Potencial da economia do mar no Brasil depende de investimentos em tecnologia e política industrial, afirmam pesquisadores


País tem grande participação de setores extrativistas como óleo e gás, mas ainda patina na indústria naval

Por Italo Bertão Filho, Prática ESG/Valor 18/08/2022 

Seja pelo aumento na taxa de desmatamento ou pelas possibilidades que o mercado de créditos de carbono pode trazer, a Amazônia ganhou relevância em nível internacional e está na pauta das discussões econômicas do Brasil. Já a economia do mar é um assunto ainda desconhecido pela maioria da população, embora o país tenha uma costa de quase 11 mil quilômetros de extensão e um dos maiores litorais do mundo. Mas o potencial de desenvolvimento da economia do mar brasileira, ainda essencialmente extrativista, passa por mais investimentos em tecnologia e inovação, de acordo com estudo de pesquisadores da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), repassado com exclusividade ao Prática ESG.

A economia do mar é um assunto relevante na temática de ESG (termo em inglês para questões ambientais, sociais e de governança) pelas possibilidades que apresenta em temas como bioeconomia e desenvolvimento sustentável. No mundo, o setor deve chegar a uma movimentação de US$ 3 trilhões até 2030, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). De olho no potencial econômico da exploração dos recursos vivos e não vivos, países como Estados Unidos, China e Coreia do Sul criaram estratégias para o segmento ao longo da década passada.

Já no Brasil, o tema é tão recente que não há um posicionamento estratégico e tampouco existe uma base consolidada para análise dos dados e mensuração do impacto do segmento na economia. Por isso, os pesquisadores Isabela Marques, Marcelo Fernandes e Alexandre Freitas, do Centro de Estudos da Economia do Mar para o Rio de Janeiro, ligado à UFRRJ, cruzaram, de forma inédita, os dados de atividades econômicas fornecidos pelo IBGE e descobriram que, em 2018, a economia do mar movimentou R$ 415,7 bilhões, correspondentes a 5,93% do produto interno bruto (PIB) brasileiro daquele ano.

A economia do mar ainda é essencialmente extrativista no país, segundo os pesquisadores. Quase metade da movimentação econômica desse segmento (49,4%) corresponde às atividades de óleo e gás, em especial refino de petróleo e extração de óleo bruto. Na comparação com países como Reino Unido, Dinamarca e Itália, o Brasil é a nação que tem a maior participação de recursos não vivos – que envolve extração de petróleo e gás natural – na economia do mar.

A dependência da extração faz com que o país tenha um setor manufatureiro ainda muito pouco desenvolvido, desafio que a indústria naval enfrenta desde os anos 1980, quando o segmento entrou em colapso e vários estaleiros passaram por dificuldades financeiras ou pediram falência. De acordo com o Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval), hoje o segmento emprega 15 mil pessoas, uma queda de 80% quando se compara com o montante de 2014, quando o setor naval gerava cerca de 82 mil empregos.

Hoje, de acordo com os pesquisadores, a participação do setor de manufatura e construção naval na economia do mar corresponde a pouco mais de 2%, índice semelhante ao de países como Dinamarca (2,6%) e Espanha (3,2%). Já em países como França e Alemanha, a fatia de mercado sobe para 14,1% e 11,3%, respectivamente.

Na prática, isso significa que o Brasil extrai recursos utilizando tecnologias de ponta fabricadas em outros países. Mesmo assim, existem possibilidades de alavancagem: 71% do volume está relacionado à construção e manutenção de embarcações e quase um quinto da produção do setor é referente a máquinas para extração mineral e construção naval. “A manufatura pode crescer mais se existir uma política para esse segmento. Podemos mais se investirmos em setores de maior intensidade tecnológica”, afirma Alexandre Freitas.

Na direção contrária da manufatura, o setor de turismo possui grande relevância para a economia do mar, sendo responsável por 37,9% das movimentações do segmento. A principal importância do setor, segundo os acadêmicos, está na capacidade de geração de empregos. Eles também defendem que o turismo também pode servir como uma alavanca para o desenvolvimento da construção naval.

Para a pesquisadora Isabela Marques, existe a necessidade de combinação de políticas entre atividades geradoras de emprego como o turismo, que não tem grande produtividade, mas trazem renda, e operações eficientes como o setor de óleo e gás. “As escolhas de política podem ser focadas na geração de valor adicionado, emprego e renda de forma mais imediata, mas também podem visar alterações na estrutura produtiva, que seria um processo mais lento, porém vital para reduzir as disparidades existentes entre o Brasil e os países centrais”, escreveu em sua pesquisa.

Indústria de construção naval e manufatura para embarcações pode ser alavancada, defendem pesquisadores — Foto: Foto: Divulgação

https://valor.globo.com/brasil/esg/noticia/2022/08/18/potencial-da-economia-do-mar-no-brasil-depende-de-investimentos-em-tecnologia-e-politica-industrial-afirmam-pesquisadores.ghtml

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