Inovar, digitalizar e reduzir o impacto ambiental formam uma ‘tríade competitiva’
João Carlos Ferraz – Valor – 26/10/2026
Sete em cada dez empresas industriais brasileiras com 100 ou mais pessoas ocupadas inovam. Quase nove em cada dez usam alguma tecnologia digital avançada. Cerca de três quartos têm gastos com proteção ambiental. Os números sugerem uma indústria em transformação, mas um dado muda a leitura: apenas três em cada cem apresentam desempenho elevado nas três frentes ao mesmo tempo.
A evidência é convergente em dez informes produzidos por especialistas de oito instituições de pesquisa, a partir da Pintec Semestral, iniciativa realizada por IBGE, ABDI e UFRJ. Entre 2022 e 2025, sete rodadas de pesquisas de campo investigaram os esforços em inovação, digitalização e práticas ambientais de empresas industriais com mais de 100 empregados. Elas são responsáveis por mais de 60% do pessoal ocupado, mais de 85% da receita líquida de vendas e mais de 90% do dispêndio empresarial em P&D no país. A Pintec Semestral apresenta evidência de qualidade e muito recente sobre práticas decisivas para a competitividade empresarial.
Inovar, digitalizar e reduzir o impacto ambiental deixaram de ser agendas independentes. Formam uma “tríade competitiva”: tecnologias digitais ampliam a capacidade de inovar; inovações de processo reduzem o consumo de energia, água e matérias-primas; exigências ambientais de clientes e reguladores estimulam novas soluções. Quem avança em uma frente encontra melhores condições para avançar nas outras. Quem fica para trás acumula desvantagens.
O problema é que a adoção é ampla, mas rasa. Na inovação, houve avanços: a parcela de empresas com P&D interno subiu de 24%, em 2017, para 34%, em 2021, e a das que cooperam para inovar, de 29% para 42%. Mas só cerca de 15% introduzem algo inédito no mercado nacional ou mundial, e os gastos em P&D seguem concentrados em poucas grandes empresas. Predominam esforços localizados que buscam melhorias incrementais, não liderança tecnológica.
Na digitalização, chama atenção o salto da inteligência artificial: em dois anos, sua adoção passou de 17% para 42% das empresas, mas sobretudo nas áreas administrativas e comerciais, não no chão de fábrica. E apenas 5% usam as seis tecnologias pesquisadas (big data, nuvem, IA, internet das coisas, manufatura aditiva e robótica). É a combinação que faz diferença: quem integra as seis tem probabilidade significativamente maior de inovar; o uso isolado de uma tecnologia não tem efeito significativo.
Mais de 70% das empresas realizam dispêndios em práticas ambientais. E mais de 40% possuem planos estruturados em algum dos seis temas investigados (entre eles gestão de resíduos sólidos, emissões, reciclagem e uso). Entre as menos engajadas, sobretudo as de 100 a 249 pessoas ocupadas, quase 40% não realiza nenhum dispêndio. O principal motor é o cumprimento da legislação.
Três resultados de síntese merecem atenção. Primeiro, o porte pesa mais do que o setor: numa mesma indústria convivem empresas muito digitalizadas e outras quase analógicas. Segundo, crescer ou ganhar mercado recentemente não leva uma empresa ao grupo líder; contam as capacidades acumuladas e a estratégia. Terceiro, quem já faz tende a fazer mais: é muito mais fácil ampliar o P&D de quem já investe do que levar outras a começar. As retardatárias enfrentam custos altos, falta de pessoal qualificado e dificuldades de integração – e muitas nem percebem benefícios que justifiquem o investimento.
Não há razão, portanto, para esperar que a distância entre líderes e retardatárias se feche sozinha. Ela pode aumentar.
O apoio público está associado a melhores resultados na inovação, mesmo entre empresas semelhantes em porte, setor, origem do capital e salários. Mas a direção dos instrumentos varia: financiamento e subvenção ligam-se a inovações novas para o mercado mundial; o uso de incentivos fiscais, a inovações para a empresa ou para o mercado brasileiro. A ação pública, porém, alcança um universo limitado de empresas.
E, prospectivamente, as escolhas de política são difíceis: priorizar as empresas mais atrasadas, fortalecer o segmento intermediário ou concentrar recursos nas de fronteira? Como tornar visíveis as empresas “invisíveis”, que dificilmente acessam os instrumentos públicos? Como desenhar instrumentos que reconheçam e ampliem capacidades em diferentes estágios, sem perder de vista os recursos disponíveis e a avaliação de resultados?
Mas a agenda não é só pública. A posição de cada empresa na tríade é decidida em conselhos e diretorias. Inovação é investimento de longo prazo ou despesa a cortar na primeira crise? Digitalização é projeto de TI ou mudança no modelo de negócio? A agenda ambiental é custo de conformidade ou fonte de vantagem competitiva?
As evidências sugerem cinco temas a serem considerados em estratégias empresariais voltadas à tríade. O primeiro é a integração: tratar inovação, digitalização e práticas ambientais como uma agenda única, com governança e metas na alta direção, já que os ganhos vêm da combinação. O segundo é a profundidade: levar as tecnologias digitais, a começar pela IA, do escritório ao chão de fábrica e conectá-las entre funções, além de dar ao P&D orçamento estável, e não eventual. O terceiro são as pessoas: formar e reter equipes qualificadas, condição para integrar sistemas e absorver conhecimento externo. O quarto é a cooperação com universidades, centros de pesquisa, fornecedores e startups – empresas que cooperam investem, em média, seis vezes mais em P&D -, e as grandes podem levar suas cadeias de fornecedores junto. O quinto é a ambição: ir além da imitação e da mera conformidade, mirando inovações novas para o mercado e enxergando nas exigências ambientais oportunidades de negócio.
A Pintec Semestral mostra que competitividade industrial é um jogo de capacidades combinadas. O Brasil tem muitos jogadores, mas poucos craques: só 3 em cada 100 empresas brilham nas três posições. E a mobilização de craques não se faz só em Brasília. A política pode reduzir custos e riscos, mas não substitui a decisão de investir. Para o país, se nada mudar, as novas fronteiras tecnológicas e ambientais não corrigirão a velha heterogeneidade da indústria brasileira; podem reproduzi-la em outro patamar. A tríade competitiva não é uma agenda entre outras. É o critério pelo qual cada empresa industrial brasileira será julgada nos próximos anos por clientes, concorrentes e investidores.
João Carlos Ferraz é professor do Instituto de Economia da UFRJ, foi diretor e vice-presidente do BNDES (2007-2016) e diretor da Cepal/ONU (2003-2007).
https://valor.globo.com/opiniao/coluna/novas-fronteiras-velhos-desafios.ghtml
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