The Economist: A China pode ter dificuldades para financiar os sonhos tecnológicos de Xi Jinping


Estimativa é que somente os centros de dados de IA do país custarão US$ 295 bilhões nos próximos cinco anos

Por Estadão/The Economist – 12/07/2026 | 

Os líderes da China raramente citam empresas específicas. É ainda mais raro que eles destaquem a valorização de um grupo enquanto este se prepara para uma oferta pública inicial de ações (IPO) altamente esperada. Isso não impediu que Li Qiang, primeiro-ministro do país, mencionasse recentemente a Unitree, uma empresa de robótica, e a explosão em sua valorização, de 10 milhões de yuans (US$ 1,47 milhão) para 42 bilhões de yuans (US$ 6,2 bilhões) em uma década.

A Unitree, que em 2 de julho recebeu aprovação para abrir o capital, é apenas uma das milhares de empresas por trás do plano do Partido Comunista de assumir a liderança em uma longa lista de tecnologias de ponta na próxima década – desde inteligência artificial e robôs humanoides até energia de fusão e implantes cerebrais digitais. As empresas por trás dessas tecnologias agora precisam de grandes quantidades de capital para colocá-las em prática em grande escala.

Somente os centros de dados de IA da China custarão 2 trilhões de yuans (US$ 295 bilhões) nos próximos cinco anos. A robótica e a manufatura de ponta podem exigir um montante semelhante nos próximos dez anos. Enquanto o mercado de ações dos Estados Unidos recebe um mega IPO após o outro e seu mercado de títulos é tomado pela febre da IA, será que os mercados de capitais chineses, mais modestos, conseguirão acompanhar o ritmo – e estar à altura das ambições do partido?

Parte da conta tecnológica da China será coberta pelos lucros reinvestidos de empresas já estabelecidas e pelo sistema bancário estatal chinês. Mas os investidores de capital público e privado precisarão arcar com uma parte significativa da conta. Para incentivá-los, nos últimos dois anos, Xi Jinping, o chefe supremo de Li, flexibilizou uma repressão anterior ao setor de tecnologia e aos investimentos “desordenados”. Ele também deixou mais claro para onde deseja que o capital flua.

Como resultado, nos primeiros cinco meses de 2026, foram lançados mais de 9,5 mil novos fundos de ações, o dobro do número registrado no mesmo período do ano anterior. Grande parte dessa atividade foi impulsionada por fundos de capital de risco criados por grandes corporações, tanto privadas quanto estatais. No final de 2025, os fundos orientados pelo Estado levantaram 230 bilhões de yuans (US$ 33,9 bilhões) em novos capitais para investir em tecnologia, um aumento em relação aos 11 bilhões de yuans (US$ 1,6 bilhão) do ano anterior. O lento crescimento do crédito em uma economia em desaceleração permitiu que os bancos concedessem mais empréstimos a investidores privados.

A DeepSeek, a startup de IA mais badalada da China, estaria levantando capital com uma avaliação de quase US$ 60 bilhões junto à Tencent, um gigante digital, e à CATL, a maior fabricante mundial de baterias. A Unitree deve sua valorização vertiginosa a investimentos semelhantes. A consultoria Hurun contabilizou pelo menos 80 startups que ultrapassaram US$ 1 bilhão em valor de mercado no primeiro semestre do ano, contra 22 em todo o ano de 2025.

Os mercados de capitais também estão em ebulição, após um período em que as autoridades pisaram no freio, temendo que os IPOs sugassem capital de outras ações em um mercado em baixa. Empresas chinesas levantaram cerca de US$ 32 bilhões este ano, o dobro do valor comparável de 2025 e o triplo do de 2024. Grandes negócios estão de volta. 

A CXMT, fabricante de chips de memória, planeja uma abertura de capital de US$ 4,3 bilhões, uma das maiores dos últimos anos. Outras dez empresas de tecnologia planejam aberturas de capital na casa de vários bilhões de yuans. O Star Market de Xangai, com forte presença de empresas de tecnologia – que havia proibido startups sem lucro de se listarem em 2024 e 2025 -, voltou a aceitá-las. A Unitree teve sua abertura de capital aprovada em 100 dias, em vez do ano ou mais que costumava levar.

Especialistas veem com bons olhos o renascimento dos mercados de capitais chineses. Mas alguns também se lembram dos primórdios do capitalismo chinês na década de 1990, quando esses mercados serviam principalmente para canalizar dinheiro para empresas estatais, em vez de buscar retornos elevados. Agora, muitas vezes são as empresas estatais que canalizam capital para as startups. A SMIC, fabricante estatal de chips, lançou um fundo que hoje detém participações em mais de 400 empresas de semicondutores. 

Quando empresas privadas se envolvem, muitas vezes fazem parcerias com o Estado. A Xiaomi, que agora fabrica carros elétricos além de smartphones, criou um fundo em parceria com o governo local da província de Hubei, que já realizou mais de 100 investimentos.

Para os gestores de ativos que recebem o capital do Estado e seus coinvestidores privados, o envolvimento do governo vem acompanhado de condições. O dinheiro deve ser direcionado a empresas que se encaixem nos planos tecnológicos do partido. Muitas não são particularmente inovadoras; algumas podem estar trabalhando em problemas resolvidos há anos em outros países. Empresas de investimento apoiadas por bancos, por exemplo, raramente investem em startups com menos de cinco anos, preferindo empresas que já tenham recebido algum tipo de reconhecimento do governo, de acordo com uma análise desses negócios feita pela consultoria Gavekal. Isso pode significar um potencial de ganho limitado.

Ao mesmo tempo, afastar-se dos setores favorecidos traz grandes desvantagens. Menos capital estatal reduz as avaliações. A falta de apoio estatal também pode tornar mais difícil a aprovação de aberturas de capital, mesmo que o fundo da SMIC, por exemplo, já tenha listado pelo menos 48 empresas de seu portfólio e esteja se preparando para abrir o capital de outras 50. Os reguladores estão reservando privilégios de listagem quase exclusivamente para os principais fabricantes de hardware, como a Unitree, e para aqueles que, como a CXMT, estão ajudando o país a se livrar da dependência de tecnologia estrangeira.

A função da Comissão Reguladora do Mercado de Valores Mobiliários da China (CSRC), principal órgão de fiscalização dos mercados, agora não se limita apenas a avaliar empresas, prevenir bolhas e gerenciar a liquidez, mas também a garantir que o capital seja direcionado para os objetivos das políticas de Xi Jinping. No entanto, é difícil encontrar um equilíbrio entre a política industrial e a estabilidade do mercado.

O objetivo da CSRC de manter um mercado em “alta lenta”, que suba gradualmente em vez de uma corrida alucinante como a de Pamplona, é difícil de alcançar quando os principais líderes elogiam empresas de tecnologia específicas. Ao ouvir tais declarações, centenas de milhões de investidores de varejo chineses estão retirando dinheiro de setores enfadonhos, mas importantes, como bens de consumo básico (com queda de 15% neste ano) e direcionando-o para o setor de tecnologia (com alta de 20%, segundo o índice ChiNex de Shenzhen, fortemente voltado para tecnologia).

Essas considerações deixam os investidores profissionais, que movimentam grandes somas, mais nervosos do que estariam em um mercado mais livre. Isso, por sua vez, os torna mais parcimoniosos com o capital. Em vez disso, os bancos estatais, com histórico de alocação ineficiente de capital, acabarão investindo mais do que deveriam. É isso que acontece quando as metas políticas do governo central vêm em primeiro lugar e a ganância fica em segundo plano, observa um veterano do mercado chinês. Longe de ajudar a China a concretizar seus planos tecnológicos, um Estado intervencionista pode tornar esses objetivos mais difíceis de alcançar.

The Economist: A China pode ter dificuldades para financiar os sonhos tecnológicos de Xi Jinping – Estadão 

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