Soberania em IA: o que o Brasil precisa fazer para reduzir a dependência de outros países


Embora dependa de tecnologias estrangeiras para hardware e infraestrutura, especialistas afirmam que o Brasil pode fortalecer sua soberania em inteligência artificial ao desenvolver modelos e aplicações adaptados às necessidades do País

Por Lucas Agrela – Estadão – 28/07/2026

A soberania brasileira na era da inteligência artificial (IA) é um assunto complexo devido às suas diferentes camadas. À primeira vista, pode-se pensar que bastaria ter uma IA falando português com servidores funcionando em território nacional, mas toda a tecnologia, do hardware ao software, vem do exterior.

A arquitetura Transformer, o T do ChatGPT, foi desenvolvida pelo Google e é a base das plataformas de IA generativa conhecidas hoje. Trata-se da tecnologia que permite à IA ler todo o contexto de um texto ao mesmo tempo, entendendo o significado exato de cada palavra.

Mas é no hardware que o Brasil, assim como inúmeros países, está mais dependente de outros mercados. O País está fora da cadeia de design e produção de chips de memória usados para o processamento de demandas de inteligência artificial. Ou seja, para que tenha autonomia nas aplicações de IA, é necessário comprar os componentes vindos de fora.

A cadeia de produção de chips envolve diversas etapas e empresas especializadas. A taiwanesa TSMC é responsável pela fabricação desses componentes, enquanto a holandesa ASML fornece as máquinas de litografia essenciais para produzi-los. Antes da fabricação, porém, empresas americanas como Nvidia e AMD desenvolvem a arquitetura e o design de processadores e chips de memória. Esse trabalho, no entanto, depende de programas especializados para realizar o trabalho de design de chips fornecidos pelas americanas Cadence e Synopsys, indispensáveis para o desenvolvimento dos chips.

Tornar o Brasil uma referência na fabricação de semicondutores, por exemplo, não dependeria apenas do investimento de centenas de bilhões de dólares, mas também do fator tempo para refinamento de processos. Taiwan, que é a referência global nesse mercado, investe na fabricação de chips desde os anos 70 e seus esforços resultaram na criação da TSMC em 1987. Ou seja, foram mais de 50 anos de investimentos públicos e privados para que o mercado se tornasse o polo mundial da manufatura de chips.

Diante desse cenário, as aplicações locais da IA, segundo especialistas, são uma forma de soberania que pode ser mantida pelo País. Seja por meio da criação de modelos de linguagem (LLMs) que sejam adaptados ao português e suas regionalidades, ou com a aplicação em mercados nos quais o País é forte, como no setor financeiro e no agronegócio.

Para Carlos Rafael Neves, professor de ciência de dados e negócios da ESPM, a missão de trazer soberania total ao Brasil na era da IA é bastante difícil. Por isso, o melhor a se fazer é criar aplicações específicas.

“Na área de criação de aplicações comerciais, o Brasil tem milhares de excelentes exemplos de ferramentas e sistemas criados com base em soluções ou modelos de IA”, diz Neves. Mas esse último quesito não serve, necessariamente, como termômetro de soberania em IA, porque ele depende de absolutamente todos os quesitos anteriores. 

“Então, apesar de o Brasil estar produzindo dentro de casa muitas soluções de qualidade com IA, ele só está fazendo isso graças a tecnologias estrangeiras.”

O professor diz ainda que até existem equipamentos capazes de viabilizar a criação de modelos de IA avançados, mas não o suficiente para competir com soluções de outros países, como Estados Unidos e China.

“Na capacidade de processamento, o Brasil já conta com alguns data centers e supercomputadores bastante poderosos, como o supercomputador Santos Dumont, que conta com hardware de ponta (apesar de ser hardware importado, não fabricado no país) e é capaz de processar 20 quatrilhões de operações por segundo (20 Petaflop/s). Isso seria o suficiente para criar ou treinar modelos avançados de IA. Ainda assim, isso é um caso isolado, e há bastante carência por mais data centers de grande capacidade”, afirma.

Na visão de Fabro Steibel, diretor-executivo do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS-Rio), a soberania em IA não deve ser vista como uma independência total, mas como resiliência. Para ele, ser soberano significa ter a capacidade de continuar funcionando mesmo diante de interrupções externas, comparando a situação à indústria aeronáutica brasileira, que produz aviões, mas depende de motores importados.

“Em um cenário futuro, em que a IA se torne uma commodity, com todos os modelos oferecendo coisas parecidas, os modelos open source que podem ser instalados e usados aqui serão tão bons quanto os que são de fora. Os modelos de fronteira podem ter restrições e circular apenas entre os amigos, como aconteceu com a Anthropic, que não ofereceu, por um tempo, um de seus modelos para quem não fosse americano”, afirma Steibel.

País tem plano de IA com investimentos de R$ 23 bilhões

O governo federal mantém o que chama de Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que prevê investimentos de R$ 23 bilhões entre 2024 e 2028. Coordenado pelo Comitê Interministerial para a Transformação Digital (CIT Digital), o plano combina ações de curto prazo com iniciativas de médio e longo prazo.

No horizonte imediato, o plano prioriza projetos capazes de gerar resultados concretos em até 12 meses. Na saúde, as iniciativas incluem a automatização de prontuários de teleconsultas do SUS, o uso de IA para apoiar a compra de medicamentos, o aprimoramento de diagnósticos de doenças e o desenvolvimento de ferramentas para a detecção precoce de enfermidades neurodegenerativas.

Na educação, o plano prevê sistemas inteligentes para combater a evasão escolar, monitorar a qualidade da alimentação oferecida nas escolas e oferecer tutoria personalizada em matemática. Também estão previstas soluções para modernizar a gestão pública, como chatbots para atendimento de brasileiros no exterior e ferramentas de apoio à Receita Federal.

Já as ações estruturantes, que concentram 98% dos recursos previstos, têm como objetivo fortalecer a soberania tecnológica do país e estão distribuídas em cinco eixos: ampliação da infraestrutura computacional e da rede nacional de dados; formação e capacitação de profissionais; adoção de inteligência artificial no serviço público; incentivo à inovação empresarial e ao ecossistema de startups; e desenvolvimento de mecanismos de regulação e governança para o uso ético da tecnologia.

O PBIA também estabelece metas para os próximos três a cinco anos, incluindo a expansão da capacidade computacional nacional, a formação de milhares de profissionais especializados e a consolidação do Brasil entre os cinco países com maior capacidade computacional para IA, além da ampliação do uso da tecnologia pelos órgãos federais.

Procurado, o MCTIC informou que, até junho de 2026, R$ 7,8 bilhões haviam sido executados, o que corresponde a 34% dos R$ 23 bilhões previstos para o período 2024–2028.

“A execução acompanha o desenho do plano: o eixo de inovação empresarial responde por 60% do orçamento total previsto e concentra a maior parte do valor já executado, por operar instrumentos consolidados de crédito e subvenção da Finep e do BNDES. Os demais eixos tiveram, em 2024 e 2025, sua fase de estruturação e agora entram na fase de contratação: o FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) aprovou cerca de R$ 1 bilhão para ações dos cinco eixos em 2026, e há R$ 7,1 bilhões programados no âmbito do fundo para os próximos anos”, informou o ministério.

Entre os principais marcos do período estão a quadruplicação da capacidade do supercomputador Santos Dumont, que atingiu 18,85 petaflops, o apoio a 547 projetos de IA aplicada em empresas por meio da Finep e do BNDES, e a realização da primeira Olimpíada Nacional de IA, que reuniu 716 mil estudantes inscritos.

Para a próxima fase, o foco do ministério será na soberania tecnológica, com a estruturação da compra de um novo supercomputador nacional e a contratação de projetos aprovados em 2026, como o modelo de linguagem em português baseado em dados locais e o Instituto Nacional de IA. O cronograma prevê ainda o lançamento de editais de bolsas e retenção de talentos em dezembro, a ampliação dos CENAPADs (Centros Nacionais de Processamento de Alto Desempenho) em 2027 e a continuidade do monitoramento público do plano.

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Piauí criou projeto SoberanIA, em 2024

Um projeto conhecido como SoberanIA foi criado em 2024 no Piauí, a partir da criação da Secretaria Estadual de Inteligência Artificial. O projeto foi concebido com o objetivo de realizar uma ação transversal de tecnologia dentro do governo, visando a transformação digital como uma ferramenta de transformação social.

De um lado, o intuito é oferecer treinamentos em IA para servidores públicos. Do outro, é permitir interações da população com os serviços estaduais por meio da IA.

Embora o ecossistema se chame SoberanIA, os modelos de linguagem (LLMs) desenvolvidos com base em soluções de código aberto são denominados Soberano. Eles foram treinados em território nacional, utilizando servidores e dados brasileiros.

“O Soberano é voltado para ser usado no setor público. Não tem a intenção de ser o ChatGPT”, afirma André Macedo Santana, secretário de Inteligência Artificial, Economia Digital, Ciência, Tecnologia e Inovação do Estado do Piauí (SIA),

O projeto utiliza um vasto inventário de cerca de 800 bases de dados públicas (saúde, segurança, educação) e sistemas de processos eletrônicos para treinar a IA. Também incorpora dados culturais, como livros de autores piauienses e videoaulas da rede estadual.

Santana diz que o intuito da IA do Estado é ser especialista no contexto nacional e regional, entendendo gírias, sotaques e a cultura local para facilitar a comunicação com a população.

Entre as aplicações, Santana cita que já é possível registrar um boletim de ocorrência via WhatsApp por mensagens de voz ou texto, graças ao projeto Soberania. Entre as diversas iniciativas do projeto, o secretário estima que o investimento já realizado supere a cifra de R$ 40 milhões. “A meta é tornar o Soberania a base do governo conversacional”, afirma Santana.

Para realizar isso, o secretário conta que busca o apoio do MCTIC para comprar placas de processamento gráfico para as demandas de IA. Além disso, a secretaria anunciou no fim do ano passado um projeto de instalar um data center no litoral do Estado em parceria com a Scala Data Center. A ideia é manter os dados processados localmente. Segundo Santana, ainda faltam detalhes técnicos para que isso ocorra. Procurada, a empresa não se pronunciou.

Setor energético brasileiro tem grande potencial na era da IA

A energia renovável brasileira, especialmente a eólica, já é vista por especialistas como um dos grandes destaques mundiais para alimentar os data centers especializados em processar cargas de trabalho de IA.

Segundo o relatório Latin America Data Center Report 2025, da JLL, o País tem 48% da capacidade de data centers em operação na América Latina e também tem 71% da capacidade em fase de construção na região.

Esses espaços precisam de tanta energia quanto uma cidade de pequeno ou médio porte, e isso pode impactar na conta de luz da população se não houver planejamento prévio e uso de fontes renováveis e métodos eficientes de resfriamento dos servidores.

Por isso, grandes empresas já apostam no Brasil para abrigar data centers, como é o caso do TikTok, que estrutura um projeto de R$ 200 bilhões no Porto Pecém junto com a Omnia Data Centers, empresa criada pelo fundo Pátria Investimentos.

No interior de SP, na cidade de Sumaré, a Ascenty prepara um data center que será dedicado ao processamento de demandas de IA. O cliente, porém, não foi revelado — embora as possibilidades de empresas com capital e necessidade de tanto processamento sejam poucas no mundo, como Meta, Microsoft, Google, OpenAI e Anthropic.

No começo do ano, o setor teve as expectativas frustradas pela perda de validade da medida provisória do Redata, que traria benefícios para empresas que instalassem data centers no Brasil. A MP acabou não sendo votada pelo Congresso e segue sem previsão de vigência. O Retada previa a suspensão de tributos federais na compra de equipamentos, estímulo à economia digital e redução de custos para instalação de data centers.

Steibel, do ITS-Rio, lembra que, embora o Brasil tenha potencial para o mercado de data centers, ainda é pequeno globalmente nessa área.

“O Brasil tem 1% dos data centers do mundo. Por mais que cresçamos muito, não teremos a mesma capacidade de processamento de dados da Europa, EUA ou China. Nosso potencial é verídico, mas precisa ser colocado em escala. Para nós, é ótimo (ter energia renovável) porque poderemos usar energia verde para o processamento de dados que precisarmos”, diz Steibel.

Soberania em IA: o que o Brasil precisa fazer para reduzir a dependência de outros países – Estadão 

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