lou Maher, diretora da Computing Research Association 

A tecnologia “abalou mesmo o ensino da ciência da computação”, diz Thomas Cortina, professor e reitor associado dos programas de graduação da universidade. A ciência da computação, mais do que qualquer outro campo de estudo, está sendo desafiada pela IA generativa.

A IA por trás de chatbots como o ChatGPT está ganhando espaço no meio acadêmico. Mas essa tecnologia chegou ainda mais rapidamente e com mais força à ciência da computação, que foca no desenvolvimento de código, a linguagem dos computadores.

Publicidade

Grandes empresas de tecnologia e startups lançaram assistentes de IA que podem gerar código — e eles estão se tornando cada vez mais potentes. Em janeiro, Mark Zuckerberg, CEO da Meta, estimou que a tecnologia terá ainda neste ano o mesmo desempenho de um engenheiro de software de nível médio.

Assim, os programas de ciência da computação nas universidades de todo os EUA estão se esforçando para entender as implicações da transformação tecnológica, debatendo o que deve continuar a ser ensinando na era da IA. As ideias variam desde dar menos ênfase ao domínio das linguagens de programação até concentrar esforços em cursos híbridos projetados para incorporar a computação em todas as profissões, enquanto os educadores ponderam como serão os empregos do futuro na economia de IA.

“Estamos vendo a ponta do iceberg da IA”, diz Jeannette Wing, professora de ciência da computação e vice-presidente executiva de pesquisa da Universidade de Columbia.

O que aumenta a urgência da questão é que o mercado para empregos de tecnologia se tornou mais restrito nos últimos anos. Os formados em ciência da computação estão descobrindo que as vagas, antes abundantes, agora são escassas. As empresas de tecnologia já confiam mais na IA para alguns aspectos da programação, eliminando trabalhos de nível básico.

Alguns educadores acreditam que curso poderia se ampliar para se tornar mais parecida com as graduações em humanas, com maior ênfase no pensamento crítico e nas habilidades de comunicação.

A Fundação Nacional de Ciência dos EUA (NSF, na sigla em inglês) está financiando um programa, o Level Up AI, para reunir educadores e pesquisadores de universidades e faculdades com o objetivo de avançar em direção a uma visão compartilhada dos fundamentos da educação em IA. O projeto de 18 meses, administrado pela Associação de Pesquisa em Computação, organização sem fins lucrativos de pesquisa e educação, em parceria com a Universidade Estadual do Novo México, está organizando conferências e mesas redondas e produzindo artigos para compartilhar recursos e melhores práticas.

A iniciativa apoiada pela NSF foi criada devido a “uma sensação de urgência de que precisamos de muito mais estudantes de computação — e mais pessoas — que conheçam a IA na força de trabalho”, diz Mary Lou Maher, cientista da computação e diretora da Associação de Pesquisa em Computação.

O futuro da educação em ciência da computação, diz Maher, provavelmente se concentrará menos em programação e mais em pensamento computacional e letramento em IA. O pensamento computacional envolve dividir os problemas em tarefas menores, desenvolver soluções passo a passo e usar dados para chegar a conclusões baseadas em evidências.

O letramento em IA é a compreensão — em diferentes níveis de profundidade para alunos de diferentes níveis — de como a tecnologia funciona, como usá-la de forma responsável e como ela está afetando a sociedade. Cultivar o ceticismo informado, diz ela, deve ser uma meta.

Na Carnegie Mellon, enquanto os membros do corpo docente se preparam para sua reunião, Cortina opina que o curso deve incluir instrução nos fundamentos tradicionais da computação e nos princípios da IA, seguidos por muita experiência prática em projeto de software usando as novas ferramentas.

“Acho que esse é o caminho”, disse ele. “Mas precisamos de uma mudança mais profunda no currículo?”

Atualmente, cada professor de ciência da computação decide se permite que os alunos usem IA. No ano passado, a Carnegie Mellon aprovou o uso da tecnologia em cursos introdutórios. Inicialmente, diz Cortina, muitos dos alunos consideravam a IA uma “solução mágica” para concluir rapidamente as lições de casa, que envolvem desenvolver programas.

“Mas eles não entendiam metade do código”, diz ele, levando muitos a perceberem o valor de saber escrever e revisar códigos por conta própria. “Os alunos estão se reiniciando.”

Isso é verdade para muitos alunos de ciência da computação que estão adotando as novas ferramentas de IA. Eles dizem que usam as soluções para construir protótipos de programas protótipos, para corrigir erros no código e para responder perguntas como se fossem tutores. Mas eles relutam em confiar demais nos algoritmos, temendo que isso diminua sua habilidade em computação.

Muitos estudantes dizem que enviam de 100 a 200 candidaturas para estágios e primeiros empregos. Connor Drake, que será aluno do último ano na Universidade da Carolina do Norte, em Charlotte, no segundo semestre, se considera sortudo, pois conseguiu uma entrevista após se candidatar para apenas 30 vagas. Ele recebeu uma oferta de emprego como estagiário de segurança cibernética na Duke Energy, uma grande empresa de serviços públicos, em Charlotte.

“Um diploma de ciência da computação costumava ser um bilhete dourado para a terra prometida dos empregos”, disse Drake, 22 anos. “Esse não é mais o caso.”

A estratégia de Drake para se proteger da IA é expandir seu conjunto de habilidades. Além de seu curso de ciência da computação, ele estudou ciências políticas com especialização em estudos de segurança e inteligência – um campo em que sua experiência em segurança cibernética poderia muito bem ser aplicada. Ele também é presidente de um clube de segurança cibernética da universidade.

Drake, assim como outros estudantes de ciência da computação, foi forçado a se adaptar a um mercado de trabalho de tecnologia cada vez mais difícil. Vários fatores, segundo especialistas em trabalho, estão em ação. As grandes empresas de tecnologia, em particular, reduziram suas contratações nos últimos anos, um recuo acentuado em relação aos anos de expansão da era da pandemia. A exceção é o recrutamento de um número relativamente pequeno dos mais cobiçados especialistas em IA, para os quais estão sendo ofertados pacotes salariais altíssimos.

Mas a maioria dos trabalhadores de tecnologia não trabalha para empresas do setor. O emprego mais comum para os trabalhadores em ocupações de tecnologia, de modo geral, se manteve estável até recentemente – uma queda de 6% desde fevereiro, de acordo com as estatísticas do governo.

Os empregadores enviaram um sinal mais nítido com um recuo significativo nas listas de empregos em tecnologia. Nos últimos três anos, houve uma queda de 65% nas empresas que procuram trabalhadores com dois anos de experiência ou menos, de acordo com uma análise da CompTIA, uma organização de pesquisa e educação em tecnologia. O declínio nas listagens de profissionais de tecnologia com todos os níveis de experiência caiu 58%.

“Estamos vendo principalmente uma redução pós-pandêmica das contratações e o impacto da atual incerteza econômica”, disse Tim Herbert, diretor de pesquisa da CompTIA. “Ainda não temos um efeito claro da IA”.

Embora o caminho à frente para a educação em ciência da computação possa ser incerto, o mercado de software assistido por IA está pronto para crescer, dizem os especialistas. A IA é uma ferramenta de produtividade, e cada nova onda de computação – o computador pessoal, a internet, o smartphone – aumentou a demanda por software e por programadores.

Desta vez, dizem eles, o resultado pode ser uma explosão de democratização da tecnologia, já que as ferramentas do tipo chatbot são usadas por pessoas de áreas que vão da medicina ao marketing para criar seus próprios programas, personalizados para seu setor, alimentados por conjuntos de dados específicos do setor.

“O crescimento dos empregos em engenharia de software pode diminuir, mas o número total de pessoas envolvidas em programação aumentará”, diz Alex Aiken, professor de ciência da computação da Universidade Stanford.

Ainda vale a pena programar? O que os cursos de ciência da computação devem ensinar na era da IA – Estadão

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/GeLUPi5zQ2582nGKD6JFey para WhatsApp e https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Acesse o link abaixo para entrar no meu grupo do WhatsApp onde publico meus artigos semanais e entrevistas que faço no rádio e TV, sempre na temática inovação e negócios: https://chat.whatsapp.com/HqlJjC80rJ0Bu9lmsZgw5B
Sugestão: Se estiver procurando alguém para implementar uma solução de IA com agentes veja a Aumo | Transformamos dados em soluções de IA avançadas

Revolução silenciosa: drones do tamanho de insetos equipados com IA podem espionar, operar e cultivar; entenda

China apresentou drone espião do tamanho de um mosquito e se une ao avanço global dos microveículos aéreos não tripulados

Por Filipe Vidon — O Globo – 28/06/2025 

RoboBees: microrrobôs voadores autônomosRoboBees: microrrobôs voadores autônomos — Foto: Divulgação/Wyss Um drone do tamanho de um mosquito, revelado recentemente por um laboratório militar na Universidade Nacional de Tecnologia de Defesa (NUDT), na província de Hunan, na China, está sendo apontado como um marco no desenvolvimento de tecnologias de vigilância e espionagem.

Embora desperte preocupações sobre uso militar, essa mesma tecnologia de miniaturização extrema, combinada com inteligência artificial, também vem abrindo caminho para avanços na medicina de precisão, com microrrobôs cirúrgicos, e na agricultura, com drones polinizadores inspirados em insetos.

Com asas minúsculas e três “perninhas” finas como fios de cabelo, o aparelho foi exibido em uma reportagem da CCTV 7, o canal militar da televisão estatal chinesa. Segundo os pesquisadores, sua missão principal será atuar em operações de reconhecimento e infiltração sigilosa.

A apresentação pública do microdrone chinês levanta uma série de questões sobre os rumos tecnológicos e éticos da chamada guerra invisível. Em tempos de tensão geopolítica crescente, o surgimento de equipamentos com esse nível de miniaturização acende um alerta sobre os limites entre segurança e vigilância indiscriminada.

China revela 'drone espião do tamanho de um mosquito' — Foto: ReproduçãoChina revela ‘drone espião do tamanho de um mosquito’ — Foto: Reprodução

Silêncio, sigilo e alcance estratégico

Drones do tipo mosquito, apesar de limitados em poder ofensivo, têm um potencial estratégico imenso em ações de coleta de dados. Por seu tamanho reduzido e operação silenciosa, são especialmente projetados para ambientes de difícil acesso, como o interior de instalações militares, governamentais ou empresariais de alta segurança.

Em áreas urbanas densas ou cenários de guerra híbrida, um microdrone pode se infiltrar em prédios sem chamar atenção, posicionar-se em salas de reunião, ou mesmo seguir um alvo específico sem ser detectado. Segundo os especialistas, o risco de se tornarem ferramentas de espionagem em escala nunca antes vista é real e crescente.

Apesar do entusiasmo em torno da novidade chinesa, os desafios técnicos ainda são relevantes. A redução extrema de tamanho exige componentes mínimos, como sensores e baterias ultracompactas, que limitam o tempo de voo. Além disso, o controle remoto do drone ainda requer que o operador esteja a curta distância para manter a conexão, o que reduz a aplicabilidade em missões de longo alcance.

Inspirados pela biologia de uma abelha, pesquisadores do Instituto Wyss estão desenvolvendo RoboBees — Foto: Instituto Wyss da Universidade de Harvard

Corrida global pelos microdrones

Além do uso desses equipamentos em ações de segurança, essa tecnologia já está sendo desenvolvida para agricultura de precisão, monitoramento ambiental, medicina e inspeção de infraestruturas. Nesse cenário, o drone chinês não é o primeiro a se inspirar no mundo dos insetos.

A Universidade de Harvard desenvolve há anos o projeto RoboBee, que utiliza drones em miniatura com formato de abelha para missões de busca, resgate e polinização artificial. Alguns modelos já são capazes de voar e até nadar.

Para viabilizar a construção dos RoboBees, cientistas do Instituto Wyss criaram técnicas inovadoras de fabricação conhecidas como tecnologias microeletromecânicas Pop-Up (MEMs). Esse método de fabricação permite construir microrrobôs tridimensionais a partir de estruturas planas, ampliando significativamente os limites atuais do design e da engenharia robótica.

Utilizando materiais leves e dobradiças microscópicas, as peças se erguem automaticamente em formas complexas ao serem liberadas da base. Essa técnica facilita a produção precisa e em larga escala desses robôs em miniatura.

Pesquisadores do Instituto Wyss desenvolveram métodos de fabricação inovadores, as chamadas tecnologias microeletromecânicas Pop-Up (MEMs) — Foto: Instituto Wyss da Universidade de HarvardPesquisadores do Instituto Wyss desenvolveram métodos de fabricação inovadores, as chamadas tecnologias microeletromecânicas Pop-Up (MEMs) — Foto: Instituto Wyss da Universidade de Harvard

No setor militar, microdrones do tamanho da palma da mão também foram criados na Noruega e amplamente adotados por forças armadas do Reino Unido, dos Estados Unidos e da Ucrânia. Desde o início da invasão russa em 2022, unidades ucranianas de operações especiais têm usado os “Black Hornet” em áreas como Kursk para reconhecimento e mapeamento em tempo real.

— Trata-se de uma corrida multidisciplinar que une controle remoto, sensores microscópicos e inteligência artificia — definiu um estudante da NUDT durante a apresentação do projeto.

Revolução silenciosa: drones do tamanho de insetos equipados com IA podem espionar, operar e cultivar; entenda

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/GeLUPi5zQ2582nGKD6JFey para WhatsApp e https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Acesse o link abaixo para entrar no meu grupo do WhatsApp onde publico meus artigos semanais e entrevistas que faço no rádio e TV, sempre na temática inovação e negócios: https://chat.whatsapp.com/HqlJjC80rJ0Bu9lmsZgw5B

Sugestão: Se estiver procurando alguém para implementar uma solução de IA com agentes veja a Aumo | Transformamos dados em soluções de IA avançadas

Disseminação da IA estimula novos data centers no Brasil

País oferece vantagens e quer atrair mais projetos internacionais; mercado mundial do segmento deve crescer em média 7% em 2025

Por Martha Funke — Para o Valor – 30/05/2025

Investimentos bilionários em data centers (DC) prometem colocar o Brasil na rota da inteligência artificial (IA) global. Ainda impulsionado por digitalização e computação em nuvem, o mercado mira instalações mais parrudas para exportar serviços como processamento para treinamento de IA generativa.

O cenário é favorecido pela Nova Política de Data Centers, apresentada em maio. Além de vantagens locais, como disponibilidade de energia limpa e renovável, espaço e segurança geopolítica, a ideia é oferecer benefícios à importação de equipamentos, cuja tarifa hoje é pouco mais de 50%, e à exportação de serviços do setor, com antecipação dos efeitos da reforma tributária para o setor digital.

O regime, batizado de Redata, deve ser concedido a empresas que cumprirem metas de sustentabilidade e investimentos em pesquisas sobre DCs, com contribuição de 2% da receita para o Fundo Nacional de Desenvolvimento Industrial e Tecnológico (FNDIT). Nas contas do Ministério da Fazenda, o potencial alcança R$ 2 trilhões em investimentos em dez anos e pode reverter a balança atual, com 60% da carga digital do país rodando no exterior.

Por enquanto, o mercado brasileiro de DC se fortalece com expansão de “regiões” e “zonas” de nuvem (capacidade de processamento local) das empresas de “hiperescala” (companhias do porte de AWS e Microsoft, por exemplo). Nos dados da consultoria IDC, o avanço foi de 19,7% em 2024 e deve ficar em 17,9% este ano, somando US$ 1,39 bilhão. “Os clientes estão mais criteriosos”, avalia Luciano Saboia, diretor de pesquisa e consultoria para o setor de telecomunicações da IDC. O mercado mundial de DC deve crescer em média 7% em 2025.

“A nova onda de investimento com IA está no começo. Ainda não há demanda”, diz Renato Pasquini, vice-presidente global de pesquisa da consultoria Frost & Sullivan. Mas os provedores antecipam o movimento. Um dos destaques é o retorno do Pátria Investimentos – depois da venda da Odata (em 2023) -, com a Omnia. O fundo planeja investir em DCs voltados à IA, com densidade energética na casa dos 100 MW, que em média exigem investimento de R$ 1 bilhão em infraestrutura, detalha o CEO da Omnia, Rodrigo Abreu.

Segundo ele, a vocação é o mercado local e, eventualmente, cargas globais de processamento de IA. A empresa já tem desenvolvimentos no Brasil e em outros países da América Latina e seu primeiro projeto deve começar a ser construído aqui ainda este ano.

Uma das implicações da magnitude dos novos projetos é a necessidade de conexão direta com a rede de transmissão de energia e a inserção dos DCs no sistema integrado nacional. A questão levou a Aneel a aprovar, em maio, novas regras para o acesso de grandes consumidores de energia à rede básica.

A demanda energética estimula a instalação de DCs em regiões com energia disponível. A entrante RT-One mira redução de encargos para custos competitivos. Uma das estratégias prevê parcerias para se classificar como autoprodutora de energia e cortar até 40% na conta. Outra é buscar Zonas de Processamento de Exportação (ZPE), áreas de livre-comércio para produção e exportação de bens e serviços sem IPI, Pis-Cofins e impostos de importação para insumos e matérias-primas.

A empresa já fechou parceria com a Supermicro para equipamentos, a exemplo de GPUs, e elegeu áreas como Uberaba (MG) e Maringá (PR), cuja ZPE aguarda autorização federal, para trazer processamento de IA para o Brasil. O CEO Fernando Palamone estima que 95% da IA nacional sejam processados no exterior, já que o parque nacional sequer dispõe hoje de equipamentos suficientes. Em Maringá a meta é ocupar um terreno adquirido pela prefeitura para criar uma zona industrial. Os investimentos alcançam R$ 6 bilhões em sete anos, em 400 mil m2 e 400 MW de TI, com consumo energético total de 480 MW, mais do que o dobro da cidade. Na primeira fase serão 80 MW, em parceria com a concessionária local, Copel.

Outra que aposta em infraestrutura para IA global, a Scala tem 6 GW em conexões de energia garantida para suportar expansão. A empresa possui 13 DCs em operação, dos quais dez no Brasil, e mais cinco em construção, três deles por aqui. Já investiu R$ 12 bilhões entre Brasil, Chile, México e Colômbia e prevê mais R$ 24 bilhões.

O destaque fica por conta da “cidade” de DCs em Eldorado do Sul (RS), em terreno de 11 milhões de m2, com investimentos de US$ 50 bilhões e carga total de 4,75 GW. “Mais do que o Estado do Rio de Janeiro”, compara Christiana Weisshuhn, vice-presidente de marketing e comunicação da Scala. Outra instalação está sendo construída em Fortaleza (CE), com 7,2 MW.

Fortaleza é um dos destaques da Tecto, empresa pertencente à V.Tal que está investindo US$ 1 bilhão em DCs em várias regiões. O data center cearense Mega Lobster terá 20 MW de potência, com conexão à estação de cabos submarinos e ao ponto de troca de tráfego local, um dos principais do país. Em Santana do Parnaíba (SP), projeto de DC hiperescala deve alcançar 200 MW, para IA, machine learning e nuvem, detalha o diretor comercial André Busnardo.

Mais uma que aposta no modelo “cidade” de DCs é a Elea, que está investindo R$ 5 bilhões na sua AI City no Rio de Janeiro (RJ), aproveitando infraestrutura construída para a Olimpíada. O projeto prevê até 3,2GW de capacidade energética, com 80 MW entregues em 2026. São Bernardo do Campo (SP) recebe cerca de US$ 300 milhões para agregar mais 32 MW até o ano que vem e Alphaville (SP) segue plano semelhante, descreve o CEO Alessandro Lombardi.

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/GeLUPi5zQ2582nGKD6JFey para WhatsApp e https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Acesse o link abaixo para entrar no meu grupo do WhatsApp onde publico meus artigos semanais e entrevistas que faço no rádio e TV, sempre na temática inovação e negócios: https://chat.whatsapp.com/HqlJjC80rJ0Bu9lmsZgw5B

Sugestão: Se estiver procurando alguém para implementar uma solução de IA com agentes veja a Aumo | Transformamos dados em soluções de IA avançadas

O plano da Amazon para controlar o ‘caos do marketplace’

O volume alto de anúncios de baixa performance atrapalha as vendas e desafio sonho da “loja infinita”

Laura Pancini – Exame – 31 de maio de 2025 

Quando criou a Amazon, Jeff Bezos imaginava um marketplace onde o cliente encontraria “qualquer coisa e tudo o que quisesse comprar online”. Hoje, essa busca pelo catálogo infinito esbarra em um problema: são tantas ofertas que o cliente pode se perder e a experiência de compra fica confusa desestimulando as vendas.

A gigante do e-commerce lançou, então, o projeto interno “Bend the Curve”, que já eliminou mais de 24 bilhões de anúncios considerados “não produtivos”. A iniciativa tem o objetivo de organizar o catálogo digital e controlar os custos crescentes da infraestrutura de nuvem.

Por que agora?

Liderada pelo CEO Andy Jassy desde 2021, a estratégia marca uma mudança de foco para além do crescimento acelerado do marketplace. O objetivo é dar um basta na expansão desenfreada de anúncios pouco relevantes — desde produtos com estoque inexistente até listagens desatualizadas há mais de dois anos, que não geram vendas ou causam confusão entre os consumidores.

O equilíbrio entre oferecer uma variedade quase infinita e manter a qualidade do catálogo é delicado. Pesquisas internacionais indicam uma queda na satisfação dos consumidores com o portfólio da empresa — que atingiu o menor índice em 12 anos, segundo levantamento realizado pela Evercore ISI.

Além da exclusão de anúncios, o programa criou um mecanismo de limitação para novos cadastros de produtos por vendedores com desempenho fraco. Em 2024, foram encontrados cerca de 12 mil vendedores ativos com catálogos com mais de 100 mil produtos e nenhuma venda registrada. Eles tiveram o limite de criação de novas listagens bloqueado, o que impediu a entrada de mais de 110 milhões de anúncios considerados improdutivos.

Esse esforço gerou uma economia direta de mais de US$ 22 milhões em custos com servidores da Amazon Web Services (AWS) em 2024, com previsão de US$ 36 milhões adicionais em 2025. Mesmo com o aumento previsto de 27% no orçamento da AWS para 2025, a iniciativa visa desacelerar o ritmo de crescimento dos custos operacionais na nuvem.

A iniciativa, no entanto, não está isenta de desafios. Alguns vendedores expressaram confusão sobre o escopo das restrições, chegando a acreditar que suas contas foram completamente bloqueadas, quando o foco são apenas as listagens consideradas “não produtivas”. Segundo o portal Business Insider, a Amazon promete aprimorar a comunicação para evitar mal-entendidos.

O plano da Amazon para controlar o ‘caos do marketplace’ | Exame

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/GeLUPi5zQ2582nGKD6JFey para WhatsApp e https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Acesse o link abaixo para entrar no meu grupo do WhatsApp onde publico meus artigos semanais e entrevistas que faço no rádio e TV, sempre na temática inovação e negócios: https://chat.whatsapp.com/HqlJjC80rJ0Bu9lmsZgw5B

Sugestão: Se estiver procurando alguém para implementar uma solução de IA com agentes veja a Aumo | Transformamos dados em soluções de IA avançadas

Um micro-ondas gigante pode mudar o futuro da guerra

A startup de tecnologia de defesa Epirus desenvolveu equipamentos anti-drones de ponta e custo eficiente, que estão despertando o interesse do exército dos EUA.

by Sam Dean – MIT Technology Review – junho 25, 2025

Imagine o cenário: a China desliga centenas de milhares de drones autônomos no ar, no mar e debaixo d’água, todos armados com ogivas explosivas ou pequenos mísseis. Essas máquinas descem em um enxame em direção às instalações militares em Taiwan e às bases dos EUA nas proximidades, e, ao longo de algumas horas, uma ofensiva robótica sobrecarrega a força do Pacífico dos EUA antes mesmo que ela consiga começar a reagir.

Pode até parecer um novo filme de Michael Bay, mas é o cenário que mantém o diretor de tecnologia do Exército dos EUA acordado à noite.

“Estou hesitante em dizer isso em voz alta para não manifestá-lo”, diz Alex Miller, um veterano oficial de inteligência do Exército que se tornou CTO do chefe de Estado-Maior do Exército em 2023.

Mesmo que a Terceira Guerra Mundial não ecloda no Mar do Sul da China, toda instalação militar dos EUA ao redor do mundo é vulnerável às mesmas táticas, assim como as forças militares de todos os outros países. A proliferação de drones baratos significa que qualquer grupo com os recursos para montar e lançar um enxame poderia causar estragos, sem a necessidade de jatos caros ou instalações massivas de mísseis.

Embora os EUA tenham mísseis de precisão capazes de derrubar esses drones, eles nem sempre têm sucesso: um ataque de drone matou três soldados dos EUA e feriu dezenas de outros em uma base no deserto da Jordânia no ano passado. E cada míssil americano custa ordens de magnitude mais do que seus alvos, o que limita seu fornecimento; combater drones de mil dólares com mísseis que custam centenas de milhares, ou até milhões, de dólares por disparo só pode funcionar por um tempo, mesmo com um orçamento de defesa que pode atingir um trilhão de dólares no próximo ano.

As forças armadas dos EUA agora estão em busca de uma solução, e querem isso rápido. Militares e uma série de startups de tecnologia de defesa estão testando novas armas que prometem desativar drones em massa. Há drones que colidem com outros drones como um aríete (uma máquina de guerra medieval); drones que atiram redes para capturar hélices de quadricópteros; metralhadoras guiadas por precisão que simplesmente derrubam drones do céu; abordagens eletrônicas, como bloqueadores de GPS e ferramentas de hacking; e lasers que derretem buracos diretamente no lado de um alvo.

E, então, existem os micro-ondas: dispositivos eletrônicos de alta potência que liberam quilowatts de energia para queimar os circuitos de um drone como se fosse o papel alumínio que você esqueceu de tirar da comida quando a aqueceu.

É aí que a Epirus entra.

Quando fui visitar a sede dessa startup de 185 pessoas em Torrance, Califórnia, no início deste ano, tive uma visão dos bastidores de seu gigantesco micro-ondas, chamado Leonidas, no qual o Exército dos EUA já está apostando como uma arma anti-drone de ponta. O Exército concedeu à Epirus um contrato de 66 milhões de dólares no início de 2023, aumentou esse valor com mais 17 milhões de dólares no outono passado, e atualmente está implantando alguns desses sistemas para testes com tropas dos EUA no Oriente Médio e no Pacífico. (O Exército não divulga detalhes sobre a localização das armas no Oriente Médio, mas publicou um relatório sobre um teste de fogo real nas Filipinas no início de maio.)

De perto, o Leonidas que a Epirus construiu para o Exército parece uma placa de metal de 60 cm de espessura, do tamanho de uma porta de garagem, fixada em uma base giratória. Ao abrir a tampa traseira, é possível ver que a placa está preenchida com dezenas de unidades amplificadoras de micro-ondas individuais dispostas em uma grade. Cada uma tem cerca do tamanho de um cofre de banco e é construída em torno de um chip de nitreto de gálio, um semicondutor que pode suportar voltagens e temperaturas muito mais altas do que o silício típico.

O Leonidas fica em cima de um reboque que um caminhão padrão do Exército pode puxar, e quando é ligado, o software da empresa orienta a grade de amplificadores e antenas a moldar as ondas eletromagnéticas que estão emitindo com uma matriz de fase, sobrepondo com precisão os sinais de micro-ondas para moldar a energia em um feixe focado. Em vez de precisar apontar fisicamente uma arma ou prato parabólico para cada um dos mil drones que se aproximam, o Leonidas pode alternar rapidamente entre eles com a velocidade do software.

Claro, isso não é magia. Existem limites práticos sobre o quanto de dano um único conjunto pode causar, e a que distância, mas o efeito total poderia ser descrito como um emissor de pulso eletromagnético, um raio da morte para eletrônicos, ou um campo de força que poderia criar uma barreira protetora em torno de instalações militares e derrubar drones da mesma forma que uma raquete estoura um bando de mosquitos.

Caminhei pelas seções não classificadas do chão de fábrica do Leonidas, onde um grupo de engenheiros trabalhando em “weaponeering” — o termo militar para descobrir exatamente quanto de uma arma, seja alta explosão ou feixe de micro-ondas, é necessário para alcançar o efeito desejado — realizava testes em uma série de pequenas salas sem eco. Dentro delas, eles disparavam unidades individuais de micro-ondas em uma ampla gama de drones comerciais e militares, passando por formas de onda e níveis de potência para tentar encontrar o sinal que pudesse fritar cada um com a máxima eficiência.

Em uma transmissão de vídeo ao vivo de dentro de uma dessas salas com isolamento acústico, assisti a um drone quadricóptero girar suas hélices e, em seguida, assim que o emissor de micro-ondas foi ligado, ele parou instantaneamente: primeiro a hélice frontal esquerda e depois o restante. Um drone atingido por um feixe Leonidas não explode, ele simplesmente cai.

Comparado à explosão de um míssil ou ao estalo de um laser, não parece muito. Mas isso poderia forçar os inimigos a encontrarem maneiras mais caras de atacar que reduzam a vantagem do enxame de drones, e poderia contornar as limitações inerentes aos sistemas de defesa puramente eletrônicos ou estritamente físicos. Isso poderia salvar vidas.

O CEO da Epirus, Andy Lowery, um homem alto com uma energia elétrica e um sotaque rápido do sul de Illinois, não hesita em falar sobre seu produto. Como ele me disse durante minha visita, o Leonidas foi projetado para liderar uma última resistência, como o espartano do qual o micro-ondas recebe seu nome, neste caso, contra hordas de veículos aéreos não tripulados, ou UAVs. Embora o alcance real do sistema Leonidas seja mantido em segredo, Lowery diz que o Exército está buscando uma solução que possa parar drones de forma confiável em um intervalo de alguns quilômetros. Ele me disse: “Eles gostariam que nosso sistema fosse o proprietário dessa camada final, para pegar qualquer um que escape, qualquer vazamento, qualquer coisa assim.”

Agora que eles disseram ao mundo que “inventaram um campo de força”, acrescentou Lowery, o foco está na fabricação em larga escala, antes que os enxames de drones realmente comecem a descer ou uma nação com uma grande força militar decida lançar uma nova guerra. Antes, em outras palavras, o pesadelo de Miller se torne realidade.

Por que anti-drones?

Miller se lembra bem de quando o perigo dos pequenos drones armados apareceu pela primeira vez em seu radar. Os relatos de combatentes do Estado Islâmico amarrando granadas na parte inferior de quadricópteros comerciais DJI Phantom surgiram pela primeira vez no final de 2016, durante a Batalha de Mossul. “Eu pensei, ‘Oh, isso vai ser ruim,’ porque basicamente é um IED (dispositivo explosivo improvisado) aéreo naquele ponto,” diz ele.

Ele tem acompanhado o perigo à medida que ele se constrói de forma constante desde então, com avanços em visão computacional, software de coordenação de IA e táticas de drones suicidas acelerando ainda mais.

Então, a guerra na Ucrânia mostrou ao mundo que a tecnologia barata mudou fundamentalmente como a guerra acontece. Assistimos em vídeos em alta definição como um drone barato, pronto para uso, modificado para carregar uma pequena bomba, pode ser pilotado diretamente contra um caminhão distante, um tanque ou um grupo de tropas, com um efeito devastador. E drones suicidas maiores, também conhecidos como “munições de patrulha”, podem ser produzidos por apenas dezenas de milhares de dólares e lançados em grandes salvas para atingir alvos fáceis ou sobrecarregar defesas militares mais avançadas apenas pelo número.

Como resultado, Miller, juntamente com grandes setores do Pentágono e círculos políticos de Washington, acredita que o atual arsenal dos EUA para defender contra essas armas é simplesmente muito caro e os recursos são tão escassos que não podem realmente acompanhar a ameaça.

Basta olhar para o Iémen, um país pobre onde o grupo militar Houthi tem sido constantemente atacado na última década. Armados com esse novo arsenal de baixa tecnologia, nos últimos 18 meses o grupo rebelde conseguiu bombardear navios de carga e efetivamente interromper o transporte global no Mar Vermelho, como parte de um esforço para pressionar Israel a parar sua guerra em Gaza. Os Houthis também usaram mísseis, drones suicidas e até barcos-drones para lançar poderosos ataques contra navios da Marinha dos EUA enviados para detê-los.

A empresa de tecnologia de defesa mais bem-sucedida que vende armas anti-drones para o Exército dos EUA atualmente é a Anduril, fundada por Palmer Luckey, o inventor do equipamento de realidade virtual Oculus, e uma equipe de cofundadores da Oculus e do gigante de dados de defesa Palantir. Apenas nos últimos meses, os Fuzileiros Navais escolheram a Anduril para contratos de combate a drones que podem valer quase 850 milhões de dólares na próxima década, e a empresa tem trabalhado com o Comando de Operações Especiais desde 2022 em um contrato de combate a drones que pode valer quase um bilhão de dólares no mesmo período. Não está claro, pelos contratos, o que exatamente a Anduril está vendendo para cada organização, mas suas armas incluem bloqueadores de guerra eletrônica, bombas de drones movidas a jato e drones propulsados por hélices Anvil, projetados para simplesmente colidir com drones inimigos.

Neste arsenal, a maneira mais barata de parar um enxame de drones é a guerra eletrônica: bloquear os sinais de GPS ou rádio usados para pilotar as máquinas. Mas as intensas batalhas de drones na Ucrânia avançaram a arte de bloquear e contra-bloquear a tal ponto que estamos quase em um impasse. Como resultado, um novo estado da arte está surgindo: drones inbloqueáveis que operam autonomamente usando processadores internos para navegar por mapas internos e visão computacional, ou até drones conectados com filamentos de cabo de fibra óptica de 20 quilômetros para controle ancorado.

Mas inbloqueáveis não significa imunes a anti-drones Em vez de usar o método de embaralhamento de um bloqueador, que emprega uma antena para bloquear a conexão do drone com um piloto ou sistema de orientação remota, o feixe de micro-ondas Leonidas atinge o corpo de um drone de lado. A energia encontra seu caminho em algo elétrico, seja o controlador central de voo ou um fio minúsculo que controla uma aba em uma asa, para causar um curto-circuito no que estiver disponível. (A empresa também afirma que esse golpe de energia direcionado permite que pássaros e outros animais selvagens continuem se movendo com segurança.)

Tyler Miller, engenheiro sênior de sistemas da equipe de armamento da Epirus, me disse que eles nunca sabem exatamente qual parte do drone alvo vai ser afetada primeiro, mas eles têm visto com confiabilidade o sinal de micro-ondas invadir algum lugar para sobrecarregar um circuito. “Com base na geometria e na maneira como os fios estão dispostos,” ele disse, “um desses fios será o melhor caminho para a entrada.” “Às vezes, se rotacionarmos o drone 90 graus, o motor diferente vai falhar primeiro,” ele acrescentou.

A equipe chegou até a tentar envolver os drones-alvo com fita de cobre, o que teoricamente proporcionaria blindagem, apenas para descobrir que o micro-ondas ainda encontra uma maneira de entrar através dos eixos das hélices móveis ou das antenas que precisam permanecer expostas para que o drone possa voar.

O Leonidas também tem uma vantagem quando se trata de derrubar uma grande quantidade de drones de uma vez. Derrubar fisicamente um drone do céu ou iluminá-lo com um laser pode ser eficaz em situações onde a guerra eletrônica falha, mas drones anti-drones só conseguem derrubar um de cada vez, e lasers precisam ser apontados e disparados com precisão. Os micro-ondas da Epirus podem danificar tudo em um arco de aproximadamente 60 graus a partir do emissor Leonidas simultaneamente e continuar disparando indefinidamente; sistemas de energia dirigida como este nunca ficam sem munição.

Quanto ao custo, cada unidade do Leonidas do Exército atualmente custa “alguns milhões de dólares”, disse Lowery. A precificação de contratos de defesa pode ser opaca, mas a Epirus entregou quatro unidades para o contrato inicial de 66 milhões de dólares, o que dá um preço aproximado de 16,5 milhões de dólares cada. Para comparação, mísseis Stinger da Raytheon, que os soldados atiram contra aeronaves inimigas ou drones a partir de um lançador montado no ombro, custam centenas de milhares de dólares por disparo, o que significa que o Leonidas pode começar a custar menos (e continuar disparando) depois de derrubar a primeira onda de um enxame.

Radar da Raytheon, revertido

A Epirus faz parte de uma nova onda de empresas de defesa apoiadas por capital de risco que estão tentando mudar a forma como as armas são criadas e como o Pentágono as compra. As maiores empresas de defesa, como Raytheon, Boeing, Northrop Grumman e Lockheed Martin, normalmente desenvolvem novas armas em resposta a subsídios de pesquisa e contratos de custo mais, nos quais o Departamento de Defesa dos EUA garante uma margem de lucro certa para as empresas que constroem produtos que atendem à sua lista de especificações técnicas. Esses programas têm mantido o Exército abastecido com armas de ponta por décadas, mas os resultados podem ser peças exóticas de maquinaria militar entregues anos depois do prazo e bilhões de dólares além do orçamento.

Em vez de construir com especificações minuciosas, a nova geração de contratantes militares visa produzir produtos em um cronograma rápido para resolver um problema e depois ajustá-los enquanto fazem propostas para o Exército. O modelo, pioneiro pela Palantir e SpaceX, impulsionou empresas como Anduril, Shield AI e dezenas de outras startups menores para o negócio de guerra à medida que o capital de risco coloca dezenas de bilhões de dólares em defesa.

Assim como a Anduril, a Epirus tem raízes diretas na Palantir; foi cofundada por Joe Lonsdale, que também cofundou a Palantir, e John Tenet, colega de Lonsdale na época em seu fundo de investimento, o 8VC. (Tenet, filho do ex-diretor da CIA, George Tenet, pode ter inspirado o nome da empresa. Os pais de Tenet eram nascidos na região de Epirus, no noroeste da Grécia. Mas a empresa geralmente diz que o nome faz referência ao Arco Epirus da fantasia pseudo-mítica do filme Imortals, de 2011, que nunca fica sem flechas.)

Embora a Epirus esteja fazendo negócios no novo modelo, suas raízes estão no antigo, especificamente na Raytheon, pioneira no campo da tecnologia de micro-ondas. Cofundada pelo professor do MIT Vannevar Bush em 1922, a empresa fabricava tubos de vácuo, como os encontrados em rádios antigos. Mas a empresa se tornou sinônimo de defesa eletrônica durante a Segunda Guerra Mundial, quando Bush criou um laboratório para desenvolver a tecnologia de radar de micro-ondas inventada pelos britânicos em um produto viável, e a Raytheon começou a produzir em massa os tubos de micro-ondas, conhecidos como magnetrons, para o esforço de guerra dos EUA. Ao final da guerra, em 1945, a Raytheon fabricava 80% dos magnetrons que alimentavam o radar dos Aliados no mundo todo.

Os grandes tubos permaneceram a melhor forma de emitir micro-ondas de alta potência por mais de meio século, superando facilmente os amplificadores de estado sólido baseados em silício. Eles ainda estão por aí — o micro-ondas na sua cozinha funciona com um magnetron de tubo de vácuo. Mas os tubos têm desvantagens: são quentes, grandes e exigem manutenção. (Na verdade, o outro equipamento anti drones de micro-ondas atualmente em desenvolvimento no Pentágono, o Tactical High-power Operational Responder, ou THOR, ainda depende de um tubo de vácuo físico. Relatou-se que é eficaz para derrubar drones em testes, mas ocupa um contêiner de carga inteiro e precisa de uma antena parabólica para atingir seus alvos.)

Na década de 2000, novos métodos de construção de amplificadores de estado sólido usando materiais como o nitreto de gálio começaram a amadurecer e conseguiram lidar com mais potência do que o silício sem derreter ou causar curtos-circuitos. A Marinha dos EUA gastou centenas de milhões de dólares em contratos de micro-ondas de ponta, um deles para um projeto da Raytheon chamado Next Generation Jammer, voltado especificamente para projetar uma nova forma de criar micro-ondas de alta potência que funcionam a distâncias extremamente longas.

Lowery, o CEO da Epirus, começou sua carreira trabalhando em reatores nucleares em porta-aviões da Marinha antes de se tornar o engenheiro chefe do Next Generation Jammer na Raytheon em 2010. Lá, ele e sua equipe trabalharam em um sistema que dependia de muitos dos mesmos fundamentos que agora alimentam o Leonidas, usando o mesmo tipo de material amplificador e configuração de antena para fritar a eletrônica de um pequeno alvo a uma distância muito mais curta, em vez de interromper o radar de um alvo a centenas de quilômetros de distância.

💥 O avanço da guerra com drones autônomos

A proliferação de drones autônomos armados está mudando a forma como as forças militares enfrentam ameaças, tornando as instalações vulneráveis a ataques rápidos e devastadores, sem a necessidade de grandes investimentos em armas caras.

🔧 A resposta militar: micro-ondas Leonidas

A Epirus, startup focada em defesa, desenvolveu o Leonidas, uma arma de micro-ondas que promete ser a solução para enfrentar enxames de drones. Com um feixe de micro-ondas, o Leonidas pode derrubar drones de forma eficiente, sem usar mísseis caros.

⚡ Tecnologia de defesa de baixo custo

Em vez de depender de mísseis de alto custo, o Leonidas utiliza micro-ondas para desativar drones de forma eficaz e barata, podendo derrubar vários drones de uma vez em um arco de 60 graus, uma revolução na defesa eletrônica.

💡 Inovações e desafios da guerra moderna

Com a guerra na Ucrânia e o aumento de ataques com drones baratos, as forças armadas dos EUA estão buscando soluções rápidas e mais acessíveis para enfrentar essa ameaça crescente, e tecnologias como o Leonidas estão no centro dessa mudança.

Micro-ondas gigante pode mudar guerras – MIT Technology Review

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/GeLUPi5zQ2582nGKD6JFey para WhatsApp e https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Acesse o link abaixo para entrar no meu grupo do WhatsApp onde publico meus artigos semanais e entrevistas que faço no rádio e TV, sempre na temática inovação e negócios: https://chat.whatsapp.com/HqlJjC80rJ0Bu9lmsZgw5B

Sugestão: Se estiver procurando alguém para implementar uma solução de IA com agentes veja a Aumo | Transformamos dados em soluções de IA avançadas

A criatividade humana e o desafio da IA

Os LLMs aumentam nossa produtividade, mas não podemos ignorar o provável preço a pagar por isso. Evitar o perigo depende de dois posicionamentos da liderança

Francisco Castro, Jian Gao e Sébastien Martin – MIT Management Sloan Review Brasil – 20 de dezembro de 2024

Os sistemas generativos de inteligência artificial que modelam a linguagem vêm exibindo, de 2022 para cá, notável proficiência em uma série de tarefas. Profissionais que trabalham com escrita ou desenvolvimento de softwares que o digam. 

Ferramentas como o oferecem uma maior produtividade, o que está levando muitos gestores a incorporarem essa tecnologia aos fluxos de trabalho. Mas nossa pesquisa revela que esse possível aumento de eficiência pode cobrar um preço alto.

A dependência excessiva da IA pode desestimular os funcionários de expressar seu conhecimento específico e de apresentar suas próprias ideias. Com isso, produções cada vez mais homogeneizadas tendem a ficar mais comuns. 

Em longo prazo, a inovação e a originalidade ficarão ameaçadas. Os gestores que buscam obter eficiência com os grandes modelos de linguagem (LLMs, na sigla em inglês) precisarão trabalhar no equilíbrio entre a produtividade e a criatividade em sua interação com a IA.

Códigos escritos por máquina e afins

O conteúdo gerado por IA imita de maneira impressionante a fluência linguística daquele criado por humanos. Mas ele carece, em geral, das escolhas estilísticas individuais e do pensamento original que as pessoas expressariam naturalmente ao realizar uma tarefa sem IA. 

Trabalhar os outputs criados pela tecnologia para que eles tragam algo mais humano (e de qualidade) pode exigir uma ação de refinamento a ser executada várias vezes – o que toma tempo. Isso levaria os usuários a decidirem que não vale o esforço, caso o output inicial da IA já for bom o suficiente. 

Assim, surge o impasse. Devemos investir tempo na personalização de sugestões de IA generativa, para que ela assimile, progressivamente, seu estilo e know-how únicos, ou se contentar com o primeiro rascunho, um tanto abaixo do ideal?

Vejamos, por exemplo, uma equipe de engenheiros de software trabalhando em um projeto de tecnologia de grande escala. À medida que o grupo está na base do código, cada membro tomará decisões de codificação e documentação que estão de acordo com os padrões acordados, mas que também são orientadas pela própria experiência e preferências de cada um em relação a arquitetura de objetos, nomenclatura de funções, escolhas de teste etc. 

Quando se prioriza a produtividade, as ferramentas baseadas em LLM, como o GitHub Copilot, facilitam a geração rápida de um rascunho ou o preenchimento automático de grandes blocos de código. Isso pode economizar muito tempo, já que os LLMs geralmente escrevem códigos bons o bastante. 

No entanto, o primeiro rascunho da IA talvez não reflita as melhores práticas da equipe ou o domínio e o estilo de um dado engenheiro. Embora o time possa refinar seus prompts de IA ou editar o código manualmente para melhorá-lo e deixá-lo mais fiel à intenção original, isso torna o trabalho mais lento. 

Não refinar/editar também pode ter implicações negativas sobre a produtividade: mais tarde, quando um programador precisar voltar ao código para corrigir um bug ou fazer melhorias, os custos e o esforço para resolver quaisquer deficiências tendem a ser muito maiores. Na verdade, nossa pesquisa descobriu que revisar e adaptar o código gerado pela IA pode ser trabalhoso demais. Em alguns casos, é mais eficiente recomeçar do zero.

O risco consequente para os gestores que colocam muito foco nas metas de produtividade e prazos difíceis de cumprir é que isso acaba estimulando os funcionários a evitarem o esforço extra e aceitarem outputs mais genéricos, o que eleva o risco de repercussões negativas significativas: um estudo de 2023 descobriu que as ferramentas de codificação baseadas em LLM podem diminuir a qualidade e dificultar a atualização do código.

Profissionais que se apoiam em ferramentas do tipo para programar já vivenciam isso. A integração da IA com pacotes de software corporativos facilitou que LLMs cumpram as tarefas de escrever e-mails, gerar relatórios ou preparar slides de apresentações. 

E os usuários, nesses casos, têm de decidir entre aceitar o que a IA entrega como está (mesmo considerando que não seja suficientemente preciso ou careça de originalidade) e fazer um esforço extra para obter melhores outputs por meio de refinamentos imediatos. É provável que a pressão seja grande nesses momentos. 

Quanto mais tempo os usuários gastam editando o conteúdo ou refinando prompts iterativos, mais próximo o output da ferramenta estará de suas preferências e padrões. Já se sempre aceitarem o output inicial da IA, a empresa acumulará conteúdos ou códigos que não refletem a experiência de seus funcionários.

Em um artigo para o arXiv, da Cornell University (EUA), apresentamos um modelo matemático simples adaptado para recriar e capturar aspectos-chave das interações entre humanos e IA. A seguir, resumimos o que ele nos ensina sobre as consequências da adoção indiscriminada da IA.

A criatividade está, sim, em risco

Nossa pesquisa sugere que aquilo que as pessoas ganham em eficiência ao interagir com a IA elas perdem em diversidade de pensamento e criatividade. Outputs gerados por LLMs e não modificados tendem a oferecer conteúdos mais homogêneos do que algo criado por uma pessoa real. 

Imagine, por exemplo, se o Microsoft Copilot escrevesse todos os e-mails de todo mundo. Essa homogeneidade em escala pode colocar em risco a originalidade e a diversidade de ideias, algo essencial para o crescimento e a inovação.

Essa homogeneização se intensifica quando o conteúdo gerado por IA serve para treinar outros modelos de IA. A situação é mais preocupante à medida que mais conteúdo de IA chega aos conjuntos de dados usados para treinar LLMs. 

Se a internet ficar saturada desse tipo de conteúdo e se a IA for cada vez mais incorporada ao nosso fluxo de trabalho, entramos em uma espiral negativa em que a criatividade e a diversidade de pensamento serão cada vez menores. 

Alguns pesquisadores chegam a defender a tese de que treinar LLMs com mais conteúdo gerado por outros LLMs (não por humanos) pode levar até ao colapso desses modelos.

Você pode estar se questionando: perder diversidade de pensamento é realmente tão ruim quando ganhamos tanto em eficiência? De fato, a IA é capaz de gerar, eficientemente, uma grande quantidade de conteúdo para uso rotineiro. 

A resposta é sim, ao menos no longo prazo. O hábito de adotar como padrão os outputs de LLMs tende a afetar a capacidade de inovação da empresa, uma vez que esta depende de originalidade e criatividade. 

O que fazer

Os gestores devem equilibrar o foco nos ganhos de produtividade com a garantia de que as ferramentas de IA aprimorem, em vez de limitarem, as ideias e as perspectivas humanas expressas em seus produtos.

Existem ao menos duas maneiras de colher os benefícios da IA generativa sem limar a criatividade e a diversidade de pensamento, a saber:

 Revisar as expectativas de produtividade. Ao avaliar o uso potencial da IA generativa para determinada tarefa, eles precisam levar em consideração a natureza e os requisitos da tarefa, quanta supervisão ela demanda ou com quanto pensamento original os funcionários devem contribuir. Em alguns casos, os funcionários podem até mesmo precisar de mais tempo para concluir a tarefa se fizerem uso de IA.

Aprimorar as interações humanos e IA. A ideia é permitir que os usuários orientem, alterem e corrijam o output do modelo com mais facilidade, pode desempenhar um papel crucial. Exemplos de medidas a tomar? Um é incentivar a geração aumentada de recuperação (ou RAG), em que a IA recorre a bases de conhecimento externas definidas para responder à demanda desses humanos. Mais treinamento em prompts também deve facilitar para os usuários humanos a transmissão de suas ideias, permitindo construir outputs de LLM mais originais.

AO LONGO DA HISTÓRIA, DECISÕES GERENCIAIS DE AUTOMAÇÃO E TERCEIRIZAÇÃO transferiram carga de trabalho e tarefas rotineiras para máquinas ou outras entidades externas. Em troca, isso permitiu que as empresas aumentassem sua produtividade e reduzissem custos. 

Agora, a tecnologia de IA generativa promete fazer o mesmo, mas, diferentemente de suas predecessoras, ela afeta as empresas em um domínio diferente – o de ideias, conteúdo e inovação. 

A IA pode diminuir nossa carga cognitiva em tarefas como redigir documentos de rotina ou analisar relatórios longos. Porém, corremos riscos ao lhe terceirizar nossos pensamentos originais – ou críticos. 

Os líderes organizacionais devem entender que LLMs têm de ser assistentes que enriquecem o trabalho humano, não substitutos que corroem a riqueza da individualidade e da diversidade de pensamento.

Para mitigar essas preocupações, é essencial que a liderança oriente suas equipes no uso cuidadoso das ferramentas de IA. O gestor deve incentivar seus funcionários a expressarem suas próprias perspectivas e contribuírem com sua criatividade para a empresa. Isso garantirá um melhor uso dos sistemas de IA e protegerá contra as armadilhas potenciais causadas por uma cultura muito homogênea.

Francisco Castro, Jian Gao e Sébastien Martin

Francisco Castro é professor de decisões, operações e gestão de tecnologia na UCLA Anderson School of Management (EUA). Jian Gao é doutorando na UCLA Anderson. Sébastien Martin é professor de operações na Kellogg School of Management da Northwestern University (EUA).

A criatividade humana e o desafio da IA – MIT Sloan Management Review Brasil

Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/GeLUPi5zQ2582nGKD6JFey para WhatsApp e https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w  para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal ES360, encontram-se em http://evandromilet.com.br/

Acesse o link abaixo para entrar no meu grupo do WhatsApp onde publico meus artigos semanais e entrevistas que faço no rádio e TV, sempre na temática inovação e negócios: https://chat.whatsapp.com/HqlJjC80rJ0Bu9lmsZgw5B

Sugestão: Se estiver procurando alguém para implementar uma solução de IA com agentes veja a Aumo | Transformamos dados em soluções de IA avançadas