Muito além das commodities: o agro nacional rumo às prateleiras do mundo


Se ciência, iniciativa privada, produtores e políticas públicas caminharem na mesma direção, a transformação dos últimos 50 anos poderá ser apenas o 1º capítulo de uma história ainda maior

Por Tirso Meirelles – Estadão – 09/09/2026

Presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp)

O Brasil construiu, ao longo das últimas cinco décadas, uma das mais extraordinárias transformações da agricultura mundial. Um país que até os anos 1960 ainda dependia da importação de parte dos alimentos necessários ao abastecimento de sua população tornou-se uma potência agropecuária, referência em agricultura tropical e um dos grandes responsáveis pela segurança alimentar do planeta.

Essa mudança não aconteceu por acaso. Foi resultado da combinação entre ciência, pesquisa, empreendedorismo, crédito, mecanização, assistência técnica, melhoramento genético e, sobretudo, da capacidade do produtor rural brasileiro de incorporar conhecimento e transformar desafios em oportunidades.

Os números ajudam a dimensionar essa revolução. Entre 1975 e 2023, a produção brasileira de grãos saltou de 35,8 milhões para cerca de 259 milhões de toneladas, enquanto a produção de carnes passou de 2,9 milhões para 30,1 milhões de toneladas. A produção de leite cresceu de aproximadamente 7 bilhões para quase 35 bilhões de litros.

Em séries históricas da Embrapa, fica evidente que a expansão da produção ocorreu em velocidade muito superior à da área utilizada, demonstrando que o principal motor dessa transformação foi a produtividade. Foi a ciência brasileira que ajudou a corrigir solos, adaptar plantas e animais às condições tropicais, incorporar o Cerrado à produção e desenvolver sistemas produtivos cada vez mais eficientes.

Essa transformação também produziu um extraordinário efeito “poupa-terra”. Tecnologias desenvolvidas nas últimas décadas permitiram produzir muito mais sem que fosse necessário ampliar as áreas agrícolas na mesma proporção.

Somente no cultivo da soja, estudos da Embrapa indicam uma economia superior a 70 milhões de hectares em relação à área que seria necessária, caso permanecessem os níveis anteriores de produtividade. Esse é um patrimônio que precisa ser valorizado. O Brasil demonstrou que ciência, tecnologia e produção podem caminhar juntas e que produtividade é também uma poderosa ferramenta de sustentabilidade.

Mas o impacto do agro vai muito além da porteira. Quando o campo prospera, movimenta cidades inteiras. A produção rural demanda máquinas, fertilizantes, sementes, defensivos, equipamentos, tecnologia, crédito, seguros, transporte, armazenagem, assistência técnica, serviços veterinários, comércio e indústria.

Depois da colheita, outra extensa cadeia é acionada: cooperativas, agroindústrias, frigoríficos, usinas, transportadoras, portos, supermercados, restaurantes e empresas exportadoras. Por isso, o dinheiro gerado no campo circula pelas pequenas cidades, sustenta empregos nos centros regionais e chega também às grandes metrópoles. Estudos recentes mostram como o dinamismo do agronegócio vem impulsionando produtividade, renda, construção, comércio e serviços no interior brasileiro.

Essa capacidade ganha dimensão ainda maior diante dos desafios globais das próximas décadas. A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) alerta que garantir segurança alimentar e nutrição para uma população mundial crescente exigirá profundas transformações nos sistemas agrícolas, nas economias rurais e na gestão dos recursos naturais.

Produzir alimentos suficientes não será o único desafio: será necessário produzir de maneira economicamente viável, socialmente inclusiva e ambientalmente sustentável, enfrentando simultaneamente mudanças climáticas, pressão sobre água e solo, desigualdade e desperdício. Nesse cenário, poucos países reúnem condições comparáveis às brasileiras para contribuir de maneira decisiva para a oferta mundial de alimentos.

É justamente por isso que precisamos começar a pensar na próxima transformação. O Brasil já conquistou a condição de grande celeiro do mundo. Agora precisa trabalhar para se tornar também o supermercado do planeta. Isso significa deixar de ser reconhecido apenas pelo volume de soja, milho, café, açúcar, algodão, celulose e proteínas que embarca nos portos e ampliar sua presença internacional com alimentos industrializados, produtos prontos para consumo, ingredientes sofisticados, bioprodutos e marcas brasileiras reconhecidas mundialmente.

Agregar valor deve ser uma prioridade nacional. Uma tonelada exportada como matéria-prima tem determinado valor; transformada em alimento processado, embalagem, marca, tecnologia e serviço, pode multiplicar a renda gerada no país. E cada etapa acrescentada à cadeia produtiva significa novas indústrias, empregos qualificados, arrecadação, inovação e oportunidades. O desafio não é reduzir nossa capacidade de exportar commodities — ela é estratégica e deve continuar crescendo —, mas utilizar essa extraordinária base produtiva para construir novas cadeias de valor dentro do Brasil.

Para isso, precisamos de uma verdadeira política de Estado de longo prazo para o agro, com horizonte de dez, vinte ou trinta anos. Crédito e seguro rural precisam oferecer previsibilidade. A infraestrutura deve acompanhar a capacidade produtiva do campo. Precisamos ampliar armazenagem, melhorar rodovias, acelerar ferrovias e hidrovias, modernizar portos e reduzir o custo logístico.

É necessário investir continuamente em defesa agropecuária, rastreabilidade, conectividade, irrigação, energia, pesquisa, inteligência artificial, agricultura de precisão e formação profissional. E, principalmente, garantir segurança jurídica para quem investe e produz.

Nesse contexto, a discussão sobre o fim da escala 6×1, que o senador David Alcolumbre deixou para ser votada após as eleições, precisa considerar as particularidades de setores essenciais e de funcionamento ininterrupto, como a agropecuária.

No campo, não é possível interromper a ordenha, deixar animais sem alimentação e manejo, suspender uma colheita no momento adequado ou simplesmente adiar atividades que dependem das condições climáticas. O Brasil já provou que sabe produzir.

Estudo apresentado pelo professor José Pastore apontou que mudanças na jornada podem provocar aumento médio de 9,1% nos custos das empresas; em outras análises da entidade, considerando cenários mais amplos de redução da carga horária, a elevação do custo da hora trabalhada pode chegar a 22%.

Na agropecuária, o impacto ganha dimensão ainda maior porque a produção não pode parar: estudo apresentado no âmbito do Ministério da Agricultura indica que a mudança de escala poderia elevar os gastos com mão de obra em 23,2% na pecuária leiteira, 19,8% no café, 12,1% na uva e 11,9% na laranja.

O desafio é conciliar a legítima busca por melhores condições de trabalho com a sustentabilidade econômica de quem produz, evitando que custos adicionais se transformem em redução de empregos, perda de competitividade, diminuição na oferta de produtos ou aumento dos preços dos alimentos. A responsabilidade de alimentar o planeta faz parte da nossa história. Agora é trabalhar para mostrar que ultrapassamos a porteira e ganhamos as gôndolas dos supermercados do mundo.

Também será fundamental abrir e diversificar mercados. Não basta vender mais; precisamos vender melhor. Isso significa negociar acordos comerciais, reduzir barreiras, conquistar novos mercados e desenvolver uma estratégia internacional para posicionar o alimento brasileiro como sinônimo de qualidade, segurança, sustentabilidade e inovação. O consumidor internacional precisa reconhecer não apenas a soja, o café, a carne ou o suco produzidos aqui, mas as marcas brasileiras que transformam essas matérias-primas em produtos de alto valor agregado.

Essa nova etapa precisa chegar especialmente aos pequenos e médios produtores. Tecnologia não pode ser privilégio de grandes propriedades. Assistência técnica, capacitação, gestão, cooperativismo, conectividade e acesso ao crédito são instrumentos fundamentais para que milhares de produtores possam participar dessa transformação.

O futuro do agro será cada vez mais digital, conectado e orientado por dados. Quem ficar distante dessa revolução correrá o risco de perder produtividade, competitividade e renda. Daí porque os centros de excelência que estamos construindo tornam-se vitais para essa conquista.

O mundo continuará precisando de mais alimentos. Mas também exigirá alimentos melhores, mais seguros, rastreáveis e produzidos com menor impacto ambiental. Essa equação coloca sobre o Brasil uma responsabilidade histórica e, ao mesmo tempo, uma oportunidade extraordinária.

Temos terra agricultável, água, clima, biodiversidade, conhecimento científico, produtores experientes, agroindústria, capacidade empresarial e uma agricultura tropical desenvolvida ao longo de décadas. Poucos países possuem tantos ativos reunidos.

Nos últimos 50 anos, mostramos que era possível transformar solos considerados pouco produtivos em algumas das regiões agrícolas mais eficientes do planeta. Transformamos conhecimento em produtividade e produtividade em segurança alimentar.

Saímos da condição de importadores para ocupar posição central no comércio mundial de alimentos. A próxima fronteira é transformar essa força produtiva em ainda mais desenvolvimento dentro do Brasil.

Ser o celeiro do mundo é motivo de orgulho. Significa produzir em escala, com competência e capacidade para abastecer bilhões de pessoas. Mas podemos ir além. O Brasil precisa ser o país que planta e colhe, mas também aquele que transforma, industrializa, embala, cria marcas, desenvolve tecnologia e entrega diretamente ao consumidor global. 

Precisamos deixar de vender apenas aquilo que sai da terra e ampliar a participação no valor daquilo que chega à mesa.

Temos todas as condições para isso. Se ciência, iniciativa privada, produtores e políticas públicas caminharem na mesma direção, a transformação que fizemos nos últimos 50 anos poderá ser apenas o primeiro capítulo de uma história ainda maior

Muito além das commodities: o agro nacional rumo às prateleiras do mundo – Estadão 

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