Uma abordagem europeia deve enfatizar a adoção e difusão da inovação
Dani Rodrik – Valor – 14/10/2026
A Europa enfrenta uma crise de produtividade. Ao longo do último quarto de século, sua produtividade do trabalho cresceu apenas metade do ritmo observado nos EUA, ampliando a diferença entre rendimentos americanos e europeus. Graças a gastos públicos mais elevados, instituições do mercado de trabalho mais sólidas e redes de proteção social superiores, os benefícios do crescimento econômico europeu são melhor distribuídos. Mas, sem uma produtividade aprimorada, as economias e democracias europeias continuarão em risco.
É por isso que os líderes europeus vêm soando o alarme. Mario Draghi, ex-presidente do Banco Central Europeu e autor do relatório de 2024 sobre a competitividade europeia, vê a produtividade como um desafio existencial. Ele e outros importantes líderes empresariais e acadêmicos europeus se reuniram recentemente para formar o Grupo do Reno, cujo site lamenta que “das 50 maiores empresas de tecnologia do mundo, só quatro são europeias”.
A Europa está espremida entre EUA e China. Os EUA podem ter uma vantagem mínima sobre a China em IA e outras tecnologias de ponta, mas a China está diminuindo essa diferença. Ela já é a principal fonte mundial de pedidos internacional de patentes, sua participação aumentou de 3% para 33% entre 2000 e 2022, enquanto a da UE caiu de 30% para 16%.
Não surpreende que grande parte do debate europeu gire em torno da necessidade de imitar e alcançar as duas superpotências tecnológicas. Mas nem EUA nem China oferecem um modelo relevante ou atraente para a Europa.
É verdade que o modelo de inovação do Vale do Silício, com sua dependência de um vasto leque de capital de risco e fortes vínculos com a pesquisa acadêmica, tem muitos pontos positivos. É responsável pela maioria das principais inovações da era digital. Mas não consegue difundir de modo adequado os benefícios da inovação por toda a economia, que é o que importa para a produtividade geral. A inovação não gera automaticamente aumento de produtividade, a menos que eleve as capacidades de amplos segmentos da sociedade, incluindo trabalhadores e pequenas empresas. É por isso que períodos de inovação não necessariamente se correlacionam com surtos de produtividade.
Dada a liderança dos EUA e da China em IA e outras inovações, grande parte do debate na Europa gira em torno de emular essas duas superpotências tecnológicas. Mas nem os EUA, nem a China, oferecem um modelo relevante ou atraente para a Europa
Nos EUA, houve uma desaceleração no crescimento da produtividade do trabalho após os choques do petróleo dos anos 1970, apesar do início da era digital e da computação em massa na década de 1980. A década anterior à pandemia de covid-19 registrou a menor taxa de crescimento da produtividade nos EUA desde o fim da Segunda Guerra Mundial, embora não tenha havido desaceleração na inovação. Essas deficiências também não se limitam aos números macroeconômicos. O modelo americano gerou alta concentração de riqueza e poder econômico, o que está na raiz da disfunção política e da polarização dos EUA.
O crescimento da produtividade da China, por sua vez, continua dependente do setor industrial. A China lidera em máquinas elétricas, eletrônicos, produtos solares, veículos elétricos e baterias. Mas, embora seja verdade que a indústria manufatureira tenha sido fundamental tanto para a inovação quanto para a geração de empregos, ela terá um papel menor no futuro da Europa. Os empregos e a atividade econômica europeus já estão em grande medida concentrados nos serviços, e continuarão assim. Seria um erro tentar imitar as políticas da China para reanimar a indústria transformadora europeia, a não ser por razões de segurança nacional.
Aumentar a produtividade no setor de serviços apresenta desafio político muito diferente. A Europa não pode e não deve competir com EUA e China nos termos deles. Ela tem de desenvolver seu próprio modelo produtivista. A chave para impulsionar a produtividade europeia estará na implantação e disseminação de inovações tecnológicas e organizacionais por toda a economia, independentemente de onde a inovação seja gerada.
Pegue-se alguns exemplos. A telefonia celular e os telefones portáteis foram desenvolvidos nos EUA. Mas a Europa ficou bem à frente dos EUA na adoção em massa e estabeleceu o padrão do Sistema Global para Comunicações Móveis (GSM), o que ajudou empresas europeias como Nokia e Ericsson a dominar os mercados globais até que os smartphones assumissem o controle. De modo semelhante, os reatores nucleares foram desenvolvidos nos EUA e no Reino Unido, mas foi a França que transformou-os numa fonte predominante de geração de eletricidade. Os robôs industriais e as máquinas de controle numérico foram desenvolvidos nos EUA, mas foi na Alemanha (e no Japão) que as fábricas os utilizaram com maior eficácia.
A Europa não conseguiu transformar sua vantagem inicial na tecnologia de celulares em sucesso comercial no segmento de smartphones. A holandesa ASML é líder global em máquinas de fotolitografia, mas a Europa está muito atrás no mercado global de US$ 1 trilhão de chips semicondutores que essas máquinas produzem.
ocar nos resultados a jusante da inovação abre uma nova perspectiva sobre o desafio de produtividade da Europa. Isso sugere um enfoque um tanto diferente das preocupações atuais com startups, grandes empresas de tecnologia, integração do mercado de capitais e competitividade global. Conforme mostra um relatório recente da UE, os gargalos – financiamento, escala, regulamentações, mudanças organizacionais – variam conforme as atividades e não podem ser presumidos ex ante. As soluções de que a Europa precisa têm mais a ver com políticas “industriais” baseadas na colaboração público-privada, que identifiquem e eliminem as restrições que impedem a implantação eficaz em fluxos tecnológicos específicos.
Em vez de enfatizar a inovação em si, uma abordagem distintamente europeia enfatizaria a adoção e difusão. A implantação de inovações organizacionais e tecnológicas será especialmente importante em setores como varejo, trabalho temporário, hotelaria e cuidados, onde estará a maior parte dos empregos. Como a maioria dessas atividades não está exposta à economia internacional, a competitividade é uma perspectiva inadequada para formular as políticas necessárias.
O atraso da Europa em IA levanta questões difíceis, mas não altera a natureza da solução. O investimento em centros de dados e capacidade computacional é extremamente oneroso, e a maior parte dos ganhos será gerada por meio do uso da IA, o que pode ocorrer em qualquer lugar com acesso à nuvem. Por questões de segurança nacional, a Europa talvez queira evitar uma dependência excessiva dos EUA (ou da China). Mas, desde que os usuários de IA não fiquem isolados dos centros de dados, os ganhos de produtividade dependerão menos da localização da capacidade computacional do que da implantação adequada da IA.
Por último, mas não menos importante, a disseminação a jusante tem a vantagem de ser mais consistente com o próprio modelo europeu de economia social de mercado. Ao contrário dos EUA, a abordagem europeia deve ter como objetivo pôr a tecnologia a serviço das pessoas, e não o contrário. (Tradução de Fabrício Moreira)
Dani Rodrik, professor de economia política internacional na Harvard Kennedy School, é ex-presidente da Associação Econômica Internacional. Copyright: Project Syndicate, 2026. http://www.project-syndicate.org
https://valor.globo.com/opiniao/coluna/europa-precisa-olhar-alem-de-eua-e-china.ghtml
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