O próximo presidente e a educação


O tema aparece em segundo plano nas campanhas dos principais candidatos à Presidência

Por Ana Maria Diniz – Valor – 11/09/2026 

Estamos há um mês das eleições no Brasil e, mais uma vez, a educação está em segundo plano — ou, quem sabe, em quinto plano — nas campanhas presidenciais. O rombo orçamentário, o aumento do custo de vida, a violência e a corrupção dominam os debates. Isso não é por acaso: o gasto público explodiu, principalmente com as ações populistas que o atual governo vem fazendo para se segurar no poder. O problema é que nenhuma política econômica, fiscal ou de segurança será bem-sucedida se as escolas brasileiras continuarem formando gente que não lê, não calcula e não aprende o ofício que o mercado pede. Sem pessoas bem formadas, com capacidade de discernimento e um mínimo de valores éticos, não vamos a lugar nenhum, tudo é remendo!

O Censo Escolar 2025 descreve o tamanho da máquina educacional: 46 milhões de matrículas em 178,8 mil escolas. De forma geral, nos últimos anos, houve avanço no acesso, na permanência e na trajetória escolar. A evolução mais visível foi o aumento do tempo integral na rede pública: de 15,1% em 2021 para 25,8% em 2025. Mas os números escondem um detalhe: uma pesquisa do Insper mostrou que a vantagem das escolas integrais no Ideb do ensino médio encolheu, isto é, a diferença de aprendizado nessas escolas, que era de 0,49 em 2019, caiu para 0,12, demonstrando que mais horas não são garantia de mais aprendizagem. Sem bons professores e recuperação, o ensino integral é só uma jornada cara.

Pesquisa aponta que 83% dos brasileiros querem a educação entre as prioridades do próximo presidente

A capacidade de fazer todos os alunos aprenderem de verdade constitui o maior desafio do próximo presidente. Cerca de 60% dos jovens terminam o ensino médio na rede pública sem saber o básico em matemática. E quase dois terços saem da escola sem dominar o português. Como construir um país próspero e funcional diante dessa situação? Impossível! Se isso continuar, sempre haverá a exploração dos poucos mais instruídos sobre os muitos sem condições de fazer escolhas mais conscientes. E assim perpetuamos a nossa desgraça.

A análise das propostas para a educação dos seis líderes nas pesquisas de intenção de voto para presidente mostra que, de forma geral, eles convergem no diagnóstico e divergem no método, mas quase todos pecam na conta. Lula oferece continuidade: pacto pela alfabetização com meta de 80%, expansão do Pé-de-Meia, mais ensino integral e 111 novos institutos federais, lembrando que os institutos federais são um grande sorvedouro de dinheiro. Em suma, mais gastos e mais do mesmo que nos trouxe até aqui, já que o PT governa há 20 anos e não entregou nada de significativo para a educação.

Flávio Bolsonaro parte do princípio certo: “escola boa é escola em que o aluno aprende”. Ele defende o método fônico, escolas cívico-militares, vouchers quando não houver vagas na rede pública e gestão baseada em indicadores de proficiência. Quer ampliar a oferta de cursos técnicos no ensino médio, em parceria com o setor produtivo. Teoricamente, são coisa boas, mas difíceis de executar, a lembrar dos ministros escolhidos por seu pai, arrepiam só de pensar!

Caiado tem o plano mais de Estado: quer um novo pacto de alfabetização e matemática, recomposição e foco nos anos finais do fundamental (o ponto cego nacional). Propõe um itinerário mais “real” no ensino médio, um ensino técnico regionalizado e avaliações para gerar ações. Goiás é uma vitrine. Ele fez um ótimo trabalho em sua rede de ensino médio, chegando ao primeiro lugar no último Saeb, pois Caiado é realmente uma pessoa que valoriza a educação de verdade.

Renan acerta ao querer copiar o Ceará, mas descarrila quando fala em “impor” um código de conduta com punições para os alunos. Ele parece desconhecer que o papel de Brasília é outro, pois o governo federal não implementa nada, só cria e incentiva políticas para fortalecer a educação. Também ignora que acabar com a progressão continuada no país inteiro, como propõe, pode trocar o problema atual, do aluno passar de ano sem aprender, pelo aluno abandonar a escola.

Cury escreve o plano que um bom educador gostaria de pregar na parede. Ele coloca a gestão das emoções como prioridade e quer uma escola para pensadores e empreendedores. Sua proposta é coerente com sua biografia, porém, sua única experiência na área publica é a venda de seu método para prefeituras, gerando cerca de 30 milhões em contratos. O problema é uma certa ingenuidade dele na implementação de tudo isso, pois a reinvenção da escola nunca aconteceu em escala continental e num país diverso como o Brasil.

Zema junta o que a direita liberal sabe fazer: diversidade de modelos (pública, PPP, cívico-militar), Pé-de-Meia condicionado ao desempenho e o ensino técnico nos moldes programa mineiro Trilhas do Futuro. A atuação do MEC se limitaria à educação básica e ensino superior ficaria a cargo do Ministério da Ciência e Tecnologia. Ele propõe a regulamentação do ensino domiciliar.

O Todos Pela Educação leu os seis planos e viu o óbvio: todos falam de alfabetização, recomposição e educação integral, mas nenhum trata com seriedade os anos finais do fundamental, que é onde eu costumo dizer que “a gente perde o aluno”. Também não falam da mudança super necessária nas licenciaturas, pois sem bons professores não vamos mudar a educação.

Setenta e um por cento dos brasileiros dizem que a educação pesa no voto e 83% querem o tema entre as três prioridades do próximo presidente, segundo pesquisa do Instituto Ideia. Mas, nessa campanha, parece que o espaço para este debate não vai existir, ou será muito comprometido.

Existem coisas que deveriam estar acima de tudo, e educação é uma delas. Temos que preparar melhor os brasileiros para um Brasil melhor. Para isso, é preciso também capacitar os brasileiros com valores mais fundamentados no bem comum, valores universais, fundamentais para construir o Brasil que queremos, livre de corrupção, seguro e cheio de oportunidades para todos.

Ana Maria Diniz é Conselheira da Península Participações, empresária, fundadora do Polvo Lab, cofundadora do movimento Todos Pela Educação e conselheira do Parceiros pela Educação.

https://valor.globo.com/opiniao/ana-maria-diniz/coluna/o-proximo-presidente-e-a-educacao.ghtml 

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