Nosso diferencial repousa em sermos uma potência híbrida, desempenhando um papel relevante como produtor de petróleo, biocombustíveis sustentáveis e eletricidade renovável
Clarissa Lins – Valor – 19/10/2026
À medida que o país se prepara para ir novamente às urnas, é oportuno oferecer propostas para uma agenda de Estado na pauta de energia. Isso ganha ainda mais relevância no atual quadro de acentuada tensão global em países essenciais ao fornecimento de commodities energéticas, em um momento no qual o Brasil pode ocupar um espaço singular.
Como tenho ilustrado nesta coluna, o país detém uma posição diferenciada, tanto em termos energéticos quanto elétricos. Com efeito, nossa matriz energética já se baseia em um equilíbrio entre fontes fósseis e renováveis, em grande medida em função do papel histórico da biomassa (33% da matriz). Adicionalmente, a produção atual de petróleo nos coloca como 8º maior produtor global, com um volume de 4,6 milhões de barris/dia, sendo competitivo em termos de custo de produção e de intensidade de carbono. Na perspectiva da matriz elétrica, o legado da hidroeletricidade, acoplado à penetração mais recente das fontes eólica e solar, nos garante uma matriz quase 90% renovável.
A conclusão óbvia, portanto, é que o Brasil está muito bem-posicionado em termos de oferta e diversidade de fontes energéticas, um atributo essencial em tempos de guerra e ênfase no binômio segurança e transição energética. Nossa dotação de recursos e a competitividade em explorá-los permite afirmar que nosso diferencial repousa em sermos uma potência híbrida, desempenhando um papel relevante como produtor de petróleo, biocombustíveis sustentáveis e eletricidade renovável.
Se isto nos garante um ponto de partida favorável em um mundo que valoriza diversidade de fontes e de produtores, não nos permite repousar em berço esplêndido. De fato, a era atual valoriza a entrega eficiente, resiliente e sustentável de serviço energético. Isto pressupõe, portanto, ser competitivo e eficiente nos diferentes usos finais da energia (na indústria, no transporte e nas edificações), ancorado em um sistema alinhado às tendências globais.
Em uma contribuição recente para o Centro de Debate em Políticas Públicas (CDPP), argumento que o Brasil pode e deve apropriar-se de maneira ágil e eficiente da oportunidade dada pelo contexto atual. Para tanto, é necessário priorizar algumas ações que, tomadas em conjunto, podem compor uma agenda de governo para os próximos anos.
A primeira prioridade passa por estabelecer uma visão de longo prazo para o setor energético como um todo, a qual esteja alinhada com as suas vocações e diferenciais competitivos, bem como com seus objetivos climáticos e de desenvolvimento econômico. A ausência de uma visão clara e integrada intensifica os dilemas de curto prazo e prejudica a harmonia das políticas públicas, gerando incerteza em investimentos.
O Brasil dispõe de planejamento decenal, elaborado pela Empresa dePesquisa Energética (EPE) ouvindo diferentes atores, o qual pode ser fortalecido institucionalmente. Dar transparência aos trade-offs e dilemas de diferentes mix energéticos possíveis e trabalhar com cenários de longo prazo são elementos que podem contribuir para um debate saudável acerca dos caminhos a serem seguidos, seus custos e benefícios.
A segunda prioridade passa por robustecer o ambiente de negócios, no intuito de atrair investimentos privados de longo prazo. Projeções recentes indicam necessidade vultosa de alocação de capital na área de energia, de modo a apoiar o aumento da demanda projetada de 20% nos próximos 10 anos. Ainda que disponha de condições de partida favoráveis, o Brasil compete por capital internacional nesta corrida por investimentos.
Neste contexto, são elementos chave na percepção de risco dos investidores a estabilidade macroeconômica, a qualidade das políticas públicas, a segurança jurídica, a robustez do mercado de capitais, bem como a solidez das instituições. Desta forma, contar com agências reguladoras independentes, nas áreas de energia, mineração e meio ambiente, dotadas de quadros técnicos de excelência, com mandatos claros e autonomia orçamentária é condição necessária para fortalecer nosso ambiente institucional. Isto também contribui para melhorar a previsibilidade regulatória e despolitizar alguns processos, aumentando a eficiência e a transparência do sistema.
Adicionalmente, pressupõe-se que este seja o momento ideal para criar condições equânimes de competição entre as diversas fontes energéticas, valorizando seus atributos, retirando subsídios ineficientes e melhorando os sinais de preço ao mercado. Em um mundo que caminha para maior eletrificação da economia, garantir um arcabouço regulatório moderno e que valorize o papel do consumidor é importante elemento de competitividade.
A terceira prioridade diz respeito à maior integração às cadeias globais de valor. Ter capacidade de gerar energia a partir de recursos domésticos e entregar de maneira competitiva e resiliente serviços de qualidade não significa isolar-se do mundo, nem buscar autossuficiência a qualquer custo. Significa sim priorizar opções nas quais somos competitivos, reforçar nosso papel de parceiro confiável no comércio global, além de influenciar fóruns internacionais de decisão para que os atributos de nossos produtos energéticos sejam corretamente valorizados.
Há espaço, portanto, para que o Brasil exerça um papel diferenciado em diversas instâncias, tanto mostrando que soluções baseadas em combustíveis sustentáveis são eficientes em setores de difícil eletrificação, quanto reforçando que diferenciar produtos e serviços energéticos com base na intensidade de carbono contribui para a descarbonização global. Da mesma forma, participar ativamente das tecnologias de eletrificação faz sentido e é necessário para reforçar nossa competitividade em cadeias de baixo carbono.
Tendo em vista que ainda se espera um intenso desenvolvimento tecnológico em várias frentes, estimular a pesquisa e desenvolvimento (P&D) na indústria de energia deve manter-se como prioridade, além de reforçar o contínuo contato entre academia e setor privado. As cláusulas de P&D em vigor tanto no setor de óleo e gás, quanto no de energia elétrica, constituem uma importante fonte de recursos para tanto, cabendo sempre o cuidado com a eficiência de sua utilização.
Outras prioridades podem ser elencadas, tais como melhoria de governança e transparência na alocação de recursos oriundos da atividade energética, qualificação da mão de obra para as novas competências necessárias e aprimoramento do conhecimento geológico de nosso território. Isso ilustra a riqueza de nossa pauta energética. Que o novo governo saiba aproveitá-la de maneira eficiente e competitiva.
Clarissa Lins é economista e sócia fundadora da Catavento Consultoria.
https://valor.globo.com/opiniao/coluna/energia-uma-proposta-de-agenda-para-o-brasil.ghtml
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