Vibe coding ou faça você mesmo: IA abre mundo dos softwares a quem não domina programação


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Ferramentas democratizam a criação de soluções digitais personalizadas, convertendo linguagem comum em código, mas levantam alerta sobre segurança de dados e privacidade

Bruno Romani e Guilherme Queiroz – O Globo – 21/06/2026

Até pouco tempo atrás, construir um aplicativo do zero era trabalho para uma equipe inteira de programadores e outros especialistas. Porém, com o avanço das ferramentas de inteligência artificial (IA), pessoas que não são da área e têm pouco conhecimento de códigos e programação estão conseguindo tirar do papel ideias para plataformas e softwares, criando seus próprios aplicativos. É o prenúncio de uma nova era do “faça você mesmo” em tecnologia, que abre oportunidades, mas também riscos de segurança e privacidade, como a possível ausência de proteção de dados pessoais ou o vazamento de informações sensíveis.

A mudança está em um conceito conhecido como “vibe coding”, que indica a criação de linhas de códigos por meio de linguagem natural, da mesma maneira que falamos com chatbots de IA. Ou seja, a pessoa programa apenas pelo o que “sente”. A expressão foi criada em fevereiro de 2025 por Andrej Karpathy, cofundador da OpenAI e hoje pesquisador da Anthropic. No início, parecia um tema ainda do mundo da programação, mas avanços intensos já fizeram o conceito chegar a profissionais de fora da bolha.

Chega de esperar à toa

É o caso do entregador de delivery Ednilton Matos, de 22 anos. Ele criou o Grana Certa, app que monitora o tempo médio de espera de um entregador de delivery por um pedido em um restaurante. Com a informação, os entregadores podem avaliar melhor os estabelecimentos de onde vão aceitar pedidos.

Matos, que mora na Zona Sul da cidade de São Paulo, é um entusiasta do mundo da programação. O interesse pela área surgiu no primeiro emprego, quando ainda era adolescente e trabalhou em uma empresa de manutenção de equipamentos eletrônicos. Ele começou a estudar computação e ferramentas como HTML e CSS. Depois, trabalhou como aprendiz em uma empresa de tecnologia e gerenciou um bar, até que optou por deixar o emprego formal para atuar em tempo integral como entregador, há seis meses.

— Um dia estava rodando os reels, no Instagram, e veio um vídeo de uma loja que estava demorando para liberar o pedido para um entregador. Esperar 10 minutos a mais por um pedido é um problema, a gente ganha por entrega, e queremos ganhar mais em menos tempo. De 10 em 10 minutos se perde muito dinheiro — diz Matos.

Para tentar resolver o problema, ajudar os colegas de trabalho e também a ele próprio a otimizar os ganhos, primeiro criou um robô no aplicativo de mensagens Telegram, em abril. O usuário registrava manualmente o momento de chegada e depois indicava quando o pedido tinha sido liberado. Em cima dessa informação, o serviço exibia o tempo médio de espera nas lojas que eram avaliadas pelos entregadores. Mas a ideia não teve engajamento.

— Era preciso registrar manualmente. Ninguém usava de verdade — diz.

Começou então a explorar ferramentas de IA, até que encontrou uma voltada especificamente para o desenvolvimento de aplicativos. A ideia era que, ao receber uma oferta de entrega no iFood, o serviço exibisse na tela do celular de forma automática o tempo médio de espera em um restaurante. Os dados também seriam coletados sem que o entregador precisasse fazer registros manuais. O projeto engrenou e há duas semanas foi disponibilizado para download na Play Store, para aparelhos Android.

— Com a IA consegui em uma semana o que demoraria talvez um ano para fazer sozinho. Hoje tenho cerca de 400 entregadores ativos que já avaliaram 9 mil estabelecimentos por todo o Brasil — diz Matos, que tira do próprio bolso cerca de R$ 500 mensais para manter o serviço rodando. O próximo passo é encontrar maneiras de monetizar o produto.

Avanço do ‘harness’

O salto na capacidade do vibe coding aconteceu a partir de dezembro de 2025, quando a Anthropic lançou o modelo Claude Opus 4.5. A capacidade de criar código acabou empurrando toda a área, forçando nomes como OpenAI e Google, a também lançarem modelos altamente eficientes em programação — isso ajuda a justificar a popularidade da Anthropic nos últimos meses, que no mês passado atingiu avaliação de US$ 900 bilhões. Ou seja, o vibe coding de hoje não é o mesmo de um ano atrás.

Entre as características dessas novas IAs estão longas janelas de contexto, que suportam até 1 milhão de tokens (os pedacinhos de palavras processados por IA; estima-se que a Bíblia tenha o equivalente a 1 milhão de tokens). Isso permite que os aspirantes a programadores possam trabalhar nos projetos por mais tempo sem que o sistema se esqueça do começo da conversa.

As novas IAs também conseguem fazer gestão dessa memória, monitorando o limite de contexto, compilando a memória da conversa e liberando espaço para que o projeto continue funcionando de forma consistente. Mas o grande termo do vibe coding em 2026 é “harness”, como explica Fabrício Carraro, program manager da escola de tecnologia Alura.

— O harness é o sistema que envolve o modelo de IA, como o GPT ou Claude, e gerencia a execução do projeto. Ele recebe o prompt gigante, divide-o em subtarefas (criar banco de dados, criar tela, criar autenticação), testa o código automaticamente e, se encontrar erros, pede para a IA corrigir antes de entregar ao usuário.

Ou seja, o harness vai além da janela do chatbot, que apenas oferece resposta. Ele permite a execução de projetos de maneira amigável, dispensando elementos como o terminal de código, que costuma assustar quem nunca programou. Para quem acompanha a área, foi com um harness mais esperto que a Anthropic superou a OpenAI na preferência dos programadores. Para tirar o atraso, a OpenAI melhorou o Codex, e acabou até integrando ele ao ChatGPT, enquanto o Google anunciou recentemente uma grande atualização no Antigravity.

A tendência acompanha a própria orientação das empresas neste início de ano, quando elas orientavam funcionários a usar a IA ao máximo no trabalho. Mas quando se trata do “faça você mesmo” no mundo corporativo, o entusiasmo deu lugar à moderação após a alta de custos. A fatura das empresas que fornecem ferramentas de IA é alta e nem sempre o retorno compensa.

Controle de finanças pessoais

Ainda assim, é inegável que as oportunidades são muitas. Letticia Cardomingo, de 35 anos, mora na Zona Leste de São Paulo e também usou dos avanços recentes das ferramentas de IA para tirar uma ideia do papel e criou uma plataforma voltada para o controle de finanças pessoais, o Poupa Rápido. Ela tem formação na área da tecnologia e chegou a estudar linguagens de programação, mas não se aprofundou no assunto. Ao longo da carreira, se especializou na área de gestão de produtos digitais e equipes e começou a participar de hackathons — eventos do universo da tecnologia em que grupos são desafiados a construírem ferramentas que resolvam problemas específicos.

Desde os avanços da IA começou a se interessar pelo tema, entendendo como aplicar as novas ferramentas no trabalho, e fez um curso on-line voltado para a criação de aplicativos com auxílio dos algoritmos inteligentes.

— Criei o aplicativo em dois dias. Sigo trabalhando nele, corrigindo a parte de segurança. Hoje, está muito fácil criar um app.

De fato, tirar ideias do papel rapidamente, testar e criar protótipos de apps e páginas não parece ser mais um obstáculo — já há gente que prefere substituir uma apresentação de PowerPoint ou uma planilha de Excel por uma página web funcional. Para Gustavo Araújo, cofundador da consultoria de IA Distrito, estamos entrando em uma nova era do software:

— A gente está chegando na época do “software temporário”. Você cria um programa para usar numa reunião, joga fora e nunca mais vai usar. Programar não é mais o problema: o desafio agora é saber o que ‘codar’.

Quem também percebeu que poderia cortar caminho com vibe coding é o engenheiro agrícola e ambiental Lucas dos Santos, de 32 anos, coordenador da área de tecnologia e inovação de uma rede de fazendas em Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso. Ele conta que com auxílio de ferramentas de IA e de colegas de trabalho, criou uma interface que conecta os equipamentos de medição de umidade e pesagem de grãos, para culturas como milho e soja, ao sistema de gestão da empresa — permitindo que qualquer pessoa, mesmo sem conhecimento técnico, verifique se a integração está funcionando.

— Orçamos o valor de um software que resolveria esse problema e a licença custava R$10.000. Tentamos resolver o problema com o Claude e conseguimos chegar a uma solução em 45 minutos — conta Santos.

Limites permanecem

O que os entusiastas do novo vibe coding estão descobrindo é que algumas das limitações antigas ainda permanecem. Por exemplo, embora seja ótimo para iniciar projetos, ele dificilmente gera material capaz de gerar produtos finais, que podem ser usadas em escala corporativa — o sonho de sair do zero para uma empresa só com vibe coding ainda não se tornou real.

— Nem sempre código escala. Às vezes, ele está funcionando para você, mas, se você tiver mil usuários, fica lento. O vibe coding te tira do zero e atende muito bem essa necessidade individual. Mas a hora que você vai para uma empresa, para um departamento e depois para o corporativo, você realmente precisará de arquitetos e desenvolvedores que sabem o que estão fazendo — explica Araújo.

Letticia, de São Paulo, faz outro alerta que nasceu junto com o vibe coding e não foi solucionado:

— Um leigo pode nem saber, por exemplo, que precisa tomar cuidado com os dados pessoais dos usuários. E se tiver um vazamento, como agir?

Como aponta ela, o uso indiscriminado do vibe coding levanta preocupação com possíveis falhas de segurança. Lucas Matheus Peres Morais, professor do Senac Tech, acrescenta:

— Os pontos mais críticos do vibe coding são o armazenamento seguro de senhas, a exposição de dados sensíveis, as vulnerabilidades em APIs e o uso de dependências desatualizadas dentro do sistema.

De fato, o maior produto do vibe coding sofreu com alguns desses problemas. O agente de IA OpenClaw foi criado pelo programador Peter Steinberger apenas por comandos de linguagem natural — o austríaco não escreveu uma linha de código (ele afirmou posteriormente que “não lê código” e sim “entrega código”). No auge do sucesso, no entanto, as credenciais de API de milhões de usuários vazaram em fóruns por falhas na arquitetura do agentes. Na prática, uma credencial de API vazada significa que agentes maliciosos podem usar o cartão da vítima para pagar pelo uso de sistemas de IA.

— Numa aplicação de uso a nível de produção, de ter clientes utilizando, deve-se ter uma equipe de desenvolvimento de software capacitada para avaliar as vulnerabilidades, a arquitetura e a escalabilidade daquele sistema — diz Morais.

Vibe coding ou faça você mesmo: IA abre mundo dos softwares a quem não domina programação 

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