Utopia tecnológica de Moscou, em que tudo funciona por biometria, é armadilha de vigilância de Putin


Tecnologias de ponta remodelaram a capital russa, tornando-a mais segura, mais prática — e mais vigiada

Por Ivan Nechepurenko – Estadão/The New York Times – 15/09/2026

À primeira vista, a Moscou de hoje é um paraíso tecnológico. É possível usar o rosto para pagar quase tudo, como passagens de metrô, ou até mesmo para finalizar a compra de um apartamento. Robôs circulam pelas calçadas fazendo entregas de mantimentos em 15 minutos, e táxis autônomos devem começar a operar comercialmente ainda este ano.

Por trás de muitas dessas comodidades modernas está uma robusta infraestrutura digital desenvolvida pela prefeitura, que tornou a vida não apenas mais fácil, mas também mais segura. O policiamento auxiliado por ferramentas digitais ajudou a consolidar a transformação de Moscou, que há 25 anos era um lugar rude e implacável, assolado por roubos residenciais, assaltos nas ruas e homicídios.

Mas há um custo para essa conveniência e segurança: um estado de vigilância em expansão.

As cerca de 300 mil câmeras de vigilância de Moscou fazem dela uma das cidades mais vigiadas do mundo. É impossível escapar das lentes ao simplesmente caminhar pela cidade. As mesmas câmeras que conduzem os passageiros do metrô pelas catracas também são usadas para monitorar e sinalizar pessoas.

Em abril, um músico de rock russo foi detido pela polícia em uma estação ferroviária em São Petersburgo depois que as câmeras de vigilância o confundiram com uma figura pública ucraniana de aparência semelhante, procurada pelo Estado. Depois de verificar seu rosto e puxar seu cabelo para garantir que não fosse uma peruca, eles o liberaram.

A rede de vigilância está conectada a bancos de dados biométricos. O fornecimento de dados biométricos é voluntário na Rússia, mas é incentivado por meio de anúncios generalizados, e os cidadãos não podem aproveitar plenamente os serviços digitais sem cumprir essa exigência.

Essas bases de dados ajudam as autoridades a combater a dissidência política, além do crime. Os dados biométricos podem ser usados para localizar críticos do governo após a realização de manifestações. Os dias em que russos que se manifestavam abertamente podiam fugir para cidades remotas para escapar das autoridades, como faziam durante os expurgos de Stalin, acabaram, em grande parte.

Em julho, cerca de 10 milhões de russos utilizavam, de alguma forma, aplicativos baseados em biometria, e o Kremlin quer aumentar esse número, incentivando os cidadãos a adotarem essas ferramentas de identificação não apenas em estações de trem, mas também em aeroportos. Este ano, a Prefeitura de Moscou anunciou que um sistema biométrico reconheceria passageiros em ônibus e bondes, deduzindo automaticamente a tarifa assim que eles confirmassem a transação em um aplicativo.

Outras grandes cidades europeias também possuem amplas redes de câmeras de segurança, principalmente Londres. A de Moscou, no entanto, é mais centralizada e utiliza a biometria para identificar pessoas flagradas pelas câmeras com menos restrições.

Com a guerra da Rússia na Ucrânia, os riscos por trás da crescente vigilância tornaram-se maiores.

Rumores de uma nova onda de alistamento militar — a primeira grande mobilização desde os primeiros meses da guerra — se espalharam pela Rússia. Enquanto, no passado recente, era relativamente simples escapar do alistamento porque os escritórios de recrutamento estavam sobrecarregados com arquivos em papel, os sistemas digitalizados aprimorados por inteligência artificial tornam isso quase impossível agora. As autoridades introduziram intimações eletrônicas que têm o mesmo valor legal das notificações em papel, depois que milhares de russos fugiram do alistamento em 2022.

Em março, Vlad, de 28 anos, fotógrafo de arte e moda, recebeu uma intimação para comparecer a um escritório de alistamento militar para um exame médico obrigatório. Por meio do aplicativo “Serviços do Estado” — um portal centralizado para serviços governamentais, assistência médica e verificação de identidade —, ele descobriu que havia sido impedido de deixar o país até que cumprisse a intimação.

Vlad, que pediu que seu sobrenome não fosse divulgado por medo de represálias, disse que agora vive “com medo” por ter desobedecido à intimação, o que ele acredita que possa ser um prelúdio para ser enviado para a guerra.

“Há um controle total porque você fornece tantos dados que cada passo seu pode ser rastreado”, disse ele. Ele parou de usar o metrô, aterrorizado pelas câmeras.

Analistas alinhados ao Kremlin argumentam que o governo está usando aplicativos práticos e a coleta de dados para construir um sistema que atenda melhor às necessidades das pessoas do que o oferecido pelas democracias ocidentais, que têm dificuldade em fazer planos de longo prazo devido às mudanças no governo e, em alguns casos, limitam os serviços digitais por questões de privacidade.

A Rússia ainda está a alguns passos do sistema de “crédito social” da China, que classifica as pessoas com base em seu comportamento em questões financeiras, jurídicas e outras, e limita a liberdade dos infratores. Mas os tecnocratas russos claramente veem a arquitetura digital de Pequim como um modelo a ser seguido.

Gleb Kuznetsov, analista político que já trabalhou para um importante centro de estudos alinhado ao Kremlin, apontou Moscou, sob o comando de seu prefeito de longa data, Sergei Sobyanin, e Shenzhen, a megacidade chinesa de alta tecnologia, como modelos urbanos superiores às capitais ocidentais.

“O índice de aprovação de Sobyanin é alto não porque ‘as eleições carecem de concorrência’”, afirmou Kuznetsov em resposta a perguntas por escrito, “mas porque o governo municipal trabalha genuinamente em prol dos interesses de seus moradores”.

As autoridades russas, no entanto, podem agir rapidamente para desligar as redes que sustentam esses serviços digitais quando percebem uma ameaça à segurança, o que destaca uma tensão entre órgãos tecnocráticos e os serviços de segurança.

Em março, por exemplo, os serviços de internet móvel foram abruptamente interrompidos por mais de duas semanas em grande parte do centro de Moscou, inclusive no metrô, tornando temporariamente inúteis muitos dos serviços digitais mais valorizados da cidade.

Os moradores ficaram perplexos com o apagão, que, segundo especulações de alguns analistas, foi resultado de uma intensa paranoia do Estado após o assassinato do aiatolá Ali Khamenei no Irã.

“A Rússia vai voltar a uma situação de 25 anos atrás, em que se tem uma ‘globalização fragmentada’”, disse Jeremy Morris, um etnógrafo que é um dos poucos acadêmicos ocidentais que continuam realizando pesquisa de campo na Rússia.

“Você poderia entrar em um lugar e ele seria super, super cibernético e tecnológico”, acrescentou ele, “e então, ao sair da zona de cobertura, voltaria a uma economia básica”.

Serviços de internet foram interrompidos em vários momentos deste ano, desativando muitos dos serviços digitais da cidade  Foto: Nanna Heitmann/The New York Times

De acordo com uma autoridade russa envolvida no desenvolvimento da infraestrutura digital, que falou sob condição de anonimato por não estar autorizada a se pronunciar publicamente, uma guerra silenciosa está sendo travada dentro do Estado.

Órgãos tecnocráticos como o Ministério do Desenvolvimento Digital, disse ele, estão entrando em conflito com o Serviço Federal de Segurança, ou FSB (na sigla em russo) — especificamente seu notório departamento de policiamento político. Embora tenha acesso a ferramentas digitais, o FSB não esteve envolvido em sua criação. Ele prefere métodos analógicos tradicionais de monitoramento e controle da sociedade, disse a autoridade, mesmo que isso signifique sabotar a tecnologia que os tecnocratas gastaram bilhões para construir.

A postura do FSB é em parte motivada pela autopreservação institucional, já que a IA ameaça minar a justificativa para seu extenso aparato de agentes humanos, disse o funcionário.

Em última análise, tanto as agências digitais quanto as de segurança estão competindo pela atenção e pela opinião de um único homem: o presidente Vladimir Putin, que exigiu que o governo desenvolvesse a IA ao mesmo tempo em que a isolasse da influência ocidental.

Em abril, ao discursar em uma reunião de alto nível no Kremlin sobre IA, Putin enquadrou o que está em jogo em termos existenciais. “A soberania do Estado russo no futuro próximo — e, sem exagero, sua própria existência — depende de nossa capacidade de ter um bom desempenho em IA, juntamente com plataformas digitais e sistemas autônomos”, afirmou.

No entanto, apesar de todas as suas ambições, a Rússia carece da infraestrutura e do hardware necessários para desenvolver a tecnologia isoladamente da China e dos Estados Unidos. As sanções ocidentais relacionadas à invasão da Ucrânia limitaram o acesso da Rússia a chips de última geração, e muitos de seus principais especialistas técnicos deixaram o país desde o início da guerra, em 2022.

Os dois principais modelos de IA da Rússia — um desenvolvido pelo maior banco estatal do país e o outro pela principal empresa de tecnologia nacional — foram “inspirados” por arquiteturas chinesas de código aberto ou dependem fortemente delas.

No fim das contas, disse Ilya Grashchenkov, analista político baseado em Moscou, a Rússia provavelmente será definida pelo que ele chamou de tentativa de “combinar o que parece incompatível”. Isso, segundo ele, envolve a construção de um “perímetro digital externo” para isolar o país do mundo, ao mesmo tempo em que se acelera a digitalização dentro da Rússia.

Vlad, o fotógrafo que recebeu a convocação militar, disse que abriria mão de bom grado das conveniências de alta tecnologia e sem atritos se isso significasse recuperar a liberdade que realmente lhe faltava.

A vida na Rússia, disse ele, agora se assemelha a “viver com uma máscara de oxigênio”.

Utopia tecnológica de Moscou, em que tudo funciona por biometria, é armadilha de vigilância de Putin – Estadão 

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