Brasil e Mercosul miram boom do petróleo em Guiana e Suriname para exportar bens e serviços


Descobertas de óleo e gás impulsionam aproximação estratégica, com foco em exportação de bens e serviços ligados ao setor de óleo e gás

Por João Caires (Broadcast) e Renan Monteiro (Broadcast) – Estadão – 17/09/2026

BRASÍLIA – A descoberta de grandes reservas de petróleo na margem norte da América do Sul tem impulsionado uma aproximação comercial entre o Mercosul e países como Suriname e Guiana, que passaram a ser vistos pelo bloco não apenas como parceiros para integração regional, mas também como mercados estratégicos para exportação de bens, serviços e infraestrutura ligados à indústria de óleo e gás, segundo relatos de fontes do governo ao Estadão/Broadcast.

As tratativas com o Suriname estão atualmente mais avançadas, e exclusivamente com o Brasil, por meio de um acordo bilateral. O Ministério das Relações Exteriores e a contraparte no Suriname assinaram, em maio deste ano, os termos de referência para negociar a ampliação do acordo comercial bilateral, hoje restrito basicamente a uma cota de exportação de arroz do país caribenho para o mercado brasileiro.

Embora a aproximação entre Mercosul, Guiana e Suriname remonte ao fim dos anos 1990 — quando o objetivo era fortalecer os laços entre o bloco sul-americano e a Comunidade do Caribe (Caricom) —, o cenário se intensificou com as oportunidades abertas após as descobertas de petróleo e gás nos dois países.

O principal interesse brasileiro está na abertura de espaço para exportação de equipamentos, serviços especializados e máquinas para a indústria petrolífera, que mais tem apoiado o avanço de acordos e negociações junto ao Itamaraty. O setor de bens e serviços para exploração offshore é apontado como uma das áreas com maior potencial de avanço nas negociações com o País.

Além da cadeia de óleo e gás, o Brasil também vê oportunidades para ampliar exportações de alimentos, produtos agrícolas, medicamentos, equipamentos médicos e bens de capital à medida que as economias da região ganham renda e atraem investimentos.

Já a Guiana, que registra forte expansão econômica impulsionada pela produção de petróleo, desperta atenção especial dentro do Mercosul. Nesse caso, o crescimento acelerado do País aumentou o interesse dos demais sócios do bloco em aprofundar a relação comercial com Georgetown.

No ano de 2025, a corrente de comércio com Suriname foi de US$ 54,9 milhões, quase 99% em exportações brasileiras para o vizinho. Já com a Guiana, o cenário é bem diferente: a corrente de US$ 118,8 milhões foi deficitária em US$ 62,4 milhões para o Brasil — unicamente pela importação de óleo bruto.

O presidente-executivo da Associação Brasileira das Empresas de Bens e Serviços de Petróleo (ABESPetro), Telmo Ghiorzi, defende que o Brasil deve aumentar a prospecção de petróleo, pensando na manutenção do nível de empregabilidade e geração de receita do setor. “O Brasil não pode ficar sem perfurar. A Noruega, que nem precisa, está perfurando quatro vezes mais que o Brasil. Guiana, Suriname, África, todo mundo está buscando petróleo desesperadamente”, declarou.

Para Walberto L. Oliveira Filho, sócio do escritório Ernesto Borges Advogados, Guiana e Suriname são países que precisam construir rapidamente uma cadeia de fornecedores que o Brasil já tem. Segundo ele, há uma combinação positiva: proximidade geográfica, escala industrial e experiência consolidada em águas profundas.

“A frente mais imediata é a exportação de equipamentos e serviços offshore: a cadeia de engenharia submarina desenvolvida no Pré-Sal (FPSOs, embarcações de apoio, válvulas, tubulações, risers, árvores de natal submarinas, manutenção e inspeção). A segunda frente é infraestrutura e integração regional”, avaliou.

Porta de entrada para o Caribe

Além do potencial energético, Guiana e Suriname são vistos pelo governo brasileiro como corredores estratégicos para ampliar a presença comercial do Mercosul no Caribe.

A avaliação é que o fortalecimento da infraestrutura logística entre o Norte do Brasil e os dois países poderá facilitar o acesso a portos voltados para os mercados caribenhos, reduzindo distâncias e custos para exportadores brasileiros.

Nesse contexto, o governo brasileiro estaria trabalhando para ampliar a integração terrestre entre os países, com projetos de conexão rodoviária via Roraima (RR), por meio da BR-401, ou pelo Amapá (AP), pela BR-156.

O Mercosul também busca ampliar sua presença comercial no Caribe por meio de uma aproximação com a República Dominicana. O Brasil coordena as negociações do bloco com Santo Domingo desde 2020, mas os avanços têm sido limitados pela resistência dominicana a novos acordos comerciais.

O setor privado do País teme repetir experiências anteriores em que acordos de livre comércio resultaram em aumento das importações sem expansão equivalente das exportações. Diante desse cenário, os sócios do Mercosul passaram a discutir a possibilidade de um acordo-quadro semelhante ao firmado com o Panamá, que permitiria negociações bilaterais posteriores entre os países interessados. Entretanto, a República Dominicana ainda não respondeu formalmente às propostas apresentadas pelo Mercosul nos últimos anos.

Brasil e Mercosul miram boom do petróleo em Guiana e Suriname para exportar bens e serviços – Estadão 

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