Embaixador aborda o cenário global em transformação e defende soberania industrial do agro
Por Assis Moreira – Valor – 23/08/2026
É correspondente do Valor em Genebra desde 2005. Cobriu 28 vezes o Fórum Mundial de Economia e numerosas conferências ministeriais em dezenas de países.
Em tempos de transformações e turbulências geopolíticas, o embaixador brasileiro Alexandre Parola abordou a integração da indústria e da agricultura no recente Congresso Brasileiro do Agronegócio, em São Paulo.
Parola foi representante do Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC), em Genebra, e na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em Paris. Hoje, é embaixador no Marrocos.
Começou usando uma expressão conhecida de todos os brasileiros, “Chega de Saudade”, e que é título da música considerada um marco fundador da Bossa Nova, para convidar a deixar de olhar para o passado e suas formas de atuação, crenças e estruturas conceituais.
Para o embaixador, falando em nome pessoal e como observador da geopolítica, o desafio para o país hoje é olhar para a frente; entender que os parâmetros mentais com os quais nos acostumamos durante décadas simplesmente deixaram de ser um espelho da realidade.
Observou que a ordem multilateral que conhecemos foi construída em dois pós-guerras, depois de 1945 e depois de 1990, e, ao fim de cada um deles, um novo arranjo foi erguido. O problema é que esse arranjo, que não ocorreu da noite para o dia, deixou de ser funcional. Exemplificou com o Órgão de Apelação da OMC, paralisado desde 2019, numa crise que começou de forma pouco notada já em 2011 e foi se agravando ao longo de governos americanos muito diferentes entre si.
A hora, portanto, pede a construção do novo, que ele chamou de “Soberania Industrial do Agro”. Soberania aqui como a “capacidade de decidir em que condições entramos no mundo. E essa não vem de decreto. Vem de indústria, de armazenagem, de capital. É autonomia que se converte em poder de decisão. E essa autonomia não se constrói no vácuo: ela responde a uma mudança concreta na forma como o mundo hoje organiza suas cadeias de suprimento”.
Observou que as cadeias de suprimento deixaram de ser desenhadas só por eficiência. Passaram a ser desenhadas também por segurança. A lógica do just-in-time precisa hoje incorporar a dimensão do just-in-case, e isso muda completamente o valor de coisas que até ontem pareciam apenas logística. Armazenagem, por exemplo, deixou de ser custo operacional. Passou a ser ativo estratégico.
Relatou que, a cada reunião de que participou como negociador comercial, algo sempre esteve claro para ele: “Eu não falava por um país que pedia espaço. Falava pela posição de uma superpotência agrícola, e era assim que o outro lado me via. Isso não é vaidade, é dado de negociação. E dado de negociação tem um custo: onde há admiração, há também temor. Onde há respeito, há também gesto defensivo”.
Acrescentou: “Nós olhamos o mundo há décadas. É hora de olharmos também para como o mundo nos percebe. Porque, num tempo em que segurança alimentar pesa mais que vantagem comparativa, entender o nosso próprio tamanho aos olhos do outro deixou de ser exercício de autoestima: virou instrumento de negociação”.
Sugeriu que também “é hora de olharmos para nós mesmos”, lembrando que muitos dos problemas do agro brasileiro estão dentro da porteira. Parte dos problemas do setor não vem de fora, vem de dentro da porteira. E isso não é apenas teoria.
Destacou que a China, o maior parceiro comercial do país, já disse isso com todas as letras: o plano quinquenal chinês para 2026-2030 trata a dependência de alimentos importados como vulnerabilidade de segurança nacional. “Eles estão se movendo para depender menos de nós. Isso não é hostilidade, é exatamente a lógica que estou propondo aqui. Se a segurança alimentar é segurança nacional para eles, por que não seria também para nós, do lado da oferta?”, indagou.
Disse que há países que já responderam a essa pergunta, cada um à sua maneira. E agora é a vez do Brasil. Para ele, duas frentes já são claras: diversificar parceiros e produtos e reduzir nossa dependência de insumos fundamentais. “Nada disso é revolucionário. Mas fazer isso será revolucionário”, afirmou.
Observou que, quando falamos em segurança alimentar, devemos também falar em segurança energética. Poucos países no mundo reúnem, ao mesmo tempo, escala na produção de alimentos, matriz energética limpa e a maior floresta tropical do planeta. O Brasil é um deles, talvez o único em escala comparável.
Mas alertou que ter a matéria-prima não basta. É preciso também decidir quem fica com o valor que ela gera. A Alemanha não planta um grão de café. Não tem uma lavoura. E, ainda assim, é uma das maiores exportadoras de café do mundo porque construiu a indústria de torrefação. O grão sai verde de Santos e volta processado, com a marca e a margem de outro país. Isso não é apenas sobre agricultura. É sobre quem detém a fábrica.
Deter a fábrica é uma forma de poder, destacou o embaixador. Mas mencionou outra, mais direta: presença de mercado. E lembrou que, nesse caso, os números já falam por si. A diferença na exportação agrícola entre o Brasil e os Estados Unidos, que já foi de US$ 56 bilhões, está hoje em US$ 2 bilhões.
Uma das dimensões da projeção de poder, nesse novo mundo da geoeconomia e da geopolítica, é ocupar prateleiras e dominar elos da cadeia de valor, reiterou Parola. É preciso não apenas assegurar acesso a mercados, mas entrar neles tendo, por trás da produção, soluções logísticas eficientes e processamento que agregue valor — ou seja, transformar grãos em influência acrescida.
Reconheceu que pode parecer fora de propósito falar de investimento estrutural num momento de juros elevados, mas há um custo que independe dos juros e que depende do setor: o custo de sua própria ineficiência logística.
Quem não tem onde guardar o grão é obrigado a vender pelo preço do dia, muitas vezes no pico da colheita.Armazenagem é, na verdade, capacidade de arbitragem. Ter silo é ter o poder de escolher o momento certo de negociar. Exemplificou que, hoje, para chegar à China, produtores brasileiros pagam cerca de US$ 113 por tonelada, comparados aos US$ 86 pagos por produtores americanos ou argentinos. Essa diferença de quase US$ 30 não é ineficiência do produtor, mas, em sua avaliação, o preço da infraestrutura incompleta no país.
Observou que o mercado de capitais, na B3, tem o papel de financiar essa infraestrutura — silos, terminais, ferrovias curtas — por meio de instrumentos que já existem em mercados desenvolvidos: títulos vinculados à receita do próprio ativo, recibos de armazém como colateral líquido e títulos vinculados a metas de sustentabilidade, com prazos que o crédito bancário de curto prazo nunca vai oferecer. Que a infraestrutura seja financiada por capital que reflita a eficiência real como produtores, aproveitando também as janelas do mercado internacional.
“Onde nós nos vemos, em alguns anos? Hoje estamos bem. Mas o que garante que estaremos bem se não decidirmos, agora, o que estamos construindo?”, indagou.
Para Parola, com “Chega de Saudade”, a interpretação de João Gilberto não apenas deixou para trás o samba-canção que vinha antes: passou anos, sozinho, inventando uma forma nova de tocar violão, uma síntese que o mundo nunca tinha ouvido. O Brasil não ficou conhecido lá fora por ter rompido com o passado. Ficou conhecido pelo que inventou em seu lugar.
Foi essa a provocação que o embaixador disse querer deixar no Congresso do Agronegócio: “Nós sabemos, sentados à mesa, que o mundo já nos vê como superpotência agrícola, com admiração, mas também com temor. A pergunta que fica é a mesma que a Bossa Nova respondeu há quase setenta anos: o que vamos inventar, que o mundo vai reconhecer como nosso?”
Sua resposta é: “Soberania Industrial do Agro”.
https://valor.globo.com/opiniao/assis-moreira/coluna/agro-e-geopolitica-chega-de-saudade.ghtml
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