Onde estão os futuros gênios do Brasil?


Em um mundo em que ciência, tecnologia e inovação são imprescindíveis, desperdiçar mentes capazes de operar na fronteira do conhecimento é um luxo que o Brasil não pode se dar

Por Ana Maria Diniz – Valor – 14/08/2026 

O que faz de alguém um gênio? O que está por trás das mentes que criaram a Teoria da Relatividade Especial, pintaram a Mona Lisa e compuseram a Nona Sinfonia? Nada indica que dentro da cabeça de Albert Einstein, Leonardo da Vinci ou Ludwig Van Beethoven houvesse algo diferente do que há na cabeça da maioria dos mortais: uma massa acinzentada e enrugada de cerca de 1,5 quilo composta basicamente de água, gordura e proteínas. Mesmo assim, esses cérebros aparentemente “normais” deixaram obras e contribuições que quebraram paradigmas e mudaram para sempre os rumos da humanidade.

Por definição, um gênio é uma pessoa com uma capacidade mental, inteligência ou talento criativo muito acima do normal, marcada não apenas por um QI elevado (geralmente acima de 140 ou 150), mas por uma combinação de intelecto superior, criatividade, alta resiliência, curiosidade obsessiva, persistência e, principalmente, pelo impacto transformador de suas criações, descobertas ou ideias. A genialidade tampouco é um dom isolado: a aptidão natural depende de oportunidades e de um ambiente propício para florescer.

Ao contrário do que muita gente pensa, os gênios estão distribuídos na sociedade numa curva que não tem nada a ver com classe social ou condição econômica e permeiam toda a população. No Censo Escolar de 2025, foram identificados 56 mil estudantes com altas habilidades ou superdotação no Brasil. As estimativas internacionais indicam que entre 2% e 5% da população mundial apresenta essas condições, o que aponta para algo entre 900 mil e 4 milhões de jovens prodígios não reconhecidos no país. Ou seja, não estamos sequer enxergando nossos talentos.

Recentemente, demos um passo importante para consertar essa situação. Em meados de junho, o Congresso sancionou a Lei nº 15.436, que institui a Política Nacional para Estudantes com Altas Habilidades ou Superdotação e cria o Cadastro Nacional desses alunos. A norma define altas habilidades ou superdotação como condição do neurodesenvolvimento, caracterizada por alto potencial intelectual e capacidade de aprendizado, intensa curiosidade e profundo envolvimento em temas de interesse, frequentemente acompanhada de alta sensibilidade e intensidade emocional. Também inclui a dupla excepcionalidade (superdotação associada a autismo, TDAH, dislexia etc). Prevê ainda identificação precoce, atendimento especializado, progressão flexível e formação de profissionais.

Identificar e nutrir esses talentos não é privilégio de elite: é estratégia de desenvolvimento

Na teoria, a lei é um avanço importante. Na prática, os desafios são enormes. Houve vetos parciais ao texto, entre eles, à triagem educacional anual obrigatória e à exigência de avaliação multidimensional como condição para formalizar a identificação, sob o argumento de que gerariam burocracia e atrasariam o atendimento. Além disso, a adesão de Estados e municípios é voluntária. Pais e especialistas temem que a lei fique só no papel, como já ocorreu com previsões anteriores (por exemplo, na LDB, desde 2015) de um cadastro que nunca existiu.

É nesse contexto que chega, neste mês de agosto, o livro “Inteligência: o ativo estratégico que o Brasil não pode desperdiçar”, de João Batista Araújo Oliveira. O autor defende que o sucesso das nações depende da capacidade de identificar, formar e mobilizar indivíduos capazes de operar na fronteira do conhecimento – cientistas, engenheiros, inventores, pesquisadores e visionários que expandem setores, criam mercados e sustentam vantagens competitivas duradouras.

Um dos fatores que distingue economias inovadoras de economias dependentes é a capacidade de identificá-los precocemente e de oferecer trajetórias compatíveis com o seu potencial. Segundo Oliveira, a identificação brasileira é subjetiva e dependente de professores sem a devida capacitação.

Em qualquer lugar do mundo, estereótipos atrapalham. Superdotados não são necessariamente quietos, organizados ou “gênios em tudo”. Muitos têm desempenho abaixo de seu potencial por falta de desafio, mascaram habilidades para se encaixar ou são diagnosticados erroneamente. Por isso, países como Cingapura e Estados Unidos investem sistematicamente em identificação precoce e em programas específicos para alunos com supercapacidades.

Criança prodígio, a ex-primeira-dama americana Michelle Obama participou de um desses programas. Ela aprendeu a ler sozinha aos quatro anos, pulou o segundo ano do fundamental e, no sexto ano, já frequentava turmas avançadas. No ensino médio, foi admitida na Whitney M. Young Magnet High School, a primeira escola para superdotados de Chicago. “Na Whitney Young, era seguro ser inteligente”, desabafou Michelle em seu livro “Minha História”, de 2018.

Identificar e nutrir esses talentos não é privilégio de elite: é estratégia de desenvolvimento. 

São os estudantes de famílias vulneráveis que mais perdem quando o sistema não os enxerga. Como mostrou o economista James Heckman, investimentos precoces em potencial humano geram retornos elevadíssimos em PIB, inovação e redução de desigualdades. Em um mundo em que ciência, tecnologia e inovação são imprescindíveis, desperdiçar mentes capazes de operar na fronteira do conhecimento é um luxo que o Brasil não pode se dar.

A nova lei oferece o arcabouço institucional. O livro de João Batista Araújo Oliveira coloca o diagnóstico e a urgência em evidência. Falta agora a implementação real: formação adequada de professores, protocolos claros e acessíveis de identificação e de aceleração, e a mudança cultural para tratar a inteligência como ativo estratégico. Os gênios do futuro estão, neste instante, nas cerca de 1,2 milhão de salas de aula brasileiras – muitos deles invisíveis, entediados ou rotulados como problemáticos. Cabe a nós decidir se vamos iluminá-los ou continuar apagando os nossos talentos.

Ana Maria Diniz é fundadora do Instituto Península, que atua na formação de professores; empresária e conselheira do Todos pela Educação e Parceiros pela Educação.

https://valor.globo.com/opiniao/coluna/onde-estao-os-futuros-genios-do-brasil.ghtml 

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