IA está esvaziando a velha lógica da gestão


Talvez o maior legado não seja a criação de máquinas mais inteligentes, mas a criação de um ambiente em que indivíduos excepcionais possam gerar impacto antes reservado apenas às maiores organizações

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Wellington Vitorino – Valor – 24/06/2026 

Durante décadas, o mundo corporativo associou sucesso profissional à capacidade de liderar equipes cada vez maiores. O símbolo máximo de prestígio era subir a escada da gestão, acumulando subordinados, orçamento e poder de decisão. A inteligência artificial começa a inverter essa lógica de maneira profunda.

Nos últimos anos, ganhou força no Vale do Silício a discussão sobre os chamados “Individual Contributors” (ICs) e, mais recentemente, os “Super ICs”. Embora os termos tenham se popularizado recentemente, o fenômeno que descrevem está longe de ser novo.

Um “Individual Contributor” é um profissional que gera valor principalmente por sua capacidade técnica, intelectual ou criativa, sem depender da gestão direta de grandes equipes. Já um Super IC representa uma categoria rara de profissionais cujo impacto pode rivalizar com o de departamentos inteiros ou até de organizações completas.

A história oferece exemplos emblemáticos. Linus Torvalds, criador do Linux, transformou a infraestrutura digital do planeta sem jamais se tornar conhecido por liderar milhares de funcionários. O sistema operacional nascido de seu trabalho individual sustenta hoje boa parte da internet, da computação em nuvem e dos smartphones do mundo.

Outro exemplo é Jeff Dean, “distinguished engineer” do Google. Embora desconhecido do grande público, sua influência sobre a arquitetura tecnológica da empresa ajudou a moldar sistemas utilizados diariamente por bilhões de pessoas. Seu impacto não deriva do número de subordinados, mas da profundidade do conhecimento e da capacidade de resolver problemas que poucos conseguiam resolver.

Mais recentemente, Andrej Karpathy tornou-se uma das vozes mais influentes da inteligência artificial. Ex-pesquisador fundador da OpenAI e ex-diretor de IA da Tesla, Karpathy ajudou a popularizar conceitos que hoje estão no centro da revolução dos grandes modelos de linguagem. Sua influência global decorre da produção intelectual e da capacidade de ensinar, e não da ocupação de estruturas hierárquicas tradicionais.

O que muda agora é a escala. A inteligência artificial está ampliando a capacidade desses profissionais de forma sem precedentes. Um indivíduo equipado com ferramentas avançadas de IA consegue realizar análises, produzir conteúdo, desenvolver software, conduzir pesquisas e automatizar processos em velocidades que, até poucos anos atrás, exigiriam equipes inteiras.

Essa transformação já está sendo monitorada pelas principais universidades do mundo. O relatório AI Index 2026, da Stanford HAI, mostra que a adoção da IA continua acelerando e que especialistas enxergam impactos positivos crescentes sobre produtividade e trabalho. Ao mesmo tempo, cresce a demanda por competências ligadas ao uso estratégico dessas tecnologias.

Em Harvard, o professor Boris Groysberg tem chamado atenção para o conceito de “talent density”. A tese é clara. Na era da inteligência artificial, o diferencial competitivo não está apenas em contratar mais pessoas, mas em concentrar talentos excepcionais em posições nas quais a tecnologia amplifique seu potencial.

No MIT, pesquisadores como Thomas Davenport vêm defendendo que a grande transformação não será a substituição de humanos por máquinas, mas a construção de modelos de trabalho baseados na complementaridade entre inteligência humana e artificial. O profissional do futuro tende a atuar menos como executor e mais como arquiteto de decisões, conhecimento e sistemas.

Essa mudança ajuda a explicar por que tantas empresas de tecnologia vêm reduzindo camadas hierárquicas e aumentando a proporção entre especialistas e gestores. No Brasil, fintechs e startups de software já sentem esse movimento. A pergunta deixou de ser quantas pessoas você lidera e passou a ser qual problema você resolve, e com qual escala.

O debate, portanto, não é sobre o desaparecimento da gestão. Organizações continuarão precisando de líderes capazes de coordenar pessoas, cultura e estratégia. O que muda é a fonte de valor. Durante grande parte do século XX, o poder econômico esteve associado à escala industrial. Nas últimas décadas, migrou para a tecnologia. Agora, começa a migrar para a combinação entre conhecimento especializado, redes de influência e inteligência artificial.

Talvez o maior legado da era da IA não seja a criação de máquinas mais inteligentes. Talvez seja a criação de um ambiente no qual indivíduos excepcionais consigam gerar impactos antes reservados apenas às maiores organizações do mundo.

Nesse cenário, os Super ICs deixam de ser uma curiosidade do Vale do Silício para se tornar um dos principais arquétipos profissionais do século XXI. Com uma ressalva importante: nem toda organização está preparada para identificar, desenvolver e reter esse perfil. As que não aprenderem correm o risco de perder seus melhores talentos.

Wellington Vitorino é diretor-executivo do Instituto Four

E-mail: wvitorino@institutofour.org

https://valor.globo.com/empresas/coluna/ia-esta-esvaziando-a-velha-logica-da-gestao.ghtml 

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