‘AItenticidade’


Trazer o que só você pode trazer à mesa é o novo padrão-ouro da empregabilidade. De certa forma, sempre foi assim. Mas, antes, quem trazia entrega de alta qualidade, mesmo que dentro do padrão, tinha enorme valor

Por Nizan Guanaes – Valor – 18/08/2026 

Muitos anos atrás, na primeira reunião de trabalho com um cliente, ele gostou muito da ideia que apresentei. Mas fez uma ressalva: eu estou lhe pagando tanto para você resolver isso em poucos minutos? Eu respondi que aqueles poucos minutos vieram acompanhados de décadas de trabalho, toda a minha história de vida, meu veio popular, minha visão da propaganda.

Relato isso porque muita gente me pergunta como será o futuro dos jovens num mercado de trabalho saturado de inteligência artificial, apps de serviços, “bots” e “gadgets” cada vez mais potentes, inteligentes, abrangentes e muito mais baratos que o custo de mão de obra especializada.

A resposta a esse drama do século 21 é a autenticidade. Trazer o que só você pode trazer à mesa é o novo padrão-ouro da empregabilidade. De certa forma, sempre foi assim. Mas, antes, quem trazia entrega de alta qualidade, mesmo que dentro do padrão, tinha enorme valor.

Para mim, autenticidade sempre foi necessidade. Eu nasci no Pelourinho, longe dos centros de poder formal. Estudei administração na UFBA e fiz pós-graduação na imensa riqueza criativa e intelectual do povo da Bahia. Aprendi cedo que quem nasce fora do eixo não pode competir copiando. Quem imita chega atrasado. A saída é encontrar uma voz própria.

Passei a vida inteira fazendo isso. E enfrentando uma dose nada pequena de preconceito. Nunca fui o publicitário clássico, o executivo convencional, o baiano que esperavam. Minha carreira teve uma boa dose de desvios, mas hoje percebo que o que às vezes parecia defeito foi um grande patrimônio. Minha autenticidade virou meu ativo.

A inteligência artificial democratizou a competência técnica, o que é extraordinário. Hoje, qualquer pessoa entrega em minutos um bom texto, uma apresentação impecável, uma campanha estruturada. A IA escreve bem, resume bem, traduz bem, organiza bem. Mas há um problema. Quando todo mundo escreve bem, ninguém se destaca por escrever bem. Estamos entrando na era em que o texto perfeito e a apresentação impecável viraram commodities.

A comunicação muito polida começa até a despertar aversão. Reconhecer uma pessoa por trás das palavras ganhou valor. E já há um movimento curioso. Enquanto a inteligência artificial acelera a comunicação digital, as empresas investem no mundo físico. Grandes eventos voltaram a ser estratégicos. E não é só o palco principal que importa. Muitas vezes, o maior valor está nos jantares, nas conversas de corredor, no cafezinho. É assim que a confiança e a reputação são construídas e as relações deixam de ser conexões e voltam a ser encontros.

As melhores ideias aparecem numa conversa aleatória e inesperada. Nenhum algoritmo substitui um olhar, uma gargalhada ou uma boa história na hora certa. As empresas já perceberam isso. Algumas já criam guias de comunicação para impedir que executivos pareçam falar como qualquer outro executivo usando IA. O objetivo não deve ser só melhorar os textos, mas preservar personalidade, ritmo, imperfeições, identidade. Porque a (sua) voz virou patrimônio. Sempre foi, mas agora ela vale mais e talvez seja o maior agregador de valor às suas competências profissionais.

Isso vale para empresas, para marcas e ainda mais para pessoas. Contratávamos profissionais pelo currículo, e agora vamos escolher mais pelo repertório, pelo gosto, pelo julgamento, pela curiosidade, pela capacidade de conectar assuntos improváveis, pelo que nenhuma atualização de software consegue instalar.

A IA sabe quase tudo, mas nunca viveu nada. Ela não caminhou pelo Pelourinho. Não ouviu um trio elétrico atravessar Salvador. Não aprendeu a se comunicar como locutor de rádio na madrugada. A IA não errou, não tomou tombo, não recomeçou. Não teve o projeto de agência balançar quando o Collor congelou a poupança dos brasileiros. Ela não se apaixonou, não criou filhos, não levou um “não” que mudou sua vida inteira.

É dessas experiências que nasce a autenticidade. E é isso que passa a valer mais quando o resto fica barato. A inteligência artificial vai continuar evoluindo em velocidade impressionante. Nós também precisamos evoluir, mas não tentando parecer máquinas e sim tentando parecer ainda mais com nós mesmos, humanos. Por isso a brincadeira do título desta coluna, de juntar a IA com a autenticidade.

No fim das contas, o futuro pode ser uma enorme volta às origens. Porque, quando todos dominarem as mesmas ferramentas, a única vantagem competitiva que seguirá apenas sua será exatamente aquela que você passou a vida inteira construindo sem perceber: você.

https://valor.globo.com/empresas/coluna/aitenticidade.ghtml 

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