Duas economias, dois destinos: por que os Estados Unidos pagam salários altos e o Brasil não


Muita gente acha que um país é rico porque seus trabalhadores se esforçam mais, ou pobre porque falta vontade. A explicação é outra. O que determina o nível de salários de um país é, antes de tudo, onde as pessoas trabalham. Em que setores está o emprego, e quanto cada setor consegue pagar.

Vamos comparar duas economias de forma bem simples.

A primeira economia: muito emprego onde se paga pouco

Imagine um país com um setor agropecuário grande e um setor de serviços tradicionais enorme: comércio, alimentação, serviços pessoais, transporte, trabalho doméstico. Esses setores empregam muita gente, mas pagam salários baixos, porque a produtividade de cada trabalhador é limitada e há pouca tecnologia embutida no que se faz.

Esse país também tem uma indústria sofisticada e serviços sofisticados, como engenharia, software, finanças, pesquisa e design. Esses setores pagam muito bem, mas são pequenos. Empregam pouca gente.

Resultado: a grande maioria dos trabalhadores está nos setores de baixo salário. A média salarial do país fica lá embaixo. O PIB per capita também.

Esse é o Brasil.

A segunda economia: muito emprego onde se paga muito

Agora imagine o inverso. Um país com um agro pequeno em termos de emprego e um setor de serviços tradicionais menor. Em compensação, uma parcela enorme dos trabalhadores está em serviços sofisticados e em indústria de alta tecnologia: semicondutores, aeronáutica, farmacêutica, software, inteligência artificial, consultoria, finanças.

Como esses setores são muito produtivos e difíceis de copiar, conseguem pagar salários altos. E como empregam muita gente, a média salarial do país sobe. O PIB per capita vai junto.

Esses são os Estados Unidos.

Um exemplo com números

Repare: o salário de cada setor é igual nos dois países. A única diferença é a distribuição do emprego. Mesmo assim, a segunda economia paga quase o dobro em média. A riqueza vem da estrutura produtiva, não do esforço individual.

E tem mais: o efeito transbordamento

Na vida real, a diferença é ainda maior. Quando um país tem muita gente ganhando bem nos setores sofisticados, essa renda se espalha. Quem ganha bem consome mais serviços, e isso puxa para cima até o salário do barbeiro, do garçom e do motorista. Um cabeleireiro em Nova York ganha muito mais que um cabeleireiro em São Paulo fazendo exatamente o mesmo corte. Não porque seja mais produtivo, mas porque vive numa economia em que os setores de ponta elevam o nível geral de salários.

A lição para o Brasil

O desafio brasileiro não é só crescer, é mudar a composição do emprego. Precisamos levar milhões de trabalhadores de atividades simples para atividades complexas. Isso significa ter mais indústria de alta tecnologia, mais serviços intensivos em conhecimento, mais empresas que dominam capacidades produtivas difíceis de reproduzir.

Enquanto a maior parte dos brasileiros trabalhar em setores que pagam pouco, o país continuará pagando pouco. Não há atalho: país rico é país que sabe fazer coisas difíceis, e que emprega muita gente fazendo essas coisas.


Serviços sofisticados: mais gente e trabalho mais complexo

Nos Estados Unidos, cerca de 20% dos trabalhadores estão em informação, finanças, serviços profissionais, científicos e técnicos e gestão de empresas. No Brasil, são 12%. A diferença não é só de tamanho, é de conteúdo. Nos EUA, esse grupo reúne engenheiros de software, cientistas de dados, pesquisadores, advogados corporativos, consultores, designers e analistas financeiros, que trabalham para empresas que vendem tecnologia e conhecimento para o mundo inteiro. No Brasil, uma parte importante do mesmo grupo é formada por serviços administrativos de menor complexidade, como teleatendimento, limpeza terceirizada, vigilância e apoio de escritório. Por isso os serviços sofisticados americanos pagam bem acima da média: informação paga quase 60% a mais que o salário médio do setor privado. São os empregos que a economia do conhecimento cria quando o país está na fronteira tecnológica.

Indústria: menos gente, muito mais complexidade

O dado curioso é que a indústria emprega proporcionalmente menos nos EUA (cerca de 8%) do que no Brasil (cerca de 13%). Mas as duas indústrias são muito diferentes. A americana está concentrada em semicondutores, aeronáutica, equipamentos médicos, farmacêutica, química fina, máquinas de precisão e defesa. São produtos difíceis de fazer, que poucos países dominam e que geram margens altas e salários acima da média. A brasileira é dominada por alimentos, bebidas, processamento de commodities, metalurgia básica e montagem de bens de menor conteúdo tecnológico. É uma indústria mais intensiva em mão de obra e com menor capacidade de pagar salários altos. Os EUA automatizaram e terceirizaram as etapas simples da produção e ficaram com as etapas mais complexas: projeto, P&D, componentes críticos e engenharia.

Indústria e serviços sofisticados andam juntos

Os dois fenômenos estão ligados. Os serviços sofisticados americanos existem em grande parte porque há uma base industrial e tecnológica complexa que demanda engenharia, software, design, finanças e pesquisa. A empresa que projeta um chip, um avião ou um remédio contrata milhares de profissionais de serviços altamente qualificados, muitos deles registrados nas estatísticas como “serviços” e não como “indústria”. No Brasil, uma indústria de baixa complexidade gera pouca demanda por esses serviços, e o resultado é um setor de serviços sofisticados menor e mais simples. A lição é que o Brasil não precisa necessariamente de mais empregos industriais, e sim de uma indústria mais complexa, capaz de puxar junto um ecossistema de serviços intensivos em conhecimento. É aí que estão os bons salários.

Duas economias, dois destinos: por que os Estados Unidos pagam salários altos e o Brasil não – Paulo Gala / Economia & Finanças

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