Cientistas fizeram a primeira descrição detalhada, minuto a minuto, do movimento de placas tectônicas
Por Fernando Reinach – Estadão – 10/07/2026
Esta semana foi publicada a primeira descrição detalhada de um desses movimentos, detectado por sensores colocados no local em que duas placas tectônicas se encontram no fundo do Oceano Índico. A descrição detalhada, minuto a minuto, me deixou boquiaberto.
Placas tectônicas são gigantescos blocos de rocha que formam a “casca” externa do nosso planeta, como se fossem as peças de um quebra-cabeça cobrindo a Terra. Nós vivemos em cima dessas peças, que suportam os continentes e o fundo dos oceanos. Embora pareçam imóveis, essas placas flutuam muito lentamente sobre uma camada de rocha quente e pastosa, o magma, que de vez em quando é expelido pelos vulcões.
Normalmente, as placas se movem alguns centímetros por ano, mas vez por outra se movem rapidamente e aí a coisa fica divertida para os cientistas, ou trágica se ocorrer perto de cidades.
Quando duas dessas placas começam a se afastar uma da outra, elas criam uma fenda na crosta. O magma derretido do interior da Terra aproveita essa rachadura para subir. Se isso ocorre na superfície, observamos vulcões.
Mas, se ocorre no fundo do oceano, o magma esfria e solidifica instantaneamente. Essa rocha resfriada se transforma em um novo pedaço de assoalho oceânico ou uma nova cadeia rochosa no fundo do mar. Se essa montanha aflora, surge uma nova ilha.
Foi na tentativa de observar um desses fenômenos em tempo real que os cientistas instalaram sensores no local em que as duas placas tectônicas estão se separando lentamente (2-3 centímetros por ano). O local fica próximo à Ilha de Amsterdã, no sul do Oceano Índico, a cerca de 3.500 km da Austrália, 3.600 km de Madagascar e 5.000 km do extremo sul da Índia.
O observatório submarino foi planejado para monitorar os movimentos tectônicos. O sistema contém uma rede de cinco hidrofones (que emitem e recebem sons embaixo da água) colocados a 2.000 metros de profundidade, ao lado da falha que separa as placas tectônicas. Eles permitem detectar e localizar terremotos e explosões de lava. Um sensor de pressão, posicionado diretamente no chão do vale, permite medir deformações verticais.
Para mapear os deslocamentos horizontais, os cientistas instalaram 15 balizas acústicas montadas sobre tripés de 3,5 metros de altura nas cristas das falhas, 11 distribuídas em duas linhas paralelas que cruzavam o vale oceânico onde as placas se tocam, e quatro dispostas em formato de losango sobre a falha. A instalação terminou em fevereiro de 2024.
Os cientistas tiveram sorte. Poderiam monitorar a região por anos sem que nada de especial ocorresse, mas dois meses depois, às 19h56 do dia 26 de abril de 2024, os hidrofones registraram cinco pequenos terremotos.
Às 20h09, ocorreu um grande terremoto e o solo do oceano começou a afundar. Nos 26 minutos seguintes, uma bolsa de magma localizada a 3,6 km de profundidade, que se rompeu com o terremoto, começou a se esvaziar através de uma fenda vertical.
Essa fenda rasgou a crosta terrestre a uma velocidade impressionante de 3 metros por segundo, permitindo o vazamento de magma. O esvaziamento abrupto de magma fez o solo do vale desabar 1,2 metro em apenas 40 minutos, chegando a um afundamento total de 4,2 metros nos seis dias seguintes.
O magma rompeu a superfície por volta das 22h00 e, ao longo de uma erupção de 16 dias, acompanhada por milhares de explosões acústicas e dezenas de terremotos, cerca de 160 milhões de m³ de lava se acumularam no solo do oceano, formando extensas paredes de rocha com até 90 metros de altura e quatro quilômetros de comprimento.
Difícil de imaginar? Pense no estádio do Maracanã, do gramado até o topo da cobertura de cimento. O volume interno do estádio, preenchido até a boca, é de aproximadamente um milhão de metros cúbicos. A quantidade de lava expelida seria suficiente para encher 160 estádios do Maracanã com rocha derretida.
Imagine agora essa montanha de 160 estádios aparecendo no meio da Baía de Guanabara. Seria quase um novo Pão de Açúcar, criado em poucos dias, enquanto ali perto Ipanema afunda quatro metros e é invadida pelo mar até o segundo andar dos prédios.
Parece um evento enorme, mas, para o tamanho do planeta, foi um pequeno evento sísmico que tivemos a sorte de ver de perto. Na época, como ocorreu no meio do oceano, sequer foi noticiado.
Mais informações: Anatomy of a seafloor spreading event captured by in situ seismogeodesy. Nature https://doi.org/10.1038/s41586-026-10785-0 2026
Opinião por Fernando Reinach
Biólogo, PHD em Biologia Celular e Molecular pela Cornell University e autor de “A Chegada do Novo Coronavírus no Brasil”; “Folha de Lótus, Escorregador de Mosquito”; e “A Longa Marcha dos Grilos Canibais”
A origem de um terremoto observado de perto – Estadão
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