Há 50 anos, os programas de agricultura tropical e de bioenergia são exemplos de políticas de Estado
Por Marcos Jank – Estadão – 22/08/2026
O Brasil tem políticas de Estado voltadas para o médio e o longo prazo? A resposta que recebo para essa pergunta em minhas palestras é sempre a mesma: não temos. O que temos hoje no Brasil são remendos imediatistas que respondem a interesses e pressões setoriais, que raramente olham além do mandato do governo de plantão. Faltam projetos de país que sobrevivam às trocas de governo e tenham como bússola o interesse nacional de longo prazo.
Mas nem sempre foi assim. Duas das melhores Políticas de Estado que o Brasil já concebeu – uma agrícola, outra energética – nasceram na década de 1970, sob um regime autoritário, mas com visão estratégica que se revelou de longuíssimo prazo: o desenvolvimento da agricultura tropical moderna e a criação de um programa nacional de bioenergia.
Sem elas, o Brasil jamais seria hoje protagonista global nesses dois campos, justamente agora que segurança alimentar e energética voltaram ao epicentro da geopolítica mundial. Em ambas, o roteiro foi o mesmo: o governo abriu o caminho, e o setor privado assumiu a continuidade.
Na agricultura tropical, o marco foram as instituições e os programas governamentais dos anos 1970. O símbolo maior foi a Embrapa, criada em 1973, que se somou aos esforços anteriores de grandes universidades agrícolas e institutos estaduais de pesquisa – como o Instituto Agronômico de Campinas e vários outros, em São Paulo e em outros Estados.
Esses esforços permitiram transformar o Cerrado, um bioma ácido e pobre em nutrientes, na última fronteira agrícola eficiente do planeta. Naquele período, o Estado também ofereceu crédito abundante e barato, programas de assistência técnica e extensão rural (Emater), programas de colonização como o Prodecer, no Cerrado, e uma estrutura de defesa agropecuária.
A partir de um certo ponto, porém, foi o setor privado que assumiu o comando da transformação e multiplicou os resultados: empresas nacionais e multinacionais desenvolveram genética avançada, biotecnologia agroquímicos, máquinas e equipamentos agrícolas, agricultura de precisão, plantio direto, segunda safra, irrigação e os sistemas integrados de lavoura-pecuária-floresta. Esse foi o pacote público-privado que transformou o Brasil em potência agrícola — em grãos, carnes, açúcar, celulose, algodão e muitos outros produtos.
Na bioenergia, o marco inicial foi o Proálcool, lançado em 1975 como resposta ao choque do petróleo: o governo colocou carros a álcool nas ruas, obrigou a distribuição de etanol nos postos, fixou misturas obrigatórias — de etanol na gasolina (hoje E32) e de biodiesel no diesel (hoje B15) — e incentivou a cogeração de bioeletricidade a partir do bagaço da cana.
No começo dos anos 1990, o protagonismo mudou de mãos: o setor privado trouxe os veículos flex e o RenovaBio e, mais recentemente, novos usos da bioenergia — frotas pesadas, combustível de aviação sustentável (SAF), bio-bunker marítimo, biogás, biometano, eteno, hidrogênio verde e biorrefinarias.
Nesses dois exemplos de políticas de Estado bem-sucedidas, o governo não bancou um projeto estatizante permanente: ele induziu, financiou a P&D básica e assumiu o risco inicial para, em seguida, diminuir seu papel e deixar que o mercado competisse e escalasse o que funcionava. Esse é o modelo replicável.
As cinco décadas de sucesso dessas duas extraordinárias iniciativas nos convidam a avançar em áreas vulneráveis que, infelizmente, não contaram com políticas do mesmo quilate. Entre os temas que hoje mereceriam ser priorizados por políticas público-privadas estruturantes estão: fertilizantes, bioinsumos, mineração, internacionalização da bioenergia, logística, armazenagem, seguro rural e resiliência climática.
Às vésperas de uma eleição importantíssima, deveríamos nos inspirar nas grandes lideranças que há 50 anos pensaram estrategicamente as bases do Brasil que vivemos hoje no agro tropical e na bioenergia, e as implementaram. O que nos falta hoje não são recursos naturais, pessoas motivadas ou tecnologia de ponta.
O que nos falta é visão estratégica e organização da sociedade, a começar pelo Governo Federal. Se soubermos recuperá-la na própria experiência brasileira, a resposta à pergunta desse artigo finalmente poderá mudar.
Opinião por Marcos Jank
Professor sênior e coordenador do centro Insper Agro Global, conselheiro de empresas, palestrante e analista de agronegócio e bioenergia.
Se você tiver interesse e ainda não estiver inscrito para receber diariamente as postagens de O Novo Normal, basta clicar no link: https://chat.whatsapp.com/GeLUPi5zQ2582nGKD6JFey para WhatsApp e https://t.me/joinchat/SS-ZohzFUUv10nopMVTs-w para Telegram. Este é um grupo restrito para postagens diárias de Evandro Milet. Além dos artigos neste blog, outros artigos de Evandro Milet com outras temáticas, publicados nos fins de semana no Portal Tribuna online, encontram-se em http://evandromilet.com.br/
Acesse o link abaixo para entrar no meu grupo do WhatsApp onde publico meus artigos semanais e entrevistas que faço no rádio e TV Tribuna, bem como outras publicações e notícias, sempre na temática inovação e negócios: https://chat.whatsapp.com/CNud8bQUUYM4n8ryXA3ZaW
Por mudanças profissionais com a instituição onde publicava outros artigos meus e informações sobre inovações, tive que criar um novo grupo no WhatsApp https://chat.whatsapp.com/CNud8bQUUYM4n8ryXA3ZaW e parar de publicar em https://chat.whatsapp.com/HqlJjC80rJ0Bu9lmsZgw5B . Quem tiver interesse pode sair do anterior e entrar nesse novo. Desculpem os transtornos.
Sugestão: Se estiver procurando alguém para implementar uma solução de IA com agentes e SLM veja a Aumo | Transformamos dados em soluções de IA avançadas
Se tiver interesse em gêmeos digitais para a indústria procure a Neo Vision – Captura Digital da Realidade
Para IoT chame a 2solve