Economia chinesa desacelera, mas exportações disparam


O segundo choque chinês é bem mais que uma válvula de escape para as agruras do consumo interno

Por Editorial – Valor – 16/09/2026 

A economia chinesa está desacelerando aos poucos, em um movimento equilibrado pelo avanço de sua formidável capacidade exportadora. O consumo interno e os investimentos estão caindo, mas não a produção industrial, que tem permitido mega-superávits comerciais com o resto do mundo. Desde o estouro da bolha imobiliária chinesa, em 2021, o governo teve incentivos para substituir os motores do crescimento, das exportações para o consumo interno, o que exige estímulos para o aumento da renda doméstica. Isso não aconteceu, e o boom de exportações indica que não deverá ocorrer tão cedo.

Os números de agosto revelam os dois lados da economia chinesa. O varejo cresceu apenas 0,4% em relação ao mesmo mesmo mês de 2025, ante 0,6% na mesma comparação em julho. Os investimentos declinam há cinco meses consecutivos, e, nos oito primeiros meses do ano, diminuíram 7,2%. A atividade industrial, no entanto, está em alta e evoluiu 5,2% comparada à de agosto de 2025, ante 4,8% um mês antes. Cinco anos depois da debacle imobiliária, os preços dos imóveis ainda estão em declínio. No segundo trimestre, o PIB do país avançou 4,3%, a menor marca em décadas e abaixo da previsão de 4,5%-5% feita pelos governantes chineses.

Mas a China se tornou um grande exportador de produtos de alta tecnologia, superando o atraso em uma série de setores estratégicos e competindo com vantagens nos mercados antes cativos, dos países ricos. O objetivo do presidente Xi Jinping com seu “Made in China 2025”, de transformar o país em uma potência tecnológica, foi praticamente cumprido. Mesmo transtornos enfrentados no caminho — como o excesso de capacidade produtiva, a feroz competição doméstica que reduziu significativamente as margens de lucros das empresas e a ameaça de deflação com redução por anos a fio dos preços dos produtores — serviram à atual ofensiva exportadora de grande escala.

Competitividade, capacidade ociosa e juros baixos e subsídios fizeram o prodígio de a China ter obtido um superávit comercial de US$ 1,2 trilhão em 2025, ano em que as barreiras protecionistas americanas foram intensificadas e políticas de substituição de importações, com viés geopolítico, foram impulsionadas em vários países desenvolvidos. A capacidade da máquina exportadora foi ajudada por uma política dirigida de desvalorização cambial, arma tradicionalmente usada por Pequim para conquistar mercados. O Fundo Monetário Internacional estima que o yuan esteja depreciado em 20%. Há estimativas que apontam 35%.

A depreciação foi uma defesa contra o protecionismo tarifário de Donald Trump, mas serviu de coadjuvante para impulsionar  as vendas em meio a tendências em desenvolvimento, bastante favoráveis aos produtos de média e alta tecnologia chineses, como aponta a consultoria Oxford Economics. O país é um grande fornecedor de produtos de eletrônica, largamente consumidos e utilizados nas exportações do Leste Asiático, como Vietnã, cujas vendas para os EUA dispararam.

Além disso, em disputa com os EUA, a China deu enormes passos na inteligência artificial (IA) e nos insumos necessários para construir sua infraestrutura, e a demanda para esses bens tem sido imensas. E, por fim, com a guerra na Ucrânia e no Irã, que catapultaram os preços da energia, a China preencheu seu mercado doméstico, e invadiu o mundo, com seus veículos elétricos e baterias — ela produz quase 75% desses carros vendidos no mundo e 86% dos painéis de energia solar.

Os produtos baratos de baixa tecnologia, que arruinaram indústrias congêneres de países em desenvolvimento no início dos anos 2000, foram agora substituídos por bens de alta tecnologia extremamente competitivos, que igualmente provocam estragos nos rivais desenvolvidos. A Unido, órgão da ONU para desenvolvimento industrial, estima que a fatia da China no valor agregado da manufatura global passará de 30% em 2020 para 45% em 2030. Essa fatia de 30% é produzida por cerca de 123 milhões de trabalhadores, e para equiparar-se à produtividade chinesa, todos os bens manufaturados do mundo poderiam ser feitos por 400 milhões de trabalhadores, ou 7% da população mundial em idade de trabalho (Adair Turner, Valor, 11-9).

Há desequilíbrios que colocam barreiras no caminho dessa prosperidade. Os países ricos, em especial EUA e Europa, estão se protegendo com tarifas da invasão chinesa, assim como países emergentes. A forte depreciação do yuan reduz os salários domésticos e retira fôlego do consumo, além de encarecer os insumos necessários à produção de bens de alta tecnologia. Isso não é um problema para um país hoje ameaçado de deflação, mas pode se tornar um no futuro. A nova onda exportadora, que economistas apelidaram de “China Shock 2.0”, foi bem mais que uma válvula de escape para as agruras do consumo interno. Pragmáticos, os líderes de Pequim consolidaram novas posições de força no mercado global, e os problemas domésticos só ganharão a atenção em outro momento, quando as tensões domésticas se acumularem.

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/economia-chinesa-desacelera-mas-exportacoes-disparam.ghtml 

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