A suspeita dos suíços sobre carros ‘espiões’ da China


Cada vez mais setores e categorias de bens podem ter importância simultaneamente civil e militar e, por isso, são classificados como críticos ou estratégicos

Por Assis Moreira – Valor – 06/08/2026

É correspondente do Valor em Genebra desde 2005. Cobriu 28 vezes o Fórum Mundial de Economia e numerosas conferências ministeriais em dezenas de países.

Em relatório intitulado “A indústria europeia face ao rolo compressor chinês”, o Alto Comissariado para a Estratégia e o Planejamento da França chamou a atenção recentemente para o que chama de uma segunda onda de concorrência sem precedentes, que atinge o coração produtivo da Europa.

Aponta riscos crescentes para todo o continente e a Alemanha, em particular, como a economia mais exposta a essa “onda avassaladora” chinesa, que atinge setores intensivos em emprego, como o automotivo, máquinas-ferramentas, baterias, química e outros. O relatório conclama a Europa a “abrir os olhos” e preparar uma proteção maciça, considerada “urgente e vital”, diante da China.

Na semana passada, foi a vez de o Serviço de Inteligência do governo suíço – uma agência que é mais que apenas um serviço de espionagem – publicar relatório sobre a segurança da Suíça. Na mesma linha de procurar “abrir os olhos” para ameaças emergentes, o documento traz uma novidade ao dar um exemplo adicional de risco: o de carros chineses poderem servir como instrumentos de coleta de dados para fins de espionagem.

Para o Serviço de Inteligência suíço, a “ameaça” proveniente da China dependerá fortemente do grau de interdependência econômica. Isso gera dados, e o relatório considera extremamente provável que Pequim processe essas informações também para fins de inteligência.

Segundo o documento, os serviços chineses já dispõem de recursos técnicos e humanos que lhes permitem processar gigantescos volumes de dados e utilizá-los em benefício de suas necessidades, mas também das do Partido Comunista, do exército, do aparato estatal e das empresas chinesas.

Como exemplo, considera plausível supor que os dados gerados pelos veículos modernos fabricados na China e que inundam mercados no mundo todo possam ser transmitidos aos serviços chineses por meio das montadoras, ou que os serviços de inteligência disponham – ou venham a dispor – de acesso a essas informações por meio de interfaces digitais.

Para Serge Bavaud, diretor do serviço de inteligência suíço, esses veículos são “smartphones sobre rodas”. As autoridades chinesas trabalhariam em estreita colaboração com os fabricantes, e os serviços secretos poderiam ter acesso, por exemplo, a conversas registradas pelos automóveis. As marcas chinesas negaram essa prática. Em todo caso, a Suíça não é o único país com suspeitas. Jornais alemães publicaram que os serviços secretos do país teriam feito testes em várias marcas chinesas.

O Departamento Federal de Defesa suíço restringiu o acesso de veículos desse tipo próximos a zonas consideradas sensíveis no país. Mas não explicou se os veículos Tesla americanos adquiridos pelo Exército suíço para uso de seus oficiais estão submetidos às mesmas restrições.

No relatório, o Serviço de Inteligência suíço avalia que, nesta fase de transição da ordem internacional, os contornos de uma confrontação global começam a se delinear, sobretudo entre os Estados Unidos e a China, caminhando para um mundo dividido em duas esferas, marcado por uma disputa estratégica pela supremacia.

Constata que as grandes potências recorrem cada vez mais frequentemente a sanções, controles de exportação, subsídios, instrumentos financeiros e outros meios de pressão, tanto para impedir que seus adversários tenham acesso a mercadorias e tecnologias essenciais quanto para preservar e fortalecer suas próprias capacidades.

Cada vez mais setores e categorias de bens podem ter importância simultaneamente civil e militar e, por isso, são classificados como críticos ou estratégicos. É o caso das terras raras, semicondutores, inteligência artificial, robótica, energias renováveis, tecnologias quânticas, biotecnologias, drones e dados em geral.

Os Estados estão incorporando a proteção econômica e tecnológica aos seus conceitos de segurança nacional. O relatório entende que a Europa está ameaçada e que é muito provável que essa ameaça não diminua nos próximos anos.

Como muitos outros países, a Suíça é fortemente dependente das cadeias de abastecimento chinesas. E, com sua ideia de nova ordem mundial, Pequim corteja e seduz, e continuará a utilizar o exterior como fator essencial para apoiar a modernização de sua economia e de seu exército, além de ampliar sua influência internacional.

Conforme o relatório, a segurança econômica da Suíça, assim como a da Europa, continuará dependente da relação entre Estados Unidos e China. Primeiro, porque as decisões chinesas, mesmo quando dirigidas prioritariamente contra os Estados Unidos, também produzem efeitos sobre a Europa. Segundo, porque é provável que Washington continue pressionando os países europeus a reduzir sua colaboração com atores considerados problemáticos, especialmente empresas chinesas.

Avalia que Pequim deverá expandir seu domínio sobre bens e matérias-primas de importância estratégica. E o excesso de capacidade industrial permitirá aos chineses continuar inundando o mercado europeu, e mantendo sob pressão a base industrial da Europa. As tensões entre a China e a Europa têm caráter estrutural e deverão persistir, tendo os carros chineses como um dos principais focos de atrito.

Assis Moreira é correspondente em Genebra e escreve quinzenalmente

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https://valor.globo.com/brasil/coluna/a-suspeita-dos-suicos-sobre-carros-espioes-da-china.ghtml 

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