Um poeta enxergou o futuro digital na metade do século XX


por Evandro Milet

Em seu conto “O Aleph” de 1949, Jorge Luis Borges, poeta e escritor, relata o dia em que viu, no porão de uma casa nos arredores de Buenos Aires, o Aleph, uma esfera furta-cor de dois ou três centímetros de diâmetro onde se concentravam todos os pontos do universo, todos os rostos, todos os lugares, todas as coisas. Depois disso, onde andasse, tudo lhe parecia familiar. Depois ele mesmo explicaria: “O que a eternidade é para o tempo, o Aleph é para o espaço”.

Parece que a ficção fantástica vira realidade e qualquer um hoje pode ver, não em uma esfera, mas em uma tela plana de poucos centímetros de um smartphone, todas os rostos nas redes sociais, todos os lugares no Google Maps com Street View e todas as coisas com os mecanismos de busca e a proliferação do big data.  E muitas das coisas que vemos podem até ser compradas na hora em um marketplace, ou podemos aprender a fazê-las em um vídeo no YouTube.

E a realidade supera a ficção porque não apenas vemos tudo, mas também nos comunicamos com todos e não precisamos ir a um porão – quer dizer, a não ser para tentar pegar o difícil sinal da operadora -, enquanto a internet das coisas se expande para permitir que os objetos se comuniquem entre si com base nos sensores que estarão em todos os lugares e que nos avisem de problemas. 

E não ficamos limitados apenas em perceber os rostos como familiares. O reconhecimento facial e os registros em bancos de dados vão nos dizer de quem são aqueles rostos, o que fazem e, para os governos, vão informar se já cometeram crimes ou se são perigosos. E o conceito de perigosos varia conforme o regime político.

E as coisas podem falar conosco como fazem os assistentes pessoais, podem responder nossas perguntas e tirar nossas dúvidas. Podem permitir conversas em línguas diferentes em traduções cada vez mais próximas da perfeição. Podem comandar compras e ajudar as crianças no dever de casa.

Mas Borges, que faleceu em 1986, antes da internet e do big data, vislumbrou outras coisas. Em seu conto A Biblioteca de Babel, publicado em 1944, ele imaginou uma biblioteca infinita que abarcasse todos os livros e “quando se proclamou essa capacidade, a primeira impressão foi de extravagante felicidade.” Tudo bem que não temos uma biblioteca infinita, mas uma livraria infinita como a Amazon já é de extravagante felicidade.

A biblioteca do conto serviu de inspiração para Umberto Eco na trama medieval do excelente O Nome da Rosa, e Borges teve até direito a dar o nome ao bibliotecário cego(como ele no fim da vida) do mosteiro, Jorge de Burgos, em uma parceria de gênios.

Além de escrever coisas fantásticas, Borges foi um visionário digital. Afinal, como ele dizia: “os poetas, como os cegos, podem ver no escuro”.

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