O sucesso internacional da Embraer e a transferência de tecnologia de caças da Saab foram possíveis graças a engenheiros formados pela instituição de São José de Campos que agora chega ao Ceará
Por Carlos Eduardo Valim – Estadão – 27/09/2026
O dia 28 de agosto marcou o primeiro voo do jato Gripen F, decolando do aeródromo da Saab em Linköping, na Suécia. Mais de 350 engenheiros, técnicos e pilotos brasileiros participaram do desenvolvimento do modelo, uma parceria entre o Brasil e o país nórdico, por meio de programa de transferência de tecnologia.
Ao mesmo tempo, a brasileira Embraer tem sido vista como uma potencial protagonista no próximo ciclo tecnológico da indústria aeronáutica mundial. Com uma carteira de pedidos recorde de cerca de US$ 34,5 bilhões, é considerada por analistas globais do setor ter a capacidade de fabricar aeronaves de maior porte e desafiar as gigantes Boeing e Airbus, que enfrentam longas filas de espera e atrasos operacionais.
Esses dois fatos recentes se unem e mostram que o setor aeronáutico brasileiros vive um momento especial. Eles só se tornaram possíveis por conta da existência do Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), ligado à Força Aérea Brasileira (FAB), idealizado em uma comissão estabelecida em 1945 e fundado em 1950, em São José dos Campos, no Vale do Paraíba.
Com investimentos federais e estaduais, o novo campus do ITA fortalece o protagonismo educacional do Ceará e conecta a formação de engenheiros às demandas contemporâneas, como energia renovável e sistemas tecnológicos Foto: Governo do Ceará/Divulgação
“Não é qualquer país que teria 200 engenheiros formados capazes de serem exportados para aprender por dois anos na Suécia como fazer um caça de última geração, com muita tecnologia embarcada, voltar, internalizar o conhecimento e montar um avião. Só as grandes potências e o Brasil podem. Nenhum outro da América Latina seria capaz de fazer essa transferência de tecnologia”, afirma o presidente do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT), Anderson Correia, ex-reitor do ITA.
‘Tecnologia se conquista’
A filosofia que tornou isso possível foi expressa, por exemplo, em uma entrevista concedida nos anos 1980 para a revista Veja pelo então reitor Tércio Pacitti, o único militar entre os 23 reitores da história da instituição: “Tecnologia se conquista”.
Por sete décadas e meia, o ITA formou engenheiros que permitiram não só apenas tornar o Brasil um competidor mundial no setor de aviões, como também capazes de contribuir para diversos outros setores relevantes e áreas de conhecimento avançado. Cerca de 9 mil deles saíram de suas salas de aulas, entre as mais concorridas do País.
Entre os seus expoentes de diversas outras áreas de conhecimento, estão o engenheiro e físico Rogério Cerqueira Leite, fundamental para a criação do Centro Nacional de Pesquisas em Energia e Materiais (CNPEM), e Anderson Soares, fundador Centro de Excelência em Inteligência Artificial (Ceia), o principal dessa área no País. E até Silvio Meira, um dos criadores do Porto Digital, tema do primeiro exemplo dessa série de reportagens publicada por Estadão, veio das fileiras do ITA, da turma de 1977.
O ITA fecha esta série, que também contou a história da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Por conta do período de defeso eleitoral, a instituição, que responde à FAB, declinou de conceder entrevista de seus porta-vozes ou dar acesso para filmagens em suas instalações. Mas a trajetória de seus principais personagens e seus marcos históricos têm sido contados, ao longo dos anos, por diversas testemunhas e por livros.
O escritor Fernando Morais, autor de biografias conhecidas sobre a militante Olga Benário, o jornalista e empresário Assis Chateaubriand e o escritor Paulo Coelho, além de uma trilogia sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, publicou há 20 anos Montenegro – As Aventuras do Marechal que fez a Revolução nos Céus do Brasil, um livro com a história de Casimiro Montenegro Filho, o marechal Montenegro, idealizador da instituição. A obra deve virar minissérie de TV, o que promete divulgar ainda mais os seus feitos.
Pioneiro da aviação brasileira, Montenegro participou da Revolução de 1930, esteve entre os militares da criação do Ministério da Aeronáutica e da FAB em 1941, e lutou de 1945 a 1950 para criar o ITA, o que exigiu muita dedicação, desavenças e convencimento frente ao presidente da República, ministros e integrantes das Forças Armadas.
Origem do ITA
Já na década de 1910, Santos Dumont visitou os EUA e viu uma fábrica produzindo 10 aviões ao mesmo tempo. A sua invenção estava virando bem industrial, e ele escreveu no seu diário que o Brasil deveria ter uma escola aérea, e que deveria ficar ao longo da Central do Brasil, com sugestão da região de Mogi das Cruzes (SP). A ideia era que todos morassem e estudassem no mesmo local.
Mas o plano nunca foi levado à frente, até os anos 1940, quando Montenegro também rumou para os EUA. Ele deveria ir para a Universidade de Dayton, em Ohio, mas foi convidado para conhecer o Massachusetts Institute of Technlogy (MIT) e decidiu que o Brasil deveria ter algo parecido, capaz de contribuir para a sociedade brasileira e dialogar com a iniciativa privada. Convenceu o professor Richard Smith a vir morar no Brasil e ser o primeiro reitor da instituição.
Em 1945, Smith proferiu uma famosa e premonitória palestra, no Ministério da Educação, no Rio de Janeiro, chamada “Brasil – Futura Potência Aérea”. Ele defendia que, no pós-guerra, o Brasil não deveria importar aviões nem de graça. O plano Smith contemplava não só criar o ITA, mas também o Centro Técnico Aeroespacial (CTA). E ele falava até que o Brasil deveria fabricar cargueiros, o que só se tornou realidade no novo milênio, com o KC-390.
“O fato de o Brasil fabricar aviões e o surgimento da Embraer não foram obra de acaso. Houve uma orquestração, passo a passo, quase como um plano quinquenal ou um plano chinês”, diz Correia. “Quando contamos a história de forma romântica pensamos apenas nos heróis do ITA e da Embraer. Eles existiram, sim, mas houve antes um plano-mestre até chegar nos primeiros aviões da Embraer.”
Aulas mais em inglês do que em português
Durante duas décadas, os cinco primeiros reitores do ITA foram estrangeiros, ao mesmo tempo que Montenegro acompanhava todo esse início de história, de major até se tornar marechal. Por anos, as aulas eram mais ministradas em inglês do que em português.
“O ITA devia ser o local mais internacional e cosmopolita do Brasil na época, com pessoas de mais de 20 países morando juntas”, diz Correia. A mulher de Montenegro era grande apreciadora das artes, e o marechal garantiu que fossem erguidos teatro e cinema no local. Os professores e engenheiros trazidos da Europa e EUA para viver no ITA chegavam com grande bagagem cultural, contribuindo para as rodas de conversas.
Diferentemente de outras instituições de ensino ligadas aos militares, o ITA também sempre manteve um forte caráter civil. Isso tinha relação a uma cultura desenvolvida por homens que eram civis. O primeiro ministro da Aeronáutica, Joaquim Pedro Salgado Filho, fundamental na criação da FAB, era civil.
O projeto do avião Bandeirante, na década de 1960, foi tocado no CTA por Ozires Silva, formando do ITA que seria o fundador da Embraer Foto: Divulgação
Afinal, a aviação era na época uma novidade, e até mesmo Santos Dumont foi um civil. Com essa cultura, no ITA, os professores civis sempre moraram e conviveram com os militares. Os engenheiros que eram importados da Europa para fazer a transferência de tecnologia para aviões que seriam construídos pela Embraer também viviam nos mesmos alojamentos.
Uma cultura particular
Uma das exigências trazidas por Smith quando chegou ao País era a de criar uma cultura diferente do ensino local. Se o jeitinho brasileiro fazia as instituições olhar de lado para pequenos desvios de seus alunos, a cola no ITA se tornou mais do que um tabu. Criou-se um código de ética em que alunos e professores não tolerassem cópias de trabalhos e provas entre os alunos. O trabalho duro seria recompensado.
Afinal, só assim, se poderia chegar aos projetos de aviões fabricados localmente. Isso aconteceria por meio do projeto do avião Bandeirante, na década de 1960, tocado no CTA por Ozires Silva, formando do ITA que seria o fundador da Embraer. O trabalho envolveu cerca de 300 pessoas e incluiu até um planador, pronto antes, o Urupema.
“Apesar de todas as dificuldades, Ozires contou com uma equipe muito boa e também deu sorte de receber o apoio de militares de alta patente da época”, diz Manoel de Oliveira. Vice-presidente da Embraer na época da privatização da empresa, nos anos 1990, ele trabalhou com Ozires por 50 anos, desde o período no CTA, em 1969.
“Até a apresentação do Bandeirante ao presidente Costa e Silva aconteceu por sorte, por que ele iria para uma solenidade no Vale do Paraíba, num domingo, mas não pôde pousar no local planejado na escola de Guará e rumou para São José dos Campos.” Ozires orientou que o avião pousasse, então, de frente ao hangar onde estava o protótipo do Bandeirante, à vista do presidente. Isso permitiu que a Embraer fosse criada logo em seguida.
Ozires a bordo de um avião da primeira geração dos E-Jets Foto: Embraer/Divulgação
Hoje, a Embraer é a fabricante com aviões que mais fazem voos dentro dos EUA. No Aeroporto de LaGuardia, em Nova York, o maior para voos regionais do país, eles representam um terço de toda a frota que trafega por ali.
Um ITA na terra de Montenegro
Agora, toda a cultura desenvolvida em São José dos Campos em torno do ITA está chegando ao Ceará, Estado de nascimento de Montenegro. Em janeiro, foi colocada a pedra fundamental do futuro campus da instituição, que ocupará a Base Aérea de Fortaleza, hoje parcialmente desativada.
O projeto custará R$ 400 milhões. Mas, diferentemente do ITA original, com o seu foco na indústria aérea, não haverá curso de engenharia nessa área. Ele começa com engenharia de energia e de sistemas, e deve ter aulas também de biotecnologia.
“O segredo é não dividir os esforços. A instituição deve contribuir com outros setores do conhecimento”, diz Correia. “O futuro do ITA pode ser esse, ajudando em carro a hidrogênio e data centers. Seria como o Indian Institute of Technology (IIT), que formou o Sundar Pichai, CEO do Google, e outros CEOs famosos, criando ITAs em várias áreas do conhecimento.”
Para Correia, o diferencial do ITA e do projeto aeronáutico brasileiro para outros projetos que não tiveram o mesmo sucesso, como o da área espacial e de semicondutores, é que esses começaram já tentando os projetos mais complexos. O ITA antes formou pessoas e foi conquistando conhecimento passo a passo. “A gente não tem muita paciência e gosta de fazer projetos de quatro anos. Mas o que se faz hoje vai trazer resultado daqui a 10 ou 20 anos”, afirma. “Precisa esperar maturar.”
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