Na corrida da IA, Brasil é fornecedor e refém


O que está sendo feito hoje para diversificar jurisdição, criar redundância e garantir que sua operação continue no ar no dia seguinte?

Por André de Moura – Valor – 17/07/2026 

A adoção de inteligência artificial virou prioridade declarada em quase todos os conselhos e comitês executivos do país. E faz sentido, esperam-se ganhos de produtividade, automação, novos produtos. Mas há um ponto pouco discutido nessa pressa, quase toda essa inteligência roda sobre a infraestrutura de três empresas americanas – AWS, Azure e Google Cloud. Quanto mais uma empresa se torna “IA em primeiro lugar”, mais dados, modelos e operações ela transfere para dentro de uma única jurisdição estrangeira. A eficiência e os ganhos de produtividade estão ainda sendo auferidos, por outro lado, a dependência é real, só que ela não aparece em relatório de risco nenhum.

Há uma ironia que define a posição brasileira. Isto é, o país é peça central da corrida global da IA por causa de suas reservas de terras raras e minerais críticos, insumos sem os quais não se fabricam semicondutores nem hardware de processamento de ponta. O Brasil detém a segunda maior reserva mundial. Ou seja, fornecemos a matéria-prima que alimenta o hardware de IA do planeta e, ao mesmo tempo, somos clientes cativos da nuvem onde essa mesma IA é processada. A contradição é assustadoramente clara, fornecedor estratégico de um lado, refém de infraestrutura do outro.

Esse arranjo seria apenas desconfortável se o mundo estivesse em paz, porém sabemos que não é o caso. A polarização entre Estados Unidos e China deixou de ser disputa tarifária para se tornar mais uma guerra fria, desta vez tecnológica, em que dados e infraestrutura são armas. E o Brasil entrou no radar de Washington com a decisão americana de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, o que pode transformar a segurança pública brasileira em peça de barganha diplomática. Sob a bandeira de “combate ao financiamento do terrorismo” ou de alinhamento estratégico, o acesso às terras raras brasileiras pode passar a ser condicionado aos interesses americanos.

Fico me perguntando o que aconteceria com várias empresas brasileiras, se uma ordem executiva americana proibir o fornecimento de serviços de tecnologia a empresas do nosso Brasil sob retaliação política, não haverá aviso prévio nem prazo de adequação. No dia seguinte, sistemas de pagamento param, cadeias de suprimento congelam e operações inteiras saem do ar. Infelizmente, é a operação inteira desligada do dia para a noite.

Várias organizações estão adotando o famoso “multicloud” distribuindo a operação entre AWS, Azure e Google Cloud, sob o arcabouço de diversificação, mas talvez esqueçam que todas as três respondem ao mesmo governo e à mesma lei. É como manter três contas em bancos diferentes, todos sujeitos à mesma ordem de bloqueio. Redundância de verdade não é ter três fornecedores; é ter fornecedores que não podem ser desligados pela mesma caneta.

Ciente dessa fragilidade, a China avança. A Huawei Cloud dobrou a receita no Brasil no último ano e já contempla três zonas de disponibilidade no país, oferecendo infraestrutura robusta a custo bem menor e se apresentando como porto seguro contra o arbítrio americano. Mas migrar em bloco para o ecossistema chinês seria apenas trocar a cor do risco,, substituindo a exposição às ordens da Casa Branca pela sujeição às diretrizes do Partido Comunista Chinês.

Resiliência real exige diversificar jurisdição e métodos. Significa combinar provedores ocidentais com alternativas de outras origens e, sobretudo, manter parte da infraestrutura (dados e processos críticos) sob controle próprio “on-premise” ou sob arquiteturas híbridas. Isso tem custo, dá trabalho e sacrifica parte da eficiência que motivou a ida para a nuvem em primeiro lugar.

À medida que a IA se torna mais um órgão a ser monitorado das empresas brasileiras, a pergunta que conselhos e diretorias precisam responder é simples. O que está sendo feito hoje para diversificar jurisdição, criar redundância e garantir que sua operação continue no ar no dia seguinte?

André Aroldo Freitas De Moura é professor da FGV EAESP, conselheiro fiscal da Fundação Butantan e consultor de “valuation”

E-mail: andre.moura@fgv.br

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https://valor.globo.com/empresas/coluna/na-corrida-da-ia-brasil-e-fornecedor-e-refem.ghtml 

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