- Americanos nunca estiveram mais pessimistas sobre perspectivas de emprego a longo prazo do que agora
- Mercado de trabalho certamente ainda não está rachando; se disrupção ocorrer, será durante recessão
Folha/The Economist – 16.mai.2026
Em nenhum momento da história das pesquisas de opinião os americanos estiveram mais pessimistas em relação às suas perspectivas de emprego a longo prazo do que estão atualmente. A pessoa média acredita ter 22% de chance de perder o emprego nos próximos cinco anos, segundo uma pesquisa —proporção maior até do que durante a crise financeira global de 2007 a 2009.
A causa desse pessimismo é a IA (inteligência artificial). Quase um em cada cinco trabalhadores americanos disse recentemente a outro instituto de pesquisa que a IA ou a automação tem “muita” ou “alguma” probabilidade de substituí-los.
Não são apenas as pessoas comuns que estão preocupadas. Os líderes das próprias empresas de IA que causam essa ansiedade também estão preocupados. Dario Amodei, da Anthropic, alertou que a IA pode elevar o desemprego de 10% a 20%.
Bill Gates, cofundador da Microsoft, disse que em um mundo de IA as pessoas não serão necessárias para “a maioria das coisas”. Sam Altman, chefe da OpenAI, percebeu que exaltar o poder disruptivo da tecnologia está provocando uma reação negativa e agora fala de “ferramentas para ampliar e elevar as pessoas, não entidades para substituí-las”. Mas nem ele resistiu a mencionar “disrupção/transição significativa à medida que mudamos para novos empregos”.
Os economistas estão, para variar, bem menos pessimistas. Eles são alérgicos à “falácia da quantidade fixa de trabalho”, que trata o mercado de trabalho como estático e de soma zero. Se a tecnologia desloca trabalhadores de algumas ocupações, argumentam, ela enriquece outros, que então gastam seus ganhos em bens e serviços que criam novos empregos.
O mercado de trabalho certamente ainda não está rachando. A parcela da população em idade ativa com emprego da OCDE continua batendo recordes, e o desemprego no clube de países majoritariamente ricos é de apenas 5%. Nos Estados Unidos, nunca houve tantas pessoas empregadas em setores “expostos à IA”, como o Direito.
Americanos recém-formados vêm enfrentando dificuldades desde antes de a OpenAI lançar o ChatGPT no final de 2022. Muitos economistas preveem relativamente pouca disrupção pela frente. Os do BLS (Bureau of Labor Statistics, a agência de dados de trabalho dos EUA) estimam que o país adicionará 5,2 milhões de postos entre 2024 e 2034, aumentando o emprego total em 3%.
Avanços nas capacidades da IA podem tornar os dados atuais, e as extrapolações a partir deles, obsoletos. Mas se isso acontecesse, e a IA realmente deixasse milhões de pessoas desempregadas, seria algo sem precedentes na história humana. Nunca novas tecnologias se espalharam rápido o suficiente para deixar grandes números de pessoas fora do mercado por muito tempo. Entender por que isso acontece pode lançar luz sobre como desta vez é —e não é— diferente.
Dados históricos sugerem que a difusão tecnológica sempre avança lentamente. Em um artigo publicado em 2012, Robert Gordon, da Universidade Northwestern, descobriu que desde 1300 o crescimento do PIB per capita na economia dos EUA em cada época nunca excedeu cerca de 2,5% ao ano. Quando outros países cresceram mais rápido que isso, fizeram-no alcançando um lugar mais rico que, quase por definição, desencadeou antes o progresso tecnológico gerador de riqueza. E o fato de o crescimento na fronteira da inovação ser mais lento significava que o ritmo de qualquer destruição de empregos também era.
Veja a agricultura. Embora tenha passado por transformações tecnológicas monumentais ao longo do último milênio, o emprego agrícola mudou lentamente. A parcela da força de trabalho da Inglaterra na agricultura vem caindo de forma constante desde o século 19 sem jamais colapsar subitamente. O trator reconhecidamente moderno foi inventado nos Estados Unidos no início do século 20, e levou gerações, não anos, para a força de trabalho agrícola diminuir.
Mesmo quando a disrupção de empregos é mais rápida, os trabalhadores não precisam sofrer. Em meados do século 20, os primeiros computadores, contêineres de transporte e outras maravilhas levaram Harold Wilson, primeiro-ministro britânico, a descrever o “calor branco da tecnologia” queimando as economias ocidentais.
O PIB per capita nos EUA, que àquela altura havia desbancado a Grã-Bretanha como líder econômica do mundo, cresceu 2,5% ao ano, o mais rápido de todos os tempos para uma potência. O nível de disrupção de empregos, medido pela parcela de emprego migrando entre setores ou ocupações, foi em determinados momentos mais que o dobro do que é hoje. No entanto, muitas pessoas lembram com carinho daquela era como um tempo de salários em alta, oportunidades em expansão e política não polarizada.
Um caso de mudança tecnológica tornou-se notório: a Revolução Industrial na Grã-Bretanha do século 19. Segundo alguns relatos, foi terrivelmente disruptiva para os trabalhadores. As invenções de James Watt entre 1760 e 1780 tornaram as máquinas a vapor eficientes o suficiente para alimentar fábricas. Isso levou a um período de crescimento econômico vertiginoso que pareceu coincidir com estagnação dos salários ajustados pela inflação. Entre 1790 e 1840, estes mal se mexeram, mesmo enquanto os capitalistas obtinham lucros vastos.
Os “formadores de opinião” de hoje no Vale do Silício frequentemente falam nessa pausa, que é associada a Friedrich Engels. Engels era um herdeiro capitalista que virou comunista e descreveu o período em “A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra”, seu relato sobre as favelas de Manchester na década de 1840. Pesquisas recentes, porém, questionam se a “pausa de Engels” é um modelo útil para tentar prever o que a IA pode reservar aos trabalhadores.
A composição do emprego britânico viu pouca rotatividade até a década de 1850, tanto quanto se vê hoje. Além disso, se a tecnologia destruiu empregos, criou muitos mais. Entre 1760 e 1860, o número de britânicos trabalhando saltou de 4,5 milhões para 12 milhões, enquanto o desemprego geralmente permaneceu modesto.
O crescimento salarial foi de fato lento durante a pausa de Engels —mas não mais lento do que no meio século anterior. Isso refletia a lentidão da alta da produtividade nos primeiros anos da Revolução Industrial.
Em 1830, apenas cerca de 160 mil cavalos de potência estavam em uso em toda a Grã-Bretanha, equivalente a 1.000 carros modernos típicos. Dado o rápido crescimento populacional no período, é uma “conquista verdadeiramente notável” que o poder de compra dos trabalhadores tenha crescido, como colocou Tony Wrigley, falecido demógrafo britânico. Parece ainda mais notável se você ajustar os salários não pelo índice de preços ao consumidor, como os historiadores tendem a fazer, mas pelo preço médio da produção doméstica, o “deflator do PIB”.
A diferença entre as duas medidas de salários reais ilustra um ponto crucial sobre a Revolução Industrial. O empregador médio pagava trabalhadores de forma razoavelmente justa após vender suas mercadorias e deduzir o custo dos materiais. Ele não lucrava explorando sua equipe, como Engels supunha. O problema para os trabalhadores era menos o pagamento injusto e mais os aumentos acentuados no custo de vida. Os preços dos alimentos subiam constantemente, às vezes disparando, por causa da guerra e das altas tarifas sobre importações de grãos. Os vilões da Revolução Industrial eram os políticos, não as máquinas.
Isso proporciona outra visão da agitação industrial do período. No início do século 19, trabalhadores têxteis se revoltaram, destruindo os teares mecânicos que achavam que matariam seu ofício. Alguns anos depois, trabalhadores rurais quebraram máquinas debulhadoras pelo sul da Inglaterra. Historiadores ligam essas manifestações à disrupção tecnológica, mas greves e destruição são tão antigas quanto o tempo.
Na Inglaterra, os tumultos foram menos frequentes no início dos anos 1800 —no meio da pausa de Engels— do que mais tarde no século, quando os salários reais estavam crescendo fortemente. Os cartistas (um dos primeiros movimentos reivindicatórios da classe operária inglesa), que garantiram o sufrágio e outros direitos para os trabalhadores, só ganharam terreno quando o crescimento salarial foi retomado na década de 1840.
Nicholas Crafts, historiador econômico, resumiu bem a situação. A Revolução Industrial, escreveu ele, “não é um modelo” para “mudança tecnológica que [impulsiona] a produtividade às custas de um declínio significativo… na participação do trabalho”. Ou seja, aqueles que alertam sobre desemprego em massa causado pela IA estão prevendo algo que nunca aconteceu antes.
Isso, no entanto, não significa que nunca possa acontecer. Os primeiros sinais seriam produtividade em forte alta combinada com fraco crescimento dos salários reais nos EUA. Isso apareceria como um aumento no PIB per capita, acima do teto de 2,5% de Gordon, e um salto simultâneo nos lucros corporativos, refletindo o fluxo dos ganhos da maior produção para o capital, não para o trabalho. Outro sinal seriam grandes perdas de empregos em muitos setores.
A história guarda uma lição final. Se a disrupção está chegando, ela aparecerá em uma recessão. Recessões limpam a economia de empregos improdutivos. Empresas precisam fazer mudanças radicais para sobreviver; firmas fracas quebram; capital e trabalho migram para áreas mais produtivas. Quase todos os empregos outrora rotineiros dos EUA desapareceram durante recessões passadas.
Quais desaparecerão da próxima vez oferecerá uma grande pista. Até lá, todos —incluindo Amodei, Gates e Altman— permanecerão sem saber nada sobre a forma do mundo de IA que está por vir.
Texto de The Economist, traduzido por Helena Schuster, publicado sob licença. O artigo original, em inglês, pode ser encontrado em www.economist.com
IA pode gerar desemprego em massa? Veja o que diz história – 16/05/2026 – Economia – Folha
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