Bioeconomia – Caminhos para o Brasil no Pós-Pandemia


Paulo Hartung

Paulo Hartung é economista, presidente-executivo da Ibá (Indústria Brasileira de Árvores), membro do Conselho do Todos Pela Educação, ex-governador do Estado do Espírito Santo (2003-2010/2015-2018)

A Covid-19 vem há meses dizimando milhares de vidas e arrastando economias ao redor do planeta para o abismo da recessão. A rapidez do contágio e a letalidade foram surpreendentes, mas essa era uma catástrofe anunciada, ainda que não soubéssemos antever seu gatilho explosivo.

O mundo já dava sinais de que era preciso reinventar nossa relação com a natureza. Entre esses alertas estão as mudanças climáticas e suas graves consequências para a agricultura e a vida urbana, a extinção de espécies animais, a poluição extrema dos rios e o sofrimento de animais marinhos em mares invadidos pelo lixo.

Alertas ignorados, catástrofe efetivada. A pandemia é a crise mais desafiadora já enfrentada pelas atuais gerações. No Brasil, ainda fomos impactados em um período de fragilidades econômica e social, com dívida elevada e desemprego em alta.

E, se já não bastasse esse cenário de tragédia, cujos elementos se potencializam em seus efeitos nefastos, a falta de liderança fez com que o País não se preparasse da maneira adequada, desperdiçando o tempo que tinha até que a pandemia se instalasse por aqui. Isso sem falar na troca e até ausência de ministros em meio a este momento devastador.

O momento é grave. É impositivo que tratemos do emergencial, que é salvar vidas humanas, manter os empregos e assegurar continuidade à atividade econômica. Mas, além de fôlego para enfrentarmos nossas urgências, precisamos olhar para frente e mirar o futuro pós-pandemia. É necessário conjugar esforços para que o Brasil tenha tração para a retomada.

Neste caminho, não há atalhos. É necessário cumprir uma agenda urgente. A reforma tributária e a modernização do Estado são imprescindíveis. A digitalização plena dos procedimentos governamentais se mostrou inadiável diante da incapacidade de se efetivar a ajuda emergencial nesta pandemia. Conhecer e conectar-se com os cidadãos, desburocratizar processos… Enfim, é preciso tornar as máquinas governativas contemporâneas do século XXI.

Um avanço importante foi a aprovação pelo Senado do novo marco regulatório do saneamento básico, que dará segurança jurídica e atrairá investimentos do setor privado. Já há movimentação de investidores de olho no aporte necessário, que gira em torno de R$500 bilhões e R$700 bilhões para atingir a meta de universalização de água e esgoto tratados no Brasil até 2033. Além de ser um tema crucial, devido aos vergonhosos déficits sanitários e ambientais que atingem milhões de brasileiros, o assunto ganha relevância pelo gigantesco potencial de geração de emprego e renda. Ainda faltam etapas, mas foi um grande passo, após anos de discussão.

O fosso da desigualdade socioeconômica igualmente exige e merece atenção absolutamente prioritária. Educação de qualidade acessível a todos e unificação de políticas de inclusão social produtiva, contemplando um programa unificado de transferência de renda focado nos pobres, são ações decisivas nesta frente.

Para além dessa agenda estruturante, historicamente adiada, mas que se tornou ainda mais impositiva por causa deste presente dramático, também precisamos estar atentos às demandas e oportunidades que se colocam pela contingência atual, tendo em vista uma reflexão sobre qual mundo queremos legar para as gerações futuras.

Um dos caminhos é a bioeconomia

O mundo, neste momento, passa por um grande debate sobre como se dará a recuperação da economia no pós-crise e aponta um caminho convergente e muito suscetível a um natural protagonismo brasileiro, a bioeconomia.

Recentemente, o príncipe Charles, do Reino Unido, afirmou que o coronavírus trouxe uma oportunidade para reiniciarmos a economia, de modo a devolver à natureza aquilo que ela nos dá. Angela Merkel, chanceler alemã, destacou que irá investir trilhões para recuperar a economia em uma direção verde. O presidente francês, Emmanuel Macron, disse que é necessário reconstruir uma economia forte e que proteja o meio ambiente.

O Green Deal, ou Plano Verde, pactuado pela União Europeia, propõe ambiciosamente chegar à neutralidade de carbono até 2050. O bloco também lançou o selo verde para priorizar investimentos em atividades sustentáveis, com os objetivos de reduzir mudanças climáticas, utilizar recursos hídricos sustentavelmente, incentivar a economia circular, proteger e restaurar a biodiversidade e prevenir e controlar a poluição.

O mercado de carbono é mais um exemplo. A criação desse mercado, em caráter global, é uma das premissas do Acordo de Paris, do qual o Brasil é signatário. Além dessa negociação, há várias iniciativas para alguma forma de precificação de carbono, incluindo União Europeia, China e o estado norte-americano da Califórnia. Essas ações movimentaram US$ 82 bilhões em 2018. No Brasil, existe um estudo em andamento, PMR – Partnership for Market Readiness, numa parceria entre o Ministério da Economia e o Banco Mundial.

O caminho está ficando claro e a sustentabilidade será tema fundamental nas relações internacionais no pós-pandemia. Segundo a OCDE, a contribuição mundial da biotecnologia, entre saúde, indústria e produção primária, será na ordem de US$ 1 trilhão ao ano.

No Brasil, temos uma riqueza ambiental quase sem paralelo, com diferentes tipos de vegetação, clima e solo. Como bem opinou Carlos Nobre, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo  (USP), o potencial não está no que a gente vê, mas no que a gente ainda não conhece. E o Brasil, país com maior biodiversidade do mundo e com 66% de seu território coberto por mata nativa, é uma mina de ouro para o desenvolvimento sustentável.

Cabe a nós, sem levar a discussão para o lado ideológico, saber transformar essa potencialidade em oportunidades de gerar empregos, produtos de valor agregado, com origem ambientalmente correta, procedência e qualidade, que trarão divisas ao País e levarão renda a comunidades afastadas dos grandes centros.

Amazônia, riqueza natural e humana

A floresta em pé tem um valor que ainda desconhecemos por completo. Além de todo o serviço ambiental prestado ao planeta, como captação de CO2, regime de chuvas, conservação da biodiversidade, entre tantos outros benefícios, há incontáveis potencialidades que se transformam em riquezas, sem agressão à natureza. Mas, é preciso visão, estudo e políticas públicas que estimulem.

Países como a Finlândia e Holanda, que investem fortemente em biotecnologia, avançam em ciência, geração de novos empregos, renda e diversificação de sua atividade econômica. Não à toa, são apontados como referências. O governo finlandês, por exemplo, tem em sua estratégia chegar aos 100 bilhões de euros em negócios decorrentes da bioeconomia até 2050.

No Brasil, temos um ativo em mãos chamado Amazônia. Na região, vivem cerca de 25 milhões de pessoas que, se incentivadas e capacitadas, poderiam produzir a partir da floresta. Isto garantiria renda para milhares de famílias, muitas delas que vivem abaixo da linha da pobreza, estimularia investimentos na região, inclusive em pesquisas, agregaria valor aos produtos, pois já sairiam com a chancela de origem ambientalmente correta e protegeria a natureza, uma vez que o manejo seria feito da maneira adequada.

Com a chegada da Covid-19 e o consequente aumento do desemprego, o estímulo à bioeconomia torna-se um elemento ainda mais importante para a região – conservação aliada à produtividade, renda e movimentação na atividade econômica.

A integração sustentável entre ser humano e floresta é a forma mais direta de proteger o meio ambiente. Além do cuidado, a presença de pessoas trabalhando legalmente intimida ações criminosas, como desmatamento, queimadas, tráfico de animais, entre outras atitudes que ali acontecem por falta de fiscalização.

O futuro é agora. As empresas estão de olho e aportando capital em sustentabilidade, que já não é mais um pilar isolado, mas uma transversalidade na estratégia das companhias. Recentemente, a Natura, que também tem forte atuação na Amazônia, anunciou a destinação de R$ 800 milhões para seu plano de sustentabilidade. A Unilever investirá 1 bilhão de euros em um fundo dedicado a programas de mudanças climáticas e redução de emissões de gases de efeito estufa até 2039. Estes são movimentos arrojados, globais, que demonstram que apostar em uma economia verde, em que o meio ambiente não será mais esgotado, mas sim respeitado, é estar do lado certo da história.

Há espelhos dentro do próprio Brasil

Talvez um dos mais conhecidos e clássicos exemplos brasileiros de sucesso em bioeconomia seja o biocombustível, no qual o País é pioneiro. O etanol nacional é referência para o mundo. Segundo a Unica – União da Indústria de Cana-de-Açúcar –, o Brasil é o segundo maior produtor global e atingiu safra recorde em 2019/2020, com 35,58 bilhões de litros produzidos, dos quais 33,96 bilhões de litros vêm da cana-de-açúcar, e o restante do milho. De acordo com a Agência Nacional do Petróleo (ANP), 18% dos combustíveis consumidos aqui já são renováveis.

E já há avanços. A Raízen materializou o etanol de segunda geração, tornando-se uma das poucas empresas do mundo a produzi-lo estavelmente em escala comercial, em Piracicaba (SP). Chamado de etanol 2G, este é um combustível obtido pela fermentação controlada e posterior destilação de resíduos vegetais, como o bagaço da cana-de-açúcar. Esse novo processo de produção de etanol consegue reduzir a formação de dejetos e aumenta a eficiência da empresa.

O RenovaBio, uma política pública criada para incentivar biocombustíveis de qualquer tipo, tem uma boa base, que é incentivar a descarbonização, certificar a produção dos biocombustíveis e gerar créditos de carbono (CBIOs). No entanto, o programa ainda precisa deslanchar.

Outro exemplo de que se é possível conservar, produzir, gerar renda e trazer divisas ao País com produtos ambientalmente corretos é o setor de árvores cultivadas.

Presente principalmente no interior dos Estados, essa agroindústria leva desenvolvimento a regiões antes socialmente deprimidas, movimentando as áreas em que atua. Atualmente, são mais de mil municípios sob zona de influência do setor e 3,8 milhões de empregos diretos e indiretos, além do efeito renda.

O setor, que possui 7,8 milhões de hectares de florestas cultivadas para fins industriais, comumente atua em regiões antes degradadas pela ação humana. Ao longo dos anos, o investimento em capacitação, tecnologia e ciência, além de alavancar a produtividade, permitiu melhorias no manejo, que contribuem para fertilidade do solo, aumento de disponibilidade hídrica, entre outros serviços ambientais prestados pelas árvores cultivadas. Elas ainda são responsáveis pelo estoque médio de 1,7 bilhão de CO2eq, absorvendo mais CO2 do que toda a indústria produz em um ano.

O processo fabril desse segmento também é cuidadosamente pensado para reduzir seus impactos. No uso de água, por exemplo, a indústria de celulose reduziu a captação em 88% desde 1970. Além disso, deste total, 80% dos recursos hídricos retornam ao seu ponto de origem tratados, muitas vezes em condições melhores do que quando captados, e 19,7% vão para a atmosfera por meio da evaporação. Ou seja, apenas 0,3% fica no produto. Já na questão energética, as fábricas são responsáveis pela geração de 73% de toda energia que consomem, muitas delas, inclusive, com capacidade de venda do excedente para a rede.

O resultado desta equação são produtos renováveis, recicláveis e biodegradáveis, presentes no dia a dia de todos, como papel, filtro para café, fraldas infantis e de idosos, pisos laminados e móveis formados por painéis de madeira (MDF e MDP). Até mesmo no combate à Covid-19 seus produtos se mostraram fundamentais como embalagens de papel, que fizeram alimentos e medicamentos chegarem seguros para todos; papel higiênico, papel toalha e lenços para higiene; assim como EPIs de saúde, a exemplo das máscaras cirúrgicas. Todos eles, com carbono estocado também.

Além disso, a indústria investe muito em pesquisa e tecnologia para novos usos e substituição de materiais de origem fóssil. Viscose a partir da celulose solúvel para tecido já é uma realidade. Em breve, uma nova fibra têxtil a partir da celulose microfibrilada, até então chamada de Staple Fiber, chegará ao mercado para revolucionar o segmento. Bio-óleos, biocombustíveis, nanocelulose e nanocristais, que podem ser utilizados na indústria de alimentos, automobilística, de cosméticos e medicamentos, são outros exemplos.

Soma-se a tudo isso, os 5,6 milhões de hectares que o setor conserva entre Reservas Legais (RLs), Áreas de Preservação Permanente (APPs) e Reservas Particulares de Patrimônio Natural (RPPNs), uma área que é maior do que o território do Estado do Rio de Janeiro. Aqui, nessas áreas conservadas de matas nativas, são mais 2,5 milhões de CO2eq estocados. Trata-se de uma indústria que cuida do processo produtivo e preserva acima do que a lei prevê. Nesse sentido, também auxilia o Brasil a cumprir suas metas em acordos internacionais, como o Acordo de Paris.

Florestas e reputação

Desde a Rio 92, o País trabalhou para reverter a imagem das décadas de 1970 e 1980 e construir uma reputação ambiental internacional de muito respeito. Mas, os últimos acontecimentos têm arranhado a imagem do Brasil. Não só as queimadas de 2019 ou o aumento do desmatamento, mas também determinados posicionamentos oficiais, falas inoportunas ou fora de contexto prejudicam até mesmo acordos internacionais. O parlamento holandês, por exemplo, mostrou-se contra o acordo UE-Mercosul devido à política ambiental brasileira.

A realidade é que o Brasil tem se comunicado mal nos últimos anos. Construímos um sólido Código Florestal, que, pela primeira, vez colocou na mesma mesa academia, setor privado, poder público e sociedade civil. Dali nasceu uma das mais rígidas legislações ambientais do mundo.

Temos um agronegócio comprometido com o meio ambiente, que compreende a importância da natureza para sua produção, investe em tecnologia e ciência para fazer mais com menos, busca soluções para defensivos agrícolas biológicos, produzindo itens essenciais e alimentos que abastecem os brasileiros e o mundo.

A sociedade é cada vez mais consciente e cobra de seus governantes políticas públicas para preservar o meio ambiente. Em 2019, vimos jovens nas ruas se manifestando para que atitudes fossem tomadas contra as mudanças climáticas. É o futuro instando as atuais gerações para que encontrem o rumo correto.

Precisamos ter a capacidade de demonstrar isso ao mundo. Vamos contar nossa história para que, por exemplo, os europeus compreendam que a sociedade brasileira cultiva valores comuns, partilha com eles valores idênticos e que luta pelas mesmas causas. Precisamos narrar nossa trajetória de uma nação capaz, preocupada com nossa biodiversidade, nossas riquezas naturais, que mira um futuro sustentável, em que homem e natureza conviverão em harmonia.

Enfim, temos muito a fazer. Mas, seja para cuidar da travessia da pandemia, com olhar prioritário ao cuidado com a vida e a produção, seja para executar concomitantemente uma agenda essencial de desenvolvimento socioeconômico, com vistas ao hoje e ao amanhã, é preciso que a liderança nacional assuma seu papel.

É preciso também que todas as institucionalidades, os setores produtivos, todas as cidadãs e cidadãos se engajem, no âmbito de suas possibilidade e deveres, para manter o Brasil de pé e com olhar firme no horizonte. Afinal, é sabido que toda crise tem começo, meio e fim.

Mas, se não atuarmos em sintonia e comunhão a favor de propósitos nacionais maiores, chegaremos ao pós-pandemia de joelhos, sufocando demandas e oportunidades de uma nação potencialmente gigante, mas que ainda está muito aquém do que poderia ser, especialmente por questões estruturais que não podemos mais suportar, dramaticamente agravadas por este momento trágico. É tempo de agir. Nosso presente e nosso futuro não podem mais esperar.

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Um comentário em “Bioeconomia – Caminhos para o Brasil no Pós-Pandemia

  1. Muito pertinente esse tema, Evandro.
    José Vitor Bomtempo, meu professor e co-orientador da minha tese de doutorado, tem um grupo de pesquisa sobre bioeconomia na Escola de Química, da UFRJ, chamado GEBio.
    Ele está sempre atualizado com as pesquisas nesse campo.
    Ele deu uma ótima entrevista para o site da CNI que está muito boa.
    Segue o link:
    https://noticias.portaldaindustria.com.br/entrevistas/jose-vitor-bomtempo/bioeconomia-auxilia-brasil-na-recuperacao-economica-no-pos-pandemia/

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