É fundamental que a indústria ganhe cada vez mais destaque nos planos, nos debates e, principalmente, nas mentes dos candidatos e das suas equipes
Por Fabio Rua – Valor – 21/09/2026
A cada quatro anos, os eleitores, em maior ou menor grau, refletem sobre o que os governos realizaram e sobre o que esperam dos próximos. As eleições majoritárias são, portanto, momentos de avaliação, mas também de escolha. Escolha sobre as prioridades que devem orientar o país nos anos seguintes.
Aproveitando a proximidade de um novo ciclo eleitoral, tive a curiosidade de me debruçar sobre algumas das principais propostas dos candidatos à Presidência da República. Grata surpresa, nelas encontrei ideias bastante instigantes sobre responsabilidade fiscal, educação, economia, segurança, infraestrutura, tecnologia e combate às desigualdades.
Mas confesso que, mesmo reconhecendo que o tema indústria aparece em diferentes graus, senti falta de vê-la ocupar um espaço mais central nos planos e, principalmente, nos debates, como entendo que deveria ocorrer em qualquer discussão sobre crescimento econômico de longo prazo.
Não estou falando da defesa de um setor específico. Refiro-me à habilidade de um país de produzir, com destaque e competitividade, coisas complexas. De formar engenheiros e técnicos de ponta, desenvolver fornecedores de classe mundial, melhorar a infraestrutura, o financiamento de pesquisa aplicada, o estímulo à propriedade intelectual e, não menos importante, a ampliação de acordos comerciais.
A conexão entre industrialização robusta, renda, desenvolvimento humano e competitividade não é apenas percepção, é sustentada por dados. Estudo recente da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (Unido) mostra que a América Latina, atravessou décadas de desindustrialização precoce. O valor adicionado da manufatura per capita na região ainda está abaixo do registrado no início do século.
Em contraste, no mesmo período, economias industriais classificadas como emergentes, como China, Índia, Indonésia e Vietnã, registraram crescimento médio anual de 8,7% nesse mesmo indicador entre 2000 e 2025.
A comparação entre América Latina e Ásia pode ser ainda mais reveladora. A Ásia não cresceu apenas por causa da industrialização, assim como a América Latina não deixou de crescer apenas por perder sua base industrial. Mas as trajetórias coincidem em um ponto que merece atenção. Enquanto economias asiáticas ampliaram sua capacidade produtiva, a América Latina se afastou dela. E, segundo o Banco Mundial, economias emergentes – excluídas China e Índia – e em desenvolvimento, o que inclui o Brasil, caminham para quase uma década sem avanços significativos na convergência de renda com os países desenvolvidos.
A China, por exemplo, tomou sua decisão há décadas. Coordenou infraestrutura, crédito, educação técnica, incentivos fiscais, atração de investimento estrangeiro, política comercial e desenvolvimento de fornecedores para aumentar gradualmente o conteúdo tecnológico produzido internamente.
Os Estados Unidos também mudaram de direção. Depois de um longo período em que a eficiência econômica recomendava transferir etapas produtivas para outros países, eles, passaram a tratar semicondutores, baterias, minerais críticos, energia e outras cadeias como ativos estratégicos. O CHIPS Act, incentivos fiscais, compras públicas e, mais recentemente, tarifas fazem parte desse esforço.
Em agosto deste ano, por exemplo, o governo americano atuou para reconstruir sua cadeia de polisilício, material usado em painéis solares, cuja participação americana na capacidade mundial caiu cerca de 50% em 2005 para menos de 2% em 2024.
Enquanto a China verticalizou suas cadeias, os Estados Unidos estão investindo bilhões para reconstruir algumas das suas. Nenhum deles pretende fabricar tudo. Mas ambos parecem entender que há uma diferença entre simplesmente comprar um produto e manter a capacidade de desenvolvê-lo e produzi-lo. É uma distinção que o Brasil também precisa fazer.
Importante destacar que verticalização não é mais sinônimo de autarquia, assim como política industrial não é protecionismo. Trata-se de identificar, em cada cadeia, os elos que concentram conhecimento, tecnologia, mão de obra qualificada, capacidade de inovação e criar condições que tornem economicamente viável desenvolvê-los aqui.
Isso exige política industrial renovada. Mas, antes de tudo, fundamentos econômicos que permitam que ela funcione. Não faz sentido pedir à indústria brasileira que concorra por investimentos com países que oferecem capital, infraestrutura, logística e previsibilidade muito mais competitivos e acreditar que incentivos pontuais resolverão essa diferença. Uma fábrica imobiliza capital por anos em máquinas, engenharia, ferramentas, pessoas, estoques e fornecedores antes de gerar retorno. Por isso, juros estruturalmente altos não apenas encarecem o dinheiro; eles encarecem o futuro.
Também não se trata de proteger empresas da concorrência. O Brasil precisa de comércio, investimento estrangeiro, novas tecnologias e novos concorrentes. O capital estrangeiro que investe, emprega, pesquisa e produz aqui faz parte da indústria brasileira.
A questão é outra: estabelecer uma régua coerente entre quem apenas acessa o mercado e quem assume o compromisso de construir capacidade produtiva dentro dele. Uma política industrial ineficaz protege empresas. Uma boa política industrial constrói capacidades. O assunto é complexo, não tem solução mágica e muito menos fim em si próprio.
Por essa razão, é fundamental que a indústria ganhe cada vez mais destaque nos planos, nos debates e, principalmente, nas mentes dos candidatos e das suas equipes. Não estou falando de quantas fábricas cada um deles, se eleito, pretende atrair. Nem de quantos empregos industriais pretendem gerar. Mas de qual papel imaginam para o Brasil na economia global de 2040. Quais tecnologias queremos dominar. Em quais cadeias podemos agregar mais valor. Como transformar tributos em aliados da competitividade. E infraestrutura, tecnologia e capacitação, em produtividade.
As respostas a essas reflexões ultrapassam o debate eleitoral. Mas não podem ficar fora dele.
Fabio Rua é Vice-Presidente da General Motors para a América do Sul.
https://valor.globo.com/opiniao/coluna/eleicoes-e-crescimento.ghtml
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