Devemos pensar nessa tecnologia como bênção, maldição ou bolha?
IA não é apenas uma “tecnologia de propósito geral”, e se ela se desenvolver como parece provável, pode mudar quase tudo
Martin Wolf – Financial Times – 4.jun.2026
Comentarista-chefe de economia no Financial Times, doutor em economia pela London School of Economics
Como alguém que não sabe quase nada sobre IA (inteligência artificial) deveria pensar sobre suas implicações para a humanidade? Embora seja ousado, não é absurdo usar a formulação do sábio judeu Maimônides ao abordar a relação entre revelação e filosofia. Afinal, nem mesmo o maior dos sábios consegue compreender plenamente a divindade.
Portanto, o fato de eu não entender as implicações da IA não deveria me impedir de lutar para entendê-las. Talvez minhas dificuldades também ajudem outras pessoas.
Então, vamos lá. A pergunta que desejo considerar é: “IA é bênção, maldição ou bolha?” Além disso, uma vez que tenhamos observado as respostas, há alguma escolha que a humanidade possa realisticamente fazer para garantir que seja muito mais a primeira do que a segunda, ou estamos condenados a ser arrastados pela carruagem da IA, queiramos ou não, para onde quer que ela vá?
A resposta à pergunta sobre se é apenas uma bolha ajudará a estabelecer a base para responder a essas questões também. Então, o que significaria a IA ser uma bolha? Há duas possibilidades.
Uma é que algo importante está de fato acontecendo, mas os mercados não conseguem estimar os retornos e estão sendo levados a um frenesi especulativo. Isso, por sua vez, está alimentando uma onda insustentável (e em certa medida não lucrativa) de investimentos.
Mais cedo ou mais tarde, essa bolha vai estourar, os preços das ações vão desabar, muitas empresas antigas e novas vão falir e o investimento vai diminuir. Mas, ainda assim, ficaremos como ficamos após os booms ferroviários do século 19 e a bolha das pontocom dos anos 1990: com infraestrutura útil. A herança foram trilhos, no caso do primeiro, e cabos de fibra óptica, no caso do segundo. Tais bolhas podem transformar o mundo.
A outra possibilidade é que a IA seja um disparate. As bolhas do Mississippi e dos Mares do Sul do início do século 18 na França e na Inglaterra vêm à mente: estouraram, arruinaram alguns e mudaram pouco.
Então, o que está acontecendo com a IA é uma bolha e, se for, de qual tipo? O consenso, que eu (tentativamente) compartilho, é que a IA é real. Se estamos no limiar da inteligência artificial geral, como argumenta Demis Hassabis do Google DeepMind, não faço ideia. Mas os modelos atuais parecem impressionantes, especialmente em seu papel “agêntico”.
Além disso, como observa o investidor de capital de risco Rubén Domínguez Ibar em sua newsletter “The AI Corner”, alguns provedores, notadamente a Anthropic, estão gerando aumentos enormes de receita, o que ajuda a explicar as enormes avaliações esperadas em IPOs (ofertas públicas iniciais, na sigla em inglês). Então, o mercado está de fato efervescente, mas parece baseado na realidade.
Alguns fizeram comparações entre a espetacular alta das ações da Nvidia com o desempenho não muito diferente da Cisco na bolha das pontocom. Mas eles notam uma diferença: os lucros da Nvidia dispararam, enquanto o lucro líquido da Cisco apenas dobrou nos dois anos até julho de 2000. Além disso, uma análise do PIIE (Peterson Institute for International Economics) sugere que a IA já está gerando um enorme salto oculto no PIB (Produto Interno Bruto) real dos EUA.
É impossível dizer que os mercados estão “certos” ao julgar a lucratividade dos atuais e futuros campeões da IA. Também é possível que os lucros que estamos vendo na Nvidia (ou mesmo a receita da Anthropic) não se sustentem quando a onda de investimentos e o hype da IA diminuírem. Mas a IA não é apenas uma bolha, ela tem realidade.
Isso nos leva então à questão “bênção ou maldição”. Tive uma discussão com o ChatGPT sobre isso. Após algumas idas e vindas entre nós, acabamos listando as principais bênçãos e maldições da seguinte forma.
Primeiro, as bênçãos: melhor assistência médica; aceleração da ciência; produtividade muito maior; educação em escala; progresso mais rápido em clima e energia limpa; melhor acessibilidade e inclusão (conversão de fala em texto e tradução automática); melhores serviços públicos; melhor transporte e ambientes de trabalho mais seguros; melhorias na criatividade e expressão cultural; e melhor acesso ao conhecimento humano em todo o mundo.
Depois, as maldições: perda de controle e responsabilização humana; novas armas letais (notadamente patógenos, mas também outros armamentos, alguns nas mãos de terroristas); desemprego em massa; vastas concentrações de poder nas mãos de monstros; vigilância em massa e controle autoritário; ainda mais desinformação e manipulação; enormes ameaças à segurança cibernética; consolidação de vieses e discriminação mascarados como “objetividade”; erosão da agência e das habilidades humanas; e os custos ambientais de sistemas que consomem vastos recursos.
O que pensar dessas listas (inteiramente plausíveis)? Minha primeira conclusão é que a IA não é apenas mais uma “tecnologia de propósito geral”. Se ela se desenvolver das maneiras que parecem prováveis, pode mudar quase tudo: a IA é de fato existencial. Se a humanidade tivesse algum senso coletivo (o que não tem) e tivesse a capacidade de se deter (o que não tem), ela, penso eu, pausaria tudo isso.
Minha segunda conclusão é que a IA inevitavelmente desencadeou uma competição entre empresas e governos. Minha suposição é que qualquer coisa que tal tecnologia possa fazer será feita. Então, veremos corridas competitivas tanto pelas bênçãos quanto pelas maldições.
Minha terceira conclusão é que os controles relativamente bem-sucedidos sobre a proliferação nuclear e a disponibilidade de novos medicamentos não podem servir de precedentes. Isso porque a IA não será propriedade exclusiva de Estados, como as armas nucleares têm sido (até agora), e não é uma única classe de produtos, como medicamentos. Ela é polivalente.
O ChatGPT sugeriu que a humanidade deveria parar de tratar capacidade tecnológica como sinônimo de progresso, que deveria significar florescimento em condições de “segurança, liberdade e legitimidade”. O papa Leão concorda: construir “para o bem comum”, diz ele em sua encíclica. Mas isso é possível e, se for, como? Vou considerar isso na próxima semana.
Um guia para quem está perplexo com a IA – 04/06/2026 – Martin Wolf – Folha
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