Europa tem plano e sonho de reduzir sua dependência tecnológica


  • Plano inclui estratégias para nuvem, código aberto e IA
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João Caminoto – Folha – 4.jun.2026

Paris

Soberania no papel

A Comissão Europeia escolheu esta quarta-feira (3) para anunciar um plano de soberania tecnológica. O pacote de medidas lançado promete reduzir a dependência do continente em chips, nuvem, inteligência artificial (IA) e código aberto.

“Não podemos nos dar ao luxo de depender de outros para as tecnologias que mantêm nossos hospitais funcionando, nossas redes de energia estáveis e nossos serviços seguros”, afirmou a presidente da Comissão, Ursula von der Leyen.

“Trata-se de proteger nossos cidadãos, defender nossos interesses e fazer nossas próprias escolhas.”

Curiosamente, o problema da dependência ficou explícito nesta semana, em dois lugares ao mesmo tempo. O primeiro é digital. A peça mais sensível do pacote, o Cloud and AI Development Act (Lei de Desenvolvimento de Nuvem e IA), quer barrar provedores de nuvem americanos das licitações públicas europeias para dados críticos.

Levada a sério, a exigência praticamente exclui as empresas americanas do nível mais alto de soberania. A razão é a lei dos EUA que permite a Washington exigir os dados dessas companhias onde quer que estejam armazenados.

Em paralelo, a Agência da União Europeia para a Cibersegurança negocia acesso ao Mythos, o modelo de IA da americana Anthropic usado para encontrar falhas de segurança.

Seria a primeira vez que a ferramenta sairia dos EUA e do Reino Unido. O ponto ainda em aberto é quanto dos próprios sistemas europeus a empresa americana enxergaria em troca —exatamente o tipo de dependência que o pacote quer combater.

O segundo lugar é o campo de batalha. Na madrugada de 2 de junho, a Rússia lançou um ataque recorde sobre a Ucrânia: 23 mortos, mais de cem feridos, Kiev e Dnipro no alvo.

Os mísseis mais difíceis de abater, os hipersônicos Zircon, encontram no interceptador PAC-3 sua resposta mais eficaz —fabricado pela americana Lockheed Martin e disparado pelo sistema Patriot.

A resposta europeia existe —o sistema franco-italiano SAMP/T NG—, mas ainda não foi testada em combate na versão mais recente, e a produção de seus mísseis não dá conta da demanda. A Dinamarca já o escolheu no lugar do Patriot, justamente para escapar da tutela americana.

Chips, nuvem, cibersegurança, defesa antiaérea: em todas as frentes, a Europa tem o diagnóstico certo e a ambição declarada. O que falta é o que não se aprova por decreto.

Os defensores do pacote têm um argumento legítimo. Reconhecer a dependência é o primeiro passo para sair dela, e usar uma ferramenta americana hoje não impede de construir a própria amanhã.

Bruxelas insiste que não se trata de protecionismo, mas de concorrência justa. Do outro lado, há quem alerte para o risco oposto: o comando da Siemens avisou que frear a adoção de IA em nome da soberania custaria caro à indústria europeia.

A tensão é real, e vai durar. A Europa produz menos de 10% dos semicondutores do mundo e quase nenhum dos mais avançados. Triplicar a capacidade de data centers em cinco a sete anos, como o pacote propõe, esbarra em energia, licenças e mão de obra especializada que não existem ainda.

Soberania não se anuncia em coletiva. Mede-se em capacidade instalada. E, nesse quesito, a distância entre o que Bruxelas quer ser e o que consegue entregar vai continuar sendo notícia.


OCDE, Paris —a reunião que ficou animada

A sede da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) fica no bairro de La Muette, no 16º arrondissement de Paris. As reuniões ministeriais anuais que acontecem no Château de La Muette costumam ser concorridas, mas previsíveis, quase entediantes: discursos bem-comportados, declarações de consenso, defesa de reformas estruturais mundo afora. A exceção quase sempre é o Economic Outlook —o relatório com as projeções para a economia mundial, que esta semana veio repleto de alertas.

Desde que Donald Trump voltou à Casa Branca, em janeiro de 2025, o tom em La Muette mudou. As reuniões ganharam uma tensão que não era comum — e esta semana não foi diferente. Na pauta: o impacto econômico da guerra no Oriente Médio e as novas tarifas anunciadas por Washington nos últimos dias, que incluíram o Brasil.

O Outlook projeta crescimento global caindo de 3,4% em 2025 para 2,8% em 2026, com energia e fertilizantes pressionando a inflação e corroendo a confiança. Para o Brasil: 1,6% este ano, freado pelos juros altos.

Nos corredores, uma cena resumiu bem o clima. Na manhã de quarta (3), o governo americano anunciou tarifas adicionais contra o Brasil e outros 58 países e a União Europeia. Todos foram acusados de não coibir importações produzidas com trabalho forçado. Um dia antes, o USTR havia concluído uma investigação aberta contra o Brasil em 2025 e proposto uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros.

O responsável pelas medidas, o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, estava no evento. Ele cruzou com o ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, num intervalo. Foi Greer quem se aproximou: disse que o diálogo com o Brasil segue fluido e que quer mantê-lo. Vieira confirmou a disposição brasileira. Lembrou que as negociações precisam se intensificar, ainda dentro do prazo de 30 dias acordado pelos dois presidentes em Washington. O constrangimento na OCDE, no entanto, era geral. Há limites para o que a diplomacia de corredor consegue atenuar.


A Noruega olha para dentro

Por duas vezes, em 1972 e em 1994, os noruegueses disseram não à Europa. Agora, Oslo admite que talvez seja hora de rever a resposta.

O chanceler Espen Barth Eide afirmou ao Financial Times que o “mundo benigno” em que seu país recusou a adesão deixou de existir. Não foi um lapso de entrevista: três semanas antes, em discurso ao Parlamento, ele havia avisado que comércio, tarifas e energia viraram armas e que, num mundo assim, ficar sozinho é ficar exposto.

A Noruega está no mercado único, mas sem assento nas decisões: acata as regras do bloco sem ajudar a escrevê-las.

O que mudou foi o entorno. As guerras tarifárias de Washington e as divisões dentro da Otan tornaram a adesão mais atraente. E há um gatilho próximo: a Islândia marcou para agosto um referendo sobre retomar as negociações de entrada.

Para a UE, seria um troféu. A Noruega é a maior produtora de petróleo e gás da Europa, e o bloco já tem nove candidatos na fila, incluindo a Ucrânia. O recado da semana é esse: no “mundo louco”, o clube europeu vira abrigo. Até quem sempre preferiu ficar na porta começa a olhar para dentro.


Frase da semana

“Esta crise também demonstra que a necessidade de desvincular nossas economias da dependência de importações de combustíveis fósseis é cada vez mais urgente”

Stefano Scarpetta

economista-chefe da OCDE, ao apresentar o Economic Outlook, em Paris, 3 de junho


No radar

5 de junho — Cúpula UE-Bálcãs Ocidentais em Tivat, Montenegro. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, o presidente francês, Emmanuel Macron, e o chanceler alemão, Friedrich Merz, na mesa. O tema é alargamento —o mais relevante em anos. Montenegro e Albânia são os favoritos; a Sérvia segue complicada.

A semana toda:

  • Negociações Brasil-EUA sobre tarifas. O prazo de 30 dias acordado pelos presidentes está correndo. O encontro Vieira-Greer em Paris foi o sinal mais recente de que o canal está aberto.
  • Ucrânia. Após o ataque recorde russo de 2 de junho — 23 mortos, Kiev e Dnipro no alvo —, olho nos próximos movimentos de Moscou e nas negociações em curso.
  • Oriente Médio. As negociações pelo fim do conflito com o Irã continuam. O impacto sobre energia e commodities segue como termômetro da economia global.

Fora da pauta

Os Demônios, de Fiódor Dostoiévski, foi publicado em 1872. Mas é difícil ler sobre fanatismo, manipulação e violência política na Europa de hoje sem pensar nele. Dostoiévski escreveu o livro a partir de um assassinato político real na Rússia czarista. O que ele encontrou por trás do crime —o niilismo, o ressentimento transformado em projeto, a destruição como ideologia— não envelheceu. Envelhecemos nós, que de tempos em tempos, precisamos redescobrir o aviso.

Europa lança plano de soberania tecnológica em IA – 04/06/2026 – Mundo – Folha 

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