Prioridade estratégica para empresas no mundo todo, o comércio agêntico pode movimentar US$ 1,7 trilhão até 2030; no Brasil, Magazine Luiza e Visa iniciam testes
Por Patrícia Basilio – Época Negócios – 10/03/2026
Ir às compras deixou de ser uma tarefa exclusivamente humana. Com o avanço da tecnologia no varejo — tema destacado na NRF 2026, realizada em janeiro em Nova York (EUA) —, os agentes de inteligência artificial também devem realizar essa tarefa a partir de agora.
Como funciona? Na prática, o robôs pesquisam preços, monitoram promoções, avaliam o momento ideal para fechar o negócio e, quando encontram uma oferta dentro dos critérios definidos pelo consumidor, concluem a compra automaticamente.
Pesquisa realizada pela fintech Adyen aponta que 56% dos varejistas brasileiros classificam o comércio agêntico como prioridade estratégica e planejam lançar jornadas de compra autônomas em até um ano. O motivo é claro: os brasileiros são entusiastas de tecnologia. O levantamento mostra que 70% dos consumidores permitiriam que a IA cuidasse de todo o processo de compra, inclusive do pagamento final. Estudo da consultoria norte-americana Edgar, Dunn & Company estima que o comércio agêntico global poderá movimentar US$ 1,7 trilhão até 2030.
O Magazine Luiza foi o primeiro varejista brasileiro a operar agentes de inteligência artificial. A empresa lançou a tecnologia em novembro do ano passado, inicialmente em fase beta, e depois ampliou o serviço para sua base de 30 milhões de clientes por meio do WhatsApp. Para aproximar o público da novidade, a varejista utiliza a Lu como articuladora da conversa.
É ela quem divulga ofertas aos clientes com base em produtos vendidos tanto pelo próprio Magalu quanto por vendedores do marketplace. A interação com a influenciadora virtual pode ocorrer por texto, voz e imagens, e o pagamento, por Pix ou cartão de crédito, é feito dentro do próprio chat.
Humanização das transações
“Ao longo desses 20 anos, a Lu evoluiu junto com a tecnologia. Ao integrar o WhatsApp à personagem, que tem uma relação de grande confiança com os consumidores, vimos a oportunidade de criar um canal importante de comunicação e trazer mais calor humano para essa interação”, afirma Ricardo Querino, diretor de experiência e relacionamento com cliente do Magalu.
A segurança é um desafio quando novas tecnologias envolvem transações financeiras. Para garantir a confiança dos clientes, a varejista garante que as conversas com a Lu pelo WhatsApp são criptografadas e exige que o usuário aceite um termo de consentimento para o uso da IA. Além disso, o número de telefone deve corresponder ao cadastrado na conta do Magalu.
A preocupação com segurança e governança também tem orientado iniciativas de grandes empresas do setor de pagamentos. A Visa, por exemplo, lançou no Brasil há um ano a plataforma Visa Intelligent Commerce, desenvolvida em parceria com Microsoft, OpenAI, IBM, Samsung, Stripe, Anthropic, Mistral AI e Perplexity. A tecnologia está sendo implementada em duas etapas. Na primeira, já em prática, o chatbot pesquisa produtos e compara preços de acordo com o perfil de consumo do usuário, mas o pagamento ainda é realizado pelo próprio cliente.
Na etapa seguinte, que deve se consolidar entre o fim deste ano e o início de 2027, a própria IA poderá concluir a compra de forma autônoma — desde que autorizada — ao encontrar um produto ou serviço dentro dos parâmetros definidos pelo consumidor.
“Estamos desenvolvendo a tecnologia de segurança necessária para que, em breve, os agentes possam finalizar compras de forma autônoma. Um exemplo é a busca por passagens aéreas: o robô monitora os preços e realiza a compra quando encontra uma oferta viável. Para isso, o consumidor poderá deixar previamente configurada uma autorização ou um limite de valor para pagamento”, diz o executivo.
Diversidade de canais
Na avaliação de Renato Migliacci, vice-presidente de vendas da Adyen Brasil, os agentes de IA irão conviver com os canais tradicionais do comércio. “Os agentes de e-commerce são um novo canal de venda, não o fim dos antigos. O varejo físico não vai acabar”, afirma o especialista.
Uma das primeiras empresas do mundo a integrar sua carteira digital ao ChatGPT, o PayPal estuda trazer ao Brasil seu projeto completo de comércio agêntico — modelo em que o usuário recebe ofertas e pode concluir transações automaticamente por meio de um robô.
Segundo Brunno Saura, diretor-geral de vendas do PayPal no Brasil, o país é um mercado estratégico para a empresa expandir sua atuação na América Latina e testar novas tecnologias. Ainda não há uma data definida para o lançamento do serviço no Brasil, mas a companhia já está em busca de parceiros.
“O varejo vai passar por uma grande transformação. Os vendedores agora terão que alimentar a IA para posicionar bem um produto nas buscas. O desafio será como se comunicar melhor com o consumidor e vender mais via bot”, diz Saura.
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