Verolme: o estaleiro que ensinou Angra dos Reis a fazer navios — e o que perdemos quando ele afundou


Paulo Gala – 06/11/2026 – Blog Paulo Gala

Durante mais de trinta anos, o maior estaleiro do Brasil ficou em Jacuecanga, um bairro de Angra dos Reis à beira da BR-101. Chamava-se Verolme. No seu auge, no fim dos anos 1970, empregava cerca de 12 mil pessoas, quase um terço de todos os trabalhadores navais do país, num momento em que o Brasil era o segundo maior construtor de navios do mundo, atrás apenas do Japão.

Poucos lugares no Brasil ilustram tão bem o que significa ganhar e perder capacidades produtivas. A história do Verolme é a história de uma cidade que aprendeu a fazer uma das coisas mais difíceis da indústria pesada, viveu disso por uma geração, viu tudo parar em 1995 e, desde então, convive com a pergunta que atravessa toda a discussão de complexidade econômica: de onde vêm, e para onde vão, os empregos de qualidade?

Um holandês, JK e uma baía funda

O estaleiro começou a operar em 1959 como Verolme Estaleiros Reunidos do Brasil, braço do grupo holandês liderado por Cornelis Verolme, que dois anos antes havia aberto o maior estaleiro da Holanda. Era o Brasil de Juscelino Kubitschek, empenhado em instalar a indústria pesada a qualquer custo, e a construção naval entrou nesse projeto como peça central.

A escolha de Angra não foi por acaso. A baía oferecia águas profundas e abrigadas, o porto ficava ao lado e a Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda, estava perto o bastante para fornecer o aço. Somavam-se a isso o interesse da Marinha e uma garantia federal de reserva de mercado para os navios feitos no país.

O primeiro navio, o cargueiro Henrique Lage, ficou pronto em 1962, com 10,5 mil toneladas de porte bruto (TPB). Foi o começo de uma escalada de escala e de sofisticação que, em menos de vinte anos, colocaria o estaleiro entre os grandes do mundo.

O auge: navios de 150 mil toneladas e uma cidade inteira em volta

A escalada aparece no tamanho dos cascos. Do Henrique Lage, de 10,5 mil TPB, o estaleiro passou ao graneleiro Doceangra, de 53 mil TPB, em 1971, e ao petroleiro Bragança, de 116,5 mil TPB, em 1974. Em 1977 vieram os mineropetroleiros da classe Muriaé, com 135 mil TPB, e em 1986 o graneleiro Docebay, com 150 mil TPB.

O Verolme não fazia só navios mercantes. Construiu a plataforma Petrobras V em 1979, as corvetas Frontin e Júlio de Noronha para a Marinha e venceu concorrências internacionais, exportando graneleiros para armadores gregos e para navios de bandeira liberiana. Isso exige integrar estrutura metálica, propulsão, elétrica, hidráulica, instrumentação e sistemas de armas num único produto.

O motor dessa expansão foram os Planos de Construção Naval, financiados pelo Fundo da Marinha Mercante. Em 1979 o país tinha 39,2 mil trabalhadores navais, e 12 mil deles estavam no Verolme. O estaleiro sozinho respondia por 30,6% do emprego do setor no Brasil.

Angra mudou de forma. A população do município crescia cerca de 3,4% ao ano nos anos 1960, e a do distrito de Jacuecanga, onde fica o estaleiro, perto de 8% ao ano. Bairros como Village, BNH, Monsuaba, Biscaia e Camorim nasceram em torno do estaleiro, com migrantes vindos da Baixada Fluminense e de outras regiões.

E havia a “Escolinha da Verolme”. Milhares de jovens da região foram formados ali nos ofícios da construção naval e absorvidos pelo próprio estaleiro. Para uma cidade litorânea do interior fluminense, era uma porta de entrada para o trabalho industrial qualificado, com salário, carteira assinada e carreira.

A queda: da crise dos anos 1980 ao portão fechado em 1995

O modelo começou a rachar no início dos anos 1980. A crise da dívida secou o financiamento público, a Sunamam, que administrava os recursos do setor, entrou em colapso financeiro, e o frete marítimo mundial despencou. Entre o fim de 1982 e 1986 a indústria naval brasileira viveu demissões em massa: o emprego no setor caiu de 33,8 mil em 1980 para 21,5 mil em 1985.

O Verolme tentou se adaptar. Em 1983 o controle passou do grupo holandês para investidores brasileiros, e o estaleiro buscou novas encomendas, inclusive militares e de plataformas. Em 1991, já em concordata, foi comprado pelo grupo do empresário Nelson Tanure, que controlava a Emaq; pouco depois o grupo assumiu também a Ishibras, e os estaleiros foram reunidos na Indústrias Verolme-Ishibras.

A abertura comercial dos anos 1990 e o fim das políticas setoriais completaram o quadro. Sem crédito de longo prazo, sem encomendas da Marinha Mercante e sem uma estratégia de exportação, o estaleiro parou em 1995, pela primeira vez em sua história. Ficou cerca de cinco anos desativado.

O efeito em Angra foi devastador. Anos depois, um secretário municipal resumiu o período dizendo que todo o comércio de Jacuecanga morreu: as lojas continuavam lá, mas não havia mais comércio. A cidade perdia, de uma vez, sua principal atividade econômica, sua maior fonte de salários industriais e boa parte da arrecadação.

O renascimento offshore, e uma nova queda

Em 2000 o estaleiro voltou à vida pelas mãos da Fels Setal, sociedade entre a Keppel Fels, de Cingapura, com 60%, e a Pem Setal, de São Paulo, com 40%. Ganhou o nome de BrasFELS, embora em Angra quase todo mundo continue chamando de Verolme. A ironia histórica é que o grupo de Cingapura acabou controlando também a antiga Verolme holandesa.

O renascimento veio pelo petróleo, não pelos navios. Com as políticas de conteúdo local e a expansão da Petrobras, o estaleiro passou a construir e integrar plataformas, módulos de FPSOs e sondas. Seguiu como um dos maiores do país, embora em 2008 o Atlântico Sul, em Ipojuca, tenha tomado o posto de maior.

O ciclo se repetiu em 2015. Com a Petrobras cortando investimentos e a Sete Brasil sem pagar pelas sondas encomendadas, o estaleiro anunciou cerca de 2 mil demissões. A prefeitura estimava cinco empregos indiretos para cada trabalhador naval, ou seja, ao menos 10 mil postos ameaçados na cidade. Os moradores mais velhos lembravam o fechamento dos anos 1990.

Hoje o estaleiro pertence à Seatrium, resultado da fusão entre a Keppel Offshore & Marine e a Sembcorp Marine em 2023. Trabalha em módulos de topside para FPSOs, como o do campo de Raia, operado pela Equinor, e para unidades da Petrobras na Bacia de Santos. É uma operação relevante, mas voltátil, que contrata e demite ao sabor das encomendas de petróleo.

O que a complexidade econômica nos ensina sobre o Verolme

A literatura de complexidade econômica, de Hausmann e Hidalgo, parte de uma ideia simples: a riqueza de um lugar é o conhecimento produtivo que ele acumula em pessoas, empresas e redes. Esse conhecimento é em grande parte tácito. Não cabe num manual, mora na cabeça de quem faz e na coordenação entre muitas equipes.

Um navio de 150 mil toneladas ou uma plataforma de petróleo é exatamente esse tipo de produto. Exige engenharia naval, solda especializada, caldeiraria pesada, sistemas elétricos e hidráulicos, planejamento de obra e uma cadeia de fornecedores funcionando junto. Poucos lugares do mundo conseguem reunir tudo isso. Angra conseguiu, e por isso o Verolme gerava o que eu chamo de empregos de qualidade.

Empregos de qualidade não são apenas empregos bem pagos. São empregos em atividades de alta produtividade, com rendimentos crescentes e aprendizado cumulativo, como diriam Kaldor e Erik Reinert. O soldador que aprende a soldar um casco aprende algo que serve para a próxima obra, para o fornecedor vizinho e para a indústria seguinte. A Escolinha da Verolme era uma máquina de produzir esse tipo de capacidade.

O problema é que capacidades tácitas também perecem. Cinco anos de portão fechado dispersam equipes, aposentam mestres, fecham fornecedores e interrompem a transmissão do ofício entre gerações. Quando o estaleiro reabriu, em 2000, voltou com outro produto, sob controle estrangeiro e dependente de um único cliente, o setor de petróleo.

O que sobrou para Angra? Turismo, royalties do petróleo, o terminal da Petrobras e as usinas nucleares. O turismo é importante e cresce: a cidade recebeu mais de 175 mil cruzeiristas na temporada 2025/2026. Mas, em geral, são empregos de serviços de baixa produtividade, sazonais e com pouco aprendizado acumulado. Royalties são renda, não capacidade produtiva, e as usinas empregam gente muito qualificada, mas em número pequeno.

A comparação com a Coreia do Sul é inevitável. A Hyundai abriu seu estaleiro em Ulsan no início dos anos 1970, mais de uma década depois do Verolme. Em 1979 o Brasil ainda estava à frente. A diferença é que a Coreia condicionou o apoio estatal à conquista de mercados externos, a reciprocidade de que falava Alice Amsden, e nunca desmontou o setor. O Brasil protegeu o mercado interno, dependeu de financiamento público e, quando esse dinheiro acabou, deixou o setor afundar.

A lição de Jacuecanga

A história do Verolme mostra que capacidades produtivas complexas levam décadas para ser construídas e poucos anos para ser destruídas. O Brasil chegou a ser o segundo maior construtor naval do mundo e, em menos de duas décadas, deixou o maior estaleiro do país de portão fechado. Nenhuma política de turismo ou de royalties devolve a uma cidade o que ela perde quando isso acontece.

A lição não é voltar ao modelo dos anos 1970, protegido e dependente de dinheiro público. É fazer política industrial com continuidade, metas de desempenho e disciplina exportadora, para que o setor não viva de ciclos de encomendas estatais. E é tratar o conhecimento acumulado num lugar como um ativo nacional, que merece ser preservado nas crises.

Angra ainda tem a baía, o estaleiro, a mão de obra e a memória industrial. Reparo naval, descomissionamento de plataformas e as novas cadeias da economia do mar são caminhos para usar essas capacidades em vez de deixá-las ociosas entre um contrato de petróleo e outro. Em Jacuecanga, o estaleiro ainda se chama Verolme na boca do povo. É uma lembrança de que a cidade já soube fazer coisas muito difíceis, e de que pode voltar a saber.


O Verolme nasceu com capital holandês. Começou a operar em Angra dos Reis em 1959 como Verolme Estaleiros Reunidos do Brasil, subsidiária do grupo do industrial Cornelis Verolme, dono do maior estaleiro da Holanda. Em 1983 os holandeses venderam a empresa para investidores brasileiros. Em 2000, depois de cinco anos parado, o estaleiro passou para as mãos do grupo Keppel Fels, de Cingapura, que, ironicamente, também acabou controlando a Verolme holandesa.

O estaleiro ainda funciona, mas com outro nome e outro produto. Desde a fusão da Keppel com a Sembcorp Marine, ele pertence à Seatrium. Foi chamado de BrasFELS por mais de duas décadas, embora em Angra quase todo mundo continue a chamá-lo de Verolme. Ocupa o mesmo terreno em Jacuecanga, mas já não constrói navios. Hoje fabrica módulos de plataformas de petróleo do tipo FPSO.

Os projetos recentes mostram o novo perfil. Parte dos módulos da P-78, da Petrobras, foi feita em Angra antes de a plataforma seguir para o campo de Búzios. O estaleiro também trabalha nos módulos de outro FPSO da Petrobras para a Bacia de Santos e no FPSO do campo de Raia, operado pela Equinor. A Seatrium diz ser a maior empregadora de Angra, mas não divulga quantas pessoas trabalham só nessa unidade.

Fontes

Verolme: o estaleiro que ensinou Angra dos Reis a fazer navios — e o que perdemos quando ele afundou – Paulo Gala / Economia & Finanças

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