Brasil no fundo do poço na Matemática: 4 razões por que a disciplina vai tão pior do que o Português


Tabulação feita pelo Todos pela Educação com base em avaliações nacionais mostra que menos de 10% dos alunos termina a escola sabendo o adequado para a disciplina

Por Renata Cafardo – Estadão – 02/09/2026

Esse número deveria estar em outdoors, se eles ainda existissem por todo o Brasil. Nas redes sociais, precisaria estar na boca dos influenciadores que gritam para coisas muito menos importantes. A verdade é que pouca gente sabe que só 8,5% dos estudantes que concluem o ensino médio no País, aos 17 ou 18 anos, têm aprendizagem adequada em Matemática. Isso significa menos de um estudante em dez que terminam o ensino médio.

Em 20 anos, mostra levantamento do Todos pela Educação, o avanço foi muito tímido: eram 5,2% em 2005 e chegamos a 8,5% em 2025. O que significa o nível adequado? Só esse pequeno grupo consegue resolver problemas utilizando probabilidade, determinar a distância entre dois pontos no plano cartesiano e usar corretamente o Teorema de Pitágoras.

O patamar de 8,5% é a média no Brasil e também no Estado de São Paulo, o mais rico do País. O maior índice é o do Piauí, com 16,7% dos alunos nos níveis adequados de Matemática.

O País tem ainda mais da metade dos alunos (58,6%) no nível chamado abaixo do básico em Matemática, o que significa que conseguem fazer coisas simples, como associar um gráfico a dados percentuais apresentados textualmente ou em uma tabela.

Em Português, o cenário é melhor, mas ainda está longe de ser bom: 35,2% dos estudantes atingem o nível adequado para a idade ao fim da escola. Há duas décadas, eram 15,7%.

Mas por que a Matemática tem resultados tão piores? Nada de argumentos como “nem todo mundo tem jeito para as contas”.

Ficar abaixo do básico em Matemática significa o estudante não consegue fazer tarefas simples, como associar um gráfico a dados percentuais 

A neurociência mostra que o cérebro tem plasticidade e que a habilidade matemática não é uma característica fixa, determinada de antemão. Não há crianças simplesmente “sem jeito para Matemática”. Existem diferentes trajetórias de aprendizagem, experiências e oportunidades de aprender.

  • O problema está também na forma como a disciplina foi apresentada durante muito tempo nas escolas, com exigência de memorização e rapidez, muitas vezes sem ensinar aos estudantes como compreender o sentido e as aplicações de cálculos, padrões, fórmulas ou formas geométricas.

Muito se fala agora em educação matemática criativa, que foca em processos e descoberta, e não apenas no resultado — em mostrar para a criança que importa também a estratégia que ela desenvolve para chegar à solução. Isso não só ajuda a aprender como diminui o medo. A chamada ansiedade matemática — a sensação de que “não sirvo para isso” — também afeta o desempenho. O aluno passa a acreditar que não consegue e tende a evitar a disciplina, justamente quando mais precisaria praticá-la.

  • Outra razão é que a aprendizagem de Matemática depende muito da escola, explica o diretor do Todos pela Educação, Gabriel Correa. Ao contrário do Português, em que crianças e jovens têm mais oportunidades de desenvolver leitura, vocabulário e compreensão também fora da escola, boa parte dos conhecimentos matemáticos mais estruturados depende diretamente de um ensino escolar de qualidade.
  • Além disso, a Matemática é uma disciplina muito cumulativa. Se a criança não aprendeu bem a multiplicação, não vai entender a porcentagem. Sem a divisão, fica difícil avançar para a equação. As dificuldades se acumulam — e, junto com elas, cresce a crença de que “Matemática não é para mim”.

Isso já é possível de ser visto nos dados de desempenho. Aos 10 anos, cerca de metade das crianças termina o 5º ano no Brasil com aprendizagem adequada na disciplina. Ao fim do 9º ano, o índice já cai para 18,8%. Muitos chegam, portanto, ao ensino médio carregando anos de fracassos e frustrações na disciplina.

  • A última razão — que parece começar a mudar com programas recentes do Ministério da Educação (MEC) — é que a Matemática tem sido menos priorizada nas políticas educacionais do que a alfabetização. A leitura e a escrita são essenciais, mas as consequências da baixa aprendizagem em Matemática são desastrosas para cada adolescente e para o País. Trabalhadores em ocupações que usam muito a Matemática têm maior nível de escolaridade e menor taxa de informalidade do que a média geral, o que leva a maiores salários.

Por isso, aqueles 8,5% não são apenas uma estatística de uma prova. São o retrato de uma escola que, para a enorme maioria dos estudantes, ainda não conseguiu ensinar algo que será cobrado deles durante toda a vida.

Não é preciso que todo jovem saia do ensino médio preparado para resolver problemas matemáticos de alta complexidade. Mas, sim, que todos saiam da escola acreditando que são capazes de aprender Matemática — e, sobretudo, tendo aprendido o suficiente para usá-la para entender o mundo, tomar decisões e ampliar suas escolhas.

O Brasil levou 20 anos para sair de 5,2% para 8,5%. Não dá para esperar mais duas décadas para considerar esse resultado inaceitável.

Brasil no fundo do poço na Matemática: 4 razões por que a disciplina vai tão pior do que o Português – Estadão 

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