‘Comoditização’ da IA pode impulsionar o Brasil

País pode criar buscador próprio; a operação é relativamente simples e o resultado, impactante

Ronaldo Lemos – Folha – 316.fev.2025 

Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro

A revolução do DeepSeek é mais profunda do que imaginamos. Vou dar um exemplo. Hoje qualquer startup brasileira pode criar um buscador poderoso, parecido com o Perplexity.

Para quem não conhece, o site faz buscas como o Google. Só que, em vez de retornar só links, ele gera relatórios completos sobre um determinado assunto.

É como se você estivesse contratando uma consultoria para cada tema buscado. O problema é que o Perplexity é de código fechado. O único jeito de usar os serviços da empresa é por meio dos canais que a plataforma oferece.

Se isso não agradar, agora dá para criar a sua própria versão do Perplexity, graças à revolução desencadeada pelo DeepSeek (e seu modelo de código aberto).

Para fazer isso, um desenvolvedor ou uma empresa brasileira pode integrar o modelo mais avançado do DeepSeek (R1) com a Jina.ai, plataforma que permite a construção de buscadores informados por inteligência artificial.

A operação é relativamente simples e o resultado, impactante: um site brasileiro capaz de oferecer um serviço de busca tão poderoso quanto o do Perplexity, considerado líder na área.

Só que o Perplexity precisou de mais de US$ 600 milhões (cerca de R$ 3,420 bilhões) em investimento. A operação toda usando DeepSeek e Jina ficaria em uma fração disso (milhares e não milhões de dólares).

Esse é o mundo em que estamos entrando, de comoditização da inteligência artificial e suas aplicações. Tanto é que na China há uma multiplicação de empresas de IA. Vou citar algumas: Metaso.ai, Kimi.ia, Doubao, Ernie bot e assim por diante.

Curiosamente, todas estão indo atrás de competir com o Google e com o modelo da Perplexity, apostando em buscas abertas na internet.

Testei o Metaso para entender suas capacidades. Pedi que ele fizesse um relatório sobre o mercado da soja no Brasil atualmente.

O resultado impressiona. Em menos de cinco segundos o modelo produziu um relatório completo e atualizado. Analisou os desafios climáticos e a dependência de fertilizantes.

Investigou a situação das rodovias e portos no país e seus problemas logísticos. Apontou que o produtor tem de lidar com quatro empresas internacionais que controlam 61% do mercado.

Falou da dependência da China. E de como o Brasil tem dificuldades de atuar na formação do preço da soja, mesmo se reduzir o volume produzido.

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Dados do hub de modelos de inteligência artificial Hugging Face mostram que existem mais de 1 milhão de modelos de IA na internet. O usuário 

Se fosse um mestrado seria nota nove. Vale dizer que o Metaso entende perguntas em qualquer língua, mas só responde em chinês. O que não é um problema. É só pedir para outra inteligência artificial traduzir.

Por fim, a revolução do DeepSeek está chegando também nos chips.

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Hoje, a Nvidia produz os chips mais avançados e por isso domina o mercado. No entanto, a chegada do DeepSeek fez com que os fabricantes chineses acelerassem seus chips para funcionarem especificamente com o modelo. Empresas como a Muxi, Enflame, Hygon e outras estão fazendo isso.

O resultado é uma queda no custo do hardware para treinar IA, já que chips menos avançados (e baratos) estão sendo modificados para isso. O Brasil e as empresas brasileiras deveriam estar de olho em tudo isso.

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Já era Custo proibitivo para treinar IA

Já é Comoditização da IA

Já vem Maior competitividade em IA

IA: ‘comoditização’ pode impulsionar Brasil – 16/02/2025 – Ronaldo Lemos – Folha

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China aperta controle sobre tecnologia, minerais e engenheiros em meio a guerra comercial

Regime dificulta que engenheiros e equipamentos deixem o país e impõe mais controles sobre exportação, para reter tecnologias-chave de baterias

Folha/Financial Times – 16.fev.2025 

Pequim, Seul, Taipei, Nova Déli e Hong Kong | Financial Times

Pequim está apertando seu controle sobre a tecnologia chinesa de ponta, visando manter conhecimentos críticos dentro de suas fronteiras à medida que as tensões comerciais com os EUA e a Europa aumentam.

As autoridades chinesas, nos últimos meses, tornaram mais difícil para alguns engenheiros e equipamentos deixarem o país, propuseram novos controles de exportação para reter tecnologias-chave de baterias e moveram-se para restringir tecnologias para o processamento de minerais críticos, de acordo com várias figuras da indústria e avisos ministeriais.

A proteção do país às tecnologias líderes ocorre em meio a tarifas adicionais do presidente dos EUA, Donald Trump, e uma disputa comercial com a Europa sobre automóveis, que ameaçam incentivar mais grupos locais e estrangeiros a moverem a produção para outros lugares.

Entre as empresas afetadas está a principal parceira de fabricação da Apple, Foxconn, que tem liderado a diversificação da cadeia de suprimentos do grupo do Vale do Silício para a Índia.

Pessoas familiarizadas com o assunto disseram que as autoridades chinesas dificultaram para a fabricante contratada de propriedade taiwanesa enviar máquinas e gerentes técnicos chineses para a Índia, onde a Apple está interessada em expandir sua cadeia de suprimentos.

Um gerente de outra empresa taiwanesa de eletrônicos disse que eles também estavam enfrentando desafios para enviar alguns equipamentos da China para fábricas na Índia, embora ele tenha notado que os embarques para o sudeste asiático permaneciam normais.

Um funcionário indiano alegou que a China estava usando atrasos alfandegários para impedir o fluxo de componentes e equipamentos em direção ao sul. “Os participantes da cadeia de suprimentos da indústria eletrônica foram informados para não estabelecer operações de fabricação e montagem na Índia”, disse o funcionário, pedindo para não ser identificado. O site de mídia Rest of World relatou anteriormente alguns dos problemas da Foxconn.

Analistas dizem que o novo manual de Pequim se assemelha às restrições de transferência de tecnologia ocidentais que criticou ruidosamente como injustas. Os controles informais parecem, em particular, visar o rival geopolítico da China, a Índia, com alguns grupos chineses dizendo que projetos no sudeste asiático e no Oriente Médio permanecem inalterados. Mas Pequim também está cada vez mais implementando restrições formais de exportação em tecnologias-chave que se aplicam mundialmente.

“Uma cadeia de suprimentos forte e uma força de trabalho qualificada são algumas das poucas vantagens que a China ainda tem hoje em dia”, disse um investidor de uma empresa enfrentando problemas para mover alguns engenheiros técnicos para o exterior. “Você não quer perder isso para outros países.”

O Ministério do Comércio da China propôs no mês passado restrições à exportação de tecnologias relacionadas à extração de lítio e à fabricação de materiais avançados para baterias, ambas áreas onde o país tem uma posição de liderança.

“A China está desenvolvendo um grande músculo de controle de exportação e sendo bastante deliberada no que escolhe controlar”, disse Antonia Hmaidi, analista sênior do Instituto Mercator para Estudos da China. “Fundamentalmente, trata-se de manter a China central nas cadeias de suprimentos globais”, disse ela.

Hmaidi disse que Pequim estava frequentemente mirando áreas próximas ao topo da cadeia de suprimentos onde grupos chineses controlavam materiais e processos tecnológicos, enquanto deixava produtos finais sem controle.

Cory Combs, da consultoria Trivium China, disse que as intervenções que Pequim apresentou na cadeia de suprimentos de baterias representavam “uma nova classe de controles de exportação”.

Se adotados na íntegra, os controles poderiam impedir que os gigantes das baterias da China com fábricas na Europa movessem toda a sua cadeia de suprimentos para o exterior. Grupos como a CATL podem precisar continuar importando materiais de bateria como cátodos avançados de fosfato de ferro-lítio (LFP) da China, em vez de poder produzi-los ou comprá-los localmente, de acordo com uma pessoa informada sobre o assunto.

Os avanços chineses na tecnologia LFP sustentaram a ascensão de seus gigantes das baterias, deslocando os grupos sul-coreanos e japoneses, que antes dominavam a indústria de baterias.

Tentando recuperar o atraso, grupos coreanos começaram a fazer parcerias e comprar cátodos LFP da China, que no ano passado produziu 99% de todos os materiais ativos de cátodo LFP, de acordo com a Benchmark Mineral Intelligence.

Os novos controles poderiam ameaçar esses acordos. Um porta-voz de um importante produtor de baterias coreano, que pediu para que sua empresa não fosse nomeada, disse que comunicaram suas preocupações ao ministério do comércio chinês.

“Não podemos descartar alguns efeitos adversos em nossa parceria com uma empresa chinesa se as diretrizes não refletirem nossas preocupações”, disse a pessoa.

Sam Adham, chefe de pesquisa de baterias na empresa de análise CRU Group, disse: “Os coreanos precisam de tecnologia chinesa de ponta, mas [com os novos controles de exportação] eles podem só conseguir acessar as tecnologias do ano passado — ou seja, o que está nas estradas no momento.”

As restrições delineadas sobre a exportação de tecnologia de extração de lítio poderiam complicar desenvolvimentos em andamento dos EUA à América do Sul. Uma pessoa próxima à CATL disse que o grupo precisaria solicitar licenças de exportação para usar tecnologia chinesa em um projeto de US$ 1,4 bilhão na Bolívia para extrair lítio dos salares do país.

Anna Ashton, fundadora da consultoria focada na China Ashton Analytics, disse que grupos chineses haviam pioneirado tecnologia para extrair e processar salmouras ricas em lítio de profundidades subterrâneas, tornando viáveis muitos novos projetos de mineração.

“Ironicamente, contratar empresas chinesas é atualmente o meio mais eficiente de trazer fontes não chinesas de lítio minerado e processado online”, disse ela.

Em materiais e minerais estratégicos, Pequim gradualmente ampliou suas restrições para incluir tanto o controle das exportações dos elementos-chave —como terras raras, tungstênio e telúrio, entre outros— quanto a restrição das tecnologias usadas para sua extração, refino ou processamento.

Em dezembro de 2023, a China expandiu ainda mais os controles, para a tecnologia e processos que transformam terras raras refinadas em metais e ímãs permanentes usados em veículos elétricos, turbinas eólicas e eletrônicos.

“A China fabrica algo como 95% dos ímãs permanentes do mundo”, disse um funcionário de um grupo dos EUA construindo uma cadeia de suprimentos alternativa.

“O efeito líquido desses controles de exportação é que a diversificação industrial em algumas dessas cadeias de suprimentos é restringida.”

O ministério do comércio da China não respondeu a um pedido de comentário. Foxconn e CATL se recusaram a comentar.

Ryan McMorrow , Christian Davies , Kathrin Hille , John Reed e Zijing Wu

Reportagem adicional de Gloria Li em Hong Kong, Song Jung-a em Seul, Nian Liu em Pequim

China controla tecnologia, minerais e engenheiros – 16/02/2025 – Mercado – Folha

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O mantra que divide o Vale do Silício voltou, mas com um novo tom

Frase popularizada por Jeff Bezos, fundador da Amazon, servia como um incentivo em momentos de indecisão

Laura Pancini – Exame –  15 de fevereiro de 2025 

Empresas de tecnologia como Meta e Amazon estão deixando claro: ou os funcionários seguem as decisões, ou saem. O conceito de “disagree and commit” (como “discordar e se comprometer”, em português) agora tem um tom mais rígido.

O alerta veio de Andrew Bosworth, diretor de tecnologia da Meta, que afirmou que quem discordar das políticas da empresa deve aceitar e seguir em frente — ou procurar outro emprego.

A abordagem reflete a impaciência crescente no Vale do Silício, onde as grandes empresas de tecnologia estão cada vez menos dispostas a lidar com discordâncias internas. Nos últimos anos, Meta, Amazon e Google fizeram grandes demissões, reorganizaram equipes e mudaram suas estratégias para cortar custos e ganhar eficiência.

A ideia não é nova. Popularizada por Jeff Bezos na Amazon, a filosofia buscava evitar burocracia, permitindo que decisões fossem tomadas rapidamente, mesmo sem consenso.

Sua origem remonta aos anos 1980, quando Andy Grove, então presidente da Intel, defendia que equipes deveriam debater ferozmente, mas, uma vez tomada a decisão, todos deviam segui-la sem resistência.

A história de como a Blockbuster quase comprou a Netflix

Novo tom

Agora, a política está sendo aplicada de forma mais rígida. Em um evento interno, Andy Jassy, presidente da Amazon, afirmou que funcionários que não se comprometem provavelmente não se encaixarão na empresa.

Na Meta, Bosworth reforçou a mesma visão: “Se você não concorda, pode sair ou discordar e se comprometer.”

Para especialistas, o modelo pode ser positivo se aplicado corretamente, permitindo que líderes confiem nas perspectivas de quem está mais próximo do problema. Mas críticos alertam que essa nova abordagem pode sufocar vozes internas e reduzir a diversidade de pensamento.

Fica a dúvida se essa filosofia vai impulsionar a inovação, como fez nas últimas décadas, ou reforçar o conformismo.

O mantra que divide o Vale do Silício voltou, mas com um novo tom | Exame

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Crime organizado lucra mais com combustível e bebida do que com cocaína no Brasil, diz estudo

Facções criminosas e milícias movimentaram em 2022 R$ 61,5 bilhões com a comercialização de gasolina, álcool, diesel e lubrificantes contra R$ 15 bilhões com a droga

Por Roberta Jansen – Estadão – 13/02/2025

O crime organizado no Brasil já movimenta mais dinheiro com a venda irregular de combustível, ouro, cigarro e álcool do que com o tráfico de cocaína, como revela estudo divulgado nesta quinta-feira, 13, pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). A expansão de atividades criminosas para setores formais da economia é responsável por perdas fiscais na casa dos bilhões e pela ampliação do poder político dos criminosos.

De acordo com o estudo “Rastreamento de Produtos e Enfrentamento ao Crime Organizado no Brasil”, as organizações criminosas movimentaram R$ 146,8 bilhões em 2022 com a comercialização de combustível, ouro, cigarros e bebida. A movimentação financeira do tráfico de cocaína no mesmo período foi estimada em R$ 15 bilhões.

Trata-se do primeiro estudo feito no Brasil a registrar o impacto do crime organizado na economia formal e aos cofres públicos do País. Segundo o novo trabalho, as facções criminosas começaram a investir em produtos do mercado formal para lavar o dinheiro do tráfico de drogas, mas logo perceberam as vantagens financeiras e políticas de diversificar seus negócios.

“Inicialmente, essas mercadorias começaram a ser exploradas para lavar o dinheiro da droga, mas acaba gerando uma receita tão grande que a droga deixa de ser o negócio mais rentável, ainda que não deixe de ser o principal”, explicou o diretor-presidente do FBSP, Renato Sérgio de Lima. “O tráfico de droga permite o controle de territórios e, sobretudo, das rotas do comércio ilegal na Amazônia e no Mato Grosso do Sul.”

O estudo analisou o impacto do crime na comercialização de combustível, ouro, cigarro e bebidas, mas há pelo menos outras 18 atividades econômicas do mercado formal nas quais as facções criminosas têm grande protagonismo, caso do setor de transportes, do mercado imobiliário e da pesca.

Entre os quatro mercados formais estudados, o que registra a maior movimentação financeira é o de combustíveis e lubrificantes, com um total estimado de R$ 61,5 bilhões. O crime já está presente em praticamente todos os elos da cadeia: da produção ao posto de gasolina, passando por refino, transporte e logística.

“É um movimento muito grande, inacreditável; estamos cientes do problema e já alertamos as autoridades”, afirmou o presidente do Instituto Combustível Legal, Emerson Kapaz. “Estimamos R$ 14 bilhões por ano em sonegação e outros R$ 15 bilhões em fraudes operacionais, sem falar no prejuízo ao empresariado e à população de forma geral.”

Kapaz explicou que já existem diversas iniciativas junto aos governos e também na área das taxações para mitigar o problema, mas lembra que, “cada vez que a gente fecha uma porta, eles (os criminosos) abrem outras quatro”. Ainda segundo Kapaz, é preciso conscientizar o consumidor.

“Muitos consumidores não ligam para a questão tributária, mas eles precisam se conscientizar que estão contribuindo para o crime organizado quando vão a um posto irregular”, disse. “Vão pagar mais barato agora, mas, lá na frente, pagarão um preço alto na segurança pública porque, indiretamente, financiou o crime organizado.”

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Como o Estadão mostrou, a suspeita é de que mais de 1 mil postos de combustível estariam sob controle do crime organizado no Brasil. A Polícia Federal, inclusive, abrirá inquérito para investigar a atuação do crime organizado no setor de combustíveis. De acordo com o ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, há relatos de controle de organizações criminosas até mesmo em refinarias de petróleo.

No setor de combustíveis, por exemplo, há elo do Primeiro Comando da Capital (PCC) e outras facções na adulteração de combustíveis. Em 2023, a Agência Nacional de Petróleo emitiu 187 autos de infração relacionados à adulteração de combustível por metanol. O número recorde representou um aumento de 73,5% em comparação com 2022. Quando se compara com períodos anteriores, a diferença é ainda maior. Em 2020, por exemplo, foram somente 37 casos desse tipo contabilizados pela agência.

São cerca de 43 mil postos de gasolina no País, segundo levantamento do setor. Há postos que, mesmo não apresentando combustível adulterado ao consumidor, sonegam impostos ou realizam processos fraudulentos para obter os insumos vendidos. Segundo autoridades, há quadrilhas que se aproveitam, por exemplo, de o álcool etílico hidratado, conhecido como carburante (usados nos veículos), ser basicamente o mesmo álcool para fins de indústria, só que normalmente com alíquota maior de imposto.

Diante disso, esses grupos criam empresas fantasmas para importar esse segundo tipo de álcool, supostamente para usar na indústria. Quando as cargas chegam, porém, usam para abastecer redes de postos, de forma a multiplicar os lucros.

Bebidas alcoólicas

Em segundo lugar na lista de atividades criminosas para áreas formais da economia aparece o setor de bebidas alcoólicas, com R$ 56,9 bilhões, seguido da extração e produção do ouro, com R$ 18,2 bilhões, e do cigarro, com R$ 10,3 bilhões.

Segundo o trabalho, isso tem um custo alto para o governo brasileiro. A venda ilícita de até 13 bilhões de litros de combustível em 2022, por exemplo, custou ao País cerca de R$ 23 bilhões em receita. E o contrabando e a falsificação de bebidas geraram perdas fiscais de R$ 72 bilhões no mesmo ano. De acordo com os pesquisadores, nada menos que 40% do mercado de cigarros do País é formado por produtos ilegais – um prejuízo fiscal estimado em R$ 94 bilhões na última década.

Ao ampliarem sua participação em mercados formais, facções e milícias conseguem controlar territórios estratégicos, consolidando domínio político e econômico local. Em regiões com pouca presença do Estado, como na Amazônia, por exemplo, esse domínio “alimenta ciclos de violência, exclusão social, corrupção e crimes ambientais, dificultando a implementação e políticas públicas e do combate à economia do crime”.

O novo estudo mostra também que, atualmente, a principal fonte de renda para o crime organizado são os crimes cibernéticos (os golpes via internet) e o roubo de aparelhos de telefones celulares, com uma movimentação financeira estimada em R$ 186 bilhões.

Crime organizado lucra mais com combustível e bebida do que com cocaína no Brasil, diz estudo – Estadão

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Medo de criminosos leva a elite da tecnologia a transformar suas casas em bunkers de guerra

Drones e reconhecimento facial para proteção domiciliar está fazendo a cabeça de CEOs e investidores de empresas de tecnologia

Por Nitasha Tiku – Estadão/The Washington Post – 08/12/2024 

No futuro, sua casa será tão segura contra invasores quanto uma base militar de última geração.

Câmeras e sensores vigiarão o perímetro, examinando os rostos dos transeuntes em busca de possíveis ameaças. Drones assustarão invasores projetando um holofote sobre qualquer movimento suspeito. Uma versão virtual da residência será analisada em tempo real. E agentes de segurança privada vão monitorar os alertas a partir de um hub central.

Essa é a visão da segurança residencial apresentada pela Sauron, uma startup do Vale do Silício que conta com uma lista de espera de CEOs de tecnologia e investidores de risco.

O cofundador Kevin Hartz, empresário do setor de tecnologia e ex-sócio da empresa de capital de risco Founders Fund, de Peter Thiel, batizou a empresa com o nome do vilão de “O Senhor dos Anéis”, de J.R.R. Tolkien, um espírito maligno desencarnado representado como um olho ardente que tudo vê no céu.

“É um pouco evidente, um pouco irônico”, mas envia a mensagem certa, disse Hartz. “As pessoas más sabem que estão sendo observadas.”

Hartz e seu cofundador, Jack Abraham, disseram que foram motivados a abrir a empresa depois de incidentes ocorridos em suas residências em Miami e no bairro de Presidio Terrace, em São Francisco, um beco sem saída fechado e afluente que já foi lar de políticos como a deputada democrata Nancy Pelosi. Hartz disse que seu sistema de segurança não alertou a ele e sua esposa quando um intruso tocou a campainha e tentou entrar em sua casa tarde da noite.

Ao incorporar a tecnologia desenvolvida para veículos autônomos, robótica e segurança de fronteiras, a Sauron criou um super alarme contra ladrões, argumenta Hartz.

O conceito repercutiu nos círculos de tecnologia na região de São Francisco, onde o crime é assunto constante em podcasts de tecnologia, mídias sociais e bate-papos em grupos de executivos. Embora as estatísticas do Departamento de Polícia de São Francisco de outubro mostrem que os crimes contra a propriedade e o roubo de carros caíram em 2024 e que a taxa de homicídios está em um nível mais baixo em cinco anos, os dados fizeram pouco para apaziguar os temores do público.

No mês passado, a cidade elegeu um prefeito que se candidatou com base em uma plataforma de melhoria da segurança pública e aprovou uma proposta que permite que a polícia tenha mais liberdade para vigiar os residentes. Em todo os EUA, os eleitores responderam a percepções semelhantes de perigo, revertendo as reformas policiais instituídas durante os protestos de George Floyd.

“Tivemos esse tipo de experimento social para não processar criminosos, e tivemos mercados de drogas a céu aberto e coisas do gênero”, disse Hartz, comparando a sensação de ‘falta de lei’ com a Nova York dos anos 1970.

Nos círculos do Vale do Silício, esses temores inspiraram os empreendedores a reformular as ferramentas tecnológicas comerciais – como drones e tecnologia de reconhecimento facial – como uma solução para os problemas de segurança das forças armadas, das forças policiais e dos indivíduos.

Para muitas elites tecnológicas, a segurança é tanto uma prioridade nacional quanto uma preocupação crescente em suas vidas pessoais.

“A prevenção, a detecção e a resposta ao crime, da forma como as conhecemos, precisam mudar”, escreveu David Ulevitch, sócio investidor da Andreessen Horowitz, em um post de blog no ano passado, que exaltava o investimento da firma em empresas de ‘segurança pública habilitadas pela tecnologia’. Essas startups têm parceria com departamentos de polícia de todo o país, como a fabricante de drones Skydio e a Flock Safety, que vende leitores de placas de veículos.

Após a eleição presidencial no mês passado, a Y Combinator, principal aceleradora de startups do mundo, fez um chamado para empresas de “tecnologia de segurança pública”, como as que produzem ferramentas que facilitam a vigilância da vizinhança ou tecnologia que usa visão computacional para identificar “atividades suspeitas ou pessoas em perigo a partir de feeds de vídeo”.

“Todos nós merecemos estar seguros em nossas casas e ao andar pelas ruas”, disse o presidente da Y Combinator, Garry Tan, em um vídeo do YouTube Shorts solicitando inscrições. “Essa é uma coisa básica que a civilização deve oferecer aos seus cidadãos. As startups já estão trabalhando nisso.”

Embora Hartz e sua família sejam conectados a São Francisco, nem todos os seus amigos veem sensatez de permanecer na cidade. Em uma reunião com Thiel após a pandemia, ele ficou horrorizado com o fato de o casal ter ficado em São Francisco. Vi um olhar de tristeza e pena, do tipo: “Meu Deus!”, disse Hartz.

A Sauron levantou US$ 18 milhões em financiamento de executivos da Flock Safety e da Palantir, a empresa de análise de dados, investidores em tecnologia de defesa, como a 8VC, uma empresa de risco criada pelo cofundador da Palantir, Joe Lonsdale. Alguns apoios vêm do laboratório de startups de Abraham, Atomic, e da empresa de investimentos de Hartz, A*.

A Sauron tem como alvo os proprietários de imóveis no alto escalão do mercado imobiliário. A empresa planeja lançar-se em São Francisco no início do próximo ano, antes de expandir-se para Los Angeles e Miami.

Hartz disse que parte de sua motivação para mudar para a segurança doméstica foi observar o progresso acelerado em áreas como a dos carros autônomos, enquanto visões outrora promissoras da vida doméstica, como a casa inteligente, definharam. As grandes empresas de tecnologia não implantaram ferramentas como o reconhecimento facial de forma tão agressiva quanto Hartz gostaria.

“Se alguém entra em minha propriedade, acho que devo saber quem é”, disse Hartz.

Enquanto isso, os sistemas de alarme residencial do mercado têm um histórico ruim de falsos positivos, o que leva agentes a não priorizarem os alertas, disse Hartz.

Nos últimos anos, investimentos maciços reduziram o custo de drones, câmeras de alta resolução e sensores LiDAR, que usam detecção de luz para criar mapas 3D. O Sauron utiliza hardware e ferramentas de baixo custo, como reconhecimento facial, combinados com software personalizado adaptado para uso residencial. Para o reconhecimento facial, ela usa um serviço de terceiros chamado Paravision, uma empresa apoiada pela Atomic. A Paravision começou como um aplicativo de armazenamento de fotos chamado Everalbum, que foi temporariamente banido da App Store da Apple por enviar spam aos contatos dos usuários e, mais tarde, entrou em acordo com a Federal Trade Commission por não ter informado os usuários sobre a mudança.

Outras partes do sistema estão em fluxo, o que não é incomum para uma startup. Algumas semanas antes da demonstração, Hartz ainda estava pensando se a Sauron deveria oferecer um concierge virtual que soasse como um mordomo robô, sem o robô. E ele se recusou a oferecer uma faixa de preço específica para o serviço.

A Sauron ainda está descobrindo como incorporar drones, mas já está imaginando contramedidas mais agressivas, disse Hartz. “Será que é uma máquina que pode eliminar um mau ator com uma bala ou algo assim?”

Mas Hartz também reconheceu que o público da área de tecnologia pode ser propenso a pensamentos apocalípticos, principalmente em épocas de turbulência econômica e agitação social.

Em jantares de tecnologia após a Grande Recessão, Hartz disse que a discussão às vezes se voltava para as melhores práticas para fugir dos Estados Unidos. Em um cenário em que alguém adquiriu cidadania e residência na Nova Zelândia e pediu a um piloto que o levasse para um lugar seguro, “as pessoas falavam se você deveria ou não matar o piloto do avião porque o piloto poderia prejudicar sua família”, disse ele.

O cofundador da Sauron responsável pela criação de sua tecnologia, o chefe de engenharia Vasu Raman, tem uma visão mais comunitária da segurança doméstica.

“Adoro cidades e adoro o sentimento de comunidade dentro da multidão”, disse Raman, que cresceu em Mumbai e também sofreu uma tentativa de arrombamento em sua casa no bairro Mission, em São Francisco, no ano passado. “Você entra em um ônibus e as pessoas cuidam umas das outras, principalmente. Elas garantem que você possa sair quando for a sua vez. Elas cedem o assento delas para você.”

Ela acha que a visão distópica de São Francisco decorre de um sentimento de impotência. Raman prefere pensar no ditado: “Boas cercas fazem bons vizinhos”.

“Se as pessoas estiverem seguras em suas próprias casas, você pode realmente se apoiar nessa comunidade e começar a construir esses relacionamentos”, disse ela.

Medo de criminosos leva a elite da tecnologia a transformar suas casas em bunkers de guerra – Estadão

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Nova estratégia: defensores da energia limpa agora falam em lucro e empregos

Com Trump revogando iniciativas ambientais, o foco na lucratividade da energia limpa ficou ainda mais evidente


SETH BORENSTEIN E ALEXA ST. JOHN – Fast Company Brasil – 12-02-2025 

Salvar o planeta já não é mais o principal argumento. Agora, líderes do setor de energia limpa estão mudando sua abordagem para destacar um outro tipo de “verde”: a geração de riqueza. Esse tipo de discurso se encaixa muito melhor no cenário atual, dominado por líderes nacionalistas e bilionários.

Até pouco tempo atrás, a indústria de energia renovável e a ONU enfatizavam a necessidade urgente de reduzir as emissões de gases de efeito estufa para proteger o meio ambiente e a saúde pública. As evidências eram claras: recordes de temperaturas pelo mundo, desastres climáticos cada vez mais frequentes e prejuízos bilionários.

Mas o tom mudou, especialmente depois que Donald Trump assumiu a presidência dos EUA e começou a revogar políticas ambientais. Com um discurso inflamado sobre “liberar” o petróleo, o gás e a mineração, ele deixou claro que a prioridade do governo não seria o combate às mudanças climáticas.

Diante desse cenário, representantes do setor de energia renovável partiram para o contra-ataque. Em uma rodada de lobby em Washington, há duas semanas, executivos do setor solar, eólico e hidrelétrico reforçaram seu papel no fortalecimento da economia e da indústria norte-americana. Muitos usavam broches com a frase “Dominância energética americana” – um dos slogans favoritos de Trump.

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A mesma estratégia foi vista na última quinta-feira, no Brasil, durante um discurso do secretário-executivo da ONU para o Clima, Simon Stiell. Em vez de focar apenas nos impactos ambientais, ele chamou a atenção para os US$ 2 trilhões investidos globalmente em energia limpa.

Stiell citou um amigo que, certa vez, lhe disse que apelar para o altruísmo das pessoas tem um alcance limitado. “Na grande corrida da vida, sempre aposte no interesse próprio: o que eu ganho com isso?”, apontou.

ESPECIALISTAS DEFENDEM QUE ENERGIA LIMPA GERA RIQUEZA

A ideia de que a energia limpa pode ser um grande negócio não é nova, mas, no atual contexto político, ela se tornou um argumento ainda mais forte.

“Esse é um discurso muito eficiente para convencer os conservadores, porque é verdadeiro”, diz Bob Inglis, ex-deputado republicano pelo estado norte-americano da Carolina do Sul e fundador do grupo RepublicEN.org, que defende políticas climáticas sob uma ótica conservadora. “Se fizermos isso da maneira certa, podemos liderar essa transformação, gerar riqueza e criar empregos.”

Como exemplo, Inglis cita Elon Musk e seu império baseado em carros elétricos, painéis solares e baterias. “Quando pessoas mais à direita percebem que podem lucrar com isso, passam a ver sentido na ideia. Do contrário, entendem que é apenas uma doação”, analisa.

A geração de empregos sempre foi um trunfo para os setores de energia solar, eólica e de veículos elétricos. Mas, agora, a estratégia vai além: o objetivo é transformar o interesse próprio em uma ferramenta de convencimento.

A ONU está apostando nisso. Durante seu discurso no Brasil, Stiell chamou os investimentos em energia limpa de “inevitáveis, dada a enorme oportunidade econômica que representam”.

Nos últimos dias, líderes da indústria de energia solar, da Oceantic Network e de outras organizações intensificaram a pressão sobre o Congresso dos EUA. Em mais de 100 reuniões e cartas enviadas a parlamentares, defenderam a manutenção de incentivos fiscais para garantir que os projetos de energia limpa continuem competitivos no mercado global.

O público-alvo dessa campanha não são políticos progressistas que já defendem ações climáticas. O objetivo é conquistar legisladores que rejeitam a pauta ambiental, mas que podem ser persuadidos pelo impacto econômico.

“Na administração anterior, o foco era mostrar os benefícios ambientais das políticas climáticas”, explica Jessie Stolark, diretora-executiva da Carbon Capture Coalition. “Agora, a ênfase está em energia, economia e empregos.”

Já Lisa Sachs, diretora do Columbia Center on Sustainable Investment, acredita que insistir na narrativa de que a transição energética é apenas uma questão ambiental foi um erro estratégico.

“A clareza com que o setor financeiro e empresarial agora defende a transição energética por razões econômicas é um alívio, depois de anos de discursos ambíguos, greenwashing e confusão”, diz Sachs. “Não é a solução perfeita para a crise climática, porque o setor privado, sozinho, não pode descarbonizar a economia. Mas, no contexto atual, essa é provavelmente a nossa melhor chance de progresso.”

Mesmo que Trump pareça irredutível, seus secretários de energia e do interior podem ser mais receptivos a esse tipo de argumento, avalia Frank Maisano, um veterano das relações públicas em Washington, que já trabalhou com setores que vão do petróleo e gás até energia eólica e baterias.

Para Joanna Depledge, historiadora do clima da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, o discurso da catástrofe climática não tem surtido efeito. “Está mais do que na hora de mudar a abordagem”, conclui.


SOBRE O AUTOR

Seth Borenstein e Alexa St. John, são repórteres da Associated Press.

Nova estratégia: defensores da energia limpa agora falam em lucro e empregos | Fast Company Brasil

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Baixa produtividade explica o atraso brasileiro

País ocupa 78ª lugar em ranking; agenda para avanço inclui educação, infraestrutura, reforma tributária e ajuste fiscal

Editorial Folha – 10.fev.2025 

Há muito tempo o país permanece preso em discussões econômicas conjunturais sobre temas que deveriam estar resolvidos no meio político, como a necessidade de equilíbrio orçamentário para impulsionar o desenvolvimento sustentável.

Enquanto isso, perdem-se de vista o diagnóstico amplo e medidas efetivas a respeito da questão mais essencial para o progresso —como reverter a estagnação da produtividade do trabalho que já perdura por quatro décadas.

Se no início dos anos 1980 a produtividade do trabalhador brasileiro chegou a quase 40% da americana, desde então, e de maneira continuada, foi se ampliando o distanciamento.

Segundo dados da organização de pesquisa Conference Board, em 2024 a produtividade por hora trabalhada no Brasil foi de cerca de US$ 21,44 (numa paridade de poder de compra que evita distorções de movimentos cambiais), o que coloca o país na vexatória 78ª posição e abaixo da média numa amostra de 131 países.

A má colocação brasileira deve-se à combinação de paralisia doméstica com avanço continuado nos países desenvolvidos e em outras regiões, notadamente a Ásia. Mesmo na América do Sul, estão na nossa frente Uruguai (48º lugar), Argentina (56º) e Chile (59º), o que sugere predominância de explicações locais para o fenômeno.

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As causas são muitas e devem ser consideradas no conjunto de suas interações. Uma óbvia, com implicações de longo prazo, é a baixa qualidade da educação básica, além da insuficiente conexão entre centros de pesquisa e o mercado de trabalho.

Outro problema grave é a insuficiência de infraestrutura, que eleva o custo da produção local. O protecionismo excessivo, com altas tarifas de importação, também prejudica a competitividade e dificulta a inserção de empresas brasileiras no mercado mundial.

O sistema tributário também é prejudicial. Com a reforma que criou o imposto sobre valor agregado, ao menos, devem ser minimizados os maus incentivos à estrutura produtiva das empresas, hoje não raro norteadas apenas pelo acesso a benefícios fiscais.

É necessário, ainda, rever os regimes especiais, como o Simples, que levam à atomização de negócios em unidades menores e menos produtivas. O debate sobre esse tema deve superar o populismo e lidar com o fato de que escala e inserção nas cadeias globais são essenciais.

O alto custo de contratação de mão de obra com carteira assinada é outro empecilho, pois incentiva a informalidade.

Por fim, é preciso reorientar as prioridades do Estado, o que depende de um ajuste fiscal e gerencial que permita manter os gastos sociais, aprimorar a qualidade do ensino e expandir aportes em infraestrutura e pesquisa.

Levar a cabo tal agenda demanda alinhamento de lideranças empresariais, sindicais e do setor público, o que ocorre de forma lentíssima devido a resistências setoriais e corporativistas.

Baixa produtividade explica o atraso brasileiro – 10/02/2025 – Opinião – Folha

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Experiência no etanol, agro e matéria-prima colocam Brasil como protagonista em biocombustíveis

País, no entanto, larga atrasado em consolidação de ambiente para produção de combustível sustentável de aviação

Por Luciana Dyniewicz e Beatriz Bulla – Estadão – 29/04/2024

O Parque de Bioenergia Costa Pinto, em Piracicaba, é onde fica instalada a primeira usina de etanol da família Ometto. As primeiras instalações do que viria a se tornar um dos maiores conglomerados de energia do País seguem em funcionamento, agora parte da Raízen, originada na joint venture entre Cosan e Shell. Mas não é por causa do histórico que visitantes de diferentes partes do mundo chegavam diariamente ao local em 2023. O interesse estava nos altos tanques brancos que ficam no fundo da propriedade e armazenam a primeira produção mundial de etanol de segunda geração em escala industrial.

O etanol de primeira geração é produzido a partir do caldo da cana-de-açúcar, enquanto o de segunda geração é produzido a partir do bagaço da cana. “Isso significa produzir 50% a mais de etanol com a mesma área cultivada e um etanol com pegada de carbono 30% menor do que o de primeira geração”, afirma Fabiana Barrocal, diretora de Operações Agroindustriais da Raízen.

A empresa já anunciou que pretende construir 20 usinas de etanol de segunda geração, em um investimento que demandará, ao todo, R$ 24 bilhões – duas delas já estão prontas. Dessas usinas, nove já tiveram a produção dos dez primeiros anos vendidas.

O etanol de segunda geração – ou E2G, como é conhecido – é um dos combustíveis sustentáveis em desenvolvimento ao redor do mundo. Produzido a partir do bagaço que seria descartado na produção de açúcar e de etanol convencional, ele pode ser usado como combustível para carros, no lugar da gasolina e do diesel; de maneira industrial, para produção de plástico, por exemplo; ou para combustível marítimo e de aviação.

O Brasil é um dos países com grande potencial em combustíveis sustentáveis, devido à sua experiência com o etanol, ao desenvolvimento do agronegócio e à oferta de matérias-primas. Segundo a consultoria McKinsey, a demanda por biomassa, matéria orgânica vegetal ou animal capaz de gerar os biocombustíveis, no mundo deve aumentar dez vezes até 2050. No Brasil, esse mercado potencial pode significar quase US$ 40 bilhões (R$ 200 bilhões) até 2040.

“A gente já é visto como um ‘player’ consagrado na área”, diz Amanda Duarte Gondim, coordenadora da Rede Brasileira de Bioquerosene e Hidrocarbonetos Sustentáveis para Aviação (RBQAV).

O que está em pauta agora, explica Gondim, é o uso de biocombustíveis para o transporte marítimo e aéreo, em que a eletrificação (uso de baterias) é mais difícil dado o volume de energia que demandam. Nesses modais, a substituição de tecnologia também costuma ocorrer em intervalos de tempo maiores. Como o mundo não pode esperar 30 anos por aviões que não poluem, é preciso trocar o combustível fóssil por um que emita menos gases poluentes.

Carolina Grassi, do Roundtable on Sustainable Biomaterials (RBS, uma certificadora de combustíveis sustentáveis), vê no Brasil o potencial de se transformar em um líder na oferta de combustível sustentável de aviação (SAF, na sigla em inglês), dada a capacidade do País de produzir matérias-primas e o conhecimento na indústria de biocombustível. O SAF pode ser feito a partir de óleos vegetais e animais, como dendê, milho e soja – daí a oportunidade do Brasil.

Grassi pondera, no entanto, que o custo de fabricação e a falta de capital para investimento, além da sustentabilidade ambiental da produção das matérias-primas, são desafios que o País terá de enfrentar.

Segundo ela, empresas de transporte marítimo também começam a se movimentar para trocar seus combustíveis por outros com menor impacto ambiental. Esse setor, no entanto, não avançou tanto nas discussões como o aéreo. A tendência é que definam uma regulamentação semelhante ao Corsia (programa de redução das emissões elaborado pela Organização da Aviação Civil Internacional). Quando isso estiver definido, o mercado que o Brasil poderá atender com seus combustíveis tende a crescer.

Na planta da Raízen, o E2G surge como uma alternativa para expandir a produção de etanol e com menos emissão de carbono. Neste ano, a empresa fez a primeira exportação de etanol para os Estados Unidos para ser utilizado na produção de SAF.

A Raízen tem a patente da tecnologia do pré-tratamento do bagaço da cana para conversão em etanol de segunda geração. Nas salas de controle, fotos dos computadores onde estão os parâmetros do pré-tratamento não podem ser feitas.

“O pré-tratamento é o diferencial, é quanto conseguimos estabilizar, em escala industrial, antes de entrar no tratamento em si”, explica Fabiana Barrocal. “É o ponto chave desta planta, é o que ninguém consegue fazer”, diz a funcionária. O “pré-tratamento” é a etapa necessária para quebrar as fibras do bagaço da cana e acessar os açúcares que serão convertidos em etanol. O processo é feito de maneira química e em alta temperatura.

Após a colheita mecanizada de cana-de-açúcar, o caldo é usado para o etanol de primeira geração e o que sobra, o bagaço, para o de segunda geração

Pilha de bagaço de cana descartado da produção de etanol de primeira geração usado para extração do E2G

Depois da separação dos açúcares e da fermentação, o etanol de segunda geração vai para o processo de destilação junto ao de primeira geração

Depois da separação dos açúcares e da fermentação, o etanol de segunda geração vai para o processo de destilação junto ao de primeira geração. A molécula dos dois é a mesma, a diferença é a origem.

A planta, nascida em 2015, é mais automatizada do que a usina de etanol de primeira geração. Poucos funcionários circulam entre os tambores e tubos. Cerca de 90% do trabalho no etanol de segunda geração é automatizado e monitorado por câmeras.

A Raízen analisa o mercado de SAF e a possibilidade de produzir o combustível no Brasil. Segundo Paulo Neves, vice-presidente da empresa, a instalação de uma unidade de fabricação no País ainda depende de estudos de viabilidade. “Tem uma questão de escala e outra de competitividade. Os EUA têm uma linha de incentivo muito forte e, se formos ter uma planta aqui, ela precisa ter condições de competir com quem vai produzir lá”, diz o executivo.

Por ora, o projeto da companhia é exportar etanol de segunda geração (E2G) para a Europa, onde ele é submetido a um outro processo para virar SAF.

Inicialmente, a Raízen pretendia vender o E2G como um substituto da gasolina ou do etanol tradicional. Diante da procura das companhias aéreas por combustíveis limpos, passou, então, a focar nesse mercado. Como o E2G é produzido a partir de resíduos da fabricação do etanol tradicional, ele não aumenta a necessidade de cultivo de cana – o que o torna altamente atraente sobretudo na Europa, onde são mal-vistos biocombustíveis cuja produção de matéria-prima disputa espaço com a de alimentos.

“Desenvolvemos o etanol de segunda geração durante uma década e meia. Quatro anos atrás, quando começamos a trabalhar os primeiros acordos comerciais, o mercado principal era o de transporte veicular. A ideia de dar outros usos a eles amadureceu porque as indústrias de navios e aviões têm muita dificuldade de se eletrificar. Esses setores começaram a buscar outras opções de combustível”, acrescenta Neves. Para o executivo, a necessidade de descarbonizar a economia vai elevar tanto a demanda por combustíveis limpos que tanto o etanol tradicional como o de segunda geração terão espaço no mercado.


Atraso

A despeito de figurar como um dos países com maior potencial no setor de biocombustíveis, o Brasil está atrasado no desenvolvimento dos combustíveis renováveis para aviação e navegação. Os Estados Unidos, por exemplo, começaram a liberar grandes volumes de recursos para pesquisas em 2008. Aqui, os primeiros estudos começaram em 2014, mas em menores proporções, diz Gondim.

Hoje, os EUA continuam impulsionando o setor com incentivos financeiros. Em 2022, o Inflation Reduction Act (IRA, na sigla em inglês, um pacote de medidas que inclui créditos fiscais e financiamento para projetos de energia verde) estabeleceu um subsídio de US$ 1,25 por galão (3,8 litros) de SAF quando o combustível reduz em pelos menos 50% a emissão de gases de efeito estufa.

Em todo o mundo, 120 aeroportos já trabalham com SAF, grande parte nos EUA e no norte da Europa. Na Ásia, Cingapura também está à frente.

O Brasil também fica atrás quando se analisa a infraestrutura necessária para produzir o combustível. Nos Estados Unidos, refinarias de petróleo estão sendo transformadas em biorrefinarias para produção de combustíveis como o SAF e biodiesel. O país tem 124 refinarias ativas e cinco paradas – parte delas pode ser convertida.

Como o Brasil tem apenas 18 refinarias, essa estratégia de adaptar as plantas fica mais complicada. O problema é que construí-las a partir do zero leva de cinco a seis anos, enquanto convertê-las pode ser feito em menos de um ano. “O Brasil pode chegar a ser um protagonista global nessa indústria. Mas temos uma data e precisamos correr atrás”, diz Gondim.

O prazo a que ela se refere é 2027, ano em que, no caso do SAF e do setor aéreo, as companhias terão de reduzir suas emissões de gases poluentes em voos internacionais ou compensá-las comprando crédito de carbono. Se optarem por diminuir as emissões – a opção mais barata –, a única saída será o uso de SAF.

“O Brasil pode chegar a ser um protagonista global nessa indústria. Mas temos uma data e precisamos correr atrás”

Amanda Duarte Gondim

Coordenadora RBQAV

Também vice-presidente da Raízen, Paula Kovarsky destaca que, em comparação com os EUA, o Brasil demorou muito para criar uma política que incentive a produção de combustíveis limpos mais avançados, mas reconhece que essa agenda ganhou importância nos últimos seis meses.

“O setor está recebendo uma atenção que nunca recebeu na história e a coisa está acelerando”, afirma o professor Gonçalo Pereira, do Instituto de Biologia da Unicamp.

Ele faz parte da condução de um programa que testa o agave como fonte de biomassa para produção de etanol. A vantagem é que a planta consegue se desenvolver no sertão nordestino. A Shell investiu R$ 100 milhões na pesquisa, que leva o nome de Brave (Brazilian Agave Ethanol). No segundo semestre, o pesquisador estima ter as primeiras colheitas capazes de alimentar plantas piloto para produção de etanol.

Pereira também cita como história promissora o investimento do Mubadala, o fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos, na Acelen, para a construção de uma planta de diesel verde (HVO) e SAF na Bahia.

“De dezembro para cá, a coisa evoluiu incrivelmente. Essas decisões da indústria automobilística, de priorizar o híbrido flex, são muito recentes. Na hora que tem demanda, a oferta vai”, afirma Pereira.

Experiência no etanol, agro e matéria-prima colocam Brasil como protagonista em biocombustíveis – Estadão

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Após espalhar trem-bala, China busca agora ‘trem voador’ de 1.000 km/h

Acumulando inovações e testes, país prepara modelo que poderá concorrer com aviões comerciais na próxima década

Nelson de Sá – Folha – 8.fev.2025 

Pequim

A tecnologia maglev, de levitação magnética, tem mais de um século. Dezenas de iniciativas comerciais foram lançadas e abandonadas desde então, da Europa à Ásia. A mais bem-sucedida e persistente, uma linha entre o centro de Xangai e o aeroporto de Pudong, completou 20 anos em 2024, porém sua ampliação até Hangzhou veio sendo adiada pelo avanço do trem-bala.

As pesquisas não pararam, desenvolvendo e integrando duas outras tecnologias-chave para viabilizar o que Wang Peng, da Academia de Ciências Sociais de Pequim, chama de “trem de ultra-alta velocidade” —e vem sendo popularizado como “trem voador”. Outro nome é “hyperloop”, lançado por Elon Musk num estudo da Tesla em 2013, para um trem semelhante, hoje abandonado.

Os testes realizados com o “trem voador” ao longo do ano passado pelos engenheiros da Casic (Corporação de Ciência e Indústria Aeroespacial da China) “causaram sensação em escala global por causa das inovações”, segundo Wang —destacando que seus direitos de propriedade intelectual estão vinculados ao país.

São duas: a tecnologia supercondutora de alta temperatura, não baixa como buscada até então, e a tecnologia de tubulação a quase vácuo.

Após o teste mais recente, num túnel de dois quilômetros completado no final de 2023 em Datong, na província de Shanxi, a Casic evitou divulgar a velocidade atingida. Anunciou apenas que havia superado os 623 km/h de fevereiro passado e que tem capacidade para 1.000 km/h, equivalente ou pouco acima da velocidade na aviação comercial.

A estatal acrescentou que, com o tempo, ele pode chegar a 4.000 km/h. “Imagine viajar do Rio de Janeiro a Salvador em meia hora!”, escreveu a conta de Instagram da Embaixada da China no Brasil, no final do ano.

Em parte pela trajetória de altos e baixos da tecnologia maglev, há dúvidas quanto ao prazo para o projeto da Casic sair dos testes. O especialista David Feng, que acompanhou a ascensão ferroviária da China nas últimas décadas, prevê a entrada em operação comercial só daqui a dez anos e com velocidade limitada.

“Ainda está em estágio muito, muito inicial”, diz ele. Mas salienta que o projeto levará adiante uma “revolução urgentemente necessária nesta era de crise climática: se você pode chegar lá de trem, acabam-se os voos poluidores”.

O engenheiro brasileiro Daniel Xie, diretor de uma empresa criada em Zhongguancun, o distrito tecnológico de Pequim, também avalia que, “na prática, por custo e segurança, haverá limite na velocidade”, como aconteceu com o trem-bala.

Diz já ter ouvido fontes oficiais falando em lançamento comercial em 2035 e 2037 —e, anteriormente, até mesmo em 2025. “Mas tudo com termos como planejamento, possibilidade, então, nada concreto”, diz.

“Não vai virar operação tão rápido, até pelo ponto de vista de engenharia e custo. É muito difícil colocar em prática, por ser um trem em movimento quase no vácuo. E a manutenção, custo de passagem, segurança, questões geológicas. É super desafiador.”

Também duvida do impacto sobre a aviação comercial. “Não acredito que vá afetar”, diz. “Pelo grande investimento em infraestrutura e manutenção e pela dificuldade de engenharia, é para interligar as cidades grandes da China, formando o que eles chamam de círculo de economia de uma hora”, referência ao tempo de transporte.  

Se os vagões estão muito cheios, o sistema aumenta o tempo em que as portas ficam abertas para os passageiros entrarem e saírem 

Danilo Verpa – 9.nov.23/Folhapress

O Conselho de Estado, equivalente ao ministério na China, e o Comitê Central do Partido Comunista aprovaram em setembro de 2019 o “Esboço para a Construção de uma Potência de Transporte”, que passou a fortalecer a pesquisa em eventuais tecnologias disruptivas no setor.

Investiu desde então não só no desenvolvimento da “ferrovia de ultra-alta velocidade em tubo de baixo vácuo”, para 1.000 km/h, como em levar o trem-bala atual a uma velocidade de 400 km/h. Também voltou a insistir na tecnologia maglev tradicional, para alcançar 600 km/h.

O trem-bala mais veloz é que o está mais avançado. Foram apresentados em dezembro os protótipos do CR450, que alcançam 450 km/h, mas devem ter velocidade operacional restrita a 400 km/h. “Este será o novo carro-chefe”, diz Feng. “Seus novos recursos são incríveis. Espero embarcar no primeiro, se puder.”

China busca agora ‘trem voador’ de 1.000 km/h – 08/02/2025 – Mercado – Folha

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‘Provocando caos’: EUA suspendem programa de carregadores de carros elétricos

Governo Trump põe em risco US$ 5 bilhões destinados à construção de estações de recarga em rodovias

Shannon Osaka/Jake Spring – Folha/The Washington Post – 8.fev.2025 

Os estados que tentam construir uma rede de carregadores de veículos elétricos estão em choque após o governo Trump ordenar abruptamente a suspensão de um programa de US$ 5 bilhões para construir carregadores em rodovias em todo o país.

Em um memorando divulgado na quinta-feira (6), a Federal Highway Administration (FHWA, Administração Federal de Rodovias) ordenou que os estados interrompessem o programa National Electric Vehicle Infrastructure (NEVI), que o presidente Donald Trump citou como um exemplo do “Green New Deal”.

Até agora, os estados estão divididos, com alguns pausando seus programas e pelo menos um planejando continuar a cumprir contratos existentes.

A carta informa os diretores de transporte dos estados —que são responsáveis por administrar o programa— que quaisquer planos aprovados pelo governo Biden estão agora suspensos até que o Departamento de Transporte forneça novas diretrizes no segundo trimestre.

“Com efeito imediato, nenhuma nova obrigação pode ocorrer sob o Programa de Fórmula NEVI”, diz a carta.

A ordem, que chega enquanto muitos estados ainda estão trabalhando para construir seus carregadores públicos apoiados por US$ 5 bilhões em subsídios, pode representar um grande golpe para uma indústria que tem experimentado vendas mais lentas do que o esperado e pode perder incentivos fiscais federais críticos nos próximos meses.

Na quarta-feira (5), a Ford projetou que poderia perder até US$ 5,5 bilhões neste ano em seu negócio de veículos elétricos e software.

Apenas 55 estações de carregamento foram construídas até agora, de acordo com dados da empresa de análise Paren.

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Funcionários da Agência de Transporte de Vermont disseram nesta sexta que suspenderão seu programa, tendo construído apenas uma estação de carregamento com quatro carregadores financiados pelo NEVI por cerca de US$ 700 mil.

O estado já havia concedido 11 projetos para mais 60 pontos de carregamento adicionais, mas todos serão suspensos, disse Patrick Murphy, diretor de políticas estaduais da agência. Mais de US$ 20 milhões em financiamento do NEVI prometidos ao estado estão agora em risco, ele disse.

“As pessoas realmente sentem que precisam ter uma infraestrutura de carregamento melhor antes de dar o passo de comprar ou alugar um veículo elétrico”, disse Murphy. “Isso não tem nada a ver com promover uma verdadeira escolha do consumidor. Isso limitará ativamente a escolha.”

A Pensilvânia, por sua vez, ainda não mudou de rumo em sua implantação de carregadores de veículos elétricos. Uma pessoa com conhecimento do programa estadual da Pensilvânia, que falou sob condição de anonimato devido à sensibilidade do assunto, disse que não houve comunicações com o governo federal e que planejam continuar entregando projetos de carregamento que já foram concedidos até que sejam informados do contrário. Mas o estado não oferecerá novas solicitações para construir mais estações, acrescentou esse interlocutor.

“Não acredito que a FHWA tenha autoridade para fazer isso”, disse Loren McDonald, analista-chefe da empresa e especialista no programa de carregamento, em um e-mail.

O memorando foi divulgado pela primeira vez pelo site InsideEVs.

O programa, que o Congresso aprovou sob a lei de infraestrutura bipartidária, foi destinado a ajudar a preencher lacunas na rede de carregamento de veículos elétricos do país e aumentar a confiança do consumidor para comprar veículos elétricos. A lei também forneceu outros US$ 2,5 bilhões para carregadores em comunidades e bairros.

Os estados tiveram que enviar planos ao Departamento de Transporte sobre como usariam os fundos; uma vez que seus planos fossem aprovados, poderiam começar a construir as estações. Até o momento, aproximadamente US$ 3,3 bilhões foram alocados para os estados, de acordo com a Paren.

Mas o novo memorando coloca esse financiamento em risco. Mesmo os estados que têm planos aprovados não têm o dinheiro em mãos —como parte do programa, eles enviam faturas ao governo federal após atingir marcos importantes.

“Os estados não recebem o dinheiro que foi destinado a eles até que enviem uma fatura para a FHWA”, disse McDonald.

De acordo com o memorando, os estados continuarão a receber “reembolso de obrigações existentes”. Especialistas disseram que isso indica que os estados que já têm um contrato com uma empresa de carregamento poderão cumpri-lo –mas quaisquer contratos inacabados provavelmente serão suspensos.

Trump há muito critica o que ele chama de “obrigatoriedade” de veículos elétricos, e criticou as tentativas do governo Biden de criar programas para impulsionar as vendas de veículos elétricos.

Em uma ordem executiva no primeiro dia de sua presidência, Trump ordenou que o governo federal encerrasse o “Green New Deal”, “incluindo, mas não se limitando a fundos para estações de carregamento de veículos elétricos”. Subsídios para estações de carregamento foram o único programa específico de energia limpa mencionado na ordem executiva.

O presidente continuou a mirar nos veículos elétricos, mesmo enquanto mantém uma aliança próxima com Elon Musk, CEO da Tesla.

A Tesla tem sido um importante destinatário de subsídios para carregadores, e possui a maior rede de carregadores rápidos do país. Mas Musk já disse anteriormente que cortes nos benefícios para veículos elétricos, como o crédito fiscal de US$ 7.500, serão mais dolorosos para as montadoras rivais da empresa do que para a Tesla, mesmo que sua empresa possa sofrer a curto prazo.

Alguns estados, incluindo Rhode Island, Missouri, Alabama e Oklahoma, já haviam confirmado publicamente que estavam pausando seus programas de carregadores de veículos elétricos antes do memorando ser divulgado.

Barbara LaBoe, diretora adjunta de comunicações do Departamento de Transporte do Estado de Washington, disse que a nova ordem afeta a maior parte dos US$ 102 milhões que o estado havia sido prometido para carregadores de veículos elétricos.

“Ainda estamos buscando mais informações sobre todos os detalhes dessa suspensão”, disse ela em um email.

O estado não tem faturas pendentes com o governo federal, ela acrescentou. “Devido à incerteza do financiamento, evitamos tomar qualquer decisão sobre concessões de projetos neste momento”, disse.

Ryan Gallentine, diretor administrativo da Advanced Energy United, disse que os estados “não são obrigados a parar esses projetos com base apenas neste anúncio”.

“Conclamamos os diretores estaduais e administradores de programas a continuar executando este programa até que novas orientações sejam finalizadas”, acrescentou Gallentine.

Menos carregadores podem afetar o apetite do consumidor para comprar veículos elétricos a longo prazo, disse Gil Tal, diretor do Centro de Pesquisa de Veículos Elétricos da Universidade da Califórnia em Davis.

Mas o governo Trump já deu um golpe mais imediato no mercado de veículos elétricos, acrescentou —ao mover-se para reverter regras sobre emissões de carros que teriam efetivamente exigido que as montadoras fabricassem mais carros elétricos.

Alguns disseram acreditar que a ação do governo Trump pode provocar ações legais. “Estou partindo do pressuposto que os processos dos estados começarão em breve, e isso irá para o tribunal e para o Congresso”, disse McDonald. “Mas a administração Trump terá sucesso provocando caos e desacelerando as coisas por um tempo.”

EUA suspendem programa de carregadores de elétricos – 08/02/2025 – Mercado – Folha

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