O Brasil negocia em três fusos, como fornecedor global de alimentos, ração e bioenergia


Estados Unidos, China e Europa querem coisas diferentes do agro brasileiro e decidem em horizontes diferentes; negociar com eles exige entender as duas coisas

Por Marcello Brito – Estadão – 09/10/2026

Entre 23 e 25 de setembro, Xi Jinping fez visita de Estado a Washington. A trégua tarifária entre as duas potências foi prorrogada por apenas dois meses, até 10 de janeiro, sem novos compromissos de compra de soja americana. Num passeio pela Casa Branca, Donald Trump mostrou a Xi a assinatura automática de seu antecessor e brincou que não o reconhecia.

O líder chinês riu. Tinha motivo: acabava de ver, numa única cena, um presidente que decide por decreto e renova tréguas de dois em dois meses, e um sistema que projeta a agricultura do próprio país até 2035. Saiu de Washington com a confirmação de que a política americana é dividida e de curto prazo, e sem nada que reduzisse o espaço do Brasil como fornecedor.

Para quem pensa o agro brasileiro, a lição é dupla. Interesses dizem o que cada potência quer do Brasil. O estilo de liderança diz por quanto tempo ela vai querer, e com que grau de previsibilidade. Examinei projeções oficiais, documentos de governo e estudos técnicos dos Estados Unidos, da China e de quatro países europeus. Todos concordam que o Brasil será o maior fornecedor marginal de alimentos, ração e bioenergia do mundo. Cada um opera, porém, num fuso próprio.

Nos documentos chineses, o Brasil aparece como terra arável externa. Em 2024, o que a China importou do País equivaleu a cerca de 45 milhões de hectares de terra cultivada virtual, quase metade de toda a área que ela usa fora de suas fronteiras.

A liderança chinesa decidiu administrar essa dependência como administrou a industrialização: com metas, prazos e Estado. O 15º Plano Quinquenal fixa autossuficiência de 85% em sementes, e a projeção oficial do Ministério da Agricultura prevê importações de soja caindo de 111,8 milhões de toneladas em 2025 para 82,6 milhões em 2035.

Analistas nacionais e internacionais duvidam do ritmo. Mas Pequim persegue metas longas com persistência, ainda que as cumpra com atraso, e combina redução de dependência com aumento de controle.

A COFCO opera em Santos um terminal para até 14 milhões de toneladas por ano; um instituto ferroviário chinês estuda o Corredor Bioceânico até Chancay; e uma missão da Academia Chinesa de Ciências Agrícolas identificou o elo que falta à China na cadeia brasileira: a genética, hoje dominada por patentes americanas.

Com um interlocutor assim, acordos longos são possíveis, desde que escritos no plano, não na cota. A cota de carne bovina com tarifa reduzida esgotou-se este ano, e a tarifa sobre o excedente saltou para 67%. Pequim cumpre o que planeja e usa o que não planejou. A agenda brasileira, portanto, deve mirar o plano. E o plano chinês tem um buraco que só o Brasil preenche com facilidade: a genética tropical.

Cooperação em melhoramento e bioinsumos é o que Pequim mais quer e o que o Brasil tem de mais escasso para oferecer. É a moeda para obter, em troca, acesso de terceiros à logística financiada com capital chinês, abertura para proteína processada em vez de grão e reconhecimento de protocolos brasileiros de rastreabilidade.

O compromisso de um importador chinês de comprar 50 mil toneladas de carne certificada livre de desmatamento, com prêmio de 5% a 10%, mostra que esse último item já entrou no horizonte.

Washington opera no fuso oposto.

Para os Estados Unidos, o Brasil é ao mesmo tempo o principal concorrente em grãos, algodão e etanol e um fornecedor do que falta ao mercado americano. Em 2025, as exportações agrícolas americanas somaram US$ 171 bilhões; as brasileiras, US$ 169,2 bilhões. As projeções oficiais americanas até 2035 preveem crescimento de apenas cerca de 7% nas exportações de soja do país, num mercado em que a concorrência brasileira limita os ganhos americanos.

A tarifa de 25% aplicada em julho, com base na Seção 301, atingiu açúcar, etanol e sebo e isentou carne bovina, café e suco: tarifa onde se compete, isenção onde se depende, e a lista pode mudar por decreto. Para o produtor americano, isso significa incerteza permanente; não por acaso, as entidades de soja receberam a última prorrogação da trégua com frustração.

Há, porém, uma camada mais estável sob o estilo pessoal. Pela primeira vez, uma ação comercial americana contra o Brasil incluiu o desmatamento ilegal entre seus fundamentos formais. Esse argumento une em Washington o lobby agrícola e o ambiental, e coalizões assim sobrevivem a presidentes. O mandato atual termina em janeiro de 2029; o argumento provavelmente não.

Com Washington, a estratégia deve ter dois tempos. No curto prazo, acordos setoriais rápidos onde o interesse americano é evidente: carne, café e suco, por causa do preço ao consumidor, e etanol, que o próprio USTR colocou na mesa. No médio prazo, canais técnicos que sobrevivam a trocas de governo: cooperação em padrões de biocombustíveis, terreno em que os dois países são os maiores produtores de etanol do mundo, e um diálogo sobre comprovação de origem que retire do argumento ambiental seu uso comercial.

A Europa opera num terceiro fuso, e a regra dele cabe numa frase: lideranças frágeis delegam às instituições.

Nenhum dos quatro países examinados é governado por uma liderança forte e desimpedida. Na Alemanha, Friedrich Merz chefia uma coalizão e trata a oposição de seus agricultores ao acordo com o Mercosul como custo político administrável, em nome da indústria de máquinas e química; o governo fala em dobrar o comércio com o Brasil.

Na França, um Executivo sem maioria, a caminho da eleição presidencial de 2027, já enfrentou moções de censura motivadas pelo próprio acordo; a agricultura funciona ali como poder de veto.

Na Holanda, porta de entrada da soja europeia, um governo minoritário liderado por Rob Jetten lida com um debate que migrou da sustentabilidade para a segurança de abastecimento.

No Reino Unido, Andy Burnham assumiu em julho herdando uma parceria estratégica com o Brasil que prevê até 5,4 bilhões de libras em garantias de crédito à exportação, mas nenhum acordo de livre-comércio.

Por isso o padrão europeu é definido menos por chefes de governo do que por Bruxelas, por institutos técnicos e por compradores privados. O acordo com o Mercosul está em aplicação provisória desde maio, embora o Parlamento Europeu o tenha enviado ao Tribunal de Justiça.

A lei europeia contra o desmatamento começa a valer em 30 de dezembro. E, quando a Moratória da Soja perdeu força no Brasil, os grandes varejistas britânicos e europeus avisaram que avaliariam cada trading individualmente.

A consequência prática é que, quanto mais frágil o governo, mais técnica deve ser a pauta. Com Berlim, transformar a aliança industrial que sustentou o acordo em investimento em processamento no Brasil.

Com Paris, equivalência sanitária, que um governo sem maioria pode aceitar sem custo político. Com Bruxelas, reconhecimento de sistemas nacionais de rastreabilidade como equivalentes às exigências da nova lei. Haia e Londres entram por contratos de longo prazo e crédito à exportação, respectivamente; são portas, não mesas.

Junte as três leituras, e surge o retrato da nova estrutura geopolítica. A China quer segurança de suprimento com controle da cadeia, e pensa em décadas. Os Estados Unidos querem competir onde podem e comprar onde precisam, e pensam em trimestres. A Europa quer acesso condicionado a um padrão que ela própria define, e pensa em ciclos legislativos.

O Brasil é indispensável aos três e não está preso a nenhum. Numa ordem transacional, isso é uma vantagem, desde que exercida com método. O erro seria negociar com todos no mesmo fuso: oferecer a Washington compromissos longos que o próximo governo não honrará, aceitar de Pequim acordos curtos quando ela está disposta a acordos estruturais, ou esperar de Bruxelas a rapidez de um decreto. O Executivo brasileiro, por sua vez, negocia em ciclos de quatro anos e com uma pauta externa que muda a cada ministro; não é o fuso de nenhum dos três.

Resta saber se o Congresso está calibrado para esse jogo. A Frente Parlamentar da Agropecuária saiu das urnas de outubro mais forte: as projeções indicam cerca de 330 deputados e 50 a 55 senadores a partir de 2027, perto de dois terços da Câmara. Raramente um setor teve tanto peso legislativo num momento em que tanto do seu futuro se decide fora do País.

As prioridades anunciadas, porém, são domésticas: dívida rural, crédito, seguro, licenciamento. Os incentivos explicam a escolha: o voto vem do crédito que chega ao interior, não de um acordo de equivalência sanitária em Bruxelas.

A pergunta é se uma bancada desse tamanho usará seu poder para dar ao Estado o método que os três fusos exigem, com diplomacia sanitária, padrões de rastreabilidade, sustentabilidade e uma agenda própria para cada potência, ou se continuará olhando apenas para dentro enquanto as regras que vão definir o setor nas próximas décadas são escritas em Pequim, Washington e Bruxelas.

Opinião por Marcello Brito

Engenheiro de alimentos, professor e diretor do FDC Agroambiental

O Brasil negocia em três fusos, como fornecedor global de alimentos, ração e bioenergia – Estadão 

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