Os motivos para aprender logaritmo e química orgânica


Pergunta certa não é ‘onde vou usar logaritmo’, mas ‘o que aconteceu no meu cérebro quando aprendi a resolver um problema matemático com logaritmo’

Por Priscila Cruz – O Globo – 09/07/2026 

“Para que aprender logaritmo se eu não vou ser engenheiro?” “Por que estudar química orgânica se meu plano é empreender?” “Onde, na vida real, vou usar isso que a escola me ensinou?” Esse tipo de questionamento é muito repetido nos corredores escolares e também por adultos que já esqueceram quase todo o conteúdo que um dia aprenderam na escola. É uma crítica sedutora, quase óbvia. E é também profundamente equivocada, porque parte de uma pergunta errada. A pergunta certa não é “onde vou usar logaritmo”, mas “o que aconteceu no meu cérebro quando aprendi a resolver um problema matemático com logaritmo”.

Uma dimensão muito importante do período escolar é aprender a aprender, mesmo que não haja um uso óbvio do conteúdo em si. O percurso cognitivo percorrido para decorar cadeias montanhosas, resolver um problema matemático, compreender um período histórico e suas consequências, ter fluência leitora, entender uma sequência de eventos biológicos, tudo isso é musculação para o cérebro: identificar padrões, testar hipóteses, errar, ajustar, tentar outro caminho, memorizar, compreender. Essas são conexões neurais reais, que não desaparecem quando a fórmula é esquecida. Elas estarão disponíveis diante de outros problemas complexos que a vida vai apresentar, seja qual for a realidade de cada um.

O valor de ter enfrentado um conteúdo difícil, ter se frustrado com ele e ter conquistado a compreensão está sobretudo no desenvolvimento cognitivo e na confiança de que o próximo obstáculo difícil também pode ser vencido.

Aprender a aprender também tem como premissa que aprendizagens anteriores viabilizam futuras aprendizagens. Por exemplo, para resolver uma equação do segundo grau, é preciso ter aprendido as operações matemáticas, o conceito de equação e como resolver equações de primeiro grau. Então, mesmo quando uma aprendizagem parece de pouca utilidade, ela será escada para outras.

Com a esperança de que tenham concordado com meus argumentos, quero defender uma política pública, propor uma revisão e criticar uma prática recorrente na educação pública, nesta ordem: a recomposição da aprendizagem, a Base Nacional Comum Curricular e a aprovação automática.

Se um aprendizado é anterior a outros mais complexos ou difíceis, a recomposição da aprendizagem é absolutamente necessária. Ela acontece quando há intervenções pedagógicas para que um aluno não acumule defasagens, ou seja, a dificuldade é identificada, seja do ano vigente ou mesmo de anos anteriores, e há um processo intencional para que a aprendizagem seja efetivada no curso do ano letivo, sem carregar as deficiências basilares para outros anos. A recomposição não é apenas para períodos de exceção, como pandemias e eventos climáticos extremos, ela é sempre necessária, porque é fato da vida que algumas aprendizagens podem ficar para trás.

É esperado que, ao longo da trajetória escolar, alunos não consolidem de primeira o entendimento de alguns conceitos, fatos e raciocínios. O que não é aceitável é que os alunos não tenham outras oportunidades para voltar a esses aprendizados. É preciso identificar as lacunas e fechá-las com intervenções rápidas para que não se tornem bolas de neve, que é exatamente o que acontece em larga escala no Brasil. Em São Paulo, por exemplo, numa sala de aula de 9º ano, em média apenas 16% dos alunos têm o aprendizado esperado para essa etapa; o maior agrupamento está com aprendizado esperado relativo ao final do 5º ano. Importante deixar claro que a expansão da jornada, com mais horas na escola, é franca viabilizadora da recomposição, pois a dimensão do tempo é crucial.

Para acertarmos mais na recomposição, é preciso rever a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que é absurdamente inchada. Isso gera uma corrida que atropela alunos e o trabalho dos professores, ao invés de aprendizados em profundidade. Além disso, é preciso sequenciamento claro para que professores consigam planejar melhor suas aulas e desenvolver o trabalho de recomposição. Priorizar o que será aprendido não é cair na tentação de cortar apenas por não parecer necessário ou útil, mas de ter clareza em relação a quais aprendizagens vão viabilizar mais aprendizagens.

Por fim, é preciso acabar com a aprovação automática que tem substituído a progressão continuada, pela qual os alunos são aprovados sem terem necessariamente aprendido e, portanto, sem terem tido a oportunidade de recomposição da aprendizagem. Como aprovar mais faz subir o Ideb, infelizmente algumas redes de ensino têm colocado muita energia nesse disfarce. Ao invés de aprovação automática, é preciso progressão continuada, que tem como premissa a recomposição da aprendizagem e um currículo mais ajustado. Não se trata aqui de defender a reprovação, longe disso, pois ela raramente resolve defasagens e frequentemente empurra o estudante para fora da escola, mas sim o foco obsessivo na aprendizagem, que terá como consequência o aumento, com lastro, do Ideb.

O Ideb já deveria ter sido divulgado. Quando for, a dimensão da aprendizagem deve ser observada com atenção, e a dimensão da aprovação, analisada com cautela e visão crítica.

Os motivos para aprender logaritmo e química orgânica 

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