Primeiro estudo do recém-lançado Observatório de Inovação e Empreendedorismo revela que 80,4% das patentes de invenção depositadas no país em 2023 são de origem estrangeira; universidades dominam o ranking nacional, mas transferem pouco ao setor produtivo
Por Felipe Medeiros* – Época Negócios – 13/04/2026
O Brasil patenteou mais de 25 mil invenções em 2023, e a maior parte delas não vai chegar ao mercado. Das que vão chegar, a maioria foi desenvolvida fora do país. Esse é o diagnóstico do “Panorama Nacional de Depósitos de Patentes no Brasil (2000–2023)”, primeiro relatório do Observatório de Inovação e Empreendedorismo do Insper, lançado em março de 2026. O estudo foi elaborado pelo pesquisador Thiago Soares a partir dos microdados da BADEPI 10.0, base do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) que cobre mais de duas décadas de registros.
O estudo marca a inauguração oficial do Observatório, iniciativa do Hub de Inovação e Empreendedorismo Paulo Cunha, voltado à produção contínua de inteligência estratégica sobre o sistema nacional de inovação. Seu primeiro produto já revela uma assimetria estrutural que não é nova, mas que ainda não havia sido documentada com tanta profundidade.
“O que pode parecer bem gritante, a princípio, para quem não conhece bem a área, é a quantidade de patentes depositadas por estrangeiros”, disse Soares em entrevista à Época NEGÓCIOS. “Isso mostra que o Brasil é um mercado de fato atraente, porque as empresas estrangeiras estão protegendo tecnologias aqui. Mas também mostra que, dentro das empresas brasileiras, a propriedade intelectual ainda não foi internalizada como uma forma de ganhar vantagem competitiva sustentável.”
Em 2023, 80,4% dos depósitos de patentes de invenção no país foram realizados por não residentes. Os Estados Unidos mantêm a liderança histórica, com 30,2% do total, mas um movimento chama atenção: a China, que representava uma fatia marginal no início dos anos 2000, já responde por 6,5% dos pedidos — crescimento acelerado especialmente a partir de 2019.
O pesquisador atribui parte desse crescimento a políticas governamentais chinesas deliberadas. Ele estuda atualmente um programa chamado High Tech Enterprise Certification, pelo qual o governo chinês concede redução tributária de até 40% a empresas que comprovem envolvimento genuíno em inovação — incluindo, entre os critérios, o depósito de ao menos cinco patentes anuais relacionadas ao core de negócios. “O governo chinês é um ator extremamente poderoso. Ele institui políticas top-down muito firmes”, disse Soares. “Ao fazer isso, estimula bastante a proteção intelectual.”
Da invenção ao produto
Se o lado estrangeiro do ranking expõe dependência tecnológica, o lado nacional revela outro problema. Em 2024, 37 dos 50 maiores depositantes de patentes de invenção no Brasil eram instituições acadêmicas; apenas 11 eram empresas. O protagonismo das universidades, que cresceu de forma expressiva após a Lei da Inovação de 2004 — que tornou obrigatória a criação de Núcleos de Inovação Tecnológica (NIT) nas instituições públicas —, esconde uma transferência de tecnologia que ainda patina.
“Começou a ser uma corrida por proteção de patente nas universidades, porque cada uma queria demonstrar que era a que mais tinha tecnologias”, explicou Soares. “O que motivou isso foi um ganho reputacional para a própria instituição. Só que, com o passar do tempo, muitas universidades acabaram percebendo que estavam protegendo tecnologias de prateleira, que eram muito difíceis de comercializar.”
O problema foi amplificado pelos critérios de avaliação de agências de fomento como CAPES e CNPq, que passaram a contabilizar patentes como métricas de desempenho acadêmico. “Tinha muito pesquisador que queria proteger tecnologia como um fim. Eu preciso disso para ganhar minha bolsa produtividade ou para melhorar os números do meu departamento. A patente por si, como métrica de desempenho, é problemática”, disse Soares.
No entanto, o pesquisador tem observado sinais de mudança: “No ano passado, comecei a olhar as chamadas para bolsa produtividade do CNPq, e várias áreas estão mudando os critérios. Em vez de patente, passa a valer transferência de tecnologia — uma patente que foi transferida para a indústria, ou uma empresa criada para explorar uma patente.”
A questão, portanto, tem menos relação com volume do que com o destino das patentes. O relatório aponta que nos Estados Unidos, por exemplo, patentes acadêmicas representam cerca de 5% do total depositado. No Brasil, essa proporção chega a quase 40% nos últimos anos. “Outro ponto que chama a atenção é exatamente esse: o ecossistema americano é mais desenvolvido, mas a quantidade de proteções acadêmicas per se talvez não varie tanto. O que acontece lá é que a quantidade de proteções por empresa é extremamente mais alta”, disse Soares.
Inventores em baixa
Outra nuance do estudo está no perfil dos inventores individuais. Em 2000, pessoas físicas eram responsáveis por 69,1% dos depósitos nacionais de patentes de invenção. Em 2023, o percentual caiu para 33,7%, o menor nível da série histórica. A queda foi acentuada durante a pandemia (2020–2022), com recuperação parcial em 2023.
O relatório interpreta esse número como sinal de fragilidade do setor produtivo privado, que ainda não internalizou a atividade inventiva de forma institucional. Soares, porém, faz uma ressalva metodológica importante: “Isso é uma coisa que eu mesmo vou ter que investigar, uma coisa que eu quero fazer nos próximos anos. Mas eu não sei até que ponto eles são inventores individuais de verdade. Muitas vezes podem ser pessoas trabalhando para empresas, que inventaram alguma coisa e a empresa não sabia que poderia ser a proprietária.”
Tirando ideias do papel
O Observatório de Inovação e Empreendedorismo do Insper foi criado como pilar transversal do Hub de Inovação e Empreendedorismo Paulo Cunha, que já opera em frentes como aceleração de startups, inovação aberta com empresas e formação de empreendedores. Rodrigo Amantea, Head do Hub, afirma que o Observatório nasce para ser “uma barreira contra o ‘empreendedorismo de palco’, oferecendo uma fonte factual sobre onde o Brasil realmente retém propriedade intelectual”.
Para Amantea, o problema não está apenas em proteger, mas principalmente no que vem depois: “É importante proteger, mas ao mesmo tempo você tem que ter um caminho para levar aquilo para o mercado. Só aí vira inovação. Se não, você cria uma pesquisa hermética, que fica tão protegida que nunca chega em formato de melhoria para a vida das pessoas.”
O executivo cita como referência o Instituto Joan e Irwin Jacobs, uma parceria entre a Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, e o Technion — o Instituto Israelense de Tecnologia. De acordo com Amantea, pesquisadores ingressam em um programa de doutorado com uma patente e o concluem como fundadores de startups. “Com 10 anos de criação, já estamos vendo as startups dando tão certo que os retornos estão voltando para o endowment de Cornell. A escola pode ser protagonista nisso.”
A agenda do Observatório para os próximos meses inclui estudos de caso sobre unicórnios brasileiros e pesquisas sobre fundos de venture capital, agronegócio e cultura. O relatório de Soares, nesse sentido, é um ponto de partida: o primeiro levantamento sistemático de uma estrutura que o Hub pretende manter em operação contínua.
“O primeiro passo é justamente divulgar isso para criar um awareness.”, disse Soares. “Mudar cultura é um negócio extremamente complicado, e você não consegue fazer no curto prazo.”
Brasil inventa, mas não inova: relatório do Insper expõe gargalo entre patentes e mercado
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