As pirações do confinamento


Por Ruth de Aquino O Globo 28/01/2021

O pior desse confinamento é não saber quando vai acabar. Duraria no máximo seis meses. Mas há quase um ano continuamos de máscara e sem encontrar, abraçar ou beijar pessoas queridas. A efusão e o afeto são risco de contágio e de morte. Ouço de amigos brasileiros e estrangeiros: “Estou enlouquecendo”. É verdade ou exagero? Conversei com o Dr Luiz Alberto Py, psiquiatra que deu assistência aos confinados no BBB e, agora, a quarentenados na pandemia. 

“O BBB tem uma coisa angustiante para quem está ali, que é não saber o que está acontecendo no mundo. Toda a vida afetiva fica resumida àquelas pessoas na casa, às patotas solidárias ou hostis. E mais nada. Mas é por pouco tempo. Três meses. E ninguém está arriscando a vida”, diz Py, que ajudou concorrentes do Big Brother a não surtar nas três primeiras edições do programa, até 2003. 

Na pandemia, em casa, sabemos de tudo no mundo. E isso também é apavorante. “Nos dois tipos de confinamento, muito diferentes, o traço comum é a perda da liberdade. Normalmente, na vida, você já sacrifica sua liberdade por um objetivo, uma relação ou um trabalho. Mas somos um pouco donos do sacrifício”. Na pandemia, estamos reféns de um confinamento sem previsão para acabar. A liberdade de encontro continuará restrita mesmo após a primeira dose da vacina. 

A imagem, do Edifício Copan em São Paulo, foi registrada em 18 de março de 2020, dias antes de ser oficializada a quarentena

A imagem, do Edifício Copan em São Paulo, foi registrada em 18 de março de 2020, dias antes de ser oficializada a quarentena | Foto Victor Moriyama/ The New York Times

As neuroses se acentuam no confinamento. Numa situação de risco e de emergência, até num elevador travado, vemos quem reage de maneira sã e quem entra em pânico. Na medicina, testamos o funcionamento de órgãos colocando empecilhos. “Testamos a capacidade de mover a pessoa pressionando contra o movimento. Em neurologia, o equilíbrio é verificado com olhos fechados. Ou com um pé à frente do outro. Ao criar menos estabilidade, vemos quem consegue se manter estável. Uma autodisciplina sólida é o maior sinal de autoestima”. 

Quem tem resiliência na solidão e serenidade diante dos perigos está aguentando mais o tranco. Quem trabalha em casa também. Confinar a dois é um teste. Casamentos sólidos se fortalecem, com ajuda, parceria e carinho recíprocos. Casamentos em dificuldade descem ladeira abaixo, com mágoas expostas. Um dia acabariam. A pandemia só acelerou a separação. 

Numa academia de ginástica, carregamos peso para fortalecer os músculos. “Recomendo, para quem pode, usar o confinamento como musculação emocional”, diz Py. “Onde você reforça a capacidade de lidar com o medo, a paranóia, com os outros, com o atrito da relação constante. E com sua solidão”. O tempo para reflexão é um luxo. O povo em pé em ônibus superlotados e em filas para tirar documentos ou para internar parentes não tem direito sequer ao confinamento.

Precisamos pensar no pós-pandemia, em como transformar nossa civilização. “Estamos nos comportando muito mal neste planeta. Estamos nos aglomerando e agredindo excessivamente a natureza. As pandemias são um fenômeno típico da aglomeração”. Quando se fala em pestes agrícolas, elas dão em plantações. Monocultura. Só milho, só algodão, só trigo. Bate uma doença e se propaga. Criações de porco, galinha também. Bate uma doença e mata todos. Não há peste na floresta natural.

Numa cidade tem gente, gente, gente. Passando doença um para o outro. Todos nós comemoramos a vacina. E depois? A pandemia é sintoma de uma Humanidade doente, desigual, egoísta, violenta e muito mal organizada. Somos humanos? Py lembra que, no livro “As pipas”, Romain Gary escreve que a pior coisa do genocídio judeu é que o “nazismo é humano”. Hitler era um ser humano. E isso diz muito sobre a nossa espécie.

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