Estamos entrando em uma nova era dos contadores de histórias: quando o meio fala por si
ASHLEIGH VOGSTAD – Fast Company Brasil – 12-07-2025
No início dos anos 2000, meu primeiro emprego foi no Cactus Club Café, um restaurante nascido em Vancouver, no Canadá, onde a cultura pop encontrava a arte pop. As paredes exibiam reproduções de Andy Warhol – latas de sopa Campbell’s em serigrafia vibrante, retratos neon de Marilyn Monroe e críticas sociais camufladas em imagens icônicas.
Hoje, olhando para trás, fica claro: Warhol não estava apenas fazendo arte. Estava antecipando a era da mídia sintética.
Com sua técnica de serigrafia industrial, ele produzia imagens em escala e desafiava a própria noção de originalidade. Diluía as fronteiras entre criador e máquina, arte e publicidade. E, mesmo com um processo mecanizado, sua obra ainda tocava o emocional – prova de que, na repetição, algo humano sobrevive.
De certa forma, Warhol antecipou o momento atual: uma era na qual a narrativa está sendo redefinida não mais pela tinta ou pela impressão, mas por linhas de código.
A NOVA VOZ É ARTIFICIAL
As ferramentas que usamos para contar histórias mudaram. E, com elas, a definição de quem é um contador de histórias. Se, em 1964, Marshall McLuhan dizia que “o meio é a mensagem”, em 2025, o meio é a inteligência artificial.
Para Jensen Huang, CEO da Nvidia, IA é “a automação da automação – um software que cria software”. Já o historiador Yuval Harari vai além: ele alerta que a IA está escrevendo narrativas, moldando crenças – e não apenas analisando dados.
ROSTOS GERADOS POR IA FORAM AVALIADOS COMO MAIS CONFIÁVEIS DO QUE ROSTOS REAIS.
Motores de recomendação se tornaram sacerdotes digitais, decidindo quais histórias escutamos. Quer isso inspire ou assuste, uma coisa é certa: a IA não é só uma ferramenta. É narradora. E narradores sempre foram seguidos.
Ferramentas como o ChatGPT ou o Sora começaram como substitutos limitados da criatividade humana. Mas isso ficou no passado. A IA narrativa de hoje emociona, surpreende – e convence.
ENTRE A MÍDIA SINTÉTICA E O CONTEÚDO “REAL”
Quando nos deparamos com alguma mídia sintética – como vídeos deepfake ou imagens geradas por IA –, o cérebro usa um mecanismo chamado codificação preditiva para identificar inconsistências sutis. É esse circuito que nos ajuda a distinguir o real do artificial. Mas… até quando?
Um estudo recente revelou que rostos gerados por IA foram avaliados como mais confiáveis do que rostos reais. E mesmo assim, algo parece “estranho”. Nossa intuição ainda nos alerta quando algo não é genuinamente humano.
A publicidade já testa esses limites. O comercial de fim de ano da Coca-Cola, feito por IA, buscava homenagear a campanha clássica de 1995, mas foi criticado por parecer “sem alma”.
Já a Land Rover combinou IA e filmagem real em uma peça para o modelo Defender, mostrando o potencial da mídia sintética – e também os dilemas da criatividade híbrida.
Ao mesmo tempo, projetos como o Woebot e o LovingAI mostram que conseguimos nos conectar emocionalmente com máquinas, desde que elas acertem no tom. Em muitos testes, respostas geradas por IA em contextos de terapia foram classificadas como mais eficazes do que as de humanos.
A INTERNET ESTÁ VIVA… COM BOTS
Você já ouviu falar da teoria de que a internet está morta? A ideia é simples: a maior parte do que consumimos online não é mais feita por humanos. E isso já não é mais apenas uma teoria.
Bots geram mais de 50% do tráfego relacionado a conteúdo
Um terço do tráfego global vem de bots maliciosos
Alguns especialistas preveem que 99,9% de todo conteúdo será gerado por IA até 2030
A inteligência artificial não está apenas mudando o consumo – ela está mudando o ato de criar.
CRIATIVIDADE HÍBRIDA: O FUTURO É COLABORATIVO
Millennials e GenZs, que hoje representam 71% dos compradores B2B, não querem um pitch. Eles querem uma história que descubram sozinhos, algo com toque humano, imperfeito, autêntico. Quase 40% deles estão dispostos a gastar mais de US$ 500 mil sem sequer falar com um vendedor.
A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL ESTÁ MUDANDO O ATO DE CRIAR.
Entramos na era da criatividade híbrida. As máquinas não vão substituir os humanos, mas quem souber usá-las estrategicamente substituirá quem não souber.
Assim como Warhol nos forçou a repensar o que é autenticidade, precisaremos rever nossos conceitos de autoria. O mercado de mídia sintética deve atingir US$ 16,6 bilhões até 2033, crescendo 14% ao ano. A transformação não está por vir, ela já chegou.
A pergunta real é: como você vai liderar, se conectar e criar em um mundo onde o meio agora responde à mensagem?
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O importante é o que fazemos com a inteligência que nos resta
Becky S. Korich– Folha – 6.jul.2025
Advogada, escritora e dramaturga, é autora de ‘Caos e Amor’
A inteligência artificial nos torna estúpidos? Uma pesquisa recente do MIT diz que sim. Intitulado “Seu Cérebro no ChatGPT“, o estudo concluiu que, embora a IA torne as tarefas mais fáceis, os efeitos colaterais podem ser devastadores para nossa autonomia cognitiva.
Durante quatro meses, 54 adultos foram divididos em três grupos para escrever uma série de ensaios. O primeiro usou o ChatGPT. O segundo, o Google. O terceiro, o bom e velho cérebro analógico. Para monitorar a atividade cerebral, os pesquisadores acompanharam, por eletroencefalograma, o funcionamento de 32 regiões do cérebro enquanto cada participante escrevia.
O resultado foi desconfortavelmente previsível. Os usuários do ChatGPT apresentaram o menor engajamento neural e o pior desempenho nos níveis linguístico, comportamental e cognitivo. Resumo: foram os que menos usaram o cérebro. Para piorar, o declínio intensificou-se com o tempo. Tornaram-se mais passivos, mais dependentes e mentalmente letárgicos.
Os usuários do ChatGPT apresentaram o menor engajamento neural e o pior desempenho nos níveis linguístico, comportamental e cognitivo na pesquisa do MIT
O estudo foi recebido de forma apocalíptica. Reacendeu o velho temor de que a tecnologia esteja roubando aquilo que restava da consciência crítica. Mais relevante do que perguntar se a IA nos emburrece é pensar no que temos feito com a inteligência que ainda nos resta.
Se depender desse estudo, a era da estupidez talvez ainda não tenha chegado. Ao menos não se comparada ao grau de estupidez que somos capazes de alcançar naturalmente.
Lembremos quando as calculadoras surgiram. Elas nos deixaram mais burros? Depende. Quem usa para calcular 7 x 8, provavelmente. Se for para dedicar os esforços cognitivos para tarefas mais complexas, eu diria que não. Fazer divisões longas não é exatamente uma demonstração de produtividade mental.
O cálculo mais importante a ser feito não é técnico, mas existencial: o quanto a conveniência pode nos alienar. Esse cálculo nenhuma máquina pode fazer por nós —a IA não é pensamento artificial.
Pensar exige energia. Se existe uma tecnologia que nos poupa de tarefas mecânicas e libera espaço mental para elaborar melhor o pensamento, deveríamos agradecer, não demonizar. O problema é que nem sempre usamos esse espaço para colocar o cérebro para trabalhar. O essencial, no fim das contas, é o que fazemos com o tempo e a energia que a IA nos devolve.
O estudo do MIT ignora essa nuance. Foca no que foi economizado, sem considerar o que poderia ser feito com essa economia. Se uma tarefa exige menos esforço, é evidente que a carga cognitiva diminui. Foi isso que os autores registraram. Ponto.
Reduzir o uso da IA a uma erosão do esforço é ignorar sua potência, que pode ser criativa ou destrutiva. Um bom escritor com IA não vai deixar de ser brilhante. Um mau escritor com IA apenas se torna mais prolífico em sua mediocridade. Se a IA nos poupar algumas horas de trabalho mental árduo em nossas rotinas diárias, será uma bênção, não uma maldição.
Estamos diante de um divisor de águas. Talvez a maior revolução que nossa geração já viveu. A IA mudou a nossa forma de pensar, de nos relacionar e, em alguns casos, até como sentimos. O que ela nos oferece (pelo menos até aqui), não é necessariamente um rebaixamento intelectual, mas uma escolha.
O ChatGPT tem o que nós não temos. E nós, o que ele não tem. Inteligente que é, sabe nos usar com eficiência. A diferença está em como vamos usá-lo. A depender da resposta, os inteligentes ficam mais inteligentes. E os tolos, apenas mais eficientes em sua tolice.
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O Brasil detém um dos maiores estoques de capital natural do planeta, condição necessária para a competitividade de países e empresas na nova economia global
Por Jorge Arbache – Valor – 10/07/2025
É professor de economia da Universidade de Brasília e foi vice-presidente de Setor Privado do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF)
O capital natural se tornou o novo ouro. Em um cenário marcado por crise climática, insegurança alimentar e disputas geopolíticas por recursos estratégicos, água, florestas, terras férteis, minerais críticos, biodiversidade e energia renovável passam a ocupar o centro das decisões econômicas, industriais e diplomáticas. O valor desses ativos vai além da sua importância ecológica: eles são, agora, condição necessária para a competitividade de países e empresas na nova economia global.
Nesse contexto, o Brasil desponta como um dos territórios mais promissores do planeta. Com abundância de água doce, vastos biomas e florestas tropicais, terras aráveis, matriz elétrica limpa, ricas províncias minerais e uma biodiversidade única, o país detém um dos maiores estoques de capital natural do planeta. Trata-se de uma vantagem comparativa que pode ser convertida em vantagem competitiva, desde que o país desenvolva os instrumentos adequados para transformar esse capital em um ativo estratégico.
O potencial brasileiro é imenso e o país pode contribuir de forma decisiva para enfrentar três das maiores urgências globais: a segurança alimentar, a segurança energética e a crise ambiental.
Na segurança alimentar, o Brasil já é um dos maiores produtores e exportadores globais de alimentos. Mas pode ir além. Há espaço para expandir a produção de forma sustentável por meio de ganhos de produtividade, uso de áreas degradadas e sistemas de produção intensiva com até três safras anuais. A combinação entre agricultura regenerativa, inovação tecnológica e gestão eficiente do solo e da água torna o Brasil capaz de aumentar a oferta global de alimentos de forma compatível com os limites ambientais.
Na segurança energética, o país é igualmente estratégico. Com mais de 90% de sua matriz elétrica composta por fontes renováveis, o Brasil é uma das exceções no cenário internacional. E esse diferencial pode ser monetizado por meio do powershoring: a atração de indústrias eletrointensivas que buscam reduzir emissões e garantir acesso estável e barato à energia limpa. O Brasil tem todas as condições para se tornar um polo global de produção de aço verde, hidrogênio de baixo carbono, fertilizantes, produtos químicos sustentáveis, celulose e outros bens intensivos em energia renovável. O país também pode ter papel central na transição para um transporte internacional mais limpo por meio da exportação de biocombustíveis de baixo carbono.
No eixo ambiental, a contribuição brasileira pode ser ainda mais singular. Os biomas nacionais prestam serviços ecossistêmicos cruciais à estabilidade do planeta: regulação do ciclo hidrológico, sequestro de carbono, conservação da biodiversidade, proteção de polinizadores e controle de doenças, entre outros. A floresta amazônica, por exemplo, tem um papel-chave na manutenção do equilíbrio climático global. O Brasil também tem potencial para liderar a bioeconomia tropical baseada em ativos biológicos e conhecimento tradicional.
Apesar desse cenário promissor, o Brasil ainda está longe de converter o seu capital natural em ativo estratégico. A ausência de políticas públicas robustas, marcos regulatórios adequados, mecanismos de financiamento verde e integração plena aos mercados internacionais limita o aproveitamento desse potencial.
Para que o país possa transformar o seu capital natural no novo ouro da economia do século XXI, são necessárias ações concretas em seis frentes estratégicas. Primeiro, é preciso remover barreiras tarifárias e não tarifárias que dificultam a exportação de produtos sustentáveis. Subsídios distorcivos e exigências técnicas excessivas e oportunísticas aplicadas por países desenvolvidos comprometem a competitividade do país. É fundamental negociar acordos comerciais que reconheçam e valorizem práticas sustentáveis, permitindo que o comércio verde funcione com equidade e previsibilidade.
Segundo, é preciso estruturar corredores de comércio verde que conectem áreas produtoras de bens e serviços sustentáveis a mercados consumidores. Esses corredores devem incluir acordos, infraestrutura eficiente, interoperabilidade regulatória, certificações ambientais, padrões, taxonomia, rastreabilidade e mecanismos de remuneração por serviços ambientais e climáticos.
Terceiro, a transição verde exige tecnologias de ponta para monitoramento ambiental, agricultura de precisão, bioeconomia, gestão de carbono, entre outros. Muitas dessas tecnologias ainda são desenvolvidas sob regimes de propriedade intelectual restritiva. O Brasil precisa ampliar o acesso a essas inovações por meio de cooperação internacional, alianças tecnológicas e investimentos robustos em pesquisa e desenvolvimento nacional.
Quarto, um dos principais obstáculos à alocação de capital privado em projetos verdes no Brasil é o risco percebido, seja regulatório, jurídico, cambial ou climático. É essencial implementar mecanismos de derisking, como garantias, fundos de infraestrutura verde, instrumentos de blended finance e seguros climáticos, para atrair e escalar o investimento privado.
Quinto, o capital natural precisa ser reconhecido como uma classe de ativos com valor econômico mensurável. Isso requer métricas consistentes, precificação de serviços ecossistêmicos, regulamentação clara dos mercados de carbono e mecanismos que permitam utilizar ativos ambientais como colaterais em operações financeiras e contratos de longo prazo.
Sexto, a consolidação do Brasil como destino de cadeias industriais limpas exige apoio internacional. Organismos multilaterais, bancos de desenvolvimento, fundos soberanos e países parceiros devem ajudar a reduzir barreiras e estimular investimentos produtivos de baixo carbono no país.
Se bem implementado, esse conjunto de medidas permitirá ao Brasil se posicionar como um dos protagonistas da nova economia verde. Importante notar que o Brasil não parte do zero. O país já conta com um parque de ciência e tecnologia agrícola avançado, empresas líderes em diversos setores, Estados e municípios engajados com agendas ambientais e políticas públicas, como o Plano de Transformação Ecológica, o Fundo Clima e a regulamentação do mercado de carbono, ora em discussão no Congresso. Ainda assim, é preciso ir além. Transformar o capital natural brasileiro em um motor de desenvolvimento sustentável, inclusão e geração de valor requer visão estratégica, coordenação interinstitucional e um pacto nacional de longo prazo.
O Brasil pode ser mais do que o celeiro do mundo ou o pulmão do planeta. Com a valorização crescente do capital natural, o país pode liderar uma nova lógica de desenvolvimento baseada em baixo carbono, tecnologia, circularidade, agregação de valor e soberania ambiental. O novo ouro está nas mãos do país. Cabe, agora, decidir se vai usá-lo com inteligência ou deixá-lo enterrado no solo fértil das oportunidades perdidas.
Jorge Arbache é professor de economia da Universidade de Brasília e escreve mensalmente às quintas feiras neste espaço
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O jogo da IA não acontece apenas na camada visível. Ele acontece, principalmente, em tudo o que permite que essa camada exista
GUIDO SARTI – Fast Company Brasil – 05-06-2025
No AI Ascent, evento fechado promovido pela Sequoia Capital no início de maio em São Francisco, nos EUA, consolidou-se uma tese clara: a nova fronteira tecnológica está na camada de aplicação. Executivos, investidores e especialistas reuniram-se para discutir o que muitos consideram inevitável: a era dos agentes de IA começou.
O evento – que contou com nomes como Sam Altman, da OpenAI, Jensen Huang e Jim Fan, da Nvidia, e Jeff Dean, do Google – destacou o avanço dos assistentes digitais capazes de executar tarefas complexas como a próxima grande onda de inovação.
Demonstrações de agentes que reservam viagens, gerenciam calendários e até negociam contratos empolgaram investidores ávidos pela próxima grande aposta.
E faz todo sentido. Agentes são, sim, uma disrupção relevante. A promessa de delegar tarefas a assistentes ultra competentes ressoa com o sonho de produtividade que a humanidade persegue desde a Revolução Industrial. Multiplicar nossa capacidade sem multiplicar nosso tempo é uma ideia poderosa.
Mas a história da tecnologia é implacável. O valor mais duradouro quase sempre fica com quem controla a infraestrutura de IA subjacente.
Foi assim na era da Lei de Moore, que impulsionou décadas de avanço exponencial em software, enquanto fabricantes de chips acumulavam fortunas fornecendo o hardware que tornava tudo possível. E é assim agora, na corrida por chips especializados, data centers e energia que sustentam essa revolução.
TUDO DEPENDE DA INFRAESTRUTURA DE IA
É razoável supor que, além dos palcos do AI Ascent, discussões mais pragmáticas tenham ocorrido. Conversas sobre os verdadeiros gargalos: capacidade computacional, eficiência energética e acesso a recursos escassos.
Enquanto startups de agentes disputam a atenção do mercado, os gigantes da infraestrutura seguem ampliando silenciosamente sua capacidade, cientes de que cada nova aplicação depende fundamentalmente deles.
Seu valor de mercado superou, ainda que de forma pontual, a marca de US$ 3 trilhões. Não porque vende produtos finais aos consumidores, mas porque fornece as pás e picaretas da corrida do ouro da inteligência artificial.
Ou para a Oracle, que discretamente se posicionou como protagonista na infraestrutura que sustenta essa nova era. Sob a liderança de Larry Ellison, a empresa se tornou parceira estratégica para armazenamento e processamento de dados em larga escala.
Enquanto o mercado se deslumbra com os grandes modelos de linguagem, a Oracle expande sua rede de data centers otimizados para IA, sabendo que cada token processado precisa, antes de tudo, de espaço físico, energia e capacidade computacional.
COMPONENTES, ENERGIA, REDES: A AMEAÇA DA ESCASSEZ
Uma verdade que pairou nas entrelinhas do AI Ascent é que a escassez de infraestrutura já limita a inovação. Startups enfrentam filas para acessar GPUs. Modelos cada vez mais complexos demandam investimentos crescentes em hardware. E o consumo energético dos data centers cresce rapidamente, criando novas pressões e desafios.
O VALOR MAIS DURADOURO QUASE SEMPRE FICA COM QUEM CONTROLA A INFRAESTRUTURA SUBJACENTE.
Enquanto o mercado se deslumbra com os agentes, fascinado pela camada de aplicação, quem olha para infraestrutura está, na prática, focando no alicerce que sustenta tudo isso. E a história sugere que, quando a poeira baixar, serão esses players que ocuparão as posições mais defensáveis.
O jogo da IA não acontece apenas na camada visível. Ele acontece, sobretudo, em tudo que permite essa camada existir: nos chips, nos data centers, nas redes e na energia. Quem controla esses recursos fundamentais está, silenciosamente, construindo os impérios que definirão a próxima década.
Enquanto o AI Ascent celebrava os avanços na camada de aplicação e o potencial dos agentes autônomos, vale refletir. Os verdadeiros arquitetos do futuro podem ser aqueles que mantêm os pés firmemente no chão, construindo as fundações sem as quais nenhum sonho tecnológico pode se sustentar.
SOBRE O AUTOR
Guido Sarti é sócio da Galeria Ag e atua como professor coordenador na Miami AdSchool. Foi Head de Novos Negócios e Convergência na Globo, onde desempenhou um papel significativo em mais de 10 squads durante a fusão da empresa. Pode liderar equipes de dados em mais de 20 países e foi membro do conselho superior do CENP.
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Apesar de sua habilidade, país não consegue solucionar fragilidades em dezenas de pontos tidos como pilares imprescindíveis da manufatura moderna
Por Edward White e Harry Dempsey — Valor/Financial Times – 08/07/2025
No início dos anos 50, quando o Partido Comunista se propôs a reconstruir uma China devastada por anos de guerra, Mao Tsé-tung, o herói revolucionário e presidente do partido, fez uma avaliação muito franca sobre o estado desalentador da indústria nacional: “Podemos fazer mesas e cadeiras, xícaras e bules… Mas não podemos produzir um único automóvel, avião, tanque ou trator.”
Em pouco tempo, a Fábrica de Tratores Nº 1 e uma fábrica de rolamentos adjacente foram estabelecidas em Luoyang, uma cidade muito antiga da Província de Henan, na região central do país. Esse era um dos 156 projetos industriais previstos no Primeiro Plano Quinquenal do partido, de acordo com Karina Khasnulina, da Universidade de Leipzig. Apenas uns poucos anos depois, em 1958, o primeiro trator de manufatura chinesa, batizado de Dongfang Hong – “O Oriente é Vermelho” – saía da linha de montagem.
Passados 70 anos, a China hoje é uma potência mundial, a segunda maior economia do mundo e uma das duas verdadeiras superpotências militares. E ainda assim, como seus líderes em Pequim têm plena consciência, o país não conseguiu superar dezenas de “gargalos” industriais.
De um ponto de vista ocidental, a boa notícia é que, em última análise, esses gargalos têm dificultado o esforço da China para alcançar a independência e a deixam vulnerável à pressão dos EUA em uma época de guerras comerciais e controles de exportação.
Esses obstáculos incluem não só os chips de computador de ponta, como também uma série de componentes e materiais obscuros que são pilares imprescindíveis da manufatura moderna.
A má notícia, ao menos para o Ocidente e suas empresas, é que a China está resolvendo esses problemas de maneira metódica e sistemática e tem usado ferramentas como a inteligência artificial para avançar de maneira mais rápida.
As principais empresas europeias, japonesas e americanas, que costumavam estar protegidas da concorrência da China por causa dos problemas de qualidade e de produção inconsistente das fábricas chinesas, hoje estão em alerta máximo.
“O que nos deveria fazer parar para pensar é que a dinâmica da dependência tecnológica da China em relação ao Ocidente está mudando muito rápido”, diz Elisa Hörhager, representante-chefe na China da Bundesverband der Deutschen Industrie (BDI), a federação representativa dos interesses das indústrias alemãs na China.
“Muitas empresas estrangeiras ainda têm uma clara vantagem quando se trata de produtos industriais de grande qualidade, graças à sua reputação em termos de precisão e excelência em engenharia. Mas as concorrentes chinesas caminham rápido para alcançá-las.”
Vários gargalos, como a manufatura de semicondutores avançados, ainda estão a anos, se não a décadas, de serem superados, mas outros parecem estar perto de uma solução. Entre eles, produtos como fibra de carbono usada na aviação e rolamentos.
No mês passado, o presidente da China, Xi Jinping, escolheu as instalações da encarnação atual da fábrica da era Mao em Luoyang, hoje operada pelo estatal Luoyang Bearing Group, para lançar um chamamento à China para resolver todos os eventuais gargalos que ainda restam.
A visita do líder mais poderoso da China desde Mao a Luoyang foi tanto simbólica como oportuna.
Sucessivos presidentes americanos têm expandido de forma contínua os controles de exportação para restringir o acesso a tecnologias de ponta, temerosos de que o poderio tecnológico da China beneficie as forças armadas do país e ameace a segurança nacional dos EUA.
Para Kyle Chan, pesquisador especializado em política industrial chinesa da Universidade de Princeton, esses controles – ou a ameaça de impô-los – levaram Pequim a investir mais recursos na mitigação de suas vulnerabilidades do que faria se a situação fosse diferente.
A motivação para Xi buscar a autossuficiência industrial da China só se intensificou desde que o presidente Donald Trump voltou à Casa Branca e deu início a uma guerra comercial mundial que ameaça acelerar o desacoplamento das duas maiores economias do mundo.
“Desde a nossa velha dependência de fósforos, sabão e ferro importados para nos tornarmos hoje o maior país manufatureiro do mundo, com o leque mais completo de categorias industriais, temos seguido o caminho certo”, disse Xi a engenheiros e técnicos de rolamentos em Luoyang.
“A China precisa continuar a aprimorar nosso setor manufatureiro, insistir na autossuficiência e no autoaperfeiçoamento [e] dominar as tecnologias de base fundamentais.”
A China deve aprimorar seu setor manufatureiro e dominar as tecnologias de base”
— Xi Jinping
Em um parque empresarial sem nada de particular nos arredores de Hangzhou, no leste da China, há sinais de que uma revolução industrial silenciosa está em andamento.
Uma equipe de engenheiros chineses da DeepVision Technology está reaproveitando uma tecnologia de processamento de imagem desenvolvida originalmente para cirurgias gástricas para resolver um problema que tem frustrado teimosamente os engenheiros chineses há décadas: como fabricar rolamentos de alta qualidade e em grande escala.
Rolamentos de alta qualidade são cruciais para reduzir o atrito em todo tipo de equipamentos, desde trens de alta velocidade e máquinas de perfuração de túneis até veículos elétricos, robôs humanoides e drones.
Cosimo Ries, analista de energia da consultoria Trivium China, chama atenção para o fato de que, no caso de máquinas como as turbinas eólicas de alto mar – que hoje são construídas com quase 200 metros de altura e precisam durar em torno de 25 anos -, os fabricantes de rolamentos lidam com “exigências de confiabilidade inacreditáveis”, pois seus produtos precisam aguentar pesos e pressões “enormes”.
A China é de longe o maior mercado individual de rolamentos do planeta. Mas em termos mundiais as empresas que dominam o setor, avaliado em US$ 53 bilhões, são a sueca SKF, a alemã Schaeffler, o grupo americano Timken e as japonesas NSK, NTN e JTEKT.
As seis maiores fabricantes respondem por cerca de 55% do mercado mundial de rolamentos, de acordo com o relatório anual da SKF, que tem sede em Gotemburgo. A fatia dos grupos chineses é de cerca de 25%.
Um estudo de 2020 realizado por pesquisadores da Universidade de Ciência e Tecnologia de Wuhan observou uma “disparidade significativa” entre as empresas chinesas e suas rivais suecas e japonesas em termos de controle do grau de defeitos microestruturais e da precisão dimensional. De acordo com um ensaio investigativo do grupo chinês de investimento Kai Yuan Securities, publicado quatro anos depois, produtos de média e alta qualidade ainda respondiam por apenas cerca de 20% da produção total dos fabricantes chineses de rolamentos.
Em um escritório no alto de sua fábrica, Wang Shuailin, o animado fundador da DeepVision, de 38 anos, conta de maneira resumida como sua equipe combina um chip de inteligência artificial com sensores de imagem para identificar defeitos de formato, tamanho e estrutura em um rolamento que pode medir tão pouco como 2 micrômetros – 0,002 milímetros.
O sistema de inspeção da DeepVision, segundo ele, tem melhorado radicalmente o controle de qualidade para seus clientes, entre os quais a fábrica de Luoyang.
Wang diz que um cliente chinês viu sua “taxa de qualificação”, ou seja, a porcentagem de rolamentos que fabrica e são bons o suficiente para serem vendidos a clientes, saltar de menos de 90% para 97%.
Outro cliente, que antes recebia até 400 reclamações de clientes por ano a respeito da qualidade de seus produtos, hoje recebe apenas duas ou três, ao mesmo tempo em que os requisitos de pessoal para fazer a inspeção caíram de 150 para apenas algumas pessoas.
“Existe um estereótipo injustificado de que a China não tem competência para produzir esses tipos de máquinas de alta precisão”, afirma Wang.
Ele admite que as rivais estrangeiras acumularam vantagens tecnológicas por um longo período de tempo, mas acredita que, quando se trata da introdução da inteligência artificial na manufatura, iniciada por volta de 2017, 2018, todas estão “começando do mesmo patamar”.
“E hoje a China tem adotado essas tecnologias mais rápido, portanto nossos produtos serão melhores”, acrescenta.
Uma pesquisa da consultoria China Policy, encomendada pela BDI e publicada em maio, mostrou que as 4 milhões de fábricas chinesas estão apenas começando a perceber o impacto causado pelo tipo de aplicação industrial da inteligência artificial apresentada pela DeepVision.
Mas isso pode mudar logo, já que Pequim estabeleceu a meta de alcançar um nível avançado de manufatura inteligente na maioria das grandes fábricas nos próximos 10 anos.
Mesmo assim, no cenário atual os maiores fornecedores estrangeiros de rolamentos mantêm uma vantagem técnica expressiva sobre a China.
Isso é verdade em especial no caso da produção de componentes vitais para máquinas que precisam funcionar por longos períodos e em ambientes ou temperaturas extremos, como no espaço ou em instalações químicas. Mas mesmo as empresas mais dominantes do setor estão preocupadas com o avanço chinês.
Vivian Wang, chefe de marketing da SKF na China, cita como exemplo a história das vendas de rolamentos na China por seu grupo, que começou em torno de 1912, logo depois do fim da Dinastia Qing, que durou 268 anos. Ela salienta a forte presença do grupo no país, com nove instalações fabris, 6 mil funcionários e um alto índice de uso de cadeias de fornecimento locais em todas as suas operações.
“Reconhecemos as capacidades crescentes de nossas concorrentes, inclusive as da China, mas agimos a partir de uma posição de vantagem”, afirma.
Sadatsune Kazama, vice-gerente geral de design de produtos para rolamentos da NTN, que tem sede em Osaka e é a quarta maior fabricante de rolamentos do mundo, diz que hoje os grupos chineses estão no mesmo nível dos líderes do setor em termos de tecnologia de manufatura, mas ainda ficam atrás deles quando se trata de capacidades de design.
“As pessoas costumavam ter a impressão de que os produtos chineses, e não só os rolamentos, eram baratos, mas de menor qualidade… Acho que hoje em dia já não há muita diferença.”
De qualquer forma, ele argumenta que as empresas japonesas ainda são superiores em critérios de qualidade, confiabilidade e suporte pós-venda de longo prazo. “Fabricamos rolamentos há 100 anos e temos feito isso com base na vasta experiência que acumulamos.”
Uma autoridade da área de política industrial do governo japonês, que pediu para não ter seu nome revelado, sugere que a qualidade chinesa ainda precisa passar pela prova do tempo.
“É incrível o quanto a China evoluiu. Mas não faz nem 20 anos que os chineses começaram a fabricar tecnologia de precisão. Os produtos precisam durar mais de 30 anos, portanto ainda não sabemos qual a durabilidade de seus produtos”, explica. (Tradução de Lilian Carmona)
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O que começou há décadas como uma tática de contrainsurgência logística evoluiu para uma ameaça sofisticada e eficiente
Roberto Uchôa de Oliveira Santos – Folha – 6.jul.2025
Pesquisador e doutorando, Centro de Estudos Sociais, Universidade de Coimbra
The Conversation
A guerra global contra as drogas entrou numa nova e inquietante fase. Em julho de 2025, a apreensão do primeiro narcossubmarino não tripulado e guiado remotamente, feita pela Marinha da Colômbia, assinalou mais do que uma operação bem-sucedida contra o narcotráfico. Representou também a materialização de uma mudança de paradigma tecnológico e estratégico. O que começou há décadas como uma tática de contrainsurgência logística dos cartéis colombianos evoluiu para uma ameaça sofisticada que agora visa diretamente o tráfico transoceânico, com uma eficiência sem precedentes.
Submarino capturado pela Marinha do México no estado de Guerrero, na costa do Pacífico, com 3,5 toneladas de cocaína – 27.jun.25 – AFP/Mexican Navy
A operação Maré Negra, em novembro de 2019, que culminou na primeira apreensão de um narcossubmarino na Europa, ofereceu um vislumbre das condições desumanas a bordo. Uma tripulação de três homens navegou quase 6.500 quilômetros do Brasil à Espanha numa embarcação artesanal de 22 metros, o Che. Durante quase um mês, enfrentaram tempestades, saneamento inexistente e um ambiente claustrofóbico, motivados por uma carga de três toneladas de cocaína avaliada em centenas de milhões de euros. Este caso ilustra o modelo de negócio de alto risco das organizações criminosas, onde as tripulações são tratadas como ativos descartáveis.
O pivô Transatlântico: a Europa como destino primário
Nesta nova geografia, o Brasil tornou-se um “pivô” logístico fundamental. A sua vasta costa atlântica e a presença do PCC (Primeiro Comando da Capital) criaram a plataforma de lançamento perfeita. O narcotráfico moderno opera agora num ecossistema descentralizado, semelhante a uma franquia global. Cartéis colombianos atuam como “produtores”, enquanto o PCC se estabeleceu como o principal “franqueado” de logística para o Atlântico, com presença estabelecida na África e na Europa para facilitar a distribuição.
A Península Ibérica é o principal portal de entrada. A costa acidentada da Galícia, em Espanha, tornou-se um destino ideal. Após a interceptação do Che em 2019, um segundo submarino, o Poseidon, foi descoberto em março de 2023. Embora vazio, a descoberta de lanchas rápidas (“narcolanchas”) nas proximidades sugere que a sua carga foi transferida com sucesso em alto-mar antes de a embarcação ser afundada, demonstrando um método operacional refinado.
Portugal consolidou-se como outro ponto de entrada crucial. Em março de 2025, a operação Nautilus interceptou um semissubmersível a 900 quilômetros dos Açores com uma carga massiva de 6,6 toneladas de cocaína. A interdição, realizada em pleno oceano, foi um sucesso notável, impedindo que a tripulação multinacional, composta por brasileiros, um colombiano e um espanhol, afundasse a embarcação. A rota, partindo da foz do rio Amazonas no Brasil com destino a Portugal, sublinha a natureza e a escala destas operações transnacionais.
A mudança de paradigma: a era do ‘submarino fantasma’ não tripulado
A apreensão do primeiro “drone submersível” do narcotráfico em julho de 2025, no Caribe colombiano, representa uma ruptura tecnológica. A embarcação, atribuída ao Clã do Golfo, foi encontrada vazia, provavelmente numa “fase de teste”. Esta descoberta confirmou os receios dos serviços de inteligência, que há anos monitorizavam os esforços das organizações criminosas transnacionais para desenvolver submarinos não tripulados.
A sofisticação do protótipo reside na sua tecnologia. Equipado com uma antena de internet via satélite da Starlink, podia ser pilotado remotamente a partir de qualquer lugar do mundo, um salto quântico em relação aos sistemas de comunicação anteriores. O seu design hidrodinâmico e de baixo perfil torna-o extremamente furtivo e quase imune à detecção por radar.
A transição para sistemas não tripulados altera drasticamente a análise de risco-recompensa para as organizações criminosas. A principal vantagem é a eliminação do risco humano. Em caso de captura, a perda é puramente material; não há tripulação para ser presa e interrogada.
O elo mais fraco da cadeia operacional é removido, criando enormes obstáculos processuais e tornando a atribuição de responsabilidade penal quase impossível. Livres das restrições biológicas, estes UUVs (Veículos submarinos não tripulados) podem realizar missões mais longas e arriscadas, tornando o modelo de negócio global mais eficiente e resiliente.
O campo de batalha assimétrico e o futuro da narcoguerra
A luta contra os narcossubmarinos é um exemplo clássico de guerra assimétrica. A sua construção em fibra de vidro e o design de baixo perfil tornam-nos “quase invisíveis” aos sistemas de radar e sonar. A Guarda Costeira dos EUA estima que apenas um em cada quatro é interceptado, uma taxa que permite que um volume massivo de drogas chegue ao seu destino.
Dada a dificuldade de detecção, a estratégia mais viável é uma abordagem focada em inteligência para desmantelar as redes em terra, através da cooperação internacional, do controle de materiais precursores e do rastreio financeiro. No entanto, a ameaça continua a evoluir. As trajetórias futuras apontam para o uso de enxames de UUVs para saturar as defesas, navegação autônoma alimentada por IA para evitar patrulhas, e embarcações totalmente elétricas e submersíveis, que seriam virtualmente indetectáveis.
O narcossubmarino evoluiu de uma ferramenta tática improvisada para uma arma estratégica de primeira ordem no arsenal do crime organizado transnacional. A chegada dos sistemas não tripulados marca o início de uma nova era de narcoguerra, onde a tecnologia, a furtividade e a negação plausível conferem uma vantagem assimétrica avassaladora às organizações criminosas transnacionais.
A resposta dos Estados não pode ser reativa. É necessária uma transição urgente de uma estratégia de interdição física para uma de disrupção de redes, baseada em inteligência, domínio tecnológico e inovação jurídica. O fracasso em adaptar-se a esta nova realidade submersa garantirá que as organizações criminosas continuem a navegar, invisíveis e impunes, sob as ondas da segurança global.
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Graduações a distância viram opção mais acessível, mas especialistas se preocupam com a garantia de experiências práticas e qualidade da oferta; governo prepara novas regras para a modalidade
Por Isabela Moya – Estadão – 20/01/2025
Em dez anos, o Brasil viu diminuir em 23% o total de calouros nas Engenharias, que prepara profissionais para áreas cruciais no desenvolvimento do País, como transição energética e uso da inteligência artificial. Em 2014, eram 469,4 mil ingressantes em graduações da área, número que caiu para 358,4 mil em 2023, último ano com dados disponíveis.
Entre os motivos para o baixo interesse está a dificuldade em Matemática e a dificuldade de tornar as aulas mais conectadas com a vida real. Especialistas veem o risco de apagão de profissionais em alguns setores.
Além de menor quantidade, o perfil mudou – são cada vez mais cursos a distância (EAD). Em 2014, era de 5,9% a fração de ingressantes na modalidade – e saltou para 54% após uma década. Em 2023, pela primeira vez, o EAD superou o presencial – o Ministério da Educação (MEC) prepara novas regras para as graduações remotas.
Nesta semana, os estudantes que fizeram do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) estão escolhendo seus cursos no Sistema de Seleção Unificada (Sisu), plataforma que reúne as vagas em universidades públicas.
Em 2023, número de calouros em cursos de Engenharia a distância superou o total de ingressantes em graduações presenciais pela primeira vez
Diferentemente de cursos como Direito ou Medicina, um engenheiro pode se formar quase totalmente a distância. A exigência é de 10% da carga horária em atividades de extensão (nos polos ou em campo) e avaliações presenciais, além do estágio.
O EAD, que abrange cursos com grade curricular de 41% a 100% a distância, ganhou força após a flexibilização de regras para abrir graduações em 2017, e a pandemia, que fez os alunos experimentarem aulas remotas.
É opção mais barata e acessível, principalmente para quem mora em áreas distantes, mas sofre questionamentos sobre sua qualidade. O Conselho Federal de Engenharia e Agronomia (Confea) defende uma cota mínima de classes presenciais (leia mais abaixo).
Os motivos para escolher Engenharia a distância não diferem do que é visto em outras áreas: flexibilidade de horários, comodidade, preço mais baixo e chance de conciliar com o trabalho.
É o caso de Millena Silva, do 9º semestre de Engenharia Ambiental. Ela saiu de Pindamonhangaba (SP) para estudar na Universidade Federal do Pampa (Unipampa), no Rio Grande do Sul, em 2019. No 2º ano da graduação, o coronavírus impôs aulas remotas.
Em 2022, na volta do presencial, Milena não retornou por questões financeiras – viver em outro Estado era caro e ela conseguiu trabalho na cidade natal -, além de ter se adaptado ao ensino remoto. Pediu transferência para uma faculdade particular a distância.
“O que sinto falta é que no presencial tinha bastante contato com laboratórios”, diz ela, de 26 anos. “Para mim, que já tive experiência no laboratório e nas visitas em campo, foi mais tranquilo o EAD. Mas para quem tem o primeiro contato a distância é mais complicado.”
A jovem afirma também que o estágio ajuda a ter contato com a prática. Mesmo assim, não recomenda entrar direto no remoto. “Tem de ser focado no que quer para estudar a distância, gerenciar a rotina”, continua.
Acima dos 30 anos, casados, que já trabalham e com renda familiar de até 3 salários mínimos – este é o perfil dos alunos da Universidade Virtual do Estado de São Paulo (Univesp), instituição pública EAD. Nas faculdades presenciais, a maioria é mais jovem, entra sem emprego, e tem renda maior.
A Univesp tem Engenharias de Computação e de Produção. As aulas são assíncronas (gravadas, para assistir quando puder), mas as avaliações são presenciais. Há seis disciplinas de extensão acadêmica, que devem ser presenciais em campo por meio de projetos com a comunidade, para ter experiência prática.
Para o engenheiro Marcos Borges, presidente da Univesp, a inclusão é uma vantagem: alunos de diferentes regiões do Estado, incluindo cidades com poucos habitantes, onde não há outras faculdades. “A gente consegue com EAD criar riqueza na cidade. Vai formar engenheiro lá (em cidades pequenas)”, diz.
Estamos em 370 municípios (paulistas) – desses, 220 não têm faculdade presencial. Ou eles estudam EAD ou não estudam em nível superior. Isso em São Paulo, um Estado super-rico.
Marcos Borges, presidente da Univesp
O MEC estima que em 2024 o total de matriculados no EAD em todas graduações supere o de alunos do presencial. Para as engenharias, essa transformação leva mais tempo, por ser um curso mais longo.
O governo, porém, diz que vai propor em breve um novo marco regulatório: “referenciais de qualidade, decreto, portarias e instrumentos de avaliação que, certamente, provocarão alterações das regras de oferta de todos os cursos de graduação a distância, não só para os de Engenharia”, segundo a pasta.
O Conselho de Engenharia e Agronomia é contrário à formação 100% online. “O ensino remoto permite a democratização do ensino, mas dentro disso há a preocupação com a qualidade e a capacidade do profissional”, diz Vinicius Marchese, presidente da entidade. “São profissões que incorrem em risco à vida.” Para o Confea, o ensino híbrido – combinação do remoto com o presencial – é boa alternativa.
Já na visão do presidente da Univesp, uma cota obrigatória de aulas presenciais é inviável para parte da população”, como a “mãe solo que não tem com quem deixar a criança, o aluno surdo que precisa do Libras, o aluno cego que precisa da legenda, o aluno que tem autismo e se sente desconfortável no meio de muita gente”. Para ele, a mudança nessa direção “tira o sonho de milhares”.
“Tem EAD bom e ruim, assim como presencial bom e ruim”, afirma Borges. “O MEC tem de atuar para evitar abusos de cursos que não têm a menor qualidade, que não ensinam nada. Mas isso não é específico do EAD nem mesmo do EAD privado. É de faculdades não sérias”.
E por que há menos jovens interessados na área?
Segundo a professora da Escola Politécnica da USP Roseli Lopes, a queda de interesse pelas Engenharias é fenômeno global, que ocorre pelo fato de ser um curso considerado difícil, com duração de ao menos cinco anos. E hoje há oferta grande de outras possibilidades com inserção mais rápida no mercado de trabalho.
“A certificação de Engenharia tem o objetivo de formar profissionais com maior grau de responsabilidade que vão, inclusive, coordenar equipes de pessoas com formação técnica”, diz ela, diretora da Associação Brasileira de Ensino de Engenharia (Abenge).
Para reverter esse desinteresse, o Confea quer atualizar a grade curricular para tornar os cursos mais atrativos. A ideia é incluir mais disciplinas práticas e promover interdisciplinaridade por meio da interação não só entre Engenharias, como também outras profissões, como as da Saúde.
“Os cursos não podem ser chatos, onde o jovem de hoje, a geração Z, fica três ou quatros anos estudando teoria, para enxergar onde vai aplicar na prática”, diz o presidente do conselho.
“É preciso trazer problemas da vida real, com impacto nas comunidades; aproximação maior com a indústria, em projetos de inovação nas empresas; ensinar habilidades sociais e incentivar o trabalho em equipe”, acrescenta Roseli.
TechLab do Insper é um espaço usado pelo curso de Engenharia voltado para a indústria 4.0, conceito de produção que engloba novas tecnologias .Atividades práticas são vistas, por alguns especialistas, como essenciais para a formação Foto: Daniel Teixeira/Estadão
Coordenador das engenharias Química e de Materiais da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Renato Meneghetti defende também mais projetos de extensão universitária. Ressalta ainda que a “aprendizagem passiva”, sem “mão na massa”, contribui para a evasão.
Muitas faculdades fazem reforço das matérias básicas para recuperar a aprendizagem e nivelar os calouros. “Se não toma medida nesse aspecto, o estudante com déficit reprova, reprova, e se transforma em evasão”, afirma Meneghetti, que diz ver lacunas até de alunos vindos de “bons colégios”.
Na Univesp, a disciplina de Cálculo não é dada no 1º semestre. No lugar, há revisão dos conteúdos de Matemática de nível de ensino médio.
Somada à baixa de recém-formados, há migração de engenheiros para outras áreas, como o mercado financeiro, onde há maior remuneração.
“Corre o risco de ter apagão profissional. Temos uma agenda de sustentabilidade, de energias renováveis, eletrificação, que passa pelas áreas de engenharia. E colocamos cada vez menos profissionais novos no mercado”, completa Meneghetti.
Desde 2014, houve queda no interesse pelas Engenharias, que teve leve recuperação só em 2022. Especialistas afirmam que disciplinas mais práticas podem elevar interesse dos jovens na área e reduzir evasão Foto: Gastão Guedes/Fatec
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O assunto está no radar de todos os setores de atividades, e o desafio da escassez de talentos digitais está presente em todas as áreas do conhecimento
Por Marisa Eboli – Estadão – 25/06/2025
Em praticamente todas as áreas do conhecimento, houve um crescimento significativo da preocupação com a Inteligência Artificial (IA). Esse aumento não se limita ao campo da tecnologia, mas se estende a disciplinas como Direito, Medicina, Educação, Filosofia, Ciências Sociais, Artes e até mesmo Teologia. A IA provocou uma transformação transversal, exigindo reflexões éticas, políticas, sociais e filosóficas em todos os domínios do saber.
Embora a IA exista como campo de estudo formal desde 1956, quando o termo foi cunhado, suas ideias fundamentais são ainda mais antigas. Sem retornar à Antiguidade, basta voltarmos ao século XVII, quando filósofos como Descartes e Leibniz já especulavam sobre o pensamento como um processo mecânico. No século XIX, Ada Lovelace escreveu o primeiro algoritmo publicado destinado a ser processado por uma máquina — a máquina analítica de Charles Babbage — antecipando a lógica dos programas modernos.
Já os fundamentos da Inteligência Artificial moderna remetem a Alan Turing, que foi o primeiro a indagar se máquinas poderiam pensar. O Teste de Turing foi um experimento teórico por ele proposto, para avaliar se uma máquina podia exibir comportamento inteligente indistinguível do de um ser humano. “As máquinas podem pensar?” — é a pergunta que abre seu famoso artigo Computing Machinery and Intelligence (1950). Suas ideias são as raízes mais profundas da IA contemporânea.
Foi a partir de 2010, contudo, que ocorreu uma verdadeira explosão do deep learning, big data, assistentes de voz (como Siri e Alexa), diagnósticos médicos automatizados, carros autônomos, sistemas generativos como o ChatGPT, entre outros.
Desde 1999, ou seja, há mais de duas décadas, dedico-me a atividades de ensino, pesquisa, publicação de artigos e aplicação de projetos em organizações relativos à Educação Corporativa (EC) no Brasil. Atualmente, essas atividades são desenvolvidas no âmbito do Programa de Gestão da Educação Corporativa da FIA (PROGEC-FIA).
Em todas as minhas áreas de atuação relacionadas à EC, a importância da Inteligência Artificial e a correspondente preocupação associada ao tema vem crescendo de forma notável.
O artigo “The Transformer CLO”, publicado pela Harvard Business Review (2020), discute uma profunda transformação no papel do Chief Learning Officer (CLO), ou Gestor de Educação Corporativa. Seus autores, Abbie Lundberg e George Westerman, identificam e definem o perfil do Transformer CLO, que vai muito além da responsabilidade por capacitações. Entre outros aspectos, os autores enfatizam que os CLOs devem liderar o desenvolvimento de competências digitais essenciais para preparar as organizações para um ambiente de transformação contínua. Essas competências não se limitam ao domínio técnico, mas envolvem mentalidade, comportamentos e fluência digital.
O artigo ilustra as argumentações com casos reais de várias empresas. Destaca, por exemplo, o caso do DBS Bank, que formulou uma estratégia para desenvolver, em todos os seus funcionários, sete habilidades vitais para um mundo digital: comunicação digital, metodologias ágeis, modelos de negócios digitais, compliance e riscos, pensamento de jornada, tecnologias digitais e pensamento orientado a dados.
As sete competências do DBS Bank revelam exatamente o que Lundberg & Westerman chamam de ‘competências digitais essenciais.
Nos projetos de consultoria que tenho realizado pelo PROGEC-FIA, para conceber e modelar Universidades Corporativas (UCs) ou Sistemas de Educação Corporativa (SECs), invariavelmente aparece, como uma competência estratégica a ser desenvolvida pela empresa, a Transformação Digital, o que dá origem à criação de uma academia ou escola dentro da UC.
Sempre atenta ao assunto, li recentemente o livro The Year in Tech, 2025: The Insights You Need, da Harvard Business Review (2024). Trata-se de um compêndio dos melhores artigos publicados pela HBR ao longo de 2024, sobre as tecnologias de maior impacto. O livro mostra que devemos esperar uma aceleração na tendência de fusão entre humanos e máquinas, impulsionada pelo papel cada vez mais abrangente da IA, em sinergia com outras tecnologias — da IA generativa ao futuro do trabalho, da biometria à computação espacial, de veículos elétricos à inovação industrial e sustentabilidade.
A obra traça um caminho claro em direção ao que os autores chamam de uma realidade empresarial “humanizada”, onde a fusão de humanos e máquinas inteligentes ocorre de forma integrada e em larga escala. À medida que essa convergência se acelera, novas oportunidades surgirão, juntamente com riscos crescentes.
Embora seja difícil prever o ritmo da mudança organizacional, os autores destacam que uma coisa é certa:
“Este ano, você verá uma fusão crescente e contínua da tecnologia de IA e do trabalho humano em sua organização.”
Todos os artigos da coletânea são instigantes, e recomendo a leitura, mas o capítulo que mais me interessou foi justamente o intitulado “Usando Academias Digitais para Preencher a Lacuna de Habilidades”, escrito por Rubén Mancha e Salvatore Parise.
Segundo os autores:
“Hoje, o problema que a maioria das empresas enfrenta ao executar sua transformação digital não é o acesso à tecnologia, mas a escassez de profissionais com habilidades em ciência digital e de dados. A demanda está crescendo mais rápido do que a oferta. Em outras palavras, o recrutamento só leva sua empresa até certo ponto. Para chegar ao fim do caminho, as empresas precisam se comprometer com treinamento e qualificação, dando aos funcionários oportunidades de aprender sobre tecnologias e espaço para experimentá-las (e fracassar).”
Eles acrescentam que, embora existam benefícios comprovados nos esforços internos de qualificação — como inovação, produtividade, transformação digital, engajamento e retenção de talentos — há também limitações. A aprendizagem autodirigida, por exemplo, pode aumentar a carga de trabalho dos indivíduos, sendo um esforço raramente reconhecido ou recompensado pelas organizações.
Em uma pesquisa conduzida sobre iniciativas de requalificação, os autores descobriram que as academias digitais estão entre as abordagens mais eficazes para eliminar a lacuna de competências digitais. De acordo com eles:
“Uma academia digital visa catalisar a forma como os funcionários interagem com a ciência digital e de dados, e liderar a transformação de processos, produtos e serviços.”
Eles destacam que, em geral, essas academias compartilham algumas características fundamentais:
São específicas para a cultura e a narrativa da empresa;
Ofertam programas educacionais altamente experienciais, levando em conta a dinâmica das equipes, apesar da diversidade de duração e conteúdo;
Abrangem toda a organização, atendendo desde novos funcionários até líderes e altos executivos;
Ajudam a criar e reforçar uma cultura de tecnologia e inovação, de forma que treinamentos genéricos dificilmente conseguem alcançar.
Os autores relatam cases de academias digitais desenvolvidas por empresas como DuPont, Gestamp e Deloitte, o que ajuda a compreender como essas iniciativas funcionam e o que é necessário considerar ao projetá-las.
As Academias de Transformação Digital destacadas no livro representam uma abordagem proativa e sistêmica para capacitação, alinhando o aprendizado às reais necessidades organizacionais atuais e futuras.
Em minha prática profissional vejo algo semelhante quando da estruturação de UCs que possuem Academias de Transformação Digital. Só acrescentaria que muitas delas também incluem criatividade, metodologias e aspectos comportamentais ligados à inovação. Com frequência objetivam promover de maneira integrada a inovação, a transformação digital e a inteligência de dados para a gerar valor para a empresa.
Como mencionado no início deste ensaio, o assunto está no radar de todos os setores de atividades, e o desafio da escassez de talentos digitais está presente em todas as áreas do conhecimento. Há um déficit que o recrutamento externo, por si só, não resolve. Por isso, as academias internas têm se mostrado uma solução eficaz.
E na organização em que você trabalha? Já existe uma Academia de Transformação Digital?Se existisse, você acredita que ela alavancaria seu sucesso profissional e sua carreira?
Opinião por Marisa Eboli
Doutora em Administração pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP e Especialista em Educação Corporativa. É Professora de Graduação e do Mestrado Profissional na FIA Business School.
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Recentemente, além de “fábrica do mundo”, a China vem se firmando como um polo inovativo incontornável. O país tornou-se líder global na produção de painéis solares, veículos e baterias elétricas, Huawei inaugurou em 2024 um centro de P&D com mais de cem edifícios em Xangai e DeepSeek deu prova, no início deste ano de 2025, dos avanços chineses em IA, isso tudo apesar das progressivas restrições e sanções do Ocidente a mercados e a insumos avançados.
Estes exemplos indicam o sucesso da estratégia Made in China2025, lançada em 2015, e de outras ações que a sucederam. Em grande parte, é a este processo que os países ocidentais – e não apenas os EUA – estão respondendo com medidas que vêm transformando a governança do comércio mundial e do investimento transfronteiriço, como o Instituto já abordou em outras oportunidades, como nas Cartas n. 1004, 1088, 1154, 1168.
A Carta IEDI de hoje retoma a discussão sobre a estratégia de desenvolvimento industrial da China baseada em ciência, tecnologia e inovação, a partir de dois estudos recentes, um da Johns Hopkins University, intitulado “Innovation Policies, Technology Parks, and Development in China”, e outro do Oxford Institute for Energy Studies: “China’s green industrial policy: lessons for innovation”.
O primeiro artigo, de autoria de María José Haro Sly, resgata a trajetória chinesa enfatizando o desenvolvimento de parques industriais de alta tecnologia, que hoje somam 169 e representam 12% do PIB, e a transformação do país em um grande player em tecnologias de ponta, com gastos governamentais em P&D subindo de 0,9% do PIB em 2000 para 2,3% em 2020.
Segundo a autora, desde 2006, as competências inovativas internas da China vêm sendo reforçadas pelo governo em seus planos estratégicos, tendo como marcos importantes a iniciativa Made in China e o 14º Plano Quinquenal, em que a inovação foi colocada no centro do processo de desenvolvimento e modernização da China.
Haro Sly destaca que há um entendimento do papel dos parques industriais como o mecanismo concreto e o locus do processo de inovação na China. Os parques industriais são igualmente vistos como uma ferramenta-chave para a estratégia de internacionalização (going out) da tecnologia chinesa.
Transferir os motores da inovação de organizações públicas de pesquisa para setores industriais, empregar os investimentos públicos em P&D para ensejar a capacidade de inovação dos setores industriais e melhorar a comercialização de resultados das pesquisas básicas e aplicadas são objetivos considerados há muito tempo na China.
Exemplo disso é que, diferentemente de outras potências, a China orientou a maior parte (85%) de seus gastos governamentais de P&D para atividades de desenvolvimento experimental relacionado à fabricação e produção, em vez da pesquisa básica ou pesquisa aplicada. Ou seja, apoio à inovação e indústria estão bem integrados.
Para a autora, o Programa Torch, de 1988, evoluiu de modo a tornar-se importante instrumento do governo chinês para orientar o desenvolvimento industrial de alta tecnologia, caracterizando-se pela experimentação institucional e políticas descentralizadas, um esquema de financiamento dominado por empresas, bem como pela inclusão de PMEs não estatais em suas atividades de incubadora.
Também coordena as zonas industriais de alta tecnologia, estabelecidas com o propósito de transformar conquistas da ciência e tecnologia em uma força produtiva prática e orientadas tanto ao mercado doméstico quanto a mercados estrangeiros.
A partir de 2013, a internacionalização da tecnologia e inovação chinesas tornou-se um objetivo e, em boa medida, vem se dando no âmbito da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI), com a construção de parques industriais no exterior. Segundo a autora, há 85 parques industriais chineses no exterior com diferentes orientações estratégicas.
O estudo do Oxford Institute for Energy Studies, realizado pelo pesquisador Anders Hove, analisa um exemplo concreto de engajamento inovativo “autóctone” da China: tecnologias essenciais para a transição energética.
Para Hove, o domínio da China nestas tecnologias (energia solar, baterias, veículos elétricos etc.) não se deve somente a subsídios desleais ou a mão de obra barata. O autor observa que o discurso ocidental, em geral, ignora o papel das políticas industriais estratégicas que fomentaram a inovação, a transferência de tecnologia e o rápido aumento da produção de bens inovadores.
O progresso chinês resultou igualmente das extraordinárias taxas de aprendizado quando as novas tecnologias começaram a atingir escala de fabricação. Subvenções, exigências de conteúdo local, regulação e outros mandatos governamentais foram partes integrantes de políticas industriais para a produção das novas tecnologias em larga escala.
Com isso, aprendizado pela prática, compartilhamento de conhecimento tácito e interações com fornecedores deram robustez à empreitada chinesa. A despeito do papel estratégico da política pública, entretanto, o autor destaca que a economia de mercado passou a desempenhar um papel maior na determinação dos players vencedores e perdedores. Ou seja, a política industrial e tecnológica se articula com a concorrência de mercado.
A constituição de competência tecnológica e produtiva em veículos elétricos é um exemplo disso mencionado pelo autor. Diferentemente dos painéis solares, a escala de produção de veículos elétricos teve como base o mercado doméstico chinês, mas buscou-se atrair um competidor estrangeiro de peso para o mercado local com o propósito de forçar as empresas nacionais a atualizarem seus produtos, ao mesmo tempo em que poderiam se beneficiar de transbordamentos de conhecimento, trabalhadores e fornecedores locais.
Assim, o tradicional requisito de joint ventures com participantes locais não foi aplicado no caso da Tesla, quando instalou uma fábrica em Xangai, muito embora a disposição da empresa de usar fornecedores chineses tenha sido um fator-chave em favor do afrouxamento dos requisitos de implantação da Tesla no país.
Ademais, tanto no setor de energia solar como no de veículos elétricos, os governos locais promoveram clusters de manufatura como um caminho para o desenvolvimento industrial. A proximidade geográfica com as cadeias de suprimentos locais e a concorrência intensa contribuíram para acelerar o ritmo da inovação e dos novos ciclos de produtos. Segundo o autor, os modelos de veículos elétricos chineses duram, em média, 1,3 ano no mercado antes de novas versões e 4,2 anos no caso das marcas estrangeiras.
De acordo com o estudo do Oxford Institute, os principais atributos da experiência chinesa na promoção dos setores de energia limpa consistem:
• Sinais de política claros do governo indicando que as indústrias de energia limpa são uma prioridade de desenvolvimento.
• Requerimentos de conteúdo local e de transferência de tecnologia em troca de acesso ao mercado.
• Promoção de polos industriais, favorecendo as interações com fornecedores e levando ao surgimento de players locais de equipamentos.
• Estímulo à aceleração da inovação e novos ciclos de produtos por meio da proximidade com cadeias de suprimentos e concorrência intensa.
• Criação de projetos-pilotos para testar políticas e que combinem fabricação com implantação
• Requisitos para instalação de projetos pilotos em regiões segundo sua base industrial existente, incentivos de políticas locais e infraestrutura.
• Monitoramento do progresso dos projetos e vinculação do suporte futuro a métricas específicas.
Na avaliação do autor, estes atributos não dependem do planejamento central, vantagem de pioneirismo ou mão de obra barata e, por isso, outros países poderiam se inspirar nessas políticas.
Introdução
A Carta IEDI de hoje retoma a discussão sobre a estratégia de desenvolvimento industrial da China baseada em ciência, tecnologia e inovação. Algumas das Cartas IEDI anteriores sobre o tema compreendem as edições de nº 827 “Indústria 4.0 – A iniciativa Made in China 2025” e nº 1094 “O 14º Plano Quinquenal Chinês: transformando a China em potência industrial e tecnológica”.
Nesta Carta, abordamos dois estudos de diferentes instituições. O primeiro deles é intitulado “Innovation Policies, Technology Parks, and Development in China”, de autoria da pesquisadora da Johns Hopkins University, María José Haro Sly. O segundo artigo tem como título “China’s green industrial policy: Lessons for innovation”, divulgado no The Oxford Institute for Energy Studies, pelo pesquisador Anders Hove.
Evolução das políticas de C,T&I na China
Nas últimas décadas, a China fez um progresso notável em ciência, tecnologia e inovação (C,T&I). De um país agrário nos anos 1970, a China se transformou em grande player em tecnologias de ponta, tais como 5G, nanotecnologia, tecnologias verdes, aeroespacial, inteligência artificial etc..
Além de se tornar o segundo maior investidor em pesquisa e desenvolvimento (P&D) do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, a China assumiu a posição de líder em diversos setores industriais intensivos em conhecimento.
Para o governo chinês, a área de ciência e tecnologia foi considerada central, dado que sem o domínio das ciências e tecnologias modernas não seria possível constituir atividades econômicas modernas. De acordo com a autora, a reforma das políticas de C,T&I adotou uma abordagem incremental, caracterizada por uma compreensão progressivamente mais profunda de políticas, transformação sistêmica e inovação institucional.
O quadro abaixo resume os principais marcos das políticas de C,T&I em cada uma das seis fases identificadas no estudo: a experimental (1978-1985), a de reforma sistêmica (1985-1995), a de aprofundamento da reforma (1996-2006), a da inovação autóctone (2006-2015), a de internacionalização do C&T e a de desenvolvimento liderado pela inovação (iniciada em 2015).
Nas duas fases iniciais, paralelamente à implantação das Zonas Econômicas Especiais e dos parques industriais tecnológicos, ao treinamento de recursos humanos qualificados e às medidas voltadas para a obtenção de transferência de tecnologia, a China implementou uma estratégia tácita de engenharia reversa, utilizando, sem pagar, conhecimento protegido por direitos de propriedade intelectual. Não obstante a pressão de potências estrangeiras e empresas multinacionais, essa prática, denominada shanzhai, foi amplamente adotada como uma forma alternativa de inovação.
Na fase de aprofundamento da reforma sistêmica (1996-2006), a China estabeleceu uma estratégia nacional abrangente com o propósito de “rejuvenescer a economia da nação com ciência e educação”. Nessa fase, segundo Haro Sly, o país começou a abrir caminho para se tornar a segunda potência tecnológica mundial com os três objetivos principais:
• Aumentar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento;
• Orientar esses investimentos fundamentalmente para o desenvolvimento experimental;
• Passar de uma estratégia de inovação de engenharia reversa para uma fase de “inovação autóctone”.
À medida que a estratégia foi implementada, o investimento em P&D aumentou rapidamente. A proporção das despesas brutas governamentais com P&D (GERD) em relação ao produto interno bruto (PIB) passou de 0,57% em 1995 para 0,90% em 2000, 1,33% em 2005 e atingindo 2,3% em 2020.
As novas políticas se concentraram em três áreas: transferir os motores da inovação de organizações públicas de pesquisa para setores industriais; ampliar o GERD e a capacidade de inovação dos setores industriais; e melhorar a comercialização eficiente de resultados das pesquisas básicas e aplicadas.
De acordo com a autora, para alcançar esses objetivos a China orientou 85% de seu GERD para investimento nas atividades de desenvolvimento experimental relacionado à fabricação e produção, em vez de pesquisa básica ou pesquisa aplicada, que respondem, respectivamente, por 5% e 10% do GERD chinês. Uma estratégia diferente da adotada pelos Estados Unidos, Japão e Cingapura, como mostra a figura abaixo.
A prioridade atribuída ao desenvolvimento de inovações autóctones foi reforçada, no início de 2006, com o lançamento pelo Conselho de Estado chinês do Programa Nacional de Médio e Longo Prazo para Desenvolvimento Científico e Tecnológico (2006–2020). Com o objetivo principal de transformar a China em uma potência mundial em ciência e tecnologia, os princípios orientadores desse programa centravam-se na melhoria da capacidade doméstica de gerar inovação e na realização de saltos tecnológicos em domínios prioritários.
Anunciado pelo governo chinês em maio de 2015, o plano industrial decenal Made in China 2025 priorizou o aumento da competitividade nacional em indústrias de ponta e a redução da dependência de tecnologias estrangeiras, passando do status de imitador para o de inovador. Para isso, a China se concentrou em ampliar sua capacidade de gerar inovação local, enfatizando a inovação original, a inovação integrada e a “reinovação” com base na assimilação de tecnologia importada.
Reproduzindo trecho de um discurso do líder chinês Xi Jinping na Academia de Ciências da China, em junho de 2015, sobre a importância de dominar as tecnologias críticas para o país realmente ter iniciativa na concorrência e no desenvolvimento, o estudo destaca que “essa concepção é a chave para entender as políticas de ciência, tecnologia e inovação na China na última década e sua concentração em inovação nativa e autônoma, bem como consolidar a posição da China como líder na padronização de tecnologias de ponta em todo o mundo”.
Em 2021, com os lançamentos dos 14º Plano Quinquenal e do Plano de Médio e Longo Prazo para a Ciência e Tecnologia 2021-2035, a inovação foi colocada no centro do processo de desenvolvimento e modernização da China. Desde então, a ciência e a tecnologia têm assumido cada vez mais importância estratégica para o desenvolvimento nacional da China.
Parques Industriais Tecnológicos como locus de inovação
Haro Sly destaca que há um entendimento do papel dos parques industriais como o mecanismo concreto e o locus do processo de inovação na China. Papel crítico que o 14º Plano Quinquenal sugeriu que continuarão a desempenhar. Os parques industriais são igualmente uma ferramenta-chave para a estratégia de internacionalização (going out) da tecnologia chinesa.
Na avaliação da autora, o Programa Torch, criado em 1988, na fase de reforma sistêmica, sob a égide do Ministério da Ciência e Tecnologia (MOST), é um elemento central no desenvolvimento industrial de alta tecnologia da China. Criado, com a missão de estimular a construção de parques industriais, o Programa Torch evoluiu ao longo das últimas décadas, tornando-se um dos principais programas utilizados pelo governo chinês para orientar o desenvolvimento industrial de alta tecnologia.
O Programa promove a comercialização de conquistas de C&T, a industrialização de resultados de P&D e a internacionalização de indústrias de alta tecnologia. Seus principais instrumentos são: os parques industriais de ciência e tecnologia, as incubadoras de negócios baseadas em tecnologia e o Fundo de Inovação para Pequenas e Médias Empresas (PMEs) baseadas em tecnologia. O governo chinês oferece suporte financeiro às empresas por meio de fundos especiais, incluindo assistência para a construção de infraestrutura de incubadora.
Desde a sua origem, o Programa Torch se caracteriza, de acordo com o estudo, por fortes elementos de experimentação institucional e políticas descentralizadas, um esquema de financiamento dominado por empresas, bem como uma inclusão de longa data de PMEs não estatais em suas atividades de incubadora. O programa também coordena as zonas industriais de alta tecnologia, responsáveis por forte contribuição para as exportações chinesas de produtos intensivos em tecnologia e de maior valor agregado.
As novas zonas de desenvolvimento industrial de alta tecnologia são baseadas em inteligência intensiva e um ambiente aberto. Estabelecidas com o propósito de transformar conquistas da ciência e tecnologia em uma força produtiva prática, essas novas zonas de desenvolvimento industrial abrigam parques industriais orientados aos mercados domésticos e estrangeiros e ao desenvolvimento das novas indústrias de alta tecnologia da China.
Exemplos mencionados no artigo são o parque industrial Suzhou, localizado na zona de desenvolvimento tecnológico e econômico de Guangzhou, e o parque industrial de ciência e tecnologia Nanjing, na zona nacional de desenvolvimento industrial de alta tecnologia.
Os parques combinam infraestrutura material e logística com aspectos econômicos, legais e de gestão suave para favorecer a inovação. A China possui vários tipos de parques que diferem em termos de administração, escala/escopo e indústrias-alvo.
Atualmente, o país conta com mais de 1.500 parques industriais nacionais ou provinciais, incluindo 169 parques de alta tecnologia (High Techparks). Esses últimos respondem por aproximadamente 12% do PIB da China e 18% das exportações. Segundo a autora, a expectativa do 14º Plano Quinquenal de 2021 é elevar acima de 17% do PIB chinês a contribuição dos clusters de tecnologias emergentes de importância estratégica.
Com estratégia de internacionalização da tecnologia e inovação chinesas, iniciada em 2013, no âmbito da Iniciativa Cinturão e Rota (BRI), a construção de parques industriais no exterior tornou-se um instrumento-chave.
Nesse processo, a Academia Chinesa de Ciências (CAS) desempenhou um papel ativo, fornecendo mais de 1,8 bilhões de yuans (cerca de US$ 268 milhões) para a construção de projetos de ciência e tecnologia em cooperação entre a China e os países participantes da Iniciativa Cinturão e Rota. Igualmente, treinou quase 5 mil talentos científicos e tecnológicos de alto nível para países e regiões participantes da BRI, incluindo mais de 1.500 pessoas com mestrado e doutorado em ciência e engenharia. Muito dos quais retornaram aos seus países de origem para construção da BRI.
A CAS também cooperou com mais de 100 empresas de alta tecnologia e instituições de pesquisa para estabelecer a Belt and Road Industry Alliance para servir ao desenvolvimento econômico e social regional. Para Haro Sly, este programa constitui uma nova fase da estratégia chinesa de desenvolvimento e terá impactos no redesenho da ciência, tecnologia e inovação do mundo.
Embora apresentem características diferenciadas, em termos gerais, esses parques industriais instalados em países participantes da BRI são uma exportação de um cluster industrial chinês para promover o investimento estrangeiro direto no exterior.
A maioria dos parques é promovida e desenvolvida em conjunto por governos ou empresas chinesas e estrangeiras. Esses parques geralmente têm melhor infraestrutura, uma cadeia de valor mais integrada e indústrias com características distintas, que podem impulsionar o desenvolvimento completo.
Nos dias atuais, há 85 parques industriais chineses no exterior, dos quais 53 localizados em 20 países da Ásia, 19 em onze países da África e treze em seis países da Europa, incluindo Bélgica (1), França (1) , Hungria (2) e Rússia (6). Esses parques podem ser orientados para processamento e manufatura, agricultura, comércio e logística, utilização de recursos, tecnologia, pesquisa e desenvolvimento, ou podem ser abrangentes (combinando diferentes orientações).
Inovação chinesa
De acordo com Haro Sly, utilizado pela primeira vez em 1994, o termo inovação “autóctone” ou “nativa” ou “autodeterminada” (zizhu chuangxin) tornou-se amplamente utilizado a partir do lançamento do Programa Nacional de Médio e Longo Prazo para Desenvolvimento Científico e Tecnológico (2006–2020), já mencionado. Esse conceito refere-se: “a aprimorar a inovação original, a inovação integrada e a ‘reinovação’, com base na assimilação e absorção de tecnologia importada, a fim de melhorar a capacidade de inovação nacional chinesa.”
Segundo a autora, inicialmente, o governo chinês estabeleceu negociações com fabricantes estrangeiros que operavam no país para que, em troca de acesso preferencial ao mercado, realizassem transferências de tecnologia para parceiros locais. Contudo, o investimento estrangeiro não trouxe a transferência de tecnologia visível em larga escala que o governo chinês esperava.
Diante da realidade concreta da baixa escala de, ou mesmo nenhuma, transferência tecnológica de países desenvolvidos para países em desenvolvimento, o governo chinês elaborou estratégias de desenvolvimento de tecnologias nativas. A autora destaca que o país asiático entendeu o papel do Estado na promoção da inovação, bem como a importância da inovação nativa no fechamento da lacuna de renda entre países desenvolvidos e em desenvolvimento.
Ciente que o processo de redução do gap tecnológico e de renda em relação aos países desenvolvidos não ocorreria apenas com o aumento dos investimentos em P&D ou meramente pela incorporação de mais pesquisadores, o governo chinês implementou estratégias orientando esses investimentos para o desenvolvimento experimental em vez de promover a pesquisa básica motivada pela curiosidade apenas para fins científicos.
Desse modo, a política industrial passou a ser projetada com base na antecipação de demandas nacionais prioritárias e no investimento estatal correspondente.
Para explicitar a prioridade atribuída à inovação nativa original como motor do desenvolvimento, o slogan do plano industrial Made in China 2025, lançado em 2015, foi posteriormente atualizado, segundo a autora. O slogan da política “fabricado na China” foi substituído por “projetado e criado na China”, mais adequado ao objetivo do país de passar de imitador a inovador de produtos, bens e tecnologias.
Com objetivo de promover avanços na indústria manufatureira, e, em particular, aumentar a competitividade nacional em indústrias de tecnologias avançadas mediante inovações industriais e assim garantir que os produtos industriais do país alcancem patamares elevados nas cadeias internacionais de valor, o Plano Made in China, identificou dez setores de tecnologia avançada como prioridades críticas: novas tecnologias da informação; máquinas-ferramentas e robôs de controle numérico de ponta; equipamento aeroespacial; equipamentos de engenharia oceânica e embarcações de ponta; equipamentos de transporte ferroviário de ponta; veículos com eficiência energética e novas fontes de energia; equipamentos elétricos; máquinas agrícolas; novos materiais; biomedicina e equipamentos médicos de ponta.
A estratégia governamental chinesa tem se mostrado bem-sucedida. O forte vínculo entre o design de políticas públicas, o sistema de C,T&I e o setor produtivo tornou possível transformar estruturalmente a produção e avançar em todas as cadeias de valor. A China já lidera vários setores industriais de alta tecnologia, superando os Estados Unidos.
De acordo com Haro Sly, a abordagem estratégica da China para a inovação, que confere ao Estado um papel estratégico e enfatiza os parques industriais, tem sido fundamental em seu avanço tecnológico. Todavia, esse rápido progresso suscitou igualmente suspeitas e contestações de potências mundiais estabelecidas, obrigando a China a seguir por um caminho complexo para manter seu desenvolvimento econômico e sua liderança tecnológica.
Na avaliação da autora, o rápido avanço tecnológico, a intenção explícita do governo chinês de começar a impor normas internacionais nos novos domínios tecnológicos e a crescente competitividade dos bens e produtos de alta tecnologia chineses continuarão a criar suspeitas entre os países centrais estabelecidos. Exemplo emblemático desse processo foram as sanções à Huawei e a crescente pressão dos Estados Unidos para conter a expansão chinesa na tecnologia 5G.
Conclui-se o estudo, afirmado que “encontrar um equilíbrio complexo entre as sanções ocidentais e continuar o processo de desenvolvimento econômico, catching-up e inovação autônoma, ao mesmo tempo em que evita qualquer possibilidade de conflito direto, determinará a consolidação da hegemonia chinesa na corrida tecnológica no século XXI”.
Lições da política industrial de energia limpa chinesa
O pesquisador do Instituto para Estudos de Energia de Oxford (OIES), Anders Hove, destaca que o domínio da China na fabricação de energia limpa __ energia solar, baterias e, mais recentemente, veículos elétricos __, tecnologias essenciais para a transição energética, coincidiu com uma forte ênfase na inovação autóctone.
Segundo o autor, esse aspecto é frequentemente ignorado no discurso ocidental, que atribui as vantagens competitivas da indústria chinesa de energia limpa aos subsídios governamentais e à mão de obra de baixo custo.
Para Hove, o domínio da China na produção de energia limpa (solar, baterias, veículos elétricos) não se deve somente a subsídios desleais ou mão de obra barata. Em vez disso, é resultado de políticas industriais estratégicas que fomentaram a inovação, a transferência de tecnologia e o rápido aumento da produção. Entre as políticas industriais explícitas, aquelas que promovem a transferência de tecnologia, a localização da produção e o agrupamento industrial têm sido notavelmente eficazes.
O progresso no domínio da energia limpa na China resultou igualmente das extraordinárias taxas de aprendizado quando as novas tecnologias começaram a atingir escala de fabricação. Com aprendizado pela prática, compartilhamento de conhecimento tácito e interações com fornecedores, a China se destacou.
Todavia, na vanguarda da política industrial, outro fator foi igualmente importante: as políticas de implantação que permitiram que essas indústrias atingissem escala. O autor ressalta que, obviamente, a implantação em escala não poderia ter acontecido se essas tecnologias ainda estivessem no laboratório ou ainda com preços extremamente elevados. Subvenções e mandatos governamentais também foram partes integrantes das políticas industriais.
Mesmo após a adesão do país à Organização Mundial do Comércio, o Estado chinês nunca deixou de planejar e orientar o desenvolvimento econômico, moldando o investimento em todos os níveis. Porém, a economia de mercado passou a desempenhar um papel maior na determinação de vencedores e perdedores.
Cada um dos quatro principais campos tecnológicos de energia limpa (solar, eólica, baterias e VEs), nos quais a China está agora na liderança ou próxima dos líderes, seguiu um caminho de crescimento diferente, com sua própria combinação única de suporte político e aumento de escala de fabricação.
Para a energia solar, que se beneficiou de linhas de produção prontas para uso que facilitaram a entrada de novas empresas no estágio inicial, os governos locais ofereceram incentivos para que as empresas montassem laboratórios de pesquisa. Inúmeros cientistas-líderes no exterior foram atraídos a retornar à China para desenvolver a tecnologia em parceria com participantes locais.
Para a energia solar, o caminho liderado pela exportação foi inicialmente crucial, enquanto na área de energia eólica os formuladores de políticas chineses buscaram investimentos e assistência ao desenvolvimento do exterior. Porém, uma vez que as tecnologias atingiram escala e se aproximaram dos principais limites econômicos, os formuladores de políticas mudaram a ênfase para a implantação doméstica por meio de subsídios orientados à demanda – ou seja, tarifas feed-in, inspiradas nas políticas adotadas em países europeus.
No segmento de energia eólica, o governo chinês implementou requisitos de conteúdo doméstico para empresas internacionais que forneciam equipamentos para projetos eólicos apoiados pelo Mecanismo de Desenvolvimento Limpo. Segundo Hove, essa exigência desempenhou um papel crítico no desenvolvimento de expertise local em energia eólica na China.
No segmento de baterias para veículos elétricos, o licenciamento de patentes foi um fator importante. No campo tecnológico de química de baterias de níquel-manganês-cobalto (NMC), as empresas chinesas conseguiram licenciar tecnologias estrangeiras, encorajar empresas dos Estados Unidos e de outros países a estabelecer joint ventures com parceiros chineses.
Já na tecnologia concorrente de baterias de lítio-ferro-fosfato (LFP), a China obteve, segundo Hove, uma vantagem descomunal ao vencer, em 2010, a concessionária de energia elétrica canadense Hydro-Quebec em disputa de reivindicação de patente LFP. E em 2013, a fabricante chinesa de autopeças Wanxiang, uma empresa com fortes ligações com o governo, adquiriu a startup americana A123 de baterias LFP.
Também no caso dos veículos elétricos, o programa de Veículos de Nova Energia, lançado em 2009, continha estruturas sofisticadas projetadas para garantir não apenas a transferência de tecnologia, mas o surgimento de players e inovação nacionais.
Para evitar duplicação e desperdícios, a China estabeleceu requisitos para regiões que abrigariam projetos-piloto de VE, limitando alguns incentivos de política às regiões selecionadas com base em sua estrutura industrial existente, incentivos de política local para promover VEs e infraestrutura de recarga. Depois de designar regiões-piloto, o governo chinês monitorou o progresso em cada uma dessas frentes, vinculando o suporte futuro do governo central a métricas relacionadas a cada uma.
A obtenção de apoio financeiro governamental para produção de VE e baterias para VE estavam vinculados à transferência de tecnologia, e as empresas beneficiárias qualificadas tinham que demonstrar domínio de um dos três elementos principais da fabricação de VE: baterias, motores ou sistemas de controle.
Para baterias com densidade de energia adequada para VEs (acima de 110 Wh/kg), foi definido conteúdo nacional mínimo de 50%. Igualmente, foram instituidas listas para empresas produtoras de baterias qualificadas para receber subsídios do programa Veículos de Nova Energia.
Essas políticas levaram as montadoras chinesas a transferir as compras de baterias dos principais fornecedores japoneses e coreanos para participantes nacionais. Posteriormente, em 2017, os requisitos para as empresas beneficiárias foram ampliados, exigindo que as empresas nacionais demonstrassem domínio de todas as áreas principais da produção de VE, descartando a especialização da cadeia de fornecimento chinesa em apenas um elemento da fabricação de VEs o que favoreceu a integração vertical.
No domínio tecnológico dos VEs, os líderes chineses identificaram uma oportunidade e buscaram alavancar a crescente capacidade de fabricação de baterias da China para ultrapassar as montadoras estrangeiras. Em contraste com energia solar, o impulso para a ampliação da escala de produção dos veículos elétricos orginou-se no mercado doméstico. Só recentemente começou a mudar para incluir exportações.
De acordo com Hove, embora já existissem inúmeras empresas chinesas de VE, o requisito de joint ventures com participantes locais no setor automotivo, em vigor desde a década de 2000, não foi aplicado no caso da Tesla, a principal empresa de VE no mundo em 2019, quando instalou uma fábrica em Xangai. Nesse caso, o governo chinês adotou a estratégia de atrair um concorrente forte para o mercado local com o propósito de forçar as empresas domésticas a atualizarem seus produtos, ao mesmo tempo em que, potencialmente, se beneficiariam de transbordamentos de conhecimento de trabalhadores e fornecedores locais.
Segundo o autor, a disposição da Tesla de usar componentes chineses foi um fator-chave que levou à decisão de Xangai de fazer lobby junto ao governo central em favor do afrouxamento das restrições para trazer a Tesla. Atualmente, 95% dos fornecedores da Tesla Shanghai são chineses.
O pesquisador da OIES ressalta que a abordagem holística da política chinesa de incentivos aos veículos elétricos é muito diferente das políticas implementadas em outros países, onde os subsídios para compra de VE são uma coisa, o suporte para fabricantes é outra, e o suporte para ampliação da infraestrura de recarga é ainda mais estanque. Como resultado de um política compartimentada, os fabricantes ou fornecedores podem estar localizados em regiões com infraestrutura precária de recarga e baixa adoção de VEs, levando a um ciclo vicioso no qual os fabricantes relatam que a demanda do mercado local não consegue suportar uma expansão rápida.
Tanto no setor de energia solar quanto no de veículos elétricos, os governos locais promoveram corretamente clusters de manufatura como um caminho para o desenvolvimento industrial. No setor de energia solar, no qual as empresas europeias e norte-americanas inicialmente forneceram linhas de produção de ponta, enquanto empresas chinesas se concentraram na produção em massa, as interações com fornecedores permitiram o rápido surgimento de fornecedores locais de ferramentas e equipamentos que gradualmente suplantaram os líderes internacionais.
No segmento dos veículos elétricos também, a proximidade geográfica com as cadeias de suprimentos locais e a concorrência intensa contribuíram para acelerar o ritmo da inovação e dos novos ciclos de produtos, que são essenciais para o crescimento e a manutenção da participação de mercado nos ambientes ultracompetitivos da China. Segundo o autor, os modelos de veículos elétricos chineses têm em média apenas 1,3 ano de vida útil no mercado antes que atualizações ou novas versões sejam lançadas, em comparação com o ciclo de 4,2 anos das marcas estrangeiras.
Em todos os quatro segmentos de energia limpa, os formuladores de políticas sinalizaram que essas indústrias eram uma prioridade de desenvolvimento. Como indústrias emergentes estratégicas se beneficiaram de capital de baixo custo, projetos-piloto e foram alvos de metas e mandatos para implantação. Essa sinalização forneceu um indicador crítico para autoridades locais, empresas estatais de energia e empreendedores de que uma maior exposição a esses campos estratégicos seria recompensada.
Anders Hove salienta, contudo, que a consistência do apoio político na China não é absoluta. Segundo ele, os subsídios foram cortados da noite para o dia para a energia solar quando o mercado se tornou superaquecido. Subsídios para VE também foram suprimidos diante de alegações de fraude.
Principais elementos da política industrial verde da China
Segundo o estudo do Oxford Institute, os principais atributos da política industrial utilizadas na promoção dos setores de energia limpa na China podem ser resumidas da seguinte maneira:
• Sinalização de política e políticas de implantação. Sinais de política claros do governo indicando que as indústrias de energia limpa são uma prioridade de desenvolvimento. Subsídios orientados à demanda para atingir escala e se aproximar de limites econômicos.
• Exigência de transferência de tecnologia, com requisitos explícitos e implícitos para empresas estrangeiras compartilharem tecnologia com players nacionais em troca de acesso ao mercado e incentivos para criarem laboratórios de pesquisa locais. Do ponto de vista das potências ocidentais, essa exigência é um dos aspectos mais controversos da política industrial chinesa. Exemplos: energia eólica (requisito implícito em conjunto com requisitos explícitos de conteúdo nacional), setor automotivo (joint ventures com participantes locais) e tecnologia de baterias (licenciamento de patentes estrangeiras e joint ventures).
• Requerimentos de conteúdo local, com requisitos de conteúdo doméstico em troca de acesso ao mercado, concessão de subsídios para produção de EV e baterias vinculados à transferência de tecnologia para as empresas que demonstrem domínio dos principais elementos da produção de EV. Criação de “listas brancas” para empresas de baterias qualificadas para subvenções, excluindo inicialmente empresas estrangeiras, que foram eliminadas em 2019, momento em que a China já dominava as cadeias de fornecimento de baterias.
• Clusters industriais. Além da promoção de polos industriais por governos locais, as interações com fornecedores levam ao surgimento de fornecedores locais de ferramentas e equipamentos. Proximidade com cadeias de suprimentos e concorrência intensa acelerando a inovação e novos ciclos de produtos.
• Programas-piloto que combinam fabricação com implantação. Criação de projetos-pilotos para testar políticas de energia limpa. Requisitos para regiões-piloto de EV com base na fabricação existente, incentivos de políticas locais e infraestrutura de carregamento. Monitoramento do progresso e vinculação do suporte futuro a métricas específicas.
Na avaliação do autor, as ferramentas de política industrial da China não dependem de planejamento central, vantagem de pioneirismo ou mão de obra barata. Outros países podem emular essas políticas, estabelecendo, notadamente, exigência de transferência de tecnologia, políticas de conteúdo doméstico e suporte para clusters industriais.
Ele destaca que a Europa já está adotando ativamente muitas políticas industriais inspiradas no modelo chinês para veículos elétricos. Isso inclui licenciamento, requisitos de transferência de tecnologia e políticas de conteúdo doméstico. A Europa já considera exigir transferência de tecnologia e licenciamento como condição para a empresa receber subvenções. Requisitos de conteúdo doméstico para minerais críticos e baterias estão em discussão.
Anders Hove também sugere que integração vertical, aglomeração geográfica e interações com fornecedores são essenciais para manter as vantagens conquistadas. Trabalhar com fornecedores chineses pode garantir acesso à tecnologia e aos processos mais recentes.
Segundo ele, as próprias empresas chinesas também estão aprendendo a lição sobre os benefícios da integração vertical à medida que se expandem para o exterior. A líder em fabricação de baterias CATL, que já possui fábrica na Europa, anunciou recentemente planos para estabelecer um fundo de US$ 1,5 bilhão para investir em peças e fornecedores locais no continente europeu, porque os fornecedores locais não atendem às suas necessidades ou não conseguem responder com rapidez suficiente às suas exigências de volume de produção e qualidade.
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Segundo membros da CNI, que estiveram em missão recente ao país, empresas americanas demonstraram interesse em projetos ligados a esses setores. Entidade articula agenda bilateral para facilitar novos aportes
Luciano Pádua – Exame – 17 de maio de 2025
NOVA YORK* – Os investidores dos Estados Unidos querem ampliar sua presença econômica no Brasil em áreas de interesse estratégico. Em conversas recentes com representantes da Confederação Nacional da Indústria (CNI), autoridades e empresários americanos destacaram quatro setores prioritários para novos investimentos no país: minerais críticos, tecnologia de satélites, energia e data centers.
“Eles já colocaram as áreas de interesse: minerais críticos, satélites, energia e data centers”, diz à EXAME Frederico Lamego, superintendente de Relações Internacionais da CNI durante evento da entidade em Nova York nesta semana.
Além dos recursos naturais, há uma ênfase em infraestrutura digital e energética. O interesse em data centers está diretamente ligado à agenda de energia limpa do Brasil, avalia a CNI, considerada atrativa pelos investidores diante da demanda crescente por soluções sustentáveis.
Investimentos em data centers são vistos como uma possibilidade muito forte.”Ainda mais com a nossa agenda verde de enegia”, afirma Léo de Castro, vice-presidente da CNI.
Segundo os executivos, o setor privado americano sinalizou de forma clara o desejo de sair da tradicional pauta — centrada em etanol, aço e alumínio — e ampliar as possibilidades de cooperação. O objetivo agora é abrir uma base mais ampla de negociações e atrair investimentos com transferência de tecnologia.
“A mensagem que os americanos colocaram para a gente é que precisamos sair de uma discussão do etanol, do aço e do alumínio para ampliar uma base de negociação que seja benéfica para os dois lados”, afirma Lamego.
Castro aponta que a agenda da CNI no país é um gesto de “boa vizinhança” para apontar que o país que cooperar em outros níveis. “É um gesto de dizer que a gente quer cooperar, que está trabalhando junto e quer achar caminhos comuns tanto para o trade quanto para o investimento”, diz.
Por muitos anos, ressalta o vice-presidente, o investimento americano foi para a Ásia. “Queremos atrair o investimento americano para o Brasil”, afirma.
Essa atração, avaliam, precisa vir acompanhada de uma agenda de transferência de tecnologia.
Pauta exportadora para os EUA
Para os membros da comitiva da indústria, os americanos parecem interessados em trabalhar com o Brasil. A pauta exportadora para a maior economia do mundo é de particular interesse da CNI, uma vez que é formada pela indústria de base.
“Mais de 50% da pauta exportadora brasileira para os EUA é de produtos semi ou manufaturados. Então, o peso da indústria é maior”, diz Lamego.
Dados da CNI apontam que cada US$ 1 bilhão exportado para os EUA gera 24.000 empregos no Brasil, cifra muito maior do que a mesma comparação das exportações da China.
“Esse é o desafio endereçado para a política industrial: avançarmos na indústria de transformação. Os EUA são um grande mercado importante nosso para indústria de transformação e a China é um grande concorrente na disputa desse mercado também”, diz Castro.
Estratégia do governo Trump
Segundo os relatos de autoridades americanas, a prioridade do país no momento é fechar acordo com Índia, Coreia do Sul, Reino Unido (já feito), Japão e União Europeia, especialmente após o entendimento avançado com os ingleses, que deve ser utilizado como base para outros acordos. Com o bloco europeu a negociação está em estágio menos avançado.
“Se ele consegue estabelecer dois ou três acordos com países do G8, é bem possível que essa regra tenha o efeito dominó”, diz Lamengo. “É uma transformação da ordem econômica mundial para uma ordem que é do multilateralismo para uma ordem na qual o bilateralismo não vai ter uma predominância.”
A impressão é de que o governo Trump foca prioritariamente em sua base, formada por pessoas de classe média baixa com renda estagnada há mais de 20 anos e que não consegue poupar.
Seria uma espécie de agenda rápida, com resultados até setembro deste ano, para agradar essa base diante da aproximação das eleições de meio de mandato (midterm).
Caso os republicanos saiam sem maioria em novembro de 2026, o governo Trump pode passar seus últimos dois anos se esquivando de torpedos da oposição, como investigações sobre as ações tomadas no início do mandato.
Canal direto com os EUA e atração de talentos
A CNI também estuda institucionalizar um canal direto com o Departamento de Comércio dos Estados Unidos. Uma das ideias é por meio da iniciativa Select USA, que atualmente promove oportunidades nos EUA para empresas estrangeiras e o funciona sob o guarda-chuva do departamento de comércio norte-americano
Uma das ideias apresentadas é articular um ponto focal do Select USA dentro da CNI. Esse canal pode funcionar como um local para investimentos do Brasil nos EUA, e no fluxo contrário também. Empresas como Gerdau, Randon e JBS já mantêm operações relevantes no mercado americano e devem expandir suas atividades neste ano, por exemplo.
A indústria de máquinas e equipamentos — que tem nos Estados Unidos 25% do seu faturamento — também se destaca como potencial beneficiada no novo ciclo de aproximação bilateral.
Paralelamente, a indústria tenta construir também uma agenda de intercâmbio de talentos. Os executivos se reuniram com a comunidade científica brasileira em Massachusetts, onde ficam as universidades Harvard e MIT.
“Precisamos pensar nessa agenda que, hoje, está no mundo, e até pensar num programa de atração de talentos”, disse Lamego.
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