O robô do futuro não quer parecer gente


A Genesis AI aposta contra a obsessão por robôs humanoides com um modelo geométrico e minimalista chamado Eno

Jesus Diaz – Fast Company Brasil – 19-06-2026 

A Genesis AI está apostando contra a obsessão da indústria de tecnologia por robôs bípedes que imitam humanos. Sua primeira máquina de uso geral combina mãos destras e parecidas com as humanas, com precisão milimétrica, a uma base minimalista com rodas que pode se dobrar até sumir de vista.

É um robô projetado para fazer qualquer coisa que você possa imaginar, de trabalhos em fábricas a tarefas domésticas. Mas sua primeira implementação será em laboratórios.

Em vez de construir outro humanoide que possa intimidar e deixar as pessoas desconfortáveis, o CEO e fundador da empresa, Zhou Xian, e o chefe de design, Daniel Hundt, decidiram que precisavam criar um agente físico gentil, “invisível” e agnóstico em relação ao caso de uso, que sai do caminho ao se dobrar no estilo origami.

Chamado de Eno, o robô com rodas tem um design que evita se parecer com um humano, mas opera com destreza de nível humano. Sempre que é chamado, ele “acorda”, erguendo-se à medida que desdobra sua estrutura dobrável, que segue um princípio de design que eles chamam de “inteligência calma”.

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“Acho que um robô deve parecer subserviente a você, deve ser um objeto que te ajuda, não deve parecer que pode te dominar. E há muitos humanoides por aí que parecem ser mais capazes do que você como humano. Acredito que isso, automaticamente, nos deixa um pouco desconfiados”, diz Hundt.

Assim como ele, Xian acredita que os consumidores comuns rejeitam a ideia de uma pessoa sintética andando pela casa. “Geralmente, as pessoas acham que humanoides muito parecidos com gente são tecnologia bacana, mas a maioria daqueles com quem conversamos diz: ‘não, não consigo me ver tendo um desses na minha casa’”, observa o fundador.

INTELIGÊNCIA CALMA

Toda a presença física do Eno gira em torno do conceito de se dobrar e sumir. Em vez de ficar ociosa no canto da sala como um manequim assustador, a máquina utiliza uma coluna central feita de painéis articulados.

Quando inativa, essa torre segmentada se recolhe por meio de uma série de movimentos, reduzindo a unidade inteira ao volume de uma mala de viagem.

Seguindo o mesmo princípio de inteligência calma, o objetivo da equipe era projetar um objeto que, esteticamente, parecesse um móvel de luxo e não um clone humano.

Encontrar esse equilíbrio exato levou mais de 50 iterações de design, aponta Hundt. O design geométrico inicial do Eno apresentava um esquema de cores verdes que realmente não agradou.

O projeto finalmente funcionou em um momento de virada, quando eles tiraram a cor completamente e adicionaram uma tela de interface cognitiva, que é um recurso opcional nos robôs de produção real que estão fabricando na China.

“Quando olhei para ele novamente, comecei a imaginar essa versão branca que é pura e não tenta chamar a sua atenção”, relembra Xian. “E então tivemos a ideia de desenvolver uma versão com tela, para colocar uma tela gigante na parte superior. De repente, tudo fez sentido.”

Leia mais: Design e inclusão: por que os robôs são sempre tão brancos?

Essa praticidade explica por que a máquina não tem rosto. O topo do corpo do robô precisa seguir a estrutura humana para permitir seu principal requisito funcional, a destreza dos braços e mãos.

Mas a equipe não queria forçar a aparência de algo que se parece com um humano. “Robôs não precisam necessariamente de uma cabeça”, diz ele. “Não há cérebro ali. O cérebro vive no chip.”

RODAS, TENDÕES E CÉREBROS

Essa mesma lógica ditou a base da máquina. Os criadores debateram a construção de um humanoide com pernas primeiro, reconhecendo que pernas mecânicas são úteis para subir escadas. Mas as demandas industriais forçaram uma mudança de rumo.

“A parte inferior do corpo é assim principalmente porque, quando conversamos com clientes em potencial, muitos deles querem que seja [com rodas], pois é mais eficiente do ponto de vista do consumo de energia”, aponta Xian.

As rodas maximizam a eficiência energética e a estabilidade operacional em comparação com pernas mecânicas, que precisam ajustar constantemente a postura para manter o robô de pé e estável.

Enquanto a metade inferior rola, o torso superior espelha nossa própria anatomia para manipular ferramentas já construídas para humanos. A máquina tem dois braços equipados com mãos robóticas projetadas para corresponder às mãos humanas em forma e função.

Imagine a mecânica dos seus próprios músculos e tendões. Quando você segura um copo, sua pegada é firme, mas maleável. Se alguém esbarra no seu braço, suas articulações cedem suavemente em vez de travarem rigidamente e quebrarem o copo.

Essa flexibilidade orgânica, segundo a empresa, dá à máquina a capacidade de manipular itens com uma precisão medida em frações de milímetro.

o robô tem um design que evita se parecer com um humano, mas opera com destreza de nível humano.

O intelecto de silício que impulsiona esse hardware é chamado de GENE. A empresa revelou recentemente esse modelo de fundação, que atua como o cérebro central do sistema. Pense em um modelo de fundação como uma biblioteca digital da experiência humana. 

Em vez de escrever linhas de código que dizem à máquina exatamente como girar uma chave inglesa, os cientistas alimentam o computador com centenas de milhares de horas de dados que mostram humanos realizando trabalhos cotidianos.

A máquina absorve esses padrões, basicamente ensinando a si mesma as leis fundamentais do movimento antes mesmo de tentar uma tarefa específica. Como o modelo utiliza dados humanos no treinamento, a máquina se move com uma fluidez natural.

SAINDO DO LABORATÓRIO

Mas a Genesis AI, assim como muitos de seus concorrentes nos Estados Unidos, enfrenta os mesmos desafios de escalabilidade. O primeiro lote de produção consistiu em cerca de dez unidades construídas na China. A empresa planeja transferir o processo de montagem para fora das instalações chinesas até o final do ano. 

Leia mais: Robôs humanoides made in China dão baile nos made in USA

Ainda este ano, a Genesis AI planeja começar implementações direcionadas com clientes. O primeiro alvo é o setor industrial: empresas de logística, laboratórios e linhas de fabricação automotiva que lidam com cabeamentos complexos.

A fase dois vai introduzir a máquina em setores de serviços que exigem interação humana, como hotéis e hospitais. Aplicações domésticas de consumo e tarefas ao ar livre serão a etapa final.


SOBRE O AUTOR

Jesus Diaz fundou o novo Sploid para a Gawker Media depois de sete anos trabalhando no Gizmodo. É diretor criativo, roteirista e produtor da The Magic Sauce e colaborador da Fast Company. 

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