A ‘produção doméstica’ ainda é pouco discutida nas políticas pública
Por Diane Coyle – Valor – 09/09/2026
As discussões sobre como a inteligência artificial pode transformar a economia apresentam uma lacuna: em grande parte, não levam em conta as atividades valiosas que as pessoas realizam fora do trabalho remunerado. Os estatísticos chamam essas atividades de “produção doméstica”, mas coletam pouquíssimos dados sobre ela. A pesquisa American Time Use Survey (Atus) é realizada anualmente nos Estados Unidos, mas sua escala é pequena e a maior parte dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) recolhe essas informações com menos frequência. Como resultado, há pouquíssima pesquisa econômica e quase nenhum debate sobre políticas públicas, ou sobre como a maioria de nós passa a maior parte do nosso tempo.
Mas investidores e autoridades deveriam se preocupar com as atividades não remuneradas. Quando mudanças sociais ou tecnológicas transferem atividades de um lado para o outro da fronteira de produção – do trabalho remunerado para o não remunerado, ou vice-versa – nossa interpretação dos sinais econômicos também precisa mudar. Nos anos 70 e 80, os números oficiais do PIB e da produtividade avançaram em países como o Reino Unido e os EUA, em parte porque as mudanças nas convenções sociais estavam levando mais mulheres casadas a dedicar uma parcela maior do seu tempo a atividades remuneradas.
A tecnologia digital já provocou grandes mudanças nessa fronteira da produção, principalmente no sentido do trabalho remunerado para o não remunerado. Hoje, as pessoas usam ferramentas digitais para realizar uma ampla variedade de tarefas, de operações bancárias ao planejamento de viagens, que antes exigiam a consulta de um profissional, sem falar em passar as próprias compras no caixa do supermercado. Enquanto isso, muitas pessoas compartilham gratuitamente na internet aquilo que produzem – softwares de código aberto, vídeos de entretenimento, aulas de música ou tutoriais do tipo faça-você-mesmo.
Esses exemplos representam a substituição do trabalho não remunerado pelo remunerado. Na maior parte, eles criaram um valor significativo ao consumidor. Com a IA prometendo transferir ainda mais atividades para além da fronteira da produção, a questão é como garantir que isso também se mostre valioso para as famílias.
Para responder essa pergunta, precisamos entender em que situações as pessoas consideram a IA mais útil fora do trabalho remunerado. O projeto ATLAS, do Google (do qual fui um dos consultores) oferece algumas pistas iniciais. Ele mapeou milhões de interações anonimizadas com o Gemini, associando-as às categorias de tarefas utilizadas pela pesquisa Atus, e comparou o volume de conversas de usuários dos EUA com a IA sobre cada categoria, com o tempo real que as pessoas dedicam a elas.
Lidar com a burocracia governamental e do setor privado consome uma enorme quantidade do tempo livre das pessoas. As ferramentas de IA têm potencial de mudar esse cenário, com implicações importantes para a economia
Segundo esse critério, tópicos como “alimentação e bebidas” e “deslocamentos” tiveram uma representação significativamente baixa nas interações com a IA em comparação com o tempo real gasto nessas atividades. Já as interações relacionadas à “socialização, relaxamento e lazer” – categoria que registra o maior uso geral da IA – ficaram em um patamar relativamente próximo ao tempo real dedicado a elas.
Por outro lado, a categoria “educação” teve uma representação acima da média: sua participação nas interações com a IA foi cerca de 5,8 vezes maior do que sua participação no tempo das pessoas. “Serviços profissionais e de cuidados pessoais” e “compras do consumidor” também registraram índices elevados. Mas nada se comparou à super-representação de “serviços governamentais e obrigações cívicas”, que apareceram quase 20 vezes mais frequentemente nas interações com a IA do que nos dados oficiais sobre o uso do tempo.
Em seu novo livro, “The Time Tax”, Annie Lowrey aponta que, nos EUA, as pessoas passam em média seis dias de trabalho porano lidando com a burocracia governamental e realizando tarefas como renovar licenças, declarar impostos e solicitar auxílios. A burocracia do setor privado – que vai desde negociações com seguradoras até o cancelamento de assinaturas – agrava ainda mais esse “imposto do tempo”.
A IA pode ajudar a reduzir esse fardo. Bons serviços digitais governamentais já oferecem eficiência e conveniência: recentemente, vi um amigo solicitar um passaporte on-line em poucos minutos. A regra “clique para cancelar”, proposta pelo prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, mostra como as políticas públicas também podem aliviar a carga administrativa imposta pelo setor privado.
Os governos deveriam aproveitar a IA para promover avanços em ambas as frentes. Infelizmente, embora muitos governos estejam interessados em usar a IA para tornar as burocracias públicas mais eficientes, até agora eles tenderam a se concentrar na redução de custos para o Estado, e não na economia de tempo para os cidadãos.
Mesmo sem a ação do governo, o uso de ferramentas de IA pode poupar tempo e dinheiro para as pessoas. Um advogado do Reino Unido poderia cobrar 12.000 libras (US$ 16.220) de um cliente para tratar do inventário e administrar o espólio de um pai falecido, mas modelos de linguagem de grande porte (LLMs) são cada vez mais capazes de providenciar grande parte da documentação gratuitamente. Outros exemplos de tarefas que podem ser resolvidas com o chatbot, ou até delegadas a um agente de IA, incluem o design de interiores ou jardins, pesquisas de produtos para consumo e a espera na fila virtual por itens como ingressos para shows. A lista é extensa.
Assim como as tecnologias digitais levaram à desintermediação e à reintermediação de muitos serviços, os modelos de IA generativa provocarão rupturas em uma ampla gama de serviços. Novas startups de tecnologia jurídica (law-techs) poderão se ver competindo com chatbots ou agentes gratuitos, em vez de com escritórios de advocacia tradicionais e caros. Dinâmicas semelhantes surgirão em setores como educação, saúde, finanças e entretenimento.
Isso não precisa ser uma notícia ruim aos prestadores de serviços. O acesso gratuito à IA ampliará o mercado para esses tipos de serviços, além de substituir versões mais caras deles. Haverá um crescimento em produtos complementares: se eu puder redesenhar minha própria sala de jantar gratuitamente, talvez eu fique mais propensa a comprar papel de parede, cortinas e móveis novos.
Enquanto isso, os ganhos de produtividade no trabalho não remunerado – que possui valor econômico, apesar de ser amplamente excluído das estatísticas oficiais – poderiam ser enormes. Qualquer economista que tente prever como a IA vai transformar a economia, e qualquer autoridade que busque atualizar as proteções ao consumidor para a era da IA, terá de levar em conta a dimensão doméstica da fronteira de produção. (Tradução de Mário Zamarian)
https://valor.globo.com/opiniao/coluna/o-trabalho-nao-remunerado-na-era-da-ia.ghtml
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