Como os ecossistemas de inovação podem provocar impacto social nas cidades


CLAYTON MELO  Fast Company Brasil 02-09-2022 |

 Há algum tempo escrevi aqui na Fast Company Brasil sobre os urban livings labs, que levam o conceito de inovação aberta para o território urbano. Os laboratórios vivos são ambientes de inovação aberta centrados no usuário que têm a cidade como campo de testes.

Para exemplificar, é mais ou menos como usar bairros ou áreas específicas para desenvolver MVPs (do inglês Minimum Viable Product, ou Mínimo Produto Viável) de projetos para resolver problemas concretos, como uso mais eficiente de energia, mobilidade, segurança ou zeladoria.

Agora, gostaria de ampliar o foco e falar sobre a relação entre os ecossistemas de inovação e as cidades. A ideia é discutir como os ecossistemas de inovação podem ser – e já são – utilizados para pensar o desenvolvimento econômico e social, experimentando novos modelos de governança local com o objetivo de melhorar a vida das pessoas nos municípios brasileiros, que, como sabemos, enfrentam problemas complexos.

Ecossistemas de inovação, tal como trato aqui, são ambientes em que poder público, iniciativa privada, academia e sociedade civil colaboram para inovar e desenvolver uma região. Sobre isso, vale uma observação. No mundo das empresas e das startups, a gente se acostumou com a aproximação entre gestão pública, empresas e universidades – a chamada Tríplice Hélice –  nos parques tecnológicos, que têm incubadoras e outras ações para estimular a inovação e o empreendedorismo.

VEM GANHANDO ESPAÇO UM OLHAR QUE NÃO PENSA PRIORITARIAMENTE A INOVAÇÃO PARA O MERCADO, MAS SIM PARA A CIDADE.

Mas nesses casos, geralmente, o foco é a inovação direcionada ao mercado. Esse processo, no entanto, vem evoluindo ao longo dos anos até chegarmos a um conceito ampliado, o de ecossistemas de inovação – um tipo de arranjo que extrapola os limites geográficos e as ambições de um parque tecnológico. Nesse contexto, vem ganhando espaço um olhar que não pensa prioritariamente a inovação para o mercado, mas sim para a cidade.

Ancorados na lógica da sociedade em rede, os ecossistemas urbanos de inovação estimulam a troca de conhecimentos, experiências e aprendizados entre os stakeholders locais. Assim, criam-se as condições para que ideias se transformem em realidade por meio de atração de talentos, pesquisa, inovação, investimentos e validação de projetos.

PACTO ALEGRE

Existem exemplos de experiências desse tipo pelo Brasil, de capitais a municípios menores. No primeiro caso está Porto Alegre, que criou um ecossistema de inovação com o propósito de repensar seus caminhos. Lançado em 2019, o Pacto Alegre nasceu pelas mãos de três universidades, a Federal do Rio Grande do Sul, a Unisinos (Universidade do Vale do Rio dos Sinos) e a PUC-RS, que se uniram em 2018 para formar a Aliança para a Inovação.

A partir dessa parceria, elas convidaram Prefeitura, Câmara Municipal, mídia e entidades da sociedade civil para a formação de um grande fórum para pensar a cidade. O objetivo é transformar Porto Alegre em referência no ecossistema global de inovação.

OS ECOSSISTEMAS URBANOS DE INOVAÇÃO ESTIMULAM A TROCA DE CONHECIMENTOS, EXPERIÊNCIAS E APRENDIZADOS ENTRE OS STAKEHOLDERS LOCAIS.

Depois de vários encontros, foram definidos, coletivamente, os macrodesafios que deveriam ser trabalhados no âmbito do Pacto Alegre, como modernização da administração pública, qualidade de vida, imagem da cidade e reforma urbana.

Como parte do processo, foram abertas chamadas públicas para startups, empresas, pesquisadores, ONGs e quem mais quisesse inscrever projetos para essas verticais. Numa primeira fornada, 39 projetos foram selecionados, envolvendo iniciativas voltadas à educação e turismo, passando por urbanismo e modernização de serviços públicos. Hoje, mais de 100 entidades participam do Pacto Alegre.

PRO_MOVE_LAJEADO

Outro exemplo que vale observar fica pertinho de Porto Alegre. Em Lajeado, a pouco mais de uma hora da capital gaúcha, foi também a academia que deu o empurrão na história toda. A Universidade do Vale do Taquari (Univates), uma instituição de ensino superior comunitária com mais de 50 anos, chamou os outros players locais para um grande debate sobre os rumos do município, que tem 85 mil habitantes e funciona como centro econômico do vale, região que concentra 37 municípios e mais de 300 mil habitantes.

O pano de fundo era a avaliação de que Lajeado, que se fez a partir da indústria e do setor de alimentos, precisava agora de um modelo de desenvolvimento mais adequado para a economia do conhecimento. Em outras palavras, é aquela história de que o que te trouxe até aqui não é o que vai garantir o seu futuro. A cidade precisaria trabalhar uma nova agenda econômica, com foco na inovação, no conhecimento e na atualização tecnológica da indústria regional.

CASOS COMO O DE LAJEADO E DE PORTO ALEGRE SUGEREM A BUSCA DE NOVOS MODELOS DE GOVERNANÇA LOCAL, MAIS PARTICIPATIVOS E DEMOCRÁTICOS.

Assim nasceu, em 2019, o Pro_Move Lajeado, ecossistema de inovação local que reúne prefeitura, universidade, empresas e sociedade civil. Para nortear os trabalhos, a Fundação Certi, de Santa Catarina, preparou um diagnóstico sobre a cidade e um plano de atividades. Isso resultou em grupos de trabalho, como de alimentos, tecnologia e saúde, que se reúnem mensalmente para propor ações.

Entre os projetos realizados ou em andamento está o Trilhas da Inovação, um programa de formação em tecnologia para alunos do 9º ano da rede municipal aplicado pelo Senai. O objetivo do curso é estimular os adolescentes a continuar seus estudos na área de tecnologia e  inovação. O programa teve aulas de eletrônica, robótica, tecnologias da indústria 4.0 e fundamentos para programação de software.

Outros exemplos são a criação da Agência de Desenvolvimento e Inovação Local (AGIL) e a construção do LabiLá, laboratório de inovação liderado pela prefeitura.

Casos como o de Lajeado e de Porto Alegre sugerem a busca de novos modelos de governança local, mais participativos e democráticos, para a solução de problemas reais das cidades.

Transformar isso em realidade, em ações que cheguem lá na ponta, na vida das pessoas, não é tarefa simples. Mas exemplos desse tipo mostram que, na era do ESG, a cooperação entre poder público, academia, iniciativa privada e sociedade civil é o caminho mais curto para inovar, provocar impacto social e exercer a cidadania.


SOBRE O AUTOR

Clayton Melo

Cofundador da plataforma A Vida no Centro, Clayton tem MBA em marketing, é especialista em comunidades, conteúdo e curadoria de eventos e festivais para temas como futuro das cidades, negócios digitais, inovação social, tecnologia e cenários futuros. Atuou na Istoé Dinheiro, no Meio e Mensagem e na Gazeta Mercantil.


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