Gerir agentes de IA é o novo MBA


  • Em dois anos, inteligência artificial passou de ‘respondedora’ para executar tarefas
  • Função do ser humano é coordenar e supervisionar a realização das solicitações feitas

Ronaldo Lemos – Folha – 3.mai.2026 

Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro

A natureza do trabalho cognitivo está mudando completamente. Trabalhar com a cabeça significa agora gerir inteligências artificiais.

A IA que surgiu em 2023 girava em torno de perguntas e respostas. Era a IA “respondedora”. Só que, a partir de 2025, a IA que faz diferença é a que opera por meio de agentes. Você delega uma tarefa e o agente executa.

É como a diferença entre o motor e o automóvel. O motor surgiu antes. Por décadas, seu uso foi genérico e difuso. Só quando foi acoplado a uma carroceria com rodas, freios e direção é que o mundo mudou. A IA respondedora é o motor. A IA agêntica é o carro.

O termo usado para designar essa infraestrutura que envolve os modelos de IA é “harnesses” (arreios). São eles que gerenciam ferramentas e contextos que permitem que a IA possa ter sucesso em tarefas específicas.

Se olharmos ao redor, há arreios de IA para praticamente todas as tarefas digitais, criados por startups independentes e pelas próprias empresas do setor. Cada um com uma especialidade: fazer design, documentos, planilhas, escrever software, cuidar de processos corporativos, operar o navegador, fazer compras, preencher formulários, produzir conteúdo, inspecionar cibersegurança, gerenciar mídias sociais, pesquisar, selecionar notícias e conversar entre si para trocar informações.

Em outras palavras, hoje é possível encontrar “harnesses” capazes de executar a maior parte das tarefas corporativas, delegando-as a agentes de IA. E é nesse ponto que o trabalho humano muda totalmente. A tarefa principal se torna coordenar e supervisionar esses agentes. É o que está sendo chamado de “middle loop”: o trabalho de supervisão que acontece entre as instruções da tarefa e o momento em que ela é completada com sucesso.

Para fazer o “middle loop”, é necessário um conjunto de habilidades distintas. A primeira é o domínio do português. Isso é essencial para passar instruções para a IA ou para coordenar tarefas complexas como programar. Quem não consegue falar de forma clara nem organizar ideias com coerência ou interpretar as respostas que recebe da IA não tem condições de executar esse trabalho.

Isso é uma tragédia em particular para o Brasil. De acordo com os dados do Inaf, apenas 10% dos brasileiros de 15 a 64 anos têm domínio pleno do português. Nosso país falhou miseravelmente na educação. E justamente na hora em que mais precisaremos dela por causa da inteligência artificial.

Outras habilidades para trabalhar com IA incluem a chamada “engenharia de contexto” (que vai além da engenharia de prompts); a capacidade de manter a atenção por longos períodos contínuos e de calibrar a confiança na capacidade de o agente executar a tarefa. Ou ainda, o domínio de diversas áreas do conhecimento em que a IA atua, para evitar o chamado débito cognitivo (a incapacidade de entender o que a IA está fazendo). E a habilidade que julgo essencial: a prudência.

Olhe para essa lista de habilidades com atenção. Paradoxalmente, todas elas se aprendem em lugares onde a tecnologia não está. Na leitura, na escrita, na conversa, no silêncio e na reflexão. A geração que vai dominar a IA é a que vai aprender a se afastar dela.

Gerir agentes de IA é o novo MBA – 03/05/2026 – Ronaldo Lemos – Folha 

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